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4 OFÍCIO DOCENTE: CARACTERÍSTICAS, SENTIDO E

4.3 O paradoxo da autonomia como marca do ofício docente

4.3.2 Os debates de ofício

O exercício profissional requer um engajamento com o coletivo e suas regras, contudo também solicita que seja possível desonerar-se desse algo comum em nome da renovação do ofício e da ampliação do poder de agir individual. O retoque dos gestos, bem como a variação nos modos de fazer um trabalho, formam o estilo profissional, uma das instâncias que sustentam o ofício. Nesta tese, a instância do estilo esteve bem demarcada, tanto por conta das especificidades do trabalho docente, dos métodos utilizados na construção dos dados e pela riqueza de experiência partilhada pelas entrevistadas, conforme ilustra o excerto abaixo:

Excerto 8

Autoconfrontação cruzada (Vitória-Régia e Margarida)

V: Então assim, são coisas que eu estou começando, aliás, eu tô continuando a me preocupar um pouco mais com relação a, por exemplo, aos estágios, né. Na lei do estágio, que é uma lei federal... Porque nós temos o estagiário obrigatório, igual tem na Psicologia, e nós temos o estagiário de bolsa, que o aluno tem uma bolsa e não sei o que lá. Então, existe uma incompreensão até por parte da universidade porque é... é complexo, aliás, é irresponsável de você colocar um estagiário onde não tem um profissional, né.

Pesquisadora: Pra respaldar.

V: Pronto. E eu acho que a gente tá... a universidade ela tá cometendo esse...esse erro muito grande. Mas eu fico calada porque quando eu vou falar, e eu gosto de ter muito argumento pra falar, e até agora eu fiquei calada, né. Só que eu não tenho nem reitor, nem presidente, nem ministro da educação, ninguém que me obrigue a assinar um estágio desse. Eu não assino.

Pesquisadora: Perfeito. M: Eu também não assino não.

V: Eu assino o curricular.

Pesquisadora: Porque sabe que vai ter... M: Exatamente. Eu já disse aqui em reunião...

V: Eu... isso tá gerando um conflito muito grande aqui na universidade também, né. Porque eu digo que isso é de responsabilidade da universidade. A universidade que se responsabilize pelos estudantes que estão no mercado como mão de obra barata.

A possibilidade de analisar e criticar uma prática institucional remete à instância impessoal do ofício que garante a estabilidade e a segurança docente enquanto servidor público, o exercício da autonomia enquanto possibilidade de decidir sobre a melhor forma de agir em determinado contexto e o desenvolvimento do pensamento crítico acerca das melhores condições de educação e formação profissional. É digno de nota que as professoras envolvidas nesse diálogo são veteranas e contam com uma vasta história de trabalho para balizar suas decisões e práticas profissionais, o que também faz referência à instância do gênero profissional.

A instância pessoal aqui destacada refere-se ao posicionamento das docentes, que contraria não apenas a instância institucional e legal prevista na lei do estágio, mas também a perspectiva genérica praticada pelo departamento. O entendimento de que o estágio deve ser realizado somente sob a supervisão de um profissional da área e a compreensão de que a demanda por estágio está atrelada ao uso do estudante como mão de obra barata pelas empresas contratantes (e não como lugar de aprendizagem) fomentam nas docentes a necessidade em retocar o gênero e questionar a atividade.

Por conta da adesão do estilo ao gênero, este não opera necessariamente uma criação, mas é capaz de remodelar o gênero, de selecionar outras vias de ação, de proporcionar retoques através da estilização de cada trabalhador. “O estilo pode, portanto, ser definido como uma metamorfose do gênero em curso da ação, uma repetição que vai além da repetição” (CLOT, 2010a, p. 93).

Neste outro trecho é possível identificar a autonomia em sua nuance de liberdade de criação de novos caminhos e conhecimentos, o que também pode ser compreendido como um componente do estilo profissional:

Excerto 9

Autoconfrontação simples (Vitória-Régia)

[...] E aí, eu comecei, eu fui pra Faculdade de Medicina, né, e um pró-reitor daqui ele era da Medicina. Aí, um dia, veio fazer umas palestras com negócio de patentes, não sei o quê, não, não era o pró-reitor não, era um coordenador de pesquisa. Ele veio falar de patentes na área de fármacos e eu sabia. Já tinha até escrito artigo sobre isso. Aí, me manifesto no auditório, na reitoria: “Professor, não, mas aqui... patente de fármacos não é permitido, só é permitido processos, né, produtos...” “Você é de onde?” “Eu sou da Biblioteconomia”. Só que eu já era PQ. Aí pronto, eu “não sei o que, não sei o que, tarará” e eu “Não, é porque eu tô fazendo uma pesquisa

assim e assim, não sei o que e tatatá, e eu queria pegar os prontuários...” e não podia nem pensar em prontuário. E a primeira coisa que eu fui fazer foi estudar a legislação de prontuário. Ah, eu posso ter acesso como pesquisadora. Aí eu fui lá. [...] Aí eu fui lá, eu fui lá, né. E aí ele disse: “Não, então a gente vai autorizar”, que eu me cadastrei na plataforma bonitinho. Eu acho que eu fui a primeira pessoa da Humanidades, pelo menos, uma vez ele me disse...

O vasto conhecimento construído na área de informação para a saúde, suscita na docente o desejo em ir além do que já era realizado por seus pares. A atitude de vanguarda nos procedimentos de coleta de dados e toda uma história que a referenciava como pesquisadora lhe possibilitaram estilizar sua atividade.

É no estoque de possibilidades de ação, conhecido apenas por aqueles que compartilham uma mesma situação de trabalho, que é gerado o estilo da atividade, que representa a instância pessoal do ofício. Ou seja, é necessário que antes de se criar o estilo, tenha-se o domínio do gênero e, dessa forma, o estilo garante a variedade, flexibilidade e renovação do gênero da atividade. O gênero, enquanto renovado pelo estilo, possibilita vivências de saúde no âmbito laboral. “Quando há degenerescência do gênero, há degenerescência da atividade, o que pode favorecer o desenvolvimento de patologias e a ocorrência de acidentes no trabalho” (LIMA, 2007, p. 102).

Devido aos aspectos subjetivos de cada trabalhador e aos imprevistos que surgem na atividade laboral, os gêneros necessitam ser reformulados ao longo de sua história. A essa atualização denomina-se estilo da ação, contemplando uma dupla função na ampliação do poder de agir. Neste sentido, funciona como desenvolvimento do gênero profissional à medida que é fruto do esforço pessoal do trabalhador, no sentido da eficácia de seu trabalho, e libera o trabalhador da repetição da atividade contribuindo com sua autonomia não individualizada e na ampliação de sua saúde, sem perder de vista sua injunção na coletividade (MORSCHEL et

al, 2014).

Ainda nesse excerto é possível identificar também a instância interpessoal do ofício, quando o professor do curso de medicina autoriza o uso dos prontuários para a realização da pesquisa. A instância interpessoal está sempre presente a cada passo do ofício, mesmo quando não revelada, ela segue intrínseca enquanto atividade endereçada ao um outro.

Excerto 10

Instrução ao sósia (Vitória-Régia)

Pesquisadora: E com os meus pares? Como é que eu me portaria pra que achassem que eu sou a professora V.? Vitória-Régia: Eu acho que com os pares também você tem que ter essa mesma postura, né. Porque os seus pares, eles também podem lhe engolir, né. Se você não acompanhar a evolução do conhecimento, entendeu? E você, ao mesmo tempo, você tem que ter esse jogo...

Vitória-Régia: Eu não sei se o nome seria... talvez, não sei. Eu não gosto dessa expressão, jogo de cintura, né. Mas, você teria que ter essa postura, né, de...

Pesquisadora: De saber... discernimento? A hora de ser forte, a hora de ser doce, a hora de ser solidário... Vitória-Régia: É, pronto. Acho que isso é legal.

Pesquisadora: Desenvolver esse discernimento é importante pra eu poder lhe substituir.

Vitória-Régia: É. Eu também acho que é importante você dizer as coisas para as pessoas que você quer dizer. Não diga para o outro que aquela pessoa é assim, diga pra ela mesmo.

Pesquisadora: Não mando recado, não faço fofoca nem intermediário.

Vitória-Régia: Não. Vou lá e digo “colega, olha, eu acho que você fez isso comigo, eu acho que você foi sacana”. Se é pra dizer que foi sacana, eu digo. Eu disse pro meu colega, na reunião de departamento “você está sendo leviano, porque você está falando de duas colegas que não estão aqui”. Se ele vai achar ruim ou não... Acabou ali... “ó colega, projeto tal, vamos terminar?”

Pesquisadora: Não guardaria magoa nem rancor. Vitória-Régia: Não.

Pesquisadora: E o outro, se guardasse, como é que eu agiria?

Vitória-Régia: Eu vou olhar... “cara, é o seguinte, eu te falei isso porque eu achei que, nessa atitude, você foi sacana comigo, como eu já fui sacana com você nesse processo”, pronto, acabou. Porque eu acho que é muito importante você ter essa coisa de ser honesto, você ter autonomia, não é isso, livre arbítrio? Livre arbítrio é isso.

Os diálogos e relacionamentos entre os pares e os demais membros da organização formam a instância interpessoal do ofício. É através dela que a Clínica da Atividade busca acessar e produzir efeitos sobre as outras instâncias. A relação com os pares requer cuidado e capacidade de enfrentamento, em uma alternância de solidariedade e combate. A comunicação assertiva e honesta é apresentada como uma escolha pessoal da docente, fruto de sua estratégia em buscar delimitar questões pessoais e profissionais.

A autonomia é mais uma vez citada no discurso, desta vez aparece como propulsora de atitudes de honestidade e clareza em relação aos fatos e posicionamentos perante os pares. A autonomia é vinculada ao livre arbítrio, representando a liberdade de se dizer o que se pensa e em assumir as consequências dessa escolha. Essa mesma autonomia também pode representar o seu viés de controle de si e dos pares, no momento em que os colegas são vistos como capazes de “lhe engolir”, caso o docente não cumpra com sua parte no trabalho coletivo em sua missão de renovação do conhecimento. A liberdade para dizer parece estar diretamente ligada à obrigação do fazer, do cumprimento do seu ofício.

Torna-se evidente o tensionamento vivido entre as dimensões pessoal e profissional. O enunciado afirma ser necessário deixar claro o que se pensa e o que se sente em relação aos colegas, protegendo, se necessário, aqueles que não estão presentes, e colaborando em projetos comuns em nome do profissionalismo e do comprometimento com o curso. Essa disposição para o confronto, sem perder de vista os objetivos do trabalho, é condição para o desenvolvimento da atividade e superação de seus impedimentos, conforme preconiza Clot na condução da Clínica da Atividade:

A melhor maneira de defender um ofício é ainda questioná-lo cultivando os afetos, as técnicas e as emoções que o mantém vivo. Para reabilitar o coletivo talvez se deva, deliberadamente, dar as costas à comunidade “protegida”. Dizendo-o mais uma vez, a negação do conflito não é algo sadio. Desde que se questionem os critérios do trabalho bem feito, a dissonância se faz rapidamente presente no meio profissional (CLOT, 2013b, p. 8).

Os debates de ofício são necessários à vitalidade profissional e se alternam em momentos de cooperação e de disputa, preservando a heterogeneidade do grupo, salvaguardando o trabalho bem feito. O manejo da autonomia docente e o enfrentamento de seus limites e paradoxos são imprescindíveis para a vitalidade do ofício. A presença dinâmica de todas as instâncias do ofício serve de recurso para a saúde daqueles que o exercem, quando essa ligação entre as instâncias não ocorre, o ofício estagnado torna-se fonte de doença.