4 OFÍCIO DOCENTE: CARACTERÍSTICAS, SENTIDO E
4.1 As bases da proposta da Clínica da Atividade
A Clínica da Atividade surgiu na década de 1990 através de pesquisas e intervenções sobre a atividade laboral, passando a ser identificada com essa nomenclatura por seu criador, Yves Clot, a partir de 1998, momento onde este expôs seus fundamentos e suas semelhanças e diferenças em relação a outras disciplinas pertencentes ao campo da Psicologia do Trabalho (LIMA, 2011).
Yves Clot situa a Clínica da Atividade como uma disciplina pertencente ao campo das Clínicas do Trabalho, que por sua vez, são compreendidas como “um conjunto de teorias que têm como foco de estudo a relação entre trabalho e subjetividade” (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011, p. 3). Além da Clínica da Atividade, a Psicodinâmica do Trabalho, a Psicossociologia e a Ergologia também são consideradas abordagens pertencentes a este campo. Essas clínicas divergem em suas bases epistemológicas e teórico-metodológicas, mantendo como objeto comum a análise da situação do trabalho, compreendida na síntese entre o sujeito, o trabalho e o seu meio.
As clínicas do trabalho também compartilham de alguns pressupostos. Primeiro, no interesse pela ação no trabalho, buscando criar condições para que o trabalhador se aproprie de sua atividade, através de reflexões e na forma de ações elaboradas junto ao
coletivo profissional na busca da melhoria das condições laborais e resolução de problemas cotidianos. Segundo, no entendimento sobre o trabalho em sua dimensão ampla, não se restringindo às questões econômicas e ao emprego, incluindo a dimensão do trabalho com propósito, o senso de eficiência e de estética, a compreensão ergonômica do trabalho para além da tarefa, incluindo o trabalho real, onde ocorre a ação do imprevisto e que faz “emergir a função do sujeito como agente de seu próprio ato no trabalho” (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011, p. 14).
O terceiro ponto de aproximação é o engajamento na construção de uma teoria do sujeito, que pode ser visto como alguém dividido por conflitos entre o próprio desejo e o desejo da produção, no caso da Psicodinâmica do Trabalho. De acordo com a Clínica da Atividade, esse sujeito é atravessado por gêneros discursivos e influências histórico-culturais sendo capaz de desenvolver um estilo por meio da atividade.
O quarto ponto de convergência está na inclusão da dimensão do sofrimento no trabalho nas pesquisas e intervenções clínicas, com destaque para a compreensão do processo de vulnerabilidade do sujeito e de seus coletivos profissionais. Isso aponta para a ampliação do processo de individualização e seus impactos nas diversas modalidades de desgaste e mal- estar relacionados ao trabalho, voltando-se para o entendimento do sofrimento como socialmente produzido (SELIGMANN-SILVA, 2011).
Nesse sentido, as Clínicas do Trabalho caracterizam-se como clínicas sociais, por colocarem em tensão constante os aspectos psíquicos e os condicionantes sociais. Compartilham também da noção de centralidade do trabalho na vida psíquica e do engajamento crítico em pesquisas e intervenções nas organizações, surgindo como uma via de apropriação do trabalho capaz de “compreender as origens e as manifestações do sofrimento, como também a compreender e subsidiar os processos de resistência e de superação por parte dos coletivos de trabalho” (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011, p. 17).
A Clínica da Atividade converge com todas as nuances destacadas na caracterização acima acerca das Clínicas do Trabalho, contudo, seus fundamentos se baseiam em fontes especificas, notadamente Vygotski, Leontiev, Wallon, Espinoza, Bakhtin, Canguillhem, Oddone, Le Guillant, Tosquelles e Wisner e dialoga principalmente com as disciplinas da Ergonomia e da Psicopatologia do Trabalho (LIMA, 2011).
Vygotski e Leontiev são afiliações teóricas estruturantes no aporte teórico- metodológico de toda a Clínica da Atividade. Destaca-se, sobretudo, a noção de trabalho como atividade e ação, além da ênfase dada à atividade real, que vai além das prescrições e da
atividade realizada, "uma vez que agir é, acima de tudo, selecionar uma dentre várias atividades possíveis” (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011, p. 34). De Wallon e Espinoza, a preocupação com a afetividade indissociável dos aspectos cognitivos e a função das emoções no desenvolvimento humano. Wallon, de forma mais específica, apreende a noção do afeto como pertencente ao campo da atividade e as emoções como seus instrumentos, e Espinoza reconhece a capacidade de migração dos afetos e seu impacto nas inibições e na ampliação do raio da ação (CLOT, 2016). A convergência com Bakhtin pode ser vista na importância que Clot dá à atividade dialógica e seu nomadismo e o uso que faz desses princípios na aplicação dos dispositivos metodológicos da Clínica da Atividade (CLOT, 2010a).
No campo da saúde, as reflexões de Canguilhem acerca das duas atitudes possíveis frente aos dilemas da vida, isto é, as criações e as defesas, serviram de base para a construção da concepção de saúde que sustenta a perspectiva clínica e que não opõe saúde à doença, “do mesmo modo que não se identifica com ela, mas procura apropriar-se dela” (CLOT, 2010a, p. 113) para, em seu processo de desenvolvimento, desvencilhar-se, ampliando seu poder de ação sobre seu trabalho e entorno.
De Oddone, a Clínica da Atividade herda a força da Psicologia do Trabalho, propositiva que não se paralisa diante das denúncias das condições nocivas de trabalho e busca meios de apoiar os coletivos e ampliar seu poder de agir. A ideia da criação das comunidades científicas, ampliadas com a participação do grupo operário homogêneo, como recurso vivo da avaliação de riscos e da validação de soluções para os problemas ligados à organização do trabalho, e o uso do dispositivo da instrução ao sósia como instrumento de favorecimento da formalização e da transmissão profissional, são meios que permanecem atuais nas intervenções em Clínica da Atividade (CLOT, 2010a; MUNIZ et al, 2013).
Da Psicopatologia do Trabalho, Clot é influenciado notadamente por Le Guillant pelo seu zelo com o trabalho, antes mesmo de cuidar das pessoas, pela compreensão dos condicionantes sociais como fonte de conflitos psíquicos, que podem ou não desembocar na produção das psicopatologias laborais, e nos estudos clínicos do ofício das empregadas domésticas, condutores de trem e telefonistas, com suas demonstrações de passividade identificadas como ato psíquico defensivo. A influência de Tosquelles vem complementar essa tradição psicopatológica, trazendo à tona com clareza a centralidade da atividade de trabalho como um instrumento clínico: “não só como objeto de análise, mas como um meio de ação” (CLOT, 2010a, p. 75).
atrelada à atividade, que vai além da capacidade de suportar as coerções e adaptar-se ao meio, mas é a capacidade de criação de novas formas de viver. O autor destaca ainda o envolvimento social necessário à ergonomia e contribuiu para o esclarecimento do papel do analista do trabalho, reconhecendo a importância da Psicologia nessa empreitada, antevendo a riqueza da contribuição de Vygotski e Leontiev na análise ergonômica do trabalho no que diz respeito aos estudos sobre atividade e desenvolvimento (CLOT, 2010a).
Diante de toda essa herança cultural de filiações teóricas, a Clínica da Atividade se propõe ao “desenvolvimento de uma psicologia das situações de trabalho e de vida” (CLOT, 2007, p. 18), que possa transformar para compreender e compreender para transformar, promovendo a produção do conhecimento e a mudança nos contextos laborais.
Sobre o percurso e objetivos da Clínica da Atividade, Clot (2007, p. 127) nos situa: Trata-se de uma senda que mal se começa a trilhar, mas apresenta resultados sobremodo estimulantes. Podemos chegar à convicção de que a análise de trabalho que praticamos é uma “psicologia plena”, uma psicologia do desenvolvimento da ação. Ela faz a opção de enfrentar as dificuldades de uma atividade científica praticada em “ambiente habitual”. Seria possível defini-la numa primeira aproximação como uma clínica da atividade fundada em formas diferenciadas de co- análise do trabalho. Faz-se necessário esclarecer aqui o que se entende precisamente por isso. A análise psicológica do trabalho é sempre análise de um sujeito, de um grupo ou de vários, numa situação ou num meio.
A proposta da Clínica da Atividade volta-se deliberadamente por realizar uma clínica do trabalho e não uma psicologia clínica, escolhendo, portanto, o substantivo e não o adjetivo. Essa clínica consiste em atribuir ênfase à dimensão da ação que seja capaz de integrar o social, o cognitivo e o afetivo, aliada ao propósito de promover uma renovação do conceito de atividade e sua relação com a subjetividade, de um modo diferente do que vem sendo realizado por outras abordagens do campo do trabalho (CLOT, 2010a).
Desse modo, trata-se de uma clínica do desenvolvimento de uma psicologia das situações de trabalho e de vida, que se situa entre a arte do manejo da ação e da racionalidade científica e o exercício de construção do sentido da experiência de coletivos profissionais e do significado dos conceitos aí advindos. É uma clínica da ação concreta, elaborada a partir dos métodos de intervenção em situações de trabalho, sob a inspiração vygotskiana e bakhtiniana, que elege o desenvolvimento da atividade e seus obstáculos como método de ação e investigação.
Feita esta breve caracterização dos fundamentos da Clínica da Atividade, dou início à discussão acerca do ofício docente em sua articulação teórico-prática a partir do
tensionamento entre vida e trabalho em suas implicações dialéticas para a atividade e a subjetividade.