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2 DISCURSO E COGNIÇÃO: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

2.3 A INTERFACE COGNITIVA NO ESCOPO DAS ANÁLISES DO DISCURSO

A Análise Crítica do Discurso (ACD) não critica outras abordagens teóricas ou metodológicas da análise do discurso, mas não concorda, em muitos aspectos, com a maneira pela qual as relações sociais são constituídas por meio do discurso. Conforme van Dijk (2001, p. 352), “ACD oferece uma “perspectiva” diferente de teorização, análise e aplicação em todo o campo”. Isso significa dizer que ao ser um analista crítico do discurso é importante ter consciência do seu papel na sociedade, uma vez que tal campo teórico rejeita a tradição de uma ciência neutra, e entende que o discurso significa e marca uma interação social, expondo as relações de poder dos grupos dominantes. Fairclough, Wodak (1997, p. 271) resumem as principais perspectivas da ACD, vejamos:

aborda problemas sociais que ficam à margem da sociedade;

parte da concepção de que o discurso é histórico e culturalmente situado; A ACD é interpretativa e explicativa, revelando as relações de poder; O discurso é uma forma de ação social;

A ligação entre discurso e sociedade é mediada pela cognição.

Essas perspectivas são gerais e podem ser teórica e analiticamente bastante diversificadas dentro do escopo da ACD. No entanto, apesar de diversificadas, elas correspondem a um quadro teórico que se relacionam e se preocupam em investigar o poder

que o discurso tem na construção e na estabilização das conceptualizações sobre as coisas do mundo e na reprodução das ideologias de grupos ou instituições dominantes.

Conforme van Dijk (2001), se o controle discursivo é a uma das formas de propagação de poder, controlar a mente das pessoas é outra forma fundamental de reproduzir o domínio e a hegemonia. Assim, o “controle da mente” envolve mais do que apenas adquirir crenças sobre o mundo através do discurso e da comunicação, é necessário um aspecto cognitivo para interrelacionar o discurso – não apenas o texto e a fala, mas também toda a situação comunicativa – com a formação de modelos mentais e as representações sociais (VAN DIJK, 2012).

Tal reinvindicação cognitiva dentro das análises de discurso ocorre devido a dificuldade de construir uma teoria social cognitiva, pois se trata de um projeto que, além de relacionar uma complexidade de teorias, que parte, muitas vezes, de campos epistêmicos distintos: cognição e discurso, incorpora aspectos sociais e culturais à compreensão que se tem das atividades discursivas e cognitivas que acontecem na sociedade, e não exclusivamente nos indivíduos (FALCONE, 2008). Apesar de toda dificuldade e complexidade, o pesquisador Teun A. van Dijk reivindica e propõe um projeto cognitivo para as análises do discurso e situa seus estudos no escopo teórico da Análise Crítica do Discurso.

É por considerar a dimensão cognitiva nas práticas discursivas que van Dijk (2000; 2006) propõe uma abordagem sociocognitiva na Análise Crítica do Discurso (ACD), apresentando a tríade: discurso, cognição e sociedade. Conforme essa proposta, a cognição atua na interface do discurso e da sociedade, sustentando estruturas de poder e também reproduzindo ideologias de dominação. Com essa proposta, a preocupação do autor não é criar mais uma análise do discurso, pelo contrário, é ampliar o quadro teórico da ACD, considerando os aspectos cognitivos, as estruturas de dominação que se dão no tempo e no espaço, historicamente e culturalmente situados, e, ainda, analisar ações que legitimam e naturalizam ideologias de grupos poderosos por meio do discurso (FAIRCLOUGH, 2001; VAN DIJK, 2012).

A Análise Crítica do Discurso apresenta o modo como as práticas textuais- discursivas estão imbrincadas nas estruturas sociopolíticas e como as relações de poder e dominação são naturalizadas na sociedade. De acordo com Fairclough (2001, p. 94), “o discurso como prática ideológica constitui, naturaliza e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder”. Nessa perspectiva, a ACD centraliza sua atenção para revelar aquilo que é/está implícito a fim de aumentar a reflexão de como o discurso pode

contribuir para a dominação de umas pessoas por outras, já que essa reflexão é o primeiro passo para a mudança social (FAIRCLOUGH, 2001).

Nessa perspectiva, van Dijk (2000a, 2006) afirma que para analisar as complexas relações entre prática discursiva e prática social é necessária uma interface sociocognitiva, pois a cognição opera na interface da relação entre discurso e sociedade. Desse modo, desenvolver esse estudo fundamentado nos estudos da perspectiva sociocognitiva é compreender que a linguagem envolve manifestações de capacidades cognitivas gerais e de processamentos da experiência cultural, social e individual que organiza conceptualmente as coisas do mundo e constrói discursivamente conhecimentos sobre os acontecimentos socialmente situados, como por exemplo, o evento. Vejamos a figura 3, a seguir, elucidando a tríade da perspectiva sociocognitiva, a relação constitutiva entre discurso, cognição e sociedade.

Figura 3 - Tríade da perspectiva sociocognitiva proposta por van Dijk (2000).

A partir da figura 3, podemos evidenciar a relação constitutiva entre os três vértices: discurso, cognição e sociedade, sendo que a cognição, graficamente, é a interface entre discurso e sociedade. Conforme van Dijk (2016), uma teoria sociocognitiva para relacionar-se com as estruturas sociais precisa ser representada cognitivamente, uma vez que tais representações mentais afetam a compreensão do discurso. O mesmo princípio vale para a relação inversa: o discurso relaciona-se com a estrutura social a partir de estratégias cognitivas, visto que as representações mentais constroem e afetam a compreensão dos fatos e informações que circulam na sociedade.

Pela proposta de van Dijk (2000) trata-se de uma perspectiva teórica que desconstrói as dicotomias biológico X social, externo X interno, uma vez que desenvolve uma análise discursiva que não estabelece os aspectos sociais como a causa de/para tudo (FALCONE,

2008). Além disso, também desconsidera que a linguagem deve ser vista apenas pelo viés biológico (apesar de precisar do aparato biológico). Nessa perspectiva, os elementos discurso, cognição e sociedade apresentam uma relação constitutiva em que atitudes, ideologias e conhecimentos são repassados discursivamente em contextos sociais.

A reivindicação de assumir a importância do aspecto cognitivo aos estudos discursivos é por compreender que a cognição se configura como o elemento que opera na interface entre discurso e sociedade e não se pode desconsiderar nenhum dos componentes da tríade para não reduzir a análise (VAN DIJK, 2012). Desse modo, a cognição apresenta-se como a interface entre discurso e sociedade, cujos conhecimentos e crenças individuais são construídos socialmente a partir de estratégias cognitivas e discursivas, evidenciando, portanto, a relação entre os vértices e indicando os movimentos discursivos e cognitivos na construção da versão social de mundo.

Assim, podemos compreender que não há uma ligação direta entre discurso e sociedade. O que há é uma relação constitutiva mediada pela cognição. O autor salienta que

essa ligação direta não existe: não há uma influência direta da estrutura social sobre a escrita ou a fala. Antes, estruturas sociais são observadas, interpretadas e representadas por membros sociais, por exemplo, como parte de sua interação ou comunicação cotidiana. E outras práticas sociais das pessoas. É essa subjetiva representação, esses modelos mentais de eventos específicos, esse conhecimento, essas atitudes e ideologias que, no fim, influenciam os discursos e outras práticas sociais das pessoas. Em outras palavras, a cognição pessoal e social sempre medeia a sociedade ou as situações sociais e o discurso (VAN DIJK,2012, p. 26).

Nessa perspectiva, a cognição opera como a interface entre a sociedade e o discurso e, também, é relevante destacar a relação constitutiva entre discurso, cognição e sociedade, em que os elementos são interdependentes, pois do mesmo modo que necessitamos de “uma interface cognitiva para descrever e explicar várias propriedades do discurso, também precisamos de uma base social, tanto para a interação cognitiva quanto discursiva” (VAN DIJK, 2016, p. 17).

Desse modo, as práticas discursivas (a partir do gênero textual, da seleção do léxico, da organização textual-discursiva e da forma de combinações de palavras durante a produção do texto) organizam as estruturas cognitivas (a partir de frames, metáforas, mesclagens conceptuais, modelos mentais, integração de domínios cognitivos, contexto) e (re)produzem conhecimentos e crenças que são compartilhados em contextos sociais. Tais escolhas lexicais e as estratégias cognitivas conceptualizam a realidade, constroem os modos de organização do mundo e, ainda, atuam na (re)produção de ideologias de discursos.

Nessa configuração, o discurso está relacionado aos elementos construídos socialmente, em contextos situados, cognitivamente elaborados, cujas estruturas semânticas e pragmáticas subjacentes à produção e compreensão do discurso são relacionados por uma interface cognitiva (VAN DIJK, 2016). De acordo com van Dijk (2000; 2006; 2016), é a partir da relação constitutiva da tríade discurso-cognição-sociedade que entendemos as práticas sociais como construções discursivas, históricas e socialmente situadas, em uma perspectiva dinâmica. Desse modo, as operações cognitivas e as atividades discursivas orientam ideologicamente a compreensão sobre o evento, sendo que tal orientação atua na conceptualização da realidade e na construção de conhecimentos sobre o evento.

No caso deste estudo, os discursos que circulam no discurso jornalístico operam no processo de estabilizar uma conceptualização do evento como ‘a realidade’, conceptualizando esse evento como impeachment e os discursos que conceptualizam o evento como golpe são construídos e colocados à margem dessa realidade e deslegitimados pela mídia. Portanto, diante desse cenário, podemos compreender a complexidade, os desafios e a multiplicidade de conhecimentos e crenças que caracterizam e constituem a construção discursiva e cognitiva da realidade.

Para visualizarmos a atuação da interface cognitiva na relação constitutiva da tríade será necessário trazer para esse estudo algumas categorias da Linguística Cognitiva (LC), pois conforme Dirven (2007), a Linguística Cognitiva contem um aparato teórico-metodológico relevante para uma avaliação crítica das ideologias. Desse modo, compreendemos que a articulação teórico-metodológica da ACD e LC oportuniza um aprofundamento analítico para melhor discutirmos a interface cognitiva entre o discurso e sociedade, conforme veremos no próximo tópico.