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1. INTRODUÇÃO

3.7 AGENCIAMENTO, DISPOSITIVO E PERFORMATIVIDADE

3.7.1 Dispositivo

A noção de agenciamento remete a outra mais comum na Sociologia: a noção de dispositivo.

Trata-se de uma categoria que foi utilizada por Michel Foucault nos anos 1970, quando o francês buscava compreender a natureza e também as funções estratégicas dos diferentes dispositivos (REVEL, 2005, p. 40). Apesar de usar constantemente a categoria em suas obras, Foucault a definiu com maior precisão somente em uma entrevista que, no Brasil, foi publicada no livro Microfísica do Poder, nessas entrevistas, Foucault apresenta o dispositivo como um conjunto heterogêneo, tratando-se da rede que engloba discursos, mas também instituições, leis e enunciados teóricos; sua função é estratégica podendo ser utilizado para justificar ou mascarar uma prática e que, em certo momento histórico, surgiu como resposta a uma urgência167.

Com essa definição, Foucault enfatiza que o dispositivo se compõe e se inscreve em relações de força e de poder em que o saber tem papel essencial de sustentação:

167“Através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. Em segundo lugar, gostaria de demarcar a natureza da relação que pode existir entre estes elementos heterogêneos. Sendo assim, tal discurso pode aparecer como programa de uma instituição ou, ao contrário, como elemento que permite justificar e mascarar uma prática que permanece muda; pode ainda funcionar como reinterpretação desta prática, dando−lhe acesso a um novo campo de racionalidade. Em suma, entre estes elementos, discursivos ou não, existe um tipo de jogo, ou seja, mudanças de posição, modificações de funções, que também podem ser muito diferentes. Em terceiro lugar, entendo dispositivo como um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência portanto, uma função estratégica dominante.” (FOUCAULT, 1979, p. 244).

Disse que o dispositivo era de natureza essencialmente estratégica, o que supõe que trata- se no caso de uma certa manipulação das relações de força, de uma intervenção racional e organizada nestas relações de força, seja para desenvolvê-las em determinada direção, seja para bloqueá-las, para estabilizá-las, utilizá-las, etc... O dispositivo, portanto, está sempre inscrito em um jogo de poder, estando sempre, no entanto, ligado a uma ou a configurações de saber que dele nascem, mas que igualmente o condicionam. É isto, o dispositivo: estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles. (FOUCAULT, 1979, p. 246).

São exemplos de dispositivos na obra de Foucault: as prisões, o manicômio, a religião, a polícia, o panóptico.

Tratando dessa definição de Foucault, Giorgio Agamben (2005) defende que se trata de um termo técnico presente na obra do autor francês do qual é possível extrair três pontos centrais: é a rede que se estabelece entre elementos heterogêneos (linguísticos e não linguísticos), tem função estratégica e se inscreve em uma relação de poder, é um termo geral que resulta do cruzamento entre saber e poder.

O dispositivo implica um processo de subjetivação que possibilita funcionar como dispositivo de governo, caso contrário, tratar-se-ia de um mero exercício de violência:

Foucault assim mostrou como, em uma sociedade disciplinar, os dispositivos visam através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, a criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua "liberdade" enquanto sujeitos no processo mesmo do seu assujeitamento. O dispositivo é, na realidade, antes de tudo, uma máquina que produz subjetivações, e só enquanto tal é uma máquina de governo. (AGAMBEN, 2005, p. 14-15)

Entre as novas formas de subjetivação que os dispositivos produzem está o homo economicus, produzido pelos dispositivos de mercado (CALLON, 2013, p. 422).

Um exemplo de dispositivo apresentado por Agamben (2005, p. 13) são os telefones celulares que foram capazes de remodelar totalmente gestos e comportamentos dos homens.

Para Beuscart e Peerbaye (2006, p. 8) a instalação progressiva do termo dispositivo nas pesquisas em Ciências Sociais, com significativo

aumento nos últimos anos, deveu-se especialmente pelo lugar que os objetos passaram a ocupar na explicação das relações sociais, o que foi significativamente influenciado pela ANT168. Nesse sentido, o termo

dispositivo é útil para a análise sociológica dos objetos que passam a ser considerados como portadores de agência: “whether they might just help (in a minimalista, instrumental version) or force (in a maximalista, determinista version), devices do things. They articulate actions; they act or they make others act.”169 (CALLON, MUNIESA, MILLO, 2007, p. 2).

Callon (2013, p. 423) reconhece a influência de Foucault sobre seus estudos e enfatiza as contribuições de seu conceito: compreender em um mesmo movimento as ideias de regularidade e inovação (não se passa de um princípio a outro ou de um enunciado a outro sem um desvio em que se mobiliza um conjunto de elementos exteriores à atividade concernente), porém sem recorrer às ideias de estrutura e subsistemas distintos (essas categorias explicam regularidades, mas têm problemas ao explicar as inovações); priorizar a análise detalhada das práticas observáveis e sua vinculação com elementos heterogêneos. Para Callon (2013, p. 423), o dispositivo concilia bem rigidez e flexibilidade: “Le dispositif est suffisamment flexible et variable (reconfigurable) pour expliquer les mécanismes de création, d'innovation, de changement, et

168Beuscart e Peerbaye enfatizam que os estudos sociológicos que tratam dos dispositivos abordam uma multiplicidade de objetos (ferramentas e instrumentos, técnicas de cálculo, indicadores, sistemas de informática, contratos, regras de organização do trabalho, prédios, etc) e se questionam quanto à unidade do conceito frente a essa diversidade. Também apresentam uma dúvida interessante “le « dispositif » serait-il devenu aux sciences sociales contemporaines ce que la « structure » a pu être pour la sociologie des années 1970-80 : un terme du langage commun, impliquant un engagement théorique minimal, qui sert à désigner de façon souple et ouverte ce qui organise l’activité humaine dans différents domaines, tout en laissant à son utilisateur le soin d’apporter des précisions complémentaires et de s’inscrire dans une tradition théorique donnée ?”. Tradução livre: “O ‘dispositivo’ teria se tornado para as ciências sociais contemporâneas o que a ‘estrutura’ pode ser para a sociologia dos anos 1970-1980: um termo da linguagem comum, envolvendo um compromisso teórico mínimo, que serve para designar de forma flexível e aberta o que organiza a atividade humana em diferentes áreas, deixando para o usuário o cuidado de fornecer detalhes adicionais e se inscrever em uma determinada tradição teórica?”.

169Tradução livre: “se eles só podem ajudar (em uma versão minimalista, instrumental) ou forçar (em uma versão maximalista, determinista), os dispositivos fazem coisas. Eles articulam ações; eles agem ou fazem outros agirem”.

rigide pour identifier ce qui est cadré dans ces dynamiques.”170

Apesar dessas considerações, Callon (2013; CALLON, MUNIESA, MILLO, 2007) diz preferir o uso do termo agenciamento do que o termo dispositivo isso porque, para ele, o uso que tem sido feito da categoria dispositivo em Ciências Sociais acabou por desnaturar o sentido devido a duas dificuldades principais.

Primeiramente, de forma implícita o termo dispositivo aceita a distinção entre seres vivos de um lado e de outro o dispositivo. Segundo Callon (2013, p. 424) essa cisão é acentuada pelo papel estratégico que Foucault confere às Ciências Sociais no centro do dispositivo, enquanto que às ciências não humanas se confere papel subsidiário sendo chamadas a emprestar sua força às ciências humanas – essas últimas exerceriam papel insubstituível na subjetivação dos seres humanos. Para Callon (2013, p. 425), o termo agenciamento não dá margem a esse erro, pois trata com simetria humanos e não humanos na fabricação dos dispositivos.

A segunda dificuldade que o termo dispositivo pode ensejar (ainda que não se derive diretamente da definição de Foucault) é dar a entender que as relações entre os elementos heterogêneos que o compõe não são de constituição mútua, mas somente combinatórias (CALLON, 2013, p. 425). No entanto, o que Callon (2013) busca acentuar é a agência considerada em sua capacidade de agir e em sua constituição mútua heterogênea: “L'agencement est ce qui agit. […] l'agencement permet de dépasser l'opposition (notamment introduite par le structuralisme et par le marxisme qualifié de vulgaire) entre expression et contenu, entre formes matérielles et fonctions formalisées.171” (CALLON, 2013, p. 428).

Assim, Callon chegou a utilizar o termo dispositivo para tratar dos mercados, como no texto publicado com Fabian Muniesa (Les marchés

économiques comme dispositifs collectifs de calcul, 2003) ou no livro

coletivo Market Devices (2007). No entanto, em livro de 2013, fez uma longa descrição do campo de pesquisa que se abre a partir do uso do termo agenciamento para tratar dos mercados. Callon (2013) se utiliza da noção de agenciamento para estudar empiricamente a configuração das ações

170Tradução livre: “O dispositivo é suficientemente flexível e variável (reconfigurável) para explicar os mecanismos de criação, de inovação, de mudança, e rígido para identificar o que é enquadrado nessa dinâmica.” 171Tradução livre: “O agenciamento é o que age. [...] o agenciamento permite

ultrapassar a oposição (notadamente introduzida pelo estruturalismo e pelo marxismo vulgar) entre expressão e conteúdo, entre formas materiais e funções formalizadas.”

nos mercados. Dos diferentes usos que Callon faz dos termos dispositivo e agenciamento, concluo que: o dispositivo é material, técnico, sendo uma parte ou componente do agenciamento.

Considero a advertência feita por Callon (CALLON, MUNIESA, MILLO, 2007, p. 10) de que a bifurcação da agência – de um lado se visualiza a pessoa e de outro lado a máquina ou o objeto – precisa ser manipulada com cautela: “Instead of considering distributed agency as the encounter of (already ‘agenced’) persons and devices, it is always possible to consider it as the very result of these compound

agencements.172” (CALLON, MUNIESA, MILLO, 2007, p. 2). Porém,

utilizo da terminologia do dispositivo porque ela remete aos componentes técnicos e não humanos que possibilitam o cálculo no mercado, sem esquecer sua capacidade de agência:

Esses agentes não humanos nada mais são que configurações materiais e discursivas que influenciam tanto na formação de um mercado quanto nas modalidades de cálculo que os agentes performam nele. Assim, esses dispositivos têm capacidade de agência e são agenciamentos, ou seja, agem moldando uma rede de relações e direcionam a lógica de ação dos agentes. (AZAMBUJA, 2011, p. 76-77)

Um dispositivo de mercado pode ser: “From analytical techniques to pricing models, from purchase settings to merchandising tools, from trading protocols to aggregate indicators, the topic of market devices includes a wide array of objects.173” (CALLON, MUNIESA, MILLO,

2007, p. 2)

O dispositivo, quando referenciado nesse trabalho, deve ser entendido com seu aspecto material e técnico, não humano, porém, inserido na noção de agenciamento e dotado de agência. A inserção da ideia de dispositivo no conceito de agenciamento implica considerar também os elementos apontados por Foucault de que o dispositivo tem função estratégica e se inscreve em uma relação de poder, além de ser um termo geral que resulta do cruzamento entre saber e poder.

172Tradução livre: “Ao invés de considerar as agências distribuídas como o encontro de pessoas e dispositivos (já agencidos), é sempre possível considerá- los como o próprio resultado dessas composições de agenciamentos”

173Tradução livre: “De técnicas analíticas a modelos de precificação, de configurações de compra a ferramentas de merchandising, de protocolos de negociação a indicadores agregados, o tema de dispositivos do mercado inclui uma grande variedade de objetos.”