4 PARA ENTENDER A DINÂMICA EVOLUTIVA DE UM PLANO DE
4.2 O PROCESSO DE APRENDIZAGEM
4.2.3 Rotinas, Trajetórias Institucionais e Capacidade Absortiva
4.2.3 Rotinas, Trajetórias Institucionais e Capacidade Absortiva
O processo de aprendizagem apresenta características relacionadas à aquisição de competências construídas de forma incremental a partir de experiências baseadas tanto nos sucessos como nas falhas (DOSI, 1991, p. 355).
Contudo, o resultado desse aprendizado, conforme visto na seção anterior, pode ser apresentado a partir do estabelecimento de rotinas que, até certo ponto, reproduzem algum tipo de reforço à inércia, a qual estabelece compromissos com tecnologias existentes, inibindo a criatividade, a flexibilidade e a experimentação (SCHOEMAKER; MARAIS, 1996; QUEIROZ, 2006).
Essa natureza conservativa da aprendizagem acontece, na opinião de Levinthal (1996), em função de que inevitavelmente uma organização tende a desenvolver melhores habilidades em determinados setores da organização, em algumas tecnologias e estratégias do que em outros, dependendo da relação entre experiência e competência. Para este autor, as organizações tendem a se engajar com maior frequência em atividades sob as quais já possuem maior competência.
Essa dinâmica acaba por fazer com que a aprendizagem de indivíduos e organizações sejam direcionadas para a manutenção do foco atual, proporcionado uma acentuação da competência pré-existente, constituindo-se, assim, em uma espécie de “armadilha de competência” (LEVINTHAL, 1996, p. 29). Tal “armadilha” é entendida por Queiroz (2006, p.200), como uma espécie de aprisionamento no conhecimento de velhas competências, capaz de inibir esforços para a aquisição de novas capacidades.
Essa perspectiva é reforçada pela visão de que as organizações de hoje guardam fortes conexões com as de ontem, caracterizando a importância da trajetória institucional, ou path dependence (TIGRE, 2006, p.61).
Levitt e March (1988) acreditam que apesar da rotatividade de pessoas e do passar do tempo, lições e experiências são mantidas e acumuladas em rotinas, que não somente registram
a história, mas moldam o caminho para o futuro da organização, que depende significativamente dos processos pelos quais essas memórias são mantidas e consultadas. O conceito de path dependence, inicialmente proposto por Paul David (1985), está relacionado com a dinâmica de um processo e o resultado para o qual esse converge, ou com a probabilidade de limitação de um processo estocástico considerado.
Legey (1998) esclarece que o path dependence está fundamentado na noção de que o desenvolvimento de bens e serviços atuais guardam uma relação de dependência frente aos conhecimentos acumulados pelas organizações no decorrer do tempo.
Um exemplo clássico desse conceito é ilustrado por David (1985) ao discutir o uso da sequência QWERTY em máquinas de escrever elétricas e, posteriormente, em microcomputadores. O padrão QWERTY foi desenvolvido com o propósito de evitar que datilógrafos, usando máquinas de escrever convencionais, digitassem rápido demais e, consequentemente, provocassem a saída do “carro” dessas máquinas, o que provocaria significante perda de tempo em função da interrupção do processo de datilografia.
Com o surgimento das máquinas elétricas e microcomputadores essas limitações mecânicas foram superadas, mas, apesar disso, em função da capacitação acumulada e histórico de uso desse padrão, os teclados até hoje mantêm a sequência QWERTY, impactando a produtividade dos serviços de escritório (LEGEY, 1998).
Esse exemplo, está alinhado ao pensamento de Tigre (2006, p.62), ao observar que as trajetórias tecnológicas que emergem de um paradigma tecno-econômico raramente são “naturais”, impulsionadas por fatores científicos e técnicos externos. Porém, sofrem grande influência de fatores econômicos e sócio-políticos que contribuem para a determinação da trajetória tecnológica em cada país.
Neste momento, faz-se mister apresentar alguns conceitos de tecnologia adotados na presente pesquisa.
Para Levinthal e March (1982, p.307) tecnologia é qualquer especificação semi-estável do modo pelo qual uma organização lida com seu ambiente, suas funções e prospera. Assim, eles consideram que essa pode ser uma função de produção, uma estrutura normativa ou algum tipo de estrutura constituinte no âmbito das organizações.
A tecnologia, na concepção de Rosemberg (2006), é em si um corpo de conhecimentos a respeito de certas classes de eventos e atividades. Trata-se, segundo ele, de um “...
conhecimento de técnicas, métodos e projetos que funcionam, e que funcionam de maneiras determinadas e com consequências determinadas, mesmo quando não se possa explicar exatamente por quê.” (ROSEMBERG, 2006, p.218).
De forma semelhante, Tigre (2006, p. 72) contribui para essa perspectiva ao definir a tecnologia como o conhecimento sobre técnicas, enquanto estas envolvem aplicações desse conhecimento em produtos, processos e métodos organizacionais.
Cohen e Levinthal (1990), acreditam existir uma relação entre os conceitos de trajetória tecnológica e a capacidade absortiva das organizações. Segundo entendem, a capacidade absortiva está relacionada com o conhecimento acumulado pelas organizações e a influência que esses exercem na adoção de novas ideias e conhecimentos em suas áreas de atuação. Levinthal (1996) ainda sinaliza que essas novas ideias são mais propensas a surgir na periferia das organizações do que nos seus elementos mais centrais, onde o peso do aprendizado passado se faz sentir com maior força.
Na visão de Cohen e Levinthal (1990), uma parte do conhecimento prévio deve estar estritamente relacionado com os novos conhecimentos, de forma a facilitar a sua assimilação, porém, uma outra parte do conhecimento prévio deve ser bastante diversificada, embora ainda relacionada, para permitir a efetiva utilização criativa desse novo conhecimento.
Dessa forma, o conhecimento prévio habilitaria as organizações na assimilação e exploração de novos conhecimentos. Por outro lado, ao acumular capacidade absortiva em um período uma organização estaria apta a acumular conhecimentos de forma mais eficiente em um outro momento.
Portanto, conforme o pensamento de Cohen e Levinthal (1990), por já ter desenvolvido alguma capacidade absortiva em uma determinada área, uma organização passaria a acumular o conhecimento adicional mais facilmente no período subsequente, a fim de explorar qualquer conhecimento externo crítico que venha a se tornar disponível.
Ainda segundo Cohen e Levinthal (1990), a capacidade absortiva diz respeito à habilidade de uma organização em reconhecer a relevância de uma informação externa, assimilando-a com o propósito de aplicar o novo conhecimento adquirido. Essa abordagem, então, acaba por reforçar a necessidade de explorar de forma simultânea novas alternativas fazendo uso efetivo do conhecimento existente.