CAPÍTULO 2: ARCABOUÇO TEÓRICO
2.2 Os três períodos no estudo da motivação
2.2.3 O período processual
2.2.3.1 A pesquisa de Williams e Burden
Adotando uma perspectiva cognitivista, construtivista, sócio-contextualizada e interativa, que enfoca as diferenças motivacionais entre os indivíduos, Williams e Burden (1997) consideram a motivação como um estado de estímulo emocional e cognitivo que leva a uma
decisão consciente de agir e que origina um período de sustentação de esforço intelectual e/ou físico, visando à obtenção de um objetivo ou objetivos previamente estabelecido(s).
Apesar dessa definição focalizar o aspecto cognitivo, mostrando as diferenças pessoais, individuais, os autores também acreditam no papel exercido pelo contexto e situação de aprendizagem. Para eles, “a motivação ocorre como resultado de uma combinação de influências diferentes. Algumas delas são internas, ou seja, elas se originam no interior do aprendiz, como um interesse na atividade ou um desejo de obter sucesso. Outras são externas, como por exemplo, a influência de outras pessoas” (WILLIAMS e BURDEN, 1997, p. 121).
Mesmo havendo essa ênfase nos aspectos cognitivos no estudo da motivação, a teoria de Williams e Burden (op.ci.t) é bastante inovadora e, de certa forma, se assemelha aos modelos processuais mais recentes (e.g. Dörnyei, 2001a), pois se baseia nas noções de tempo e contexto. Essa perspectiva temporal é percebida no modelo desses autores com a divisão da motivação em fases ou estágios, o que nos levou a descrever essa teoria como parte do período processual.
De acordo com Williams e Burden (op.cit.), são três os estágios envolvidos na geração e sustentação da motivação:
1. Razões para o indivíduo se engajar numa determinada atividade, às quais são influenciadas por fatores internos e externos ao indivíduo;
2. Razões que levam o indivíduo a decidir fazer algo, ou seja, o que leva o indivíduo a investir tempo e esforço numa tarefa;
3. Sustentação do esforço ou persistência, necessários para que o indivíduo complete uma tarefa com satisfação (WILLIAMS e BURDEN, op.cit., p. 121).
Os dois primeiros estágios estão ligados ao início da motivação, enquanto o último está relacionado à sustentação da motivação. Entretanto, essas fases não devem ser vistas como lineares: os três estágios devem ser considerados dentro de um contexto social e relacionados entre si, tal como mostramos na figura a seguir:
Figura 3: Modelo interativo da motivação (WILLIAMS e BURDEN, 1997)
Os autores exemplificam as relações entre as três fases desse modelo dizendo que as razões que os indivíduos apresentam para se engajarem numa tarefa podem afetar seu esforço, o que, por sua vez, pode originar outras razões e levarem à ação.
O elemento-chave na teoria de Williams e Burden (1997, p. 137) é o fato de que “a motivação envolve essencialmente escolha a respeito de ações e comportamentos”59. Tal escolha é influenciada por fatores internos, como por exemplo, personalidade e confiança do indivíduo e externos, como a influência de outras pessoas. Esses dois tipos de fatores são, por sua vez, afetados pelas “crenças, sociedade e cultura do mundo que os cerca60” (WILLIAMS e BURDEN, 1997, p. 137), ou seja, pelos fatores do macro-contexto social.
No quadro 5, trazemos os fatores internos e externos considerados por Williams e Burden (1997, p. 138-140), bem como seus sub-componentes:
59
Motivation essentially involves choice about actions or behaviors.
60 The beliefs, the society and the culture of the world surrounding them”.
CONTEXTO SOCIAL DECISÃO RAZÕES SUSTENTAÇÃO DO ESFORÇO
FATORES INTERNOS FATORES EXTERNOS 1. Interesse intrínseco da atividade
§ Estímulo da curiosidade § Grau de desafio
2. Valor da atividade § Relevância pessoal
§ Valor antecipado dos resultados § Valor intrínseco atribuído à atividade 3. Sentimento de controle
§ Posição de causalidade (origem x manipulação)
§ Posição de controle (processo e resultados)
§ Habilidade para estabelecer objetivos apropriados
4. Domínio
§ Sentimentos de competência § Consciência do desenvolvimento de
certas habilidades e domínio de numa área específica
§ Auto-eficácia 5. Auto-conceito
§ Consciência realística dos pontos pessoais fortes e fracos em relação às habilidades exigidas
§ Definições e julgamentos pessoais sobre sucesso e fracasso
§ Preocupação com o mérito § Incapacidades
6. Atitudes
§ em relação à aprendizagem da língua em geral
§ em relação à língua-alvo
§ em relação à comunidade e cultura alvos
7. Outros estados afetivos § Confiança
§ Ansiedade, medo
8. Idade e estágio de desenvolvimento 9. Sexo
1. Influência significativa dos outros § Pais
§ Professores § Colegas
2. A natureza da interação com outras pessoas cuja influência é significativa
§ Experiências de aprendizagem mediadas
§ Natureza e quantidade do feedback § Recompensas
§ Natureza e quantidade de elogio apropriado
§ Punições, sansões
3. O ambiente de aprendizagem § Conforto
§ Recursos
§ Hora do dia, semana, ano § Tamanho da classe e da escola § Crenças e atitudes presentes no grupo
e na escola
4. O contexto mais amplo
§ Relações familiares mais amplas § O sistema educacional local § Interesses conflitantes § Normas culturais
§ Expectativas e atitudes da sociedade
Quadro 5: Fatores internos e externos influenciadores da motivação (WILLIAMS e BURDEN, 1997)
É importante ressaltar que, para Williams e Burden, a motivação é um construto complexo e multi-dimensional. Sendo assim, as influências internas-externas consideradas pelos
autores não devem ser vistas em termos dicotômicos. Os autores advogam a impossibilidade de separação dessas influências e a necessidade de pesquisas que analisem que tipos de influências externas são mais prováveis de estimular os pensamentos e emoções dos indivíduos e de que maneira esses entendem ou internalizam tais pensamentos e emoções para que decidam atingir certos objetivos.
Na presente pesquisa, estamos considerando também a interdependência de diferentes fatores na caracterização da motivação dos alunos. No entanto, como podemos observar na análise dos dados, não adotamos os termos interno e externo, proposto por Williams e Burden (1997). Fazemos distinção entre fatores que chamamos de pessoais, os quais estão ligados ao nível do aprendiz (crenças, auto-conceitos, objetivos e expectativas dos alunos), fatores
metodológicos, ligados ao papel exercido pelos conteúdos e atividades do professor, bem como
sua forma de trabalhar, e físicos, materiais e administrativos da escola, que dizem respeito aos recursos e normas da instituição. Uma vez que professor e alunos se influenciam mutuamente, discordamos do emprego do termo externos, adotado pelos autores, para caracterizar a influência dos professores na motivação dos aprendizes. Apesar dos autores enfatizarem que os fatores internos e externos não são dicotômicos, mas interdependentes, a opção pelo termo externo parece contradizer tal relação.