3 PLATAFORMAS DE REDES SOCIAIS ONLINE E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA
3.2 A plataforma de redes sociais online Facebook
O Facebook, assim como qualquer plataforma de redes sociais online, é uma plataforma de comunicação em rede, nos quais os participantes têm perfis identificáveis com conteúdo fornecido pelo usuário, por outros usuários e pela própria plataforma; articulam publicamente conexões que podem ser vistas e percorridas por outros; e podem consumir, produzir e interagir com fluxos de conteúdos gerados por usuários através de suas conexões nessas plataformas.
Esta descrição criada por Ellison e Boyd (2013) quer dizer que, em uma plataforma de redes sociais online, neste caso, no Facebook, os usuários possuem um perfil pessoal, que os outros usuários podem ver e navegar. Este perfil possui conteúdo fornecido pelo usuário - como texto, fotos e vídeos publicados -, por outros usuários - como fotos publicadas por terceiros em que o usuário é marcado -, e pela plataforma - como quando a plataforma publica uma ação feita pelo usuário, por exemplo, curtir uma página. Além disso, o usuário pode estabelecer conexões, que no caso do Facebook seriam as amizades que se estabelece com outros usuários, o fato de curtir ou seguir uma página ou ainda participar de um grupo, e os outros usuários podem ver a lista de amizades, de páginas curtidas e seguidas ou os grupos aos quais pertence. O último ponto da explicação de Ellison e Boyd (2013) se refere a possibilidade de os usuários poderem publicar conteúdos em diferentes formatos, consumir os conteúdos publicados por outros e interagir com esses fluxos de conteúdos gerados por outros usuários através de reações nas publicações, comentários e compartilhamentos.
Além do fato de ser uma ferramenta que permite a manutenção de laços sociais, a articulação e a expressão das redes sociais, a plataforma de redes sociais online Facebook foi apropriada pelos usuários para manter conexões e estabelecer redes sociais online. Apesar de haver plataformas de redes sociais online anteriores ao Facebook, o Facebook foi a primeira a atingir a marca de 1 bilhão de usuários, em 2012, e ainda hoje é a maior plataforma de redes sociais online do mundo em número de usuários: 2.41 bilhões de usuários ativos por mês4. Galloway (2017) explica que baseado no número de usuários e utilização, o Facebook é o maior sucesso na história humanidade – nenhuma ideia, religião ou empreendimento obteve tantos adeptos. Além da plataforma de redes sociais online Facebook, a empresa Facebook é proprietária da plataforma de redes sociais online Instagram e do serviço de mensagem WhatsApp. Em média, as pessoas dedicam 35 minutos diários para a plataforma Facebook, somando o uso do Instagram e WhatsApp, são 55 minutos diários gastos nos serviços da empresa.
O Facebook atingiu não apenas um número massivo de usuários, mas conquistou um espaço de grande importância na rotina das pessoas. No estudo The Internet Health Report5, de 2017, a Fundação Mozilla apontou que 55% dos brasileiros consideram que não há nada na internet além do Facebook. Além disso, o Facebook também é amplamente utilizado como fonte de notícias: 66% dos brasileiros afirmaram usar o Facebook como fonte de notícias de acordo com o Digital
News Report 20186.
A proporção que a plataforma de redes sociais online Facebook tomou - tanto em usuários quanto em importância - foi tamanha, que a empresa Facebook é considerada um dos quatro gigantes da tecnologia ao lado do Google, Apple e Amazon. Essas quatro empresas são responsáveis pela criação ou propagação de boa parte das tecnologias digitais que utilizamos no nosso dia a dia e moldaram a internet como conhecemos (GALLOWAY, 2017). Porém, apesar serem responsáveis por importantes avanços tecnológicos, Galloway (2017) explica que essas empresas se tornaram grandes e importantes demais, de maneira que agem de maneira irresponsável, invadindo a privacidade de seus usuários, vendendo seus dados, monopolizando
4 Dados referentes a julho de 2019. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/264810/number-of-monthly- active-facebook-users-worldwide/ <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
5 Disponível em: https://d20x8vt12bnfa2.cloudfront.net/InternetHealthReport_v01.pdf <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
6Disponível em: http://media.digitalnewsreport.org/wpcontent/uploads/2018/06/digital-news-report-2018.pdf?x89475 <Acesso em 15 de abril de 2019>.
setores inteiros, pressionando contra a regulação dos mercados que estão inseridos, entre outras questões que fogem da alçada desta dissertação.
Algumas pesquisas recentes mostram que a plataforma de redes sociais online Facebook está começando a perder usuários7, apesar de os dados oficiais da empresa não mostrarem queda no número de usuários ativos mensalmente8. Um estudo realizado nos Estados Unidos pelo eMarketer9 diz que o tempo diário gasto na plataforma Facebook está diminuindo, enquanto cresce na plataforma Instagram. O WhatsApp também tem ganho destaque: a ferramenta superou o Facebook enquanto aplicativo mais popular do mundo10. Apesar destes dados, o Facebook segue sendo a plataforma de redes sociais online com maior número de usuários ativos do mundo e as concorrentes que mais crescem - WhatsApp e Instagram - pertencem à empresa.
Estes números dão peso e importância a problemas que diferentes autores apontam em relação à plataforma. Apesar de ser o meio pelo qual uma parcela considerável da população consome notícias, o Facebook foge da responsabilidade de agir como uma empresa de mídia e levar em consideração seu impacto na visão de mundo de seus usuários (GALLOWAY, 2017). Gillespie (2018) explica que toda plataforma impõe regras e exerce moderação de conteúdo e que as empresas precisam ser responsáveis pelos impactos que geram na vida dos usuários. Porém, as maiores plataformas da internet, incluindo o Facebook, se negam a assumir o impacto e a responsabilidade que possuem e se posicionam como meros canais ou hospedagens, abertos, imparciais e não-intervencionistas. Gillespie (2018) alerta que as plataformas não apenas transmitem o que seus usuários postam, mas constroem o que as pessoas veem, selecionando os conteúdos que entram em contato e excluindo uma ampla gama de informações o tempo todo. Ele defende que as plataformas constituem o próprio discurso público ao alterar a maneira como criamos, consumimos e interagimos com conteúdos e outras pessoas:
7 Pesquisa do instituto Datafolha apontou que o número de brasileiros que dizem ter conta na ferramenta caiu 5 pontos, para 56%. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/04/facebook-registra-tendencia-de-queda- no-brasil-diz-datafolha.shtml <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
8 Disponível em: https://www.statista.com/statistics/264810/number-of-monthly-active-facebook-users-worldwide/ <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
9 Disponível em: https://www.emarketer.com/content/emarketer-reduces-us-time-spent-estimates-for-facebook-and- snapchat <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
10 Disponível em: https://www.appannie.com/en/insights/market-data/the-state-of-mobile-2019/ <Acesso em 24 de agosto de 2019>.
Elas são projetadas para convidar e moldar nossa participação para fins específicos. Isso inclui como perfis e interações são estruturados; como as trocas sociais são preservadas; como o acesso é precificado ou pago; e como as informações são organizadas algoritmicamente, privilegiando um conteúdo sobre outro, de maneira opaca. (GILLESPIE, 2018, p. 73)
Harris (2016) explica que plataformas são pensadas com o objetivo de viciar as pessoas, explorando as fraquezas das mentes do ser humano e fazendo com que ele passe cada vez mais tempo utilizando as ferramentas. O autor elenca oito estratégias que as plataformas usam para viciar as pessoas:
a) Selecionando e escolhendo opções dos menus; b) Oferecendo possibilidade de recompensas rápidas; c) Incentivando o medo de perder algo importante;
d) Explorando a tendência a reciprocar os gestos das outras pessoas;
e) Tornando todos os conteúdos que as pessoas consomem nas plataformas infinitos; f) Interrompendo as pessoas com mensagens e publicações constantemente;
g) Utilizando qualquer motivo que as pessoas tenham para acessar a plataforma para atingir o objetivo da plataforma: manter as pessoas o máximo de tempo possível na ferramenta. Por exemplo, se o usuário quer ver um evento no Facebook, ele precisa passar pela linha do tempo antes, o que incentiva ele a ficar mais tempo na plataforma
Além de tentar fazer com que os usuários permaneçam o máximo de tempo na ferramenta, Vaidhyanathan (2018) defende que a plataforma Facebook desincentiva a deliberação. Entre os motivos estão o fato da ferramenta ocultar os comentários das publicações; priorizar conteúdos apelativos fazendo com que os profissionais de mídia precisem moldar os conteúdos para ter mais chance de serem selecionados e espalhados pelos algoritmos; tentar evitar que os usuários deixem a plataforma para consumir conteúdos em outros sites ou aplicativos; e dar prioridade para propaganda - os conteúdos que empresas pagam para o Facebook mostrar aos usuários. Vaidhyanathan (2018) também chama a atenção para outros problemas que são perigosos para a sociedade: (1) o Facebook amplifica os conteúdos que geram emoções fortes, como prazer ou indignação; (2) a desinformação se espalha facilmente na plataforma e não há diferenciação de reportagens de veículos de imprensa com credibilidade de qualquer site ou blog; e (3) o fenômeno
filtro bolha faz com que as pessoas só entrem em contato com conteúdos e opiniões que já se interessam e concordam - iremos aprofundar os problemas 2 e 3 no decorrer deste capítulo.