2 UM OLHAR PANORÂMICO SOBRE A ENERGIA NUCLEAR
2.2 A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS NUCLEARES NO
2.2 A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS NUCLEARES NO BRASIL
Ao longo da segunda metade do século XX, o pensamento sobre a Ciência e a Tecnologia (C&T) refletiu as diversas inflexões provocadas no mundo pelos avanços da produção científica e tecnológica. Nos primeiros 15 anos após a II Guerra Mundial, o pensamento predominante foi inspirado pelo relatório Vannevar Bush (1945) e pela política científica americana, marcado pela produção de conhecimento para a segurança nacional (MACIEL, 2002).
Nesse aspecto, para Maciel (2002), essa filosofia foi da maior importância para o Brasil, e na sua esteira foi construída a base institucional do fomento à ciência no País.
8 Disponível em: <http://nobelprize.org/nobel_prizes/chemistry/laureates/1911/marie‐curie‐lecture.html>.
Acesso em: 22 maio 2013.
9 O Prêmio Nobel de Física de 1903 foi concedido ao casal Curie e a Henri Becquerel.
10 Disponível em: <http://nobelprize.org/nobel_prizes/physics/laureates/1903/pierre‐curie‐lecture.html>.
A partir dessa perspectiva, em 15 de janeiro de 1951 foi criado o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), vinculado à Presidência da República, com a função de estimular a pesquisa em qualquer domínio do conhecimento e de gerir as atividades relativas ao uso da energia nuclear, sendo o fomento de responsabilidade do Fundo Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas.
A mensagem do então Presidente do Brasil, General Eurico Gaspar Dutra, ao Congresso Nacional, justificando a necessidade de criação do CNPq, é um exemplo deste momento, ao reconhecer que:
[...] após a última guerra, tomaram notável e surpreendente incremento, não só por imperativo de defesa nacional senão também por necessidade de promover o bem-estar, os estudos científicos e, de modo particular, os que se relacionam com o domínio da física nuclear. Nesse sentido, estão dedicando esforço diuturno as nações civilizadas [...] que passaram a considerar tais estudos tanto em função dos propósitos de paz mundial como, sobretudo, em razão dos imperativos da própria segurança nacional. (DUTRA apud ANDRADE, 2006, p. 52, grifo nosso)
O caráter estratégico atribuído às pesquisas científicas na área nuclear no Brasil, nesse período, é reforçado pela presença de militares em cargos importantes em instituições de pesquisa e de fomento, como o fato do primeiro presidente do CNPq ter sido um Almirante da Marinha do Brasil.
Para Andrade, durante o período que dirigiu o CNPq, o Almirante Álvaro Alberto pode: [...] misturar ciência e energia nuclear, propugnando que ambas eram o caminho para alcançar o desenvolvimento industrial, tido por ele como a única maneira de garantir a independência econômica e, a partir dela, assegurar a segurança nacional e, consequentemente, a soberania. (ANDRADE, 2006, p.53, grifo nosso)
Dessa forma, podemos observar que no Brasil, e em particular na área nuclear, a ligação entre a pesquisa e o desenvolvimento nacional estava presente sob o ponto de vista estratégico no período pós II Guerra Mundial, apresentando alinhamento com as reflexões de Vannevar Bush (1945).
Maciel destaca que nas décadas de 1960 e 1970 surgem preocupações, sobretudo, no âmbito do pensamento social crítico, com questionamentos sobre a quem serve a ciência e quais são as responsabilidades do cientista, quando são apontados “os potenciais perigos de novas tecnologias que aparecem como ameaça a humanidade em meio à tensão da ‘guerra fria’.” (MACIEL, 2002, p.69).
Essa discussão parece ter tido origem na percepção das possibilidades econômicas e sociais advindas do conhecimento científico-tecnológico que foram responsáveis pela abertura de espaço para:
[...] um laissez-innover (ausência de controle social sobre o progresso técnico-científico), dando início as preocupações e precauções quanto aos impactos dessas atividades, à medida que surgiam evidências sobre o lado perverso dos padrões técnico-científicos em vigor: proliferação de armas nucleares, esgotamento de recursos naturais e impactos ambientais, além do agravamento de tensões sociais. (ALBAGLI, 1996, p.397)
Apesar dessas preocupações, as ações na área nuclear avançaram, e no Brasil, em 1970, existiam alguns grupos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias nucleares em atividade, dentre os quais se destacam os vinculados às universidades (USP, UFRJ, e UFMG), além do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Instituto Militar de Engenharia (IME) e dos institutos subordinados à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) (CAPNB, 1986).
No relatório final da Comissão de Avaliação do Programa Nuclear Brasileiro, também conhecido como “Relatório Vargas”, publicado em 1986, sob a coordenação de José Israel Vargas e Oscar Sala, consta que participavam desses grupos de pesquisa cerca de 600 cientistas e técnicos de nível superior, de formação diversificada, formados em vários centros internacionais (CAPNB, 1986).
Considerando ser este número insuficiente para o desenvolvimento das atividades do programa nuclear, o Governo Federal constituiu um grupo de trabalho formado por cientistas e técnicos do MEC, CNPq, CNEN e Nuclebrás, com a incumbência de formular as bases do Programa de Recursos Humanos para o Setor Nuclear - PRONUCLEAR (CAPNB, 1986).
Esse grupo, além de identificar e quantificar as necessidades de formação e treinamento nas diversas áreas de interesse, também recomendou ênfase na formação de base científica e tecnológica, indispensável para o desenvolvimento autônomo da área nuclear (CAPNB, 1986). As projeções da época foram baseadas na perspectiva de implantação de 8 centrais nucleares e de toda a indústria nuclear, equipamentos e combustível nuclear, até 1990, sendo apresentada uma demanda de 5.580 profissionais de nível médio e 4.335 de nível superior, para o período de 1976 a 1985 (CAPNB, 1986).
Aqui é interessante destacar que entre as décadas de 1950 e 1980 o Brasil empreendeu esforços em pesquisas e no domínio das técnicas nucleares, apresentando avanços significativos
marcados por fatos como a inauguração do reator nuclear de pesquisa IEA-R111 em 1958, a inauguração do reator nuclear de pesquisa TRIGA12 em 1960, início da operação do reator Argonauta13 e criação do Grupo do Tório com o intuito de desenvolver tecnologia de reatores nucleares à tório em 1965, inauguração da planta piloto de Hexafluoreto de Urânio (UF6) em 1973 e início da construção das usinas nucleares Angra I e II em 1972 e 1976 (ANDRADE, 2006). É, também, importante destacar o feito da construção do Reator IPEN/MB-01, o primeiro reator nuclear projetado e construído no Brasil, tendo seu projeto iniciado em 1983 e a entrega para operação ocorrido em novembro de 198814.
Contudo, segundo Maciel (2002, p.71), a análise crítica das Políticas de C&T no Brasil, no último quarto do século XX, aponta para um consenso em torno da constatação de que, por um lado, havia momentos importantes de institucionalização e, por outro, de inconsistências, descontinuidades e incoerências nessas políticas.
A partir do final da década de 70, o acordo nuclear firmado com a Alemanha começa a ter problemas decorrentes das pressões americanas para a não transferência de tecnologia para o enriquecimento de urânio, da formação de consenso de cientistas, intelectuais, empresários e Igreja Católica sobre proposta de redução do ambicioso programa de cooperação Brasil-Alemanha, da percepção negativa gerada pelo acidente de Three Mile Island e de problemas relacionados com a redução da atividade econômica brasileira (ANDRADE, 2006, p.146).
Em 1979, em função da percepção dos militares brasileiros de que o acordo com a Alemanha não garantia a transferência de tecnologia para o enriquecimento de urânio, a Marinha do Brasil elaborou um programa nuclear “paralelo”, com o apoio do IPEN/CNEN-SP15, na época denominado Instituto de Energia Atômica (IEA), tendo como objetivo final o desenvolvimento de um submarino movido à propulsão nuclear e do seu combustível nuclear (ANDRADE, 2006).
11 Localizado no atual Instituto de Pesquisa Energéticas e Nucleares (IPEN), em São Paulo.
12 Localizado no atual Centro de Desenvolvimento de Tecnologias Nucleares (CDTN), em Belo Horizonte.
13 Localizado no Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), no Rio de Janeiro.
14 Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares ‐ IPEN. Sítio Institucional. Disponível em:
<https://www.ipen.br/sitio/?idm=248>. Acesso em: 18 mar. 2014.
15 O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN, é uma unidade de pesquisa subordinada à Comissão
Os esforços para manutenção dessas atividades de pesquisa, mesmo em um momento conturbado da economia, resultaram, em 1987, no anúncio do domínio nacional da tecnologia para enriquecimento do urânio, pelo Presidente José Sarney (ANDRADE, 2006, p. 163).
Após ter sofrido duro golpe com os acidentes de Three Mile Island, em 1979, e de Chernobyl, em 1986, a partir do início do ano 2000 começa a acontecer o renascimento do setor nuclear no Brasil e no mundo. Durante o Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, algumas políticas e planos foram elaborados visando a retomada do Programa Nuclear Brasileiro, no âmbito do Governo Federal.
Um exemplo nessa direção é a publicação da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), elaborada por determinação do Presidente Lula e lançada em 12 de maio de 2008, coordenada pelo Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, tendo por objetivo a promoção da competitividade de longo prazo da economia brasileira, consolidando a confiança na capacidade de crescer, com maior integração dos instrumentos de política existentes, fortalecimento da coordenação entre instituições de governo e aprofundamento da articulação com o setor privado (BRASIL, 2013).
Dentre os programas dessa Política, observa-se a categoria dos Mobilizadores em Áreas Estratégicas, na qual a construção da competitividade está fortemente relacionada à superação de desafios científico-tecnológicos para a inovação, exigindo o compartilhamento de metas entre o setor privado, institutos tecnológicos e comunidade científica.
Na referida categoria está presente o Programa Energia Nuclear, que tem como objetivos a consolidação do país como importante fabricante de combustível nuclear; a participação competitiva, no suprimento de energia elétrica no país; a garantia da competência em todas as etapas de fabricação de equipamentos, no comissionamento de usinas nucleares e na produção de elementos combustíveis; a ampliação da utilização de técnicas nucleares na indústria, agricultura, medicina e meio ambiente; e o desenvolvimento da competência no gerenciamento de rejeitos radioativos (BRASIL, 2013).
Assim, a trajetória histórica da realização de pesquisas científicas, desenvolvimento tecnológico e de utilização da energia nuclear no Brasil, somada a sinalização tanto no PDP (BRASIL, 2013) como no Plano Nacional de Energia 2030, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (BRASIL, 2007), que prevê mesmo após a implantação de Angra III, a
necessidade de cerca de 4 (quatro) usinas nucleares16 para geração de energia elétrica, são indicativos da importância da realização de pesquisas acadêmicas que investiguem e busquem promover a melhor compreensão sobre os processos relacionados com a proteção e segurança nuclear.