4 O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE
4.3 RESPONSABILIDADE COMO PRINCÍPIO: DESDOBRAMENTOS
4.3.2 Responsabilidade e política: dever coletivo
Ao iniciar suas considerações sobre o papel da responsabilidade humana na sociedade tecnocientífica contemporânea, Jonas afirma que
Se a esfera do produzir invadiu o espaço do agir essencial, então a moralidade deve invadir a esfera do produzir, da qual ela se mantinha afastada [...], e deve fazê-lo na forma de política pública. Nunca antes a política pública teve de lidar com questões de tal abrangência e que demandassem projeções temporais tão longas. De fato, a natureza modificada do agir humano altera a natureza fundamental da política. (PR, 44).
Chama atenção que ao longo da tradição filosófica, as principais questões envoltas às discussões em perspectiva política eram sobre o melhor modelo de educação, sobre quais fundamentos e princípios deveriam orientar as constituições legais, sobre as melhores formas de organização dos governos e estados. Destaca que não foi preocupação das discussões políticas a forma como o humano deveria comportar-se em relação à natureza (ME, 360). Alheia à discussão política na tradição, essa questão desponta como crucial na contemporaneidade. Ainda que frágil e inconclusa (SÈVE, 2007) a reflexão sobre a dimensão política na teoria jonasiana busca demonstrar a necessidade e relevância desta ao se pensar o futuro.
Não é escopo deste estudo reconstruir a argumentação jonasiana sobre os modelos políticos específicos e a adequação destes a sua proposição.105 Todavia, não convém furtar-se de apontar alguns elementos gerais da dimensão política de sua teoria. Em Memórias (2005), Jonas reconhece que sempre fora uma das aspirações da filosofia “poder incidir politicamente (pues al fin y al cabo la política es la esfera en la que las ideas se llevan a la práctica) y de este modo contribuir al bienestar de los hombres, en la medida en la que este bienestar se asiente en las normas de la convivência” (ME, 357-358). Quando Jonas toma a figura do governante como um modelo paradigmático de seu princípio responsabilidade, aponta para a necessidade de considerar a dimensão política como constitutiva da responsabilidade humana, sobretudo em um contexto que demanda uma ampliação espacial e temporal quanto à consideração da ação humana. Com isso, tanto no nível da conduta individual quanto coletiva expõe-se a exigência de subordinar as vantagens do presente à garantia do futuro.
Não se pode pensar uma política que, mesmo em função do bem comum, considere a dominação da natureza pela técnica como uma alternativa. A subjugação da natureza aliada a modelos de vida hedonistas precisam ser contestados por um modelo político que se funde no princípio responsabilidade. Tais buscas (subjugação e hedonismo), além de propiciarem o estabelecimento de necessidades supérfluas, fomentam o individualismo e a orientação à obtenção de lucros econômicos, favorecendo a solidificação de uma economia irracional, por gerar desperdícios e exploração desmedidos da natureza e consequente desvalorização da vida.
A dimensão política precisa ser considerada para que não se inviabilize a efetivação do princípio responsabilidade, sobretudo por “a maioria dos grandes problemas éticos da moderna civilização tecnológica estão envolvidos com a política pública” (TME, p. 178). Comín é explícito ao afirmar que “la inconveniencia de legislar sobre determinados aspectos que se plantean al sujeto moral no entra en contradicción con la consciencia clara de que una ética para la civilización tecnológica necesita del respaldo institucional, de una respuesta política responsable, para su aplicación práctica” (CPF, Introducción, 29).
Ao demandar coerência não apenas do ato consigo mesmo, mas também com relação às consequências deste, a ausência da dimensão política pode enfraquecer o nexo entre o sujeito e a ação, sendo substituído por um todo apenas presente na imaginação, mas não efetivo na
105 Em O Princípio responsabilidade, Jonas analisa o potencial de contribuição de alguns sistemas econômicos e
políticos (marxismo, economia de livre mercado, comunismo, democracia, capitalismo). “En un punto, empero, mi libro introduce un elemento nuevo en la filosofía política: la tarea de preguntarse cuál de las propuestas ideológicas y de los proyectos programáticos políticos es el mejor para el hombre y para su futuro. En realidad concluí que eso era indiferente y entonces postulé que la cuestión era cuál de ellos ofrecía las mejores opciones para terminar con las nuevas amenazas a las que se enfrenta la sociedad humana: cómo debemos vivir con la naturaleza o cómo la naturaleza puede subsistir a nuestro lado” (ME, 360).
realidade. Assim, a dimensão política possui, para além do eu individual a tarefa de garantir a eficácia real de uma postura tanto individual quanto coletiva em vista da perpetuação de autênticas condições de vida. É pelo fato de a ação política possuir “um intervalo de tempo de ação e de responsabilidade maior do que aquele da ação privada” (PR, 54) que sua contribuição à proposição ética jonasiana se faz tão relevante.
A responsabilidade política se distingue essencialmente por sua potencialidade de lidar com uma dimensão muito mais ampla do que aquela da conduta individual, mesmo que prescinda desta última para sua constituição tanto quantitativa, quanto qualitativa. Isso porque, segundo Jonas, somente será possível uma política que controle e oriente a técnica, se a mesma estiver constituída sob as bases de um princípio ético objetivo, não antropocêntrico, orientado pelo valor central da vida (humana ou não-humana). “Buscando superar o individualismo e o antropocentrismo das éticas tradicionais, Jonas recorre ao princípio da política como o espaço de transformação” (SGANZERLA, 2012, p. 61). É preciso ressaltar que o poder político não deve desvalorizar ou superestimar a técnica, mas conduzi-la segundo seus fins. O princípio responsabilidade da ética jonasiana vê-se demandado enquanto alicerce para a constituição de modelos políticos e econômicos adequados à sociedade tecnocientífica e à perpetuação da vida. Da mesma forma que é insuficiente um modelo político que promove a técnica e a exploração em nome de interesses de minorias, também não condiz com o princípio responsabilidade um modelo político que, mesmo orientado para o bem da maioria (humana) considere a exploração ilimitada como condição aceitável. Um modelo político que pense a exploração, a produção e o consumo atento às advertências e aos perigos decorrentes do desenvolvimento tecnológico. Por isso, para Jonas, “a responsabilidade pode servir como princípio político na medida em que recobra o compromisso de todos com os assuntos comuns, onde se presume um igual valor e um igual respeito entre todos, posto que este emana da própria condição orgânica dos seres humanos” (FORTES, 2014, p. 60-61). O princípio responsabilidade demanda a dimensão política como espaço de estruturação pois a conduta privada não pode dar conta de, sozinha, responder aos desafios da sociedade contemporânea. Nem mesmo pode, sozinha, compreendê-los.
Entretanto, se Jonas enfoca com tal veemência o papel do agir coletivo como espaço de aplicação do princípio responsabilidade, haveria ainda alguma função para o agir individual? Realmente, “as grandes decisões visíveis, para o bem e para o mal, serão tomadas (ou não) no nível político. Mas todos nós podemos preparar, invisivelmente, o solo para elas começando por nós mesmos” (TME, 85). O indivíduo que assume funções de deliberação política como agente público, uma das figuras ilustrativas da concepção jonasiana de responsabilidade, é, antes
de agente público, agente individual. Por lidar com o futuro a ética jonasiana demanda respaldo e complementação desde a dimensão política. É nessa esfera que as decisões sobre o fazer em função do futuro, em função da vida, ganham efetividade prática. Como o próprio autor afirma, “é evidente que o nosso imperativo volta-se muito mais à política pública do que à conduta privada, não sendo esta última a dimensão causal na qual podemos aplicá-lo” (PR, 48).