2 DISCURSO E COGNIÇÃO: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
2.1 A PERSPECTIVA COGNITIVA NOS ESTUDOS DA LINGUAGEM
A visão simbólica da cognição, dentro de uma proposta da Ciência Cognitiva, é um termo plural, uma vez que várias áreas do conhecimento como a Linguística, a Neurociência, a Psicologia, a Filosofia, a Antropologia, entre outras, desenvolvem estudos dentro desse campo teórico. Desse modo, cada uma dessas áreas concebe respostas variadas e um pouco distintas à questão do que é cognição, gerando um impacto nas especificidades das áreas, como também refletindo no tipo de pesquisa e no posicionamento que respectivas áreas detém sobre o fenômeno estudado.
Nessa perspectiva, discussões sobre cognição são desenvolvidas desde os filósofos cartesianos, o que resulta na dicotomia proposta por Descartes entre o físico e o mental, e implica em concepções que foram fortemente adotadas na tradição filosófica ocidental propagada até os dias de hoje (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993). Tal dicotomia corpo/mente fundamentou estudos que separam a mente do corpo e entendem a mente como abstrata cuja dimensão é ser pensante, racional, incorpórea, intangível e o corpo como a materialidade física que atua como veículo para contato com o mundo.
Além da dissociação entre corpo e mente, vemos na década de 50 a cognição ser comparada aos processamentos de máquinas computacionais. Desse modo, houve um posicionamento teórico e filosófico que sustentava as dicotomias e outro que, devido aos avanços tecnológicos ocorridos na construção de máquinas computacionais, passou a promover estudos e desenvolver áreas de pesquisa a partir da metáfora MENTE É COMPUTADOR. Nesse contexto, a concepção de cognição humana é intrinsecamente relacionada a um computador, cuja mente resume-se a manipulação de símbolos por regras algorítmicas, visto que “a cognição é um processamento de informações sob a forma de computação simbólica determinada por regras” (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993).
Os autores ainda discutem que os símbolos são físicos e têm valores semânticos, sendo que esse último atributo é descartado pelos comandos computacionais. Computações são operações representacional ou semântica (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993). Desse modo, outra limitação da concepção de cognição, voltada para o processamento de informações, é apresentada, uma vez que um computador digital opera apenas na forma física dos símbolos que ele calcula, e, portanto, não tem acesso ao seu valor semântico. O sentido, portanto, não é levado em consideração, pois não há possibilidade da máquina mapear os contextos e as situações socialmente situadas de cada item lexical. Desse modo, as operações
são semanticamente restritas porque toda distinção semântica relevante para seu programa foi codificada na sintaxe de sua linguagem simbólica pelos programadores.
Em um computador, a correspondência entre sintaxe e semântica impõe limites aos comportamentos engendrados na máquina e desconsideram fatores semânticos, intencionais (crenças, propósitos comunicativos, perspectivas) e pragmático-discursivos (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993). Então, fica evidente que a concepção de cognição a partir da metáfora MENTE É COMPUTADOR é limitada, posto que os computadores fornecem um modelo mecânico de pensamento, o qual consiste em cálculos físicos e simbólicos.
Na mesma perspectiva dicotômica, situam-se os estudos gerativistas que defendem a cognição pelo viés mentalista na qual a linguística deve priorizar os estudos sobre a língua-I (internalizada) e não da língua-E (externalizada). Além dessa dicotomia interno/externo, Chomsky (1968) desenvolve a concepção do conhecimento inato, o qual serve para adquirir qualquer língua natural e relaciona tal conhecimento à Gramática Universal (GU). A questão do inatismo chamou muita atenção para a linguística nos anos 60 e deu notoriedade ao gerativismo. Essa GU é mental, é inata e desarticulada da influência do ambiente no qual o sujeito está inserido.
Ainda sobre os pressupostos mentalistas, destacamos além de Chomsky (1968), os postulados de Jackendoff (1997). De modo geral, o autor dá continuidade a muitos posicionamentos teorizados por Chomsky (1968) e ainda aprofunda algumas questões, traçando um estudo sobre a arquitetura da mente e sua relação com a linguagem. Jackendoff (1997) parte da Gramática Universal (GU) como uma espécie de condição obrigatória para se fazer linguística.
Outra concepção de cognição, numa perspectiva cartesiana e ainda relacionada aos processos mentais como uma forma linear e sequencial, é a de que a mente se organiza em módulos (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993). Jerry Fodor (1983) propõe uma concepção pautada na modularidade representacional da mente que consiste numa visão da sintaxe, semântica e fonologia como módulos específicos isolados responsáveis pela codificação/decodificação das mensagens. Embora a posição fodoriana da modularidade compartilhe da metáfora computacional como interessante para a estrutura e funcionamento da mente humana, tal posicionamento deixa lacunas no tocante do processamento. Sobre essa visão, Jackendoff (1997) afirma que a posição da modularidade da mente fodoriana apresenta falhas ao não explicar, por exemplo, como os módulos encapsulam e processam as informações.
Jackendoff (1994; 1997) sugere que se a linguagem é uma capacidade mental especializada, processada no cérebro e que pode codificar informações numa certa quantidade de formatos representacionais. O autor ainda afirma que a língua é uma realidade psicológica e não física. Isso significa dizer que as dicotomias ainda são presentes, pois, em seus postulados, separa-se mente/corpo e, ainda, afirma que a palavra é uma conversão interna que fazemos com base na gramática internalizada e não pela análise de uma realidade física como tal (JACKENDOFF, 1994; 1997).
Assim, podemos afirmar que a cognição vista pela perspectiva dicotômica e na tentativa de igualar comportamentos computacionais, ligados à atuação linguística, torna-se limitada e insuficiente, pois destaca atividades de processamento e módulos mentais desarticulados de fatores sociais, não permitindo, nessa concepção, a interação dinâmica dos conhecimentos linguísticos com os contextos.
Além dessa perspectiva mentalista e cartesiana, salientamos a concepção conexionista da cognição nos estudos da linguagem. No que se refere à visão conexionista de cognição, embora não tenha conseguido romper totalmente com a visão cartesiana, vemos que tal perspectiva caminha em algumas questões importantes e preenche lacunas apontadas na visão anteriormente citada, ao compreender que a mente não é regida por módulos separados que processa na memória (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993).
Varela (1988, p. 99) afirma que, sob a ótica conexionista, “a cognição será entendida como emergência de estados globais a partir da interação entre componentes simples”. Desse modo, a cognição destaca o cérebro, não a mente. O cérebro é o aparato biológico que interessa ao conexionista entender e simular em redes neuronais artificiais, o modo como acontece as extensas interconexões, de forma distribuída e dinâmica.
Com um olhar mais atento ao cérebro, esse modelo de redes ou sociedades neurais, configura-se como um modelo da arquitetura cognitiva que contém detalhes neurológicos. Apresenta com detalhes a cooperação das conexões cerebrais local, global e, ainda, destaca o funcionamento dentro dos subsistemas do cérebro nas conexões entre esses subsistemas. O cérebro é observado e analisado em suas divisões e subseções, dependendo dos tipos de células e áreas, como o tálamo, o hipocampo, o giro cortical, etc., no entanto, o foco é nas conexões que ele pode fazer dinamicamente, fazendo emergir estados globais a partir das interações de componentes simples (nodos/neurônios), (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993).
Nessa direção, os autores Varela, Thompson e Rosch (1993) afirmam que a abordagem conexionista se distancia da perspectiva mentalista da cognição e compreende o
cérebro como um órgão moldado pelas experiências externas as quais transformam e interferem no funcionamento cognitivo. Portanto, a cognição na perspectiva conexionista preocupa-se com o funcionamento do cérebro na emergência dos mais variados tipos de comportamentos cognitivos, inclusive os linguísticos (VARELA, 1988) e se contrapõe a uma concepção de cognição que é vista como uma espécie de máquina mecânica e lógica cujo funcionamento é sob a ótica formal e localizacionista.
Ademais, há a concepção da cognição corporificada. Essa visão apresenta outro viés teórico, o qual é adotado neste estudo, a visão da cognição corporificada (embodied). Essa perspectiva de cognição é fortemente adotada por uma vertente da Linguística Cognitiva, a partir dos anos 80, que entende a interação dinâmica entre cérebro, mente, corpo, mundo, biológico, social e defende que a linguagem é um sistema simbólico de grande plasticidade com o qual podemos dizer criativamente o mundo (MARCUSCHI, 2007; 2008).
Vale ressaltar que essa perspectiva de cognição se distancia completamente das teses cartesianas e do modo de se compartimentalizar o tratamento dos aspectos cognitivos e das atividades que constroem conhecimento e atuam na conceptualização do mundo. Para Varela, Thompson e Rosch (1993, p. 180), “a cognição não é simplesmente uma questão de representação, ela depende de nossas capacidades incorporadas de ação”. Sob essa ótica, a cognição é, portanto, ação na interação, uma vez que não se trata meramente em observar processamentos e partes articuladas do aparato biológico do cérebro e do corpo e tampouco um mero dispositivo que é guiado por manipulações e regras simbólicas para ter uma linguagem. A cognição corporificada/encarnada5, portanto, decorre das possibilidades neurobiológicas dos organismos em interação com contextos físicos e socioculturais (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993).
Nessa perspectiva, apesar da estrutura corpórea limitar e direcionar a nossa atuação no mundo, a cognição relaciona a atuação do corpo físico sobre seu ambiente, possibilitando uma construção e uma conceptualização sobre as coisas do mundo. Desse modo, “o fazer emergir um significado, o agir cognitivamente é visto como resultado de ações e percepções de um agente situado” em que “as pessoas e o ambiente e o ambiente são vistos como partes de um todo mutuamente construído” (PELOSI, 2014, p.18). O tratamento da cognição age como uma rede social, reconhecendo a dimensão material da experiência e impelem-nos, no mesmo movimento, a abandonar dicotomias cartesianas fundadoras da Razão no Ocidente (SALOMÃO, 2017).
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Por mente encarnada/corporificada, compreendemos que é a interação dinâmica – e não pareamentos estáticos – entre corpo e mente que será discutida em toda a tese.
A noção de cognição corporificada está ligada à experiência corpórea, cultural e histórica, bem como está na base de nossos sistemas conceptuais e linguísticos para compreendermos e agirmos no mundo. Nessa perspectiva, a noção de cérebro social, postulada por Ehrenberg (2009), é importante para este estudo, pois caracteriza uma integração funcional entre os fatores biológicos e os fatores externos/sociais, uma vez que ambos influenciam não só no desenvolvimento e funcionamento cognitivo, mas nos processos pelos quais interpretamos e interagimos com as coisas do mundo, seja pelos conhecimentos compartilhados de modo intersubjetivo ou perspectivais, seja pelos sentimentos de reconhecimento do outro como um co-específico, seja na compreensão da sociabilidade humana (TOMASELLO, 2003; MORATO 2013; EHRENBERG, 2009).
Assim, a noção de cognição corporificada (embodied) – além de remeter ao sistema conceptual do indivíduo e à hipótese da cognição corporificada (LAKOFF; JOHNSON, 1999) e da hipótese do cérebro social de Ehrenberg (2009) – sustenta a ideia de que a cognição depende do sistema sensório-motor do indivíduo, o qual deriva um sistema conceptual que o mantém em contato com o mundo e o compreende a partir de sua forma/experiência corpórea (LAKOFF; JOHNSON, 1999). Essa relação entre biológico e social, portanto, se tornou um assunto relevante aos estudos e aos aspectos cognitivos, pois existe uma relação entre os fatores sociais e os fatores biológicos individuais na produção de significação e nas produções discursivas para conceptualizar e construir versões de mundo.
Portanto, a noção de uma mente encarnada/uma cognição corporificada consegue relacionar os aspectos biológico, social, corpo, mente, interno, externo, antes vistos como dicotômicos, e suprir lacunas deixadas pela perspectiva cartesiana. Ao propor uma concepção de cognição como fenômeno social situado (KOCH; CUNHA-LIMA, 2004), próximo tópico a ser discutido, apresentaremos uma perspectiva que destaca a “nossa forma de conhecer e conceber o mundo é sempre situada e se dá como fruto de inferenciações produzidas em inserções contextuais coletivamente organizadas” (MARCUSCHI, 2007a). Desse modo, a nossa compreensão sobre as coisas do mundo são construções socialmente situadas a partir de atividades cognitivas e discursivas.
2.2 A COGNIÇÃO COMO UM FENÔMENO SOCIAL SITUADO: A ABORDAGEM