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Há mais de 40 anos, os estudos sobre temas que enfatizam o uso de psicoativos têm se ampliado nas várias áreas do conhecimento (Shanon 2003). A compreensão destes contextos, do ponto de vista metodológico, implica numa abordagem trans, inter e multidisciplinar. Foi neste sentido que adoptei a etnografia como uma das minhas ferramentas metodológicas de base.

Na minha pesquisa etnográfica usei como técnica fundamental a observação-participante à qual associei uma dimensão experiencial. Uso ainda recursos tecnológicos, designadamente a observação virtual centrada sobretudo na análise do Musincante (web). Atualmente é possível contactar grupos e receber informações sobre qualquer assunto nas muitas “comunidades ayahuasqueiras” espalhadas pelo mundo através da World Wide Web, como grupos de discussão (em âmbito acadêmico ou não), as ciber-revistas e boletins informativos editados por interessados no assunto.

Contudo, as relações interpessoais entre pesquisadora e interlocutores envolvidos de alguma forma na área estudada, tornaram-se preponderante para que ocorresse um fluxo de conhecimento especializado contribuindo para o direcionamento de pensamentos sobre os sentidos sonoros e imagéticos pertencentes a este ambiente. Ao expor os processos que foram necessários para a compreensão deste universo sonoro também tratei situações de interação entre o pesquisador e os interlocutores, o que veio propiciar uma relação dialógica e de comprometimento pessoal com os mesmos e com a própria instituição União do Vegetal.

Desta forma, através do enfoque dado a esta pesquisa, conjuntamente a um olhar interpretativo - porém, imerso no campo -, procuro incluir e dialogar com a voz dos meus interlocutores. Considerando que, apesar de reproduzirem um discurso pautado em recomendações institucionais (que privilegiam sobretudo uma uniformização dos saberes), a forma de observação considerará as narrativas como transmissão de saberes pessoais, uma vez que nenhuma instituição é uma unidade e sim constituída por vários indivíduos. Assim, a União do Vegetal é entendida neste trabalho como um local reprodutor de múltiplas vozes, anseios e ponto de vistas distintos, pelo que o texto construído não reproduz nenhuma

“verdade absoluta” mas a tentativa de expor essa complexidade e diversidade.

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Em relação à observação-participante (experiencial) participei 40 sessões totalizando aproximadamente 170 horas, e no término de cada encontro houve (quando disponível) a coleta de dados para a pesquisa, como:

• Acervo de canções utilizadas pelos mestres ou pessoas responsáveis por esta função;

• Jornais, Circulares, CDs;

• Fotos da instituição;

• Cronograma de atividades de cada grupo;

• Quantidade de sócios do grupo frequentado;

• Entrevistas.

Esses dados resultaram em 65 horas de gravação em vídeo, 1050 fotos, coleta de 3000 fonogramas, 15 CDs produzidos pelos sócios, aquisição de jornais editados pela instituição datados entre os anos de 1989 a 1997 (aquando da visita na Sede Geral em Brasília), informativos da UDV-Portugal desde 2010 e Regimento Interno.

A União do Vegetal é uma sociedade religiosa criada e sediada no Brasil mas que tem se expandido para diversos pontos do mundo formando núcleos e DAVs (Distribuição Autorizada de Vegetal), decorrentes do dinâmico trânsito entre os seus participantes. Essa situação de mundialização vem atribuir à doutrina um caráter de expansão, pelo que foi necessário ampliar a abrangência do reconhecimento do campo aqui estudado. Assim, a pesquisa tornou-se multissituada transbordando a outros contextos sócio-culturais e territoriais de análise. Portanto, no âmbito desta pesquisa, apesar do trabalho de campo se focar na realidade vivida pela comunidade instalada em Portugal, também foram realizadas incursões nas comunidades da Espanha e Brasil, neste último caso em dois pontos a saber:

Brasília (sede geral atual da UDV) e Rondônia/Porto Velho (local de fundação).

Outro modo de observação - de grande auxílio – adveio da pesquisa na internet, principalmente através de dois grupos formado por discípulos da UDV em dois distintos espaço de discussão: um hospedado na rede social facebook, outra através de uma lista hospedada no google-groups criada por membros dessa comunidade a fim de discutir e compartilhar informações sobre a música (fonogramas) que são ouvidos em ritual (nesses grupos apenas a comunidade associada pode participar).

Após um ano e meio de diálogo com a comunidade estudada, tornou-se inviável a participação nos rituais sem ter um vínculo institucional formalizado. No dia 22 de julho de 2011 o

estatuto de pesquisadora alterou-se para o de associada à irmandade da UDV-Portugal.

Transição que possibilitou estar mais perto do objetivo inicial e estudar a sonoridade produzida pela comunidade sobretudo a nível de .

A pesquisa de campo multissituada desdobrou-se em Portugal (entre os anos de 2010 a 2014), Espanha (1ª sessão 09/01/2012; 2ª sessão 07/05/2010; 3ª sessão 08/12/2012); Brasil (entre abril a julho de 2012) nos estados de Rondônia (cidade de Porto Velho), Distrito Federal (Brasília) e São Paulo (capital); e World Wide Web, através das listas de discussão tanto do grupo estudado como de pesquisadores sobre o tema psicoativo.

O trabalho de campo foi realizado em locais que a seguir descrevo em ordem cronológica de iniciação:

• Cidade de Santa Maria del Tietar/Espanha, por ser o 1º núcleo estabelecido na Europa e ser a minha primeira experiência nesta comunidade, através de uma sessão de adventícios (ADV);

• Cidade de Lisboa/PT, por acolher o único grupo da comunidade estudada em Portugal, o qual é objeto principal de minhas análises;

• Cidade de Brasília/BR, onde atualmente está instalada a Sede Geral que é representante legal de toda a comunidade em estudo;

• Cidade de Porto Velho/BR, por simbolizar a formação inicial do grupo analisado, onde está situada a Sede Histórica e residência dos primeiros adeptos a frequentar a doutrina, estes considerados os Mestres da Recordação e/ou Origem, assim da reminiscência;

• Cidade de São Paulo/BR, local marcado para a entrevista de alguns adeptos da doutrina e principalmente entrevista com o meu primeiro interlocutor.

Anterior à minha decisão de pesquisar somente a comunidade da UDV instalada em Portugal, fiz incursões nos rituais da comunidade religiosa do Santo Daime, tanto em Portugal como no Brasil. Após doze anos, retornei o contato porém como pesquisadora. Esta aproximação decorreu em visita à Sede conhecida como “Céu do Mapiá”, situada no estado do Amazonas/AM durante um mês. Essa oportunidade foi relevante no que concerne à aprendizagem sobre a performance da escuta em contextos rituais distintos, sobretudo como forma de ampliar o conhecimento sobre a área “ayahuasqueira” – uma vez que ambas as vertentes revelam muitos elementos em comum.

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O ritual característico da linha religiosa União do Vegetal tem duração de 4 horas e 15 minutos, normalmente realizado a cada 15 dias. É nestas sessões o local onde se expressa a máxima do contexto doutrinário do grupo e por este motivo não é permitido realizar gravações ou anotações in loco. A doutrina é transmitida oralmente, o que força o pesquisador a desenvolver um trabalho de memorização e transcrição atenta dos fatos que ocorreram.

No que diz respeito à pesquisa virtual foram-me apresentados 3 grupos de discussão através da World Wide Web, os quais descrevo a seguir:

• NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos) é um grupo criado por investigadores na área dos psicoativos, que em 2013 era composto por 81 pesquisadores, em sua maioria brasileiros, os quais se posicionam politicamente como anti-proibicionistas, isto é, opostos ao regime proibicionista relacionado às drogas.

Reúne estudiosos da área das Ciências Humanas, vinculados a diversas instituições e que, através das discussões internas ao grupo, promovem uma reflexão conjunta sobre a pesquisa relacionada com substâncias psicoativas. Especificamente sobre o meu trabalho, é local onde venho trocando informações com os colegas a fim de compreender melhor o universo de estudo. É também um espaço onde convergem os materiais acadêmicos relacionados ao assunto para acessibilidade ao público em geral, através do site: http://www.neip.info/.

• Ayahuasca-Researchers: é um grupo que reúne 105 estudiosos, procedentes de vários países, assim como de várias áreas acadêmicas, os quais têm como interesse a pesquisa sobre a cocção Ayahuasca. Assim como o grupo anterior, promovem uma reflexão conjunta sobre o tema através das discussões realizadas pela lista. Este grupo surgiu após alguns pesquisadores participarem da conferência realizada pelo MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) em Los Angeles em 2010.

• Musincante: é uma lista criada por associados à UDV, que em 2014, quando terminei o meu período de observação, reunia 518 sócios procedentes de todo os estados e países por onde a UDV está implantada e que estão interessados em discutir sobre música.

As discussões giram em torno de tudo o que cerca a dimensão sonora e musical que está associada ao ritual. São abordadas questões referentes à origem da música dentro da instituição, assim como histórias vividas pelos antigos mestres relacionadas com os temas musicais (canções e temas instrumentais). Promove-se a troca de arquivos sonoros e informações a respeito do melhor equipamento a ser instalado no salão.

Neste local busco participar de uma forma menos ativa, observando e coletando dados para a minha pesquisa. Até ao momento intervenho particularmente quando preciso coletar algum dado pessoal. Esta lista é umas das formas essenciais de coleta de dados e análise, isto é, traz-me um contato virtual com uma gama maior de adeptos e que, por si só, produz um material mais refinado e direcionado ao meu trabalho, por discutir exatamente o motivo da minha pesquisa: a música no contexto da União do Vegetal.

E

NTREVISTAS

,

QUESTIONÁRIOS E PESQUISA DE ARQUIVO Foram realizadas entrevistas coletivas e individuais, tendo como apoio tecnológico o uso da câmera filmadora 50 e máquina fotográfica. Em locais onde o uso do equipamento audiovisual não foi permitido, realizou-se posteriores anotações. Para as entrevistas51, também utilizei como ferramenta um questionário semiestruturado que possibilitou dados para análise qualitativa e quantitativa do processo. Apesar do estudo buscar na voz dos interlocutores um olhar pessoal sobre o assunto também foi considerada a possibilidade da dimensão pessoal já ter incorporado o coletivo. Assim as entrevistas foram realizadas de modo a atribuir a cada entrevistado um estatuto de especialista - uma vez que neste e qualquer contexto, para cada indivíduo a experiência é única e intransponível. A entrevista ocorreu de forma semiestruturada, centralizada no problema, com especialistas e de cunho etnográfico. Foram selecionados indivíduos de forma aleatória como também não aleatória (Coutinho 2011: 93).

Por ser uma pesquisa de caráter multissituado cada terreno mostrou-se de forma distinta.

Neste sentido, seguiu-se uma incursão exploratória a fim de, sobretudo a partir das entrevistas coletadas nesse contexto, desenvolver um entendimento do campo em estudo e complementar informações obtidas num primeiro momento de coleta de dados. Como demostra a tabela 3, as entrevistas foram realizadas sem distinção de idade, género ou grau, porém a seleção foi estratificada. Assim, entre os interlocutores, incluíam-se toda a gama de participantes, os quais são hierarquicamente designados pela instituição como membros do Quadro de Mestres (QM), membros do Corpo do Conselho (CDC), membros do Corpo

50 Sobre o método etnográfico adotado pela etnomusicologia ver o texto do etnomusicólogo Tiago de Oliveira Pinto em Som e música: Questões de uma antropologia Sonora (2001).

51 Quando exposto na tese, tomo como método não interferir, traduzir, corrigir ou impor filtros sobre os textos construídos pelos interlocutores entrevistados, a não ser para identificar algo e neste caso faço uso de colchetes e grifos.

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Instrutivo (CI), membros do Quadro de Sócios (QS), Adventícios (ADV), jovens, crianças (dependentes dos pais que não são associados) e ex-sócios.

Tabela 3 – Quantidade de Entrevistados.

ex- * Sócios

ADV Crianças Jovens QS CI CDC QM MR MO

3 7 4 4 13 22 15 16 5 3

Ao contemplar os vários perfis busquei compreender o que essas pessoas determinam ser importante dentro do ritual religioso da UDV com o propósito de perceber os diferentes olhares voltados para este processo de aprendizagem. O objetivo foi entender o valor atribuído à música para tais participantes, assim como a construção desses valores. Segundo alguns discípulos, para o Mestre Gabriel “a sabedoria da União do Vegetal está na própria união das pessoas”52 .

Embora a maioria das entrevistas fosse agendada antecipadamente via telefone ou e-mail, muitas delas ocorreram no dia das sessões, algumas antes e outras após o ritual. Contudo, na época foi constante o trânsito de visitantes à comunidade da UDV-Portugal para participação do ritual. Entre esses estavam os associados de outros grupos procedentes de outros países.

Essa dinâmica proporcionou um 'agitado' ambiente onde nem sempre era possível colher os depoimentos no local previamente agendado, desta maneira, alguns ocorreram via skype. As entrevistas via internet também seguiram um formato semiestruturado e possibilitaram uma melhor fluência no diálogo como também ocasionaram maior liberdade ao entrevistado que,

52 Descrição que também é referida numa produção própria à irmandade, através do Jornal Alto Falante (AF) – novembro/dezembro/1994 – janeiro/1995: 08.

dependendo da disposição de tempo, situação hierárquica dentro do grupo e conhecimento sobre o assunto, estendeu a duração da entrevista. Desta forma, a duração pode compreender entre cinco minutos a duas horas de entrevista. Estas entrevistas, em sua maioria, abordaram a questão da performance da escuta, sobretudo referente à música, tanto inserida na vida no interlocutor como em relação ao valor a ela atribuído (inclusive) dentro da comunidade.

Assim, foram construídos 3 principais questionários: um direcionado especificamente para analisar o protagonismo da música no ritual, realizado com todos os entrevistados. Outros dois foram realizados somente com a comunidade portuguesa (referentes à paisagem sonora local do ritual). O primeiro questionário semiestruturado teve como público os discípulos associados aos núcleos do Brasil e Espanha com a finalidade de entender o contexto sonoro de uma forma mais generalizada, uma vez que nesses dois territórios há um maior número de membros com conhecimento decorrente da larga experiência em sessões, sobretudo na função de performance musical. Os outros dois questionários foram submetidos ao grupo local a fim de explorar pormenorizadamente a performance da escuta desse ambiente.

Para registro fiável de consulta (e uso restrito para pesquisa) a maioria das entrevistas foi gravada com a autorização dos interlocutores, sendo estas autorizações registradas em vídeo.

Poucos foram os interlocutores que solicitaram verificar o seu depoimento inserido no trabalho após a conclusão do mesmo. Este processo demandou um maior tempo na redação desta tese, mas proporcionou uma legitimidade maior frente aos dados coletados junto à instituição religiosa da União do Vegetal.

A Pesquisa em arquivo ocorreu em locais como: acervos fonográficos particulares de alguns sócios distribuídos por essas três localidades distintas: em Portugal, Brasília (BR) e Porto Velho (BR), Departamento de Memória e Documentação (DMD) da Sede Geral sediada em Brasília, Documentação e fotos do grupo instalado em Portugal, via World Wide Web, livros produzidos pela própria instituição e por pesquisadores no assunto.

F

AMILIARIZAÇÃO

:

APRENDER A ESCUTAR A

DISCIPLINA

O caminho da minha etnografia - e respeitando o percurso de amenização do processo de estranhamento -, ocorreu através de um vínculo associativo permeado, não somente pelo viés racional, mas também da emotividade. Lentamente, uma realidade vista através de olhos alheios, foi se desvendando, numa possibilidade adquirida somente mediante a abertura

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auditiva às sonoridades ali produzidas. Isto é, abertura de uma escuta libertadora de preconceitos guiada principalmente pela sonoridade do ritual, pelos sons externos ao corpo e não somente ao sons “produto” dos próprios pensamentos.

Os saberes doutrinários, antes enigmáticos, foram se tornando gradativamente compreensíveis a partir do momento em que me rendia à figura do Mestre Gabriel como alguém que possuía um conhecimento, um saber significativo. Nesse sentido, à medida que aumentou a minha assiduidade nos rituais um sentimento de empatia se foi gradativamente intensificado. Tal participação sequencial, permitiu observar um certo tipo de metodologia construtivista, pautado nas histórias53 “de origem” da instituição. Após a inserção ritual nos núcleos (grupos) brasileiros e europeus, uma ampla compreensão sobre como funciona na prática a dinâmica do grupo maior, possibilitou entender que o ensino transmitido por essa sociedade, independente do local, busca ser vista como uma unidade “educativa” global.

Assim, o processo de adaptabilidade (inerente a todo o participante sendo pesquisador ou não), ocorre ao mesmo tempo que há uma ampliação do conhecimento sobre o assunto, logo, ocorre no momento em que o assunto se torna parte da vida, ou seja, familiar. Porém, na performance de pesquisadora, durante o trabalho foi relevante negociar o “lugar” onde atuaria como “tal”, que incidiu irrevogavelmente sobre a forma de coleta dos dados – situação constantemente refletida por ambos os lados. No início, a inserção e interação foi espontânea, com poucas restrições vindas da comunidade que mantinha um olhar acolhedor, convidativo para a minha futura associação oficial ao CEBUDV. Esta situação proporcionou a recolha de algum material (como entrevistas filmadas com mestres da origem (MO) e associados em geral, fotos do grupo com o uniforme após a sessão, entre outros) que segundo um colaborador, talvez não fosse possível se o grupo estivesse totalmente estruturado no país e sob tutela rigorosa dos membros da Sede de Brasília.

O que se tem notícia sobre trabalhos relacionadas ao CEBUDV é a dificuldade em iniciar uma pesquisa dessa natureza. Porém, creio que alguns fatores contribuíram para a inicial facilidade da coleta de dados mesmo não sendo (até aquele momento) filiada e não havendo ainda aceitação oficial da direção da comunidade. Dentre os fatores mais relevantes para essa inicial acessibilidade creio decorrer do facto de a minha pesquisa constituir uma situação nova na UDV em Portugal (comunidade em formação no país). Na época a instituição, apesar de estar

53 As histórias escutadas durante as sessões podem ser executadas tanto presencialmente, através dos mestres, como através dos fonogramas criados ainda na época do M. Gabriel e estes repassados a cada MR.

vinculada à Sede Geral (Brasília), ainda não era experiente no exercício das regras instituintes como também não havia qualquer ameaça jurídica ao ritual em Portugal. A direção da UDV mantinha um controle sobre o grupo português mais afrouxado, que vinha se apertando conforme o grupo crescia ou se firmava no país.

Porém, após um considerável tempo de inserção neste contexto, houve um momento de instabilidade que veio interferir diretamente na pesquisa de campo. Após a detenção policial de Gaio54 (cidadão português, membro de uma das linhas ayahuasqueiras distinta da UDV), a direção udevista estabeleceu algumas prerrogativas.

Apensar da detenção durar menos de 24 horas e Gaio provar que não fazia distribuição além dos rituais realizados em âmbito familiar, foi enquadrado no artigo de dependente da substância de forma que o uso da mesma teria que ser individualizado55. Tal situação levou a UDV a determinar o cancelamento das sessões por tempo indeterminado. Cancelou igualmente o envio de remessas de Vegetal para o país e conjecturar a restrição dessa pesquisa.

Esta situação limitou alguns procedimentos e a liberdade em campo, pois o controle exercido pela Diretoria da UDV à comunidade inserida em Portugal se acentuou. No que diz respeito à comunidade UDV- PT foram aplicadas as seguintes restrições:

Suspensão indeterminada das sessões no local onde a UDV- Portugal esta instalada;

Não receber ou levar ao país o Vegetal;

Suspensão das sessões de adventícios;

Discrição acentuada por parte dos sócios quanto à existência do grupo;

Não fotografar as sessões ou o Salão do Vegetal (ação que foi autorizada apenas ao coordenador (ou monitor) do Departamento de Memória e Documentação - DMD;

Reunir com as lideranças do CEBUDV e advogado da instituição para discutir os passos para voltar a ingerir o Vegetal sem

restrições legais ou insegurança – encontro realizado no núcleo Espanhol com representantes do Brasil e Europa;

54 Nome de um pássaro (em itálico) adotado como codinome para a maioria dos interlocutores, com exceção dos interlocutores que permitiram a exposição de seus nomes, e os que são de domínio público.

55 A dimetiltriptamina – DMT é uma das substâncias encontrada na ayahuasca e, apesar de ser também uma substância endógena ao ser humano, atualmente é proibida no país.

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Organizar a documentação a fim de institucionalizar a comunidade no país, primeiro como associação, depois como sociedade religiosa;

Buscar auxílio de um advogado local;

Busca de apoio para pagar custas do advogado local, entre outros;

Impossibilidade de divulgação de qualquer espécie.

No que diz respeito a pesquisa aqui apresentada:

Não produzir artigos ou qualquer material que viesse a expor a comunidade no prazo de 2 anos;

Não apresentar em congressos textos que falassem sobre a UDV- Portugal;

Não entrevistar qualquer sócio (restrição que com o tempo foi atenuada);

Comentar sobre a UDV somente a nível acadêmico;

Não citar nomes de nenhum participante no texto da tese, somente com a permissão escrita.

Dada a estimativa do advogado da instituição, as restrições, principalmente na produção acadêmica, deveriam durar apenas 2 anos. No entanto, ao final de 4 anos as regras ainda prevaleceram. Tais situações revelaram algo que Pacheco e Labate descrevem ser parte das recomendações que todo o sócio dessa linha deve seguir:

Dada a estimativa do advogado da instituição, as restrições, principalmente na produção acadêmica, deveriam durar apenas 2 anos. No entanto, ao final de 4 anos as regras ainda prevaleceram. Tais situações revelaram algo que Pacheco e Labate descrevem ser parte das recomendações que todo o sócio dessa linha deve seguir: