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4 DISCURSO E CONCEPTUALIZAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO EVENTO

4.3 OS PROCESSOS DE CONCEPTUALIZAÇÃO E O SENTIDO SITUADO NO

Se o significado é conceptualização, então está relacionado à experiência humana, à interação linguística e sociocognitiva entre mundo físico e os contextos socioculturais. Conforme Langacker (1997; 2008), Lakoff (1987), Lakoff e Johnson, (1999), Talmy (2000), conceptualizamos, verbalizamos, focalizamos a nossa perspectiva e construímos significados sobre as coisas do mundo a partir das mentes corporificadas/encarnadas e em constante interação com as nossas realidades e os sujeitos sociocognitivos.

Não existe cognição desarticulada de um contexto, pois uma perspectiva conceptualista do significado também envolve as dimensões discursivas e pragmáticas da linguagem em que a conceptualização se constrói na interação das situações socialmente situadas. Conforme Silva (2006), as expressões linguísticas se constituem por abstração e convencionalização a partir de eventos de uso. Desse modo, compreendemos que as habilidades cognitivas desenvolvidas individualmente, compartilhadas culturalmente e socialmente, organizam conhecimentos que ajudam os seres humanos a atuar no mundo a partir de conceptualizações e a construir discursivamente versões sobre as coisas do mundo.

A noção de cognição corporificada (embodied) sustenta a ideia de que a cognição depende do sistema sensório-motor do indivíduo, do qual deriva um sistema conceptual que o mantém em contato com o mundo e o compreende a partir de sua forma/experiência corpórea (LAKOFF; JOHNSON, 1999). Assim, a noção de cognição corporificada está ligada à experiência corpórea, cultural e histórica, bem como está na base de nossos sistemas conceptuais e linguísticos para compreendermos e atuarmos no mundo por meio da linguagem.

Desse modo, a estabilização de sentidos e a relação social se tornaram assuntos relevantes aos estudos linguísticos e cognitivos, pois existe uma relação entre os fatores sociais e os fatores biológicos individuais nas conceptualizações e na produção de significação, uma vez que há uma interação entre os aspectos individuais, cognitivos, universais e os aspectos intersubjetivos e sócio-culturais. Assim, uma expressão linguística é

significativa na medida em que pode acionar um conjunto de conhecimentos, seja a partir dos domínios cognitivos propostos por Langacker (1987), dos modelos cognitivos idealizados propostos por Lakoff (1987), dos modelos mentais de van Dijk (2012) ou dos espaços mentais de Fauconnier (1985).

Esses conjuntos de conhecimentos organizam o nosso conhecimento sobre as coisas do mundo e ainda funcionam, em princípio, como um domínio que armazena as experiências. Conforme Silva (2006a, p. 11-12), “estes domínios de experiência envolvem o conhecimento geral do mundo e o conhecimento contextual e, nesta última vertente, a apreensão completa do contexto, incluindo as dimensões discursivas e pragmáticas”. Desse modo, a conceptualização que construímos por meio da/e na língua não é independente da mente e do contexto; pelo contrário, ela envolve a experiência corpórea, cognitiva e os aspectos culturais e intersubjetivos.

Assim, as conceptualizações são produções cognitivo-discursivas que se dão em níveis mentais/individuais e estabelecem relações com os níveis sociais, entendendo a mente como uma construção intersubjetiva e social que elabora sentidos discursivos, a partir de diferentes dispositivos e processos. Ainda sobre a construção da conceptualização em uma situação socialmente situada, Fauconnier e Turner (1996, p.113) asseveram que os pacotes conceptuais são construídos como pensamos e falamos, para fins de compreensão. Eles estão interligados e podem ser modificados conforme o pensamento e o desdobramento do discurso. Neste sentido, a linguagem não reflete diretamente o mundo nem a realidade existe por si mesma, mas se constrói pelas ações de conceptualização.

Conforme Fauconnier (1994, p. 18), “a linguagem não realiza, ela mesma, a construção cognitiva – ela ‘apenas’ nos dá pistas mínimas, mas suficientes, para encontrar domínios e princípios apropriados para a construção em uma dada situação”. A partir dessa concepção de linguagem, compreendemos que a conceptualização de sentidos de um item lexical, de uma sentença ou de um texto não se estabelece apenas pela materialidade linguística, mas sim pelos aspectos sociais e cognitivos, os quais envolvem conceptualizações, conhecimentos de mundo e objetos de discurso.

As conceptualizações sobre o evento indicam que “a linguagem não ‘representa’ o significado; ela remete à construção do significado em contextos particulares contendo modelos culturais particulares e recursos cognitivos” (FAUCONNIER, 2003, p. 2). De acordo com Lakoff, ([1987]1990, p. 292), “o significado não é uma coisa; ele envolve aquilo que é significativo para nós. Nada é significativo em si. Significação deriva da experiência de funcionar como um ser de certo tipo em um ambiente de certo tipo” (LAKOFF, [1987]1990,

p. 292). Nessas perspectivas, os significados são conceptualizações construídas pelas expressões linguísticas e estão relacionadas ao seu contexto de uso, isto é, o modo como percebemos, compreendemos, categorizamos e conceptualizamos resulta de atividades contínuas e situadas, que se dão na interação social.

Vamos observar a construção da conceptualização do evento impeachment/golpe no discurso jornalístico. Os textos, a seguir, foram retirados do jornal O Globo no mês de abril de 2016.

Diante das capas dessas edições, vemos que o discurso jornalístico conceptualiza o evento sendo impeachment, uma vez que enfatiza, várias vezes, o item lexical impeachment nas práticas sociais e destaca, no uso, apenas uma perspectiva sobre o evento. Nessa direção, a conceptualização construída pelo discurso jornalístico, a princípio e a partir da circulação dos textos, tenta estabilizar a conceptualização do evento sendo impeachment em situações comunicativas socialmente situadas e em interações sociais.

O discurso jornalístico além de validar apenas uma conceptualização sobre o evento, imprimindo-a como a conceptualização d‘a realidade’, enfatiza a conceptualização que condiz com as perspectivas e posicionamentos dos grupos hegemônicos. O evento poderia ter outras possibilidades de conceptualização, entretanto, a organização discursiva realizada pela mídia satura as possibilidades de produção de sentido a nível sintático, proporcionando um efeito de ‘versão única’, ou ‘versão da realidade’, como é o caso desse evento.

A quantidade de vezes e o modo como essa conceptualização é construída e veiculada pelo discurso jornalístico estabiliza a conceptualização do evento como impeachment, como “a realidade” na sociedade brasileira, isto é, como um objeto que não é passível de interpretação, pois “a realidade” já está dita. Contudo, vemos que todo objeto da realidade é exposto a uma interpretação intersubjetiva e é construído a partir de uma perspectivação, ou seja, esse evento pode apresentar várias possibilidades de sentidos a depender da experiência sócio-histórica-cultural e política.

Assim, a conceptualização desse evento passa por um complexo processo de construção de sentido, ideologicamente orientado, o qual constrói discursivamente e cognitivamente um contexto político e histórico do Brasil no discurso jornalístico. Desse modo, observar os desdobramentos e a estabilização de sentidos do evento no discurso jornalístico como um processo cognitivo e discursivo é refletir, sob uma perspectiva contínua e complexa, como as conceptualizações da realidade diluem, ocultam e sobrepõe outras possibilidades de sentido.

Podemos dizer que a construção das conceptualizações do evento pode ser vista a partir de “camadas de sentido”, em que ao destacar o evento apenas com a conceptualização de impeachment, tal conceptualização tem sua camada revelada e exposta na superfície, enquanto a camada da conceptualização de golpe está imersa, escondida. Vale salientar que nesse movimento de destacar e tentar ocultar, não se trata de escolher uma ou outra conceptualização. É mostrar que as duas existem, porém a conceptualização do evento sendo impeachment é destacada no discurso da mídia tradicional. Vejamos a figura 7que apresenta o esquema de camadas de sentido:

Figura 7 - Camadas de sentidos na construção das conceptualização do evento.

A partir dessa figura, queremos evidenciar que as conceptualizações não se excluem, mas formam camadas de sentidos que são estabilizadas no discurso jornalístico por meio de três movimentos discursivos distintos:

1. Ao construir a conceptualização do evento sendo impeachment, o discurso jornalístico

aciona uma memória sobre acontecimentos ocorridos na história política do Brasil, como é o caso dos processos de impeachment que marcaram a história do país;

2. A conceptualização do evento sendo impeachment envolve aspectos das esferas

política e jurídica. No entanto, no discurso jornalístico, o impeachment ganha maior relevância na esfera jurídica para garantir a construção da “legalidade Constitucional” e atuar na conceptualização do evento como impeachment. Isto é, o discurso jurídico assegura a conceptualização do impeachment, uma vez que o processo segue os trâmites da Constituição, enquanto a conceptualização do golpe, portanto, circula pela negação junto desse discurso dominante do domínio jurídico.

3. Ao analisarmos a conceptualização do evento como golpe, outro acontecimento que

marcou a história política do país, o golpe de 1964, os jornais apresentam discursos que desarticulam esse evento de 2016 ao golpe de 1964, enfatizando as diferenças entre os dois eventos e, ainda, atribuindo aspectos negativos ao governo de Dilma Rousseff.

Em conformidade com essas reflexões, vamos aprofundar esses três movimentos na construção da conceptualização do evento. No que se refere ao primeiro movimento, o discurso jornalístico retoma a história do impeachment e as tentativas de impeachment no país. Vejamos a história e o rito do impeachment postulados pelo jornal o Globo no dia 14/12/2015.

Figura 8 - Jornal O Globo, 14/12/2015.

Nessa retrospectiva elaborada pelo jornal O Globo, o evento de 2016 continua sendo conceptualizado de impeachment e não apresenta a conceptualização de golpe. O jornal apresenta uma trajetória histórica que perpassa a origem do impeachment na Inglaterra até a entrada do processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2015. O jornal ainda destaca que, no Brasil, houve duas tentativas de impeachment e dois processos que conseguiram destituir os presidentes. No governo do presidente Getúlio Vargas foi iniciada uma ação de impeachment, mas o processo foi rejeitado na Câmara Federal por 136 votos contra 35, e 40 abstenções.

Em 1992, várias denúncias de corrupção resultaram na abertura do processo do impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. A Câmara autorizou o processo por

441 votos a 38. Em dezembro, Collor renunciou, porém, foi condenado pelo Senado por 76 votos a 3. No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso também houve pedidos de

impeachment, no entanto, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), mandou todos

para o arquivo. O primeiro pedido de impeachment havia sido formulado pelo deputado Milton Temer (PT). Quando o requerimento foi arquivado, a oposição recorreu ao plenário, mas o governo conseguiu a reprovação do pedido com 342 votos a 100. Em 2016, a presidenta Dilma Rousseff é afastada da presidência do Brasil.

No dia 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados aprovou o andamento do processo de impeachment, 367 deputados votaram a favor e 137 votaram contra. Enviado para o Senado e após três meses de tramitação do processo iniciado, com a votação definitiva no plenário no dia 31 de agosto de 2016, a presidenta Dilma Rousseff perdeu o cargo de Presidente da República por 61 votos a favor do impeachment e 20 votos contra.

O discurso jornalístico controla a circulação e a conceptualização do evento sendo impeachment, por meio da comparação entre outros processos anteriores e das reconstruções sociais e políticas do Brasil. Nessa perspectiva, vemos que, ao controlar a circulação dos discursos e tentar estabilizar, de modo enfático, a conceptualização de impeachment, o discurso jornalístico não torna possível a conceptualização do evento como golpe, pois tal conceptualização circula à margem da conceptualização de impeachment.

No que se refere ao segundo ponto, vamos analisar a construção do evento a partir da negação da conceptualização do golpe e o modo como o discurso jornalístico organiza as estruturas textuais discursivas do discurso jurídico para assegurar a construção da “legalidade Constitucional” e atuar na conceptualização do evento como impeachment. Vejamos, a seguir, a negação da conceptualização de golpe:

Quadro 4 - Estruturas discursivas sobre a negação do golpe.

CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS SOBRE A NEGAÇÃO DO GOLPE

Os ministros Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Celso de Mello já se posicionaram publicamente refutando que impeachment possa ser reconhecido como um “golpe” (Jornal O Globo, 29/03/2016);

Relator do tema na Corte também defendeu que processo não é golpe, como já fizeram três ministros. (Jornal O Globo, 29/03/2016);

O que o povo brasileiro deseja é decência e firmeza traduzida na transparência e probidade no trato da coisa pública. (Jornal O Globo, 31/08/2016);

Cunha, presidente da Casa, nega golpe. (Jornal O Globo, 31/03/2016);

Aos 82 anos, sociólogo e fundador do PT diz que impeachment de Dilma não é golpe, mas aposta que ele não se concretizará. (Jornal O Globo, 03/04/2016);

Não há golpe em curso, diz Temer, em reação a Lula. (Jornal O Globo, 03/04/2016);

Para Cármen Lúcia, impeachment não é golpe se Constituição for respeitada (Jornal Folha de S. Paulo, 23/03/2016);

Assim como não houve golpe contra Collor, não há também contra Dilma. (Jornal O Globo, 17/04/2016);

Imprensa internacional não chama impeachment de golpe. Diário francês Le Monde em seu editorial “Brasil: isto não é um golpe de Estado, afirma que é uma retórica infeliz usar a palavra golpe. (Jornal Folha de S. Paulo, 29/04/2016);

Entre os vários aspectos que poderíamos explicitar nesses trechos, apontamos, por enquanto, a negação da conceptualização do evento sendo golpe na sequência textual- discursiva. Destacamos esse aspecto pela sua relevância e recorrência na construção do sentido dos textos, assim como na própria construção da conceptualização do evento impeachment/golpe. A partir desses trechos, identificamos que a conceptualização de golpe emerge pela negação, isto é, ao tentar evidenciar a conceptualização de impeachment, o discurso jornalístico utiliza a negação para diluir e tentar esvaziar, ocultar a conceptualização do evento sendo golpe. Entretanto, o uso da negação é atestar na/por meio da língua a existência da conceptualização de golpe.

O evento já é trazido como um “não golpe”, pois em todas as ocorrências apresentadas anteriormente, independente da maneira como o evento é categorizado, a construção linguística apresentada pelos jornais é “não é golpe”. Isso é relevante destacar, posto que o que circula sintaticamente são predicados nominais de negação com um sujeito já construído e estabilizado de impeachment. Nesses casos, a própria estrutura linguística acusa

que a conceptualização de impeachment é dizer “da realidade”, “da verdade”, enquanto os dizeres sobre o golpe é uma versão a ser negada.

Ressaltamos que a negação do golpe na sequência textual-discursiva é uma atividade discursiva de destacar a conceptualização de golpe, ou seja, é uma forma de apresentar que as conceptualizações não se excluem ou se anulam, mas coexistem. A negação, nesse estudo, é de extrema relevância não só para a construção da conceptualização do evento, mas para observarmos que a compreensão da realidade estabilizada pelo discurso jornalístico é uma possibilidade interpretativa da realidade. Vejamos, novamente, alguns trechos a seguir:

Quadro 5 - Conceptualização de impeachment e negação do golpe.

CONCEPTUALIZAÇÃO DE IMPEACHMENT E NEGAÇÃO DO GOLPE

1. Os ministros Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Celso de Mello já se posicionaram publicamente refutando que impeachment possa ser reconhecido como um

“golpe”

2. Relator do tema na Corte também defendeu que processo não é golpe, como já fizeram três ministros.

3. Para Cármen Lúcia, impeachment não é golpe se Constituição for respeitada.

4. Imprensa internacional não chama impeachment de golpe.

Apesar de vermos a coexistência das duas conceptualizações, impeachment e golpe, verificamos, mais uma vez, que a camada da conceptualização sendo impeachment se sobressai. Notemos nos exemplos acima que, antes da negação, o discurso já traz o evento categorizado por impeachment/processo e em seguida é que aparece a negação. Essa estrutura e regularidade textual-discursiva aponta para o fato de que a conceptualização de golpe circula na sociedade como interpretação da realidade e a conceptualização de impeachment circula como “a realidade”.

No caso da conceptualização do impeachment, há um elemento adicional, que é a negação da conceptualização do golpe asseverada pelo Poder Judiciário, como vimos anteriormente nos trechos dos textos. Conforme Pérez-Linan (2016),

o Poder Judiciário, por outro lado, tende a ser menos estratégico no uso da informação do que as fontes internas do governo, porque geram investigações como parte de um processo legal, relativamente público. Porém, está claro que o Poder Judiciário também filtra informações para a imprensa com fins políticos. O caso do juiz Sérgio Moro foi muito claro. A divulgação da ligação interceptada entre Dilma e Lula foi um cálculo estratégico para impedir que Lula se tornasse ministro e que as investigações saíssem das mãos do juiz. Então, é possível dizer que todos os atores, inclusive o setor judicial, utilizam os filtros da imprensa como estratégia política.

Nessa perspectiva, além da negação nessa construção da conceptualização, vemos, também, o modo como o discurso jornalístico destaca a esfera jurídica ao negar a conceptualização do evento como golpe e assegurar a “legalidade Constitucional” nos trâmites do evento. A conceptualização do evento sendo impeachment está associada, na atividade discursiva, aos discursos da esfera política e jurídica, a saber:

pedaladas fiscais – votação na Câmara dos deputados – votação no Senado – votação em plenário – decretos – defesa – acusação – crime de responsabilidade – decisões do

Supremo Tribunal Federal

A partir dessa construção das conceptualizações, compreendemos como as camadas de sentidos são organizadas pelo discurso jornalístico, indicando uma ação discursiva na construção da conceptualização do evento e evidenciando confrontos e movimentos os quais implicam aspectos ideológicos, políticos e a historicidade dos sentidos.

Outro aspecto que é saliente na construção da conceptualização do evento é a desarticulação dos aspectos do golpe de 1964 na conceptualização do evento de 2016.

Para compreendermos a ligação entre o golpe de 64 e a conceptualização de golpe nesse evento é necessário fazermos um resgate histórico e político sobre os golpes de Estado. Durante o século XX, a América Latina foi marcada por golpes de Estado com intervenções militares de todo o tipo (PÉREZ-LINAN, 2007). Com o fim da Guerra Fria, recorrer às Forças Armadas era uma atitude comum para resolver problemas que acarretassem manifestações sociais.

Em decorrência disso, na década de 1960, vários golpes de Estado eclodiram na América Latina e iniciaram ciclos de ditaduras que provocaram transformações políticas, sociais e econômicas. Conforme Pérez-Linan (2007), os golpes na América Latina

retrocederam em algumas regiões, mas os presidentes eleitos foram obrigados a se afastar do poder como resultado de crises recorrentes. Na figura 9, a seguir, vemos alguns países:

Figura 9 - Golpes de Estado na América Latina. Elaboração nossa.

Diante desse grande cenário de golpes na América Latina, destacamos o golpe de 1964 no Brasil. No Brasil, o presidente João Goulart (1961-1964), eleito democraticamente pelo povo através do voto direto, tentou mobilizar apoio de massas ao enfrentar uma crescente crise econômica e crescentes demandas populares. Em março de 1964, Goulart anunciou um programa de governo que acarretaria mudanças no âmbito econômico e social do país e, ainda, afetaria diretamente os grupos hegemônicos do Brasil, reforma agrária, nacionalização de refinarias de petróleo, legalização do Partido Comunista e mudança constitucional (PÉREZ-LINAN, 2007). Essas medidas foram vistas como uma ameaça ao Brasil.

Em abril, as forças armadas e os militares solicitaram poderes extraordinários para controlar essas atividades denominadas comunistas, mas o Congresso recusou. Em resposta à

recusa, as forças armadas emitiram o primeiro Ato Institucional (AI), estabelecendo, entre outras coisas, a suspensão dos direitos políticos de mais de 150 líderes e os termos de 44 membros do Congresso - a maioria deles do PTB de Goulart e a eleição indireta do presidente e da autoridade do Ministério das Finanças. O novo Congresso ratificou o general Castello Branco como o novo presidente do Brasil (PÉREZ-LINAN, 2007).

Essa trama acarretou em um novo ciclo na frágil democracia brasileira, culminando em vinte e quatro longos anos de uma ditadura militar, um dos capítulos mais tristes e sombrios da história política e social do Brasil, salienta Toledo (2014). Assim, o golpe civil e militar de 64 foi um movimento que marca a história política do Brasil e revela uma memória de torturas e violências. Para Napolitano (2014), o autoritarismo implantado em 1964, apoiado pela coalizão que reunia liberais e autoritários tinha dois objetivos, (1) afastar as lideranças políticas e sindicais comprometidas com o reformismo trabalhista; e (2) cortar os laços organizativos dos movimentos sociais de base popular, como o movimento operário e camponês. À medida que essa coalizão ditava as regras e os movimentos contestavam, o governo aumentava a repressão e a estrutura autoritária desse regime tornava-se mais violenta e repressora.

Em 2016, em decorrência da destituição da presidenta Dilma Rousseff orquestrada por acordos políticos e sem comprovação de crime de responsabilidade, há também a possibilidade do evento ser conceptualizado de golpe, imprimindo outra compreensão aos fatos, conferindo outra perspectiva ao evento e formando uma camada de sentido. Essa conceptualização passa a existir a partir desse resgate na cognição social. No entanto, esses golpes, ao longo do tempo e da história, vão se transformando e acionando certos contextos e específicas recorrências. Desse modo, o que tenta ser ocultado pela mídia, de algum modo, é relevante e constitui a conceptualização de golpe, na atividade discursiva.

Possenti (2016) afirma que um impeachment pode ser visto como um golpe por outros meios, isto é, pode existir golpes que não utilize de força ou de violência. Nessa perspectiva, a conceptualização de golpe coexiste com a conceptualização de impeachment, já