3 ELEMENTOS PARA UMA ÉTICA DA CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA
3.2 SOBRE O SER E O DEVER: PENSANDO UMA NOVA ÉTICA
3.2.3 A pertença do “bem” ou “valor” ao reino do ser
Jonas compreende a existência de finalidades e objetivos na natureza. Logo, uma vez que a natureza cultiva fins, a natureza cultiva valores (PR, 146) e, “independentemente da forma como ela estabelece suas finalidades e as persegue, alcançá-las constitui um bem e fracassar constitui um mal” (PR, 149).59 Com isso, Jonas defende a inexistência de um distanciamento entre ser e dever ao fundamentar no ser o bem ou valor, visto que, um bem em si, quando existe, já carrega junto de si a exigência de realizar-se (reivindica, em termos abstratos, sua realização), um quer-se a si mesmo como finalidade fundamental (PR, 153), independo do desejo, da necessidade ou da escolha. Ao reconhecer como um bem em si a capacidade de ter finalidade, Jonas toma como axioma ontológico (segundo ele, uma proposição metafísica, pela incapacidade de comprovação) a autojustificação da finalidade como tal: “a superioridade da finalidade sobre a falta de finalidade” (PR, 150).
Os valores são parte e se fundamentam no ser; a axiologia, portanto, é parte da ontologia. Assim, a existência de uma finalidade é um bem em si: trata-se da preferência, já discutida anteriormente, do ser ao não-ser, visto que “em cada finalidade o ser declara-se a favor de si, contra o nada” (PR, 151). A finalidade envolve o ser com algo e, em primeiro lugar, esse envolvimento é consigo próprio.
O valor seguinte, derivado do valor fundamental do Ser como tal, ao acentuar a sua diferenciação em relação ao não-Ser, seria o incremento de finalidades, ou seja, a pletora de fins almejados e, consequentemente, do vem e do mal que daí possam advir, Quanto mais diversificada for a finalidade, maior a diferença; quanto mais intensa, mais enfática a sua afirmação e a sua justificativa. O Ser mostra na finalidade a sua razão de ser. (PR, 151).
As finalidades postas pela natureza na vida orgânica (o que significa a não exigência de o ser vivo estabelecer finalidades) geram uma tensão entre um modo de ser das coisas e a constante possibilidade de extinção, visto que é em detrimento de outras que uma finalidade se realiza. Assim, a finalidade que se perpetua, e com ela o Ser de algo, pode não ser o melhor, mas é um bem visto que se opõe ao não-ser. Trata-se da autoafirmação do Ser: a vida, na individualidade de cada ser existente, manifesta sua escolha pelo ser no constante esforço de negação do não-ser.
59 Sganzerla (2012, p. 124) lembra que “o valor só tem sentido a partir do que é, ou seja, do que existe”. A
teleologia objetiva constitui-se, portanto, um valor. Trata-se de uma proposta onde valor e existência coincidem. Nas palavras de Fonsêca (2009, p. 118), “o não-Ser é preterido, e o Ser é preferido” e, “neste sentido, o ser ocupa a precedência (o ser é superior ao não-ser) em virtude de somente ele protagonizar valores”. Estando o valor fundado na existência do ser, tal existência se converte em uma exigência imanente.
Jonas propõe que o interesse da natureza na vida orgânica não se dá unicamente em função da ampliação da quantidade de formas (espécies), mas também em função da intensidade de fins que, aos poucos, tornam-se subjetivos. Desta forma, todos os seres sensíveis e movidos por alguma forma de impulso possuem uma finalidade em si mesmos, são seu próprio fim, o que não significa, agora sim, uma capacidade de estabelecer fins. Tal capacidade somente se faz presente no homem, devido a sua liberdade, de modo que este pode estabelecer outros fins. Brüseke (2005, p. 13) recorda que, “normalmente chamamos àquele que pode optar por fins ‘livre’. Com a ‘liberdade’ surge a necessidade de discernimento entre várias opções. Para poder decidir, necessitamos critérios ou valores, necessitamos, também, uma ética”. Ao mesmo tempo, a capacidade de estabelecer fins que, para Jonas, é o elemento da liberdade lúcida do homem, deve fazer com que o sim à vida seja incorporado pela vontade humana,60 submetendo o poder humano ao não ao não-ser, ao nada, à ameaça perene, à morte (enquanto possibilidade encarnada no ser).61 Isso traz à reflexão o problema da distinção entre o querer e o dever que,
no caso da construção jonasiana, aponta para a não-prioridade da vontade humana.
O “poder”, como força final e causal, se distribui por todo o reino vivo. [...] Só com o homem o poder se emancipou da totalidade por meio do saber e do arbítrio, podendo se tornar fatal para ela e para si mesmo. O seu poder é o seu destino e torna-se cada vez mais o destino geral. Portanto, no caso do homem, e apenas nesse caso, o dever surge da vontade como autocontrole do seu poder, exercido conscientemente: em primeiro lugar em relação ao seu próprio Ser. [...] Assim, aquilo que liga a vontade ao dever, o poder, é justamente o que desloca a responsabilidade para o centro da moral. (PR, 216-217).
Segundo Jonas, nas situações em que o ser humano tem condições de escolher entre um
melhor e um pior, tem de conceder primazia à opção pelo primeiro destes. Essa escolha, na
maioria das vezes, refere-se ao caminho a ser seguido para alcançar o fim almejado, ou seja, aos meios. Uma escolha de fins só deveria ser empreendida se fosse tomado como ponto de partida um princípio ético que orientasse o ser humano em seus deveres e renúncias, o que exige ter sempre presente o sentido do valor e do bem. Há uma renúncia que precisa ser feita às finalidades não compatíveis com a escolhida que, por sua vez, é tomada como aquela que pode
60 Sganzerla (2012, p. 124) e Alencastro (2007, p. 117) assinalam que a autoconservação da vida, a mais elementar
tarefa teleológica da natureza, era, antes do homem, algo dado; com o homem, aquilo que era impulso assume o estatuto de obrigação. Como completa Comín (2005, p. 22), tal obrigação decorre das possibilidades da forma de vida humana: “que el hombre tiene una capacidad de ser responsable, se infiere un debe ser responsable”.
61 Trata-se de reconhecer um direito próprio da natureza de existir, “um direito presente em sua dignidade, isto é,
embora a natureza não se classifique como um “sujeito de direitos”, pois não há reciprocidade, nela há o direito à dignidade e este direito se concretiza na medida em que se preserva a sua autenticidade” (SGANZERLA, 2012, p. 118-119).
satisfazer determinado interesse ou vontade.62 Nessa perspectiva, Jonas propõe pensar que “aquilo que vale a pena não coincide exatamente com aquilo que vale a pena para mim. Mas aquilo que realmente vale a pena deveria se tornar aquilo que vale a pena para mim; portanto, deveria ser transformado por mim em finalidade” (PR, 155). Considerar que é do merecimento de algo ser perseguido como fim não unicamente por uma vontade individual, mas porque é
aquilo que realmente vale a pena, é considerar esse algo como bom.63 Nesse momento esse algo se torna dever, um bem. O bem precisa sobrepor-se à vontade a fim de ser o fator determinante das escolhas humanas. Ao se fundamentar tal bem no ser e, assim, tornando-o um
fim, tem-se que a vontade não é obrigada a assumi-lo como finalidade (visto que a vontade é
livre), porém, é do dever da vontade assumir tal finalidade.
Jonas fundamenta ontologicamente sua proposta ética, ou seja, “ele deixa o valor ético emanar diretamente da imanência do ser” (BRÜSEKE, 2005, p. 14). No entanto, ao considerar, em nível ontológico, a existência de um bem em si, Jonas recorre, também, à metafísica, recurso que se qualifica pelo fato de o autor também objetivar as gerações futuras. Brüseke ainda considera que esta ambivalência da argumentação jonasiana (ontologia e metafísica) como caminho necessário para o empreendimento do autor: “um código de comportamento (ético) que vale para todos” (2005, p. 14).
A existência de finalidades intrínsecas à natureza evidencia o querer ser, a opção pela vida que perpassa toda a natureza. O humano detém “graças ao poder que o conhecimento lhe proporciona” (PR, 152), um potencial de agente destruidor. A liberdade humana, seu grau de lucidez, permite à humanidade escolher tanto por agir em promoção à vida quanto contra esta. O potencial e a condição humana demandam ação responsável, uma ação que leve em conta a perpetuação da possibilidade de a natureza cumprir com suas finalidades. Trata-se de uma nova forma de relação entre a humanidade e a natureza em geral que traz, como obrigação moral, respeitar e cuidar da vida. Ao mesmo tempo que é apresentada como forma de vida mais evoluída (objeto mais respeitável) é a forma que detém a maior necessidade de garantir a perpetuação da existência (sujeito mais carregado de responsabilidade). Do privilegiado grau da liberdade humana, a exigente responsabilidade pela preservação da vida.
62 Já foi mencionado anteriormente, que a própria natureza exclui finalidades em detrimento da realização de
outras, o que não significa uma tendência ou opção ao não-ser, mas a qualificação do ser.
63 “O que é moralmente bom, Jonas converte em valores intrínsecos que exigem plena realização. O que a
doutrina ética jonasiana sustenta é a valoratividade do ser que, afetado pelo sentimento moral, configura e sustenta o fundamento das ações responsáveis” (HECK, 2011, p. 74).