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4 OFÍCIO DOCENTE: CARACTERÍSTICAS, SENTIDO E

4.4 Atividades docentes

4.4.2 A pesquisa e o produtivismo

no atual contexto de expansão e produtivismo acadêmico. Essa nuance produtivista tem sido responsável por gerar sofrimento e constrangimento, repercutindo na saúde docente (SOUZA

et al, 2017).

O produtivismo acadêmico no Brasil é compreendido como um fenômeno derivado das avaliações dos sistemas de pós-graduação, caracterizado pela excessiva preocupação com a quantidade da produção acadêmica em detrimento da qualidade da produção realizada, o que incorre em prejuízo também à formação acadêmica e às relações interprofissionais, sendo geradora de competitividade laboral, corroendo a noção de solidariedade acadêmica (SGUISSARDI, 2010; PATRUS; DANTAS; SHIGAKI, 2015).

As docentes entrevistadas relatam a criação e participação em grupos de pesquisa, produção de artigos científicos, investimento em qualificação docente, seja em doutorado ou pós-doutorado, editoração de periódicos, orientação e participação em bancas de monografias, dissertações e teses, elaboração de pareceres sobre artigos científicos, viagens de intercâmbio e parcerias com outras instituições, dentre outras ações que compõem o trabalho do professor.

Excerto 17

Autoconfrontação simples (Orquídea)

A pesquisa, eu sempre gostei de pesquisa, e a própria universidade ela incentiva que você realmente faça pesquisa, incentiva que você se qualifique.

Excerto 18

Autoconfrontação simples (Vitória Régia)

E isso me… colocou num patamar de respeito, não necessariamente na Universidade Federal do Ceará, porque aí eu vou entrar nesse detalhe depois, mas um respeito internacional. Eu faço conferências fora do Brasil, né, nos países que eu domino as línguas, o espanhol, o francês, e no inglês eu não domino, mas eu também posso dialogar. Então, isso me faz, me dá essa relação. Então, aqui no Brasil nós somos pouquíssimos pesquisadores nessa área...

A atividade de pesquisa amplia o campo de atuação profissional e concede ao professor reconhecimento profissional para além da sala de aula e da instituição em que ele trabalha. A dinâmica do reconhecimento favorece ao exercício do ofício, contribuindo na construção e adesão à identidade profissional, fortalecendo a dimensão do sentido do trabalho realizado. Além disso, a indissociabilidade do tripé ensino-pesquisa-extensão é coroada nessa atividade:

Excerto 19

Autoconfrontação simples (Vitória Régia)

Eu acho que essa é a grande riqueza. Eu acho que o professor tem que ter uma linha de pesquisa, como eu tenho, que é forte [...] Mas eu acho que também, essa coisa de abrir, para os estudantes, possibilidades, isso pra mim é fantástico. Então assim... é... eu acho que a minha contribuição é muito grande nessa perspectiva, né. Aqui no

Brasil, somos duas grandes, eles dizem, somos duas grandes pesquisadoras nessa área, que sou eu, que comecei primeiro e depois a C.G. que é lá da Ribeirão Preto, da Faculdade de Medicina. Eu acho que a via do projeto de pesquisa ela te dá possibilidades de crescimento e de conhecimento, de avançar o conhecimento, né. [...]

Não é do nada, né, eu acho que a veia da pesquisa... porque a pesquisa é a curiosidade. A pesquisa é a curiosidade, a pesquisa é a incomodação. Então, eu acho que você.... Quando eu falo pesquisa, tô falando de pesquisa, não é só o laboratório, o laboratório fechado. Uma extensão, pra mim, eu considero o resultado de uma pesquisa o resultado dessa extensão, né. Que também a universidade ela é maléfica, ela não respeita a extensão na estrutura que a extensão merece. Tudo o que você faz na extensão, nem tem intuído e é uma pesquisa, mas você tá fazendo uma pesquisa.

A pesquisa é compreendida como via de avanço no conhecimento e atualização da área de estudo, como oportunidade de inserção do aluno nesse processo, possibilitando recursos para sua permanência na universidade, como também contribuindo para a transmissão do ofício da docência através do incentivo à formação acadêmica. Esses são alguns dos méritos sinalizados pelas docentes acerca dessa atividade e sua importância na universidade.

Entretanto, o produtivismo acadêmico é identificado pela docente como prejudicial ao exercício profissional, usado como estratégia de controle do trabalho docente, através das agências de fomento:

Excerto 20

Autoconfrontação simples (Vitória Régia)

E o produtivismo na universidade é a maior desgraça que pode acontecer na universidade, eu acho que se poderia ter um trabalho por ano, né, na universidade, eu acho que isso seria de bom tom. Porque as universidades que se prezam, as grandes universidades são assim. Porque esse produtivismo faz com que muitas pesquisas se repitam, muitos artigos se repitam.

Mas eu gosto de ter os meus trabalhos começando com o meu nome, né. Entendeu? Nem que eu tenha um por ano, eu faço um esforço pra ter mais de um, mas eu não quero, eu não quero ser produtiva só com o trabalho dos meus estudantes de pós-graduação de jeito nenhum. Isso me incomoda.

Na universidade, ela é obrigada por conta da CAPES, né, que é um absurdo isso. O que eu não acho legal é que um professor seja produtivo somente de seus alunos, eu não acho legal isso. Eu não acho legal. Eu gosto de ter.… quando eu digo produção, o aluno tá em primeiro lugar e o professor acompanha. Não, eu quero ter meu nome em primeiro lugar nos meus trabalhos, nos meus trabalhos.

A relação com aluno deve ser pautada no respeito e os lugares ocupados nessa relação precisam ser bem delimitados. A autoria acadêmica e o zelo no usufruto da pesquisa produzida pelo aluno sob orientação do professor são tratados com critério e cuidados éticos. Contudo, o rigor é confrontado com as pressões por produção e com a competitividade entre os docentes gerada por esse produtivismo e a possibilidade de maior número de alunos colaborando nos projetos de pesquisa:

Excerto 21

Autoconfrontação simples (Margarida)

E disse que até a FUNCAP não lançou edital, que diz que ela era quem apoiava as bolsas. As bolsas do CNPq foram só pros PQ’s, até porque quem é PQ é aquele professor que tá em prioridade I. Os mais antigos que

recebem alguma bolsa do CNPq, né[...]. Só tinha um, a V. que era e perdeu [...] Mas é assim, PQ é uma categoria top como se diz, né, prioridade I, então com certeza conseguiram bolsista. E eu fiquei em prioridade II, o que é muito bom porque são quatro prioridades, I, II, III e IV. I é PQ, e II somos nós, mortais (risos) e sobreviventes. Mas assim, eu acho bacana, acho que tudo isso é muito bom. Acho que tem dificuldades, tem, mas a gente convive com essa dificuldade, por isso que eu chamo de desafio, né, porque não adianta a gente… porque eu não gosto de dizer “não acontece isso por conta disso”. Eu… as minhas bolsistas, toda sexta feira, nós temos um grupo de pesquisa também, com a temática de estudo de usuário da informação, né, que funciona dia de sexta feira. Toda sexta feira a gente tem reunião e as bolsistas, eu fico preocupada, “vocês entendem, vocês são voluntárias, mas as exigências permanecem”, porque se não a gente não dá conta. Mas a gente sempre se preocupa com eles, porque o aluno, estudante, precisa da bolsa, né.

Há um ranqueamento docente que incorre em ganhos simbólicos e materiais, através de recursos para a pesquisa, bolsistas, equipamentos e viagens de atualização e intercâmbios. O professor PQ é destaque entre os seus pares em produtividade e pesquisa, tendo sua produção científica avaliada segundo critérios normativos, estabelecidos pelo CNPq (CNPQ, 2019).

A cultura produtivista é destacada pela docente como uma dificuldade do contexto acadêmico, mas também como elemento desafiador de sua prática profissional. O exercício da pesquisa é realizado em condições favoráveis ou desfavoráveis, com incentivo ou sem incentivo, em nome da qualidade da formação acadêmica, do reconhecimento do professor- pesquisador e da sustentabilidade da universidade.