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3 PLATAFORMAS DE REDES SOCIAIS ONLINE E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

3.5 Podemos falar em uma esfera pública digital?

Cientes da importância da troca de informações e do debate público para o funcionamento da democracia, das particularidades das plataformas de redes sociais online, incluindo suas potencialidades e desafios para ser um espaço de deliberação pública, chegamos ao questionamento se as plataformas de redes sociais online podem propiciar uma esfera pública e impactar positivamente na democracia, especificamente no comportamento eleitoral.

Nos parece claro que o debate desenvolvido nas plataformas de redes sociais online está abaixo do ideal descrito por Habermas. Porém, se considerarmos uma ideia de esfera pública menos rígida, como tratamos no capítulo anterior, a questão permanece aberta para discussão. No primeiro capítulo, conceituamos esfera pública como uma prática social,

“o conjunto de debates e disputas relacionados a assuntos de interesse público, que devem ser visíveis e disponíveis para todos os cidadãos acompanharem ou participarem se assim desejarem, no qual se entende a ideia do cidadão racional e completamente informado como um ideal e um guia, e são aceitas formas de comunicação e de tomada de decisões não racionais”.11

Nas plataformas de redes sociais online, há um conjunto de debates e disputas relacionados a assuntos de interesse público disponíveis a todos que quiserem participar e, apesar de muitas vezes serem marcado por comportamentos não civilizados, isso não os desclassifica, dado que são

aceitas formas de comunicação variadas, incluindo as não-racionais. Alguns autores, como Benkler (2006) e Burgess e Green (2009), defendem que a internet e as plataformas de redes sociais online formam uma esfera pública digital ao permitir que os indivíduos deixem de ser leitores passivos e passem a falar e participar do debate, permitindo o encontro de diferentes culturas e crenças. Porém, como argumenta Papacharissi (2009), mesmo que as plataformas de redes sociais online formem um espaço público quando usadas para discussões políticas, é necessário que existam ganhos democráticos por meio dessas discussões para formarem uma esfera pública.

Papacharissi (2009) explica que, apesar do crescimento do acesso à informação, não há consenso se a internet causa impacto positivo na participação política, no engajamento cívico ou na confiança nas instituições, e que, por outro lado, as plataformas de redes sociais online ajudam a fragmentar a comunicação e o debate político, o que é nocivo para a democracia. Essa fragmentação - causada pelos fenômenos câmaras de eco e filtro bolha - pode ser um problema se pensarmos na necessidade de uma esfera visibilidade pública (GOMES, 2008) - que o debate esteja visível e acessível a todos que queiram acompanhar ou participar. Apesar dos debates desenvolvidos nas plataformas de redes sociais online serem em sua maioria públicos e abertos a participação de terceiros, os usuários afetados pelo filtro bolha e o efeito de câmara de eco podem permanecer completamente a par de um determinado assunto ou discurso, fazendo com que o debate político que acontece em uma bolha ideológica não seja visível aos outros usuários.

Para Fuchs (2015), o principal desafio para as plataformas de redes sociais online e as mídias sociais em geral configurarem uma esfera pública está nessa fragmentação do debate em pequenos nichos. Além da fragmentação, o autor também faz críticas relacionadas ao caráter econômico das plataformas e o uso de dados pessoais de usuários - assuntos que não iremos nos aprofundar neste trabalho. Bohman (2004) também critica a fragmentação e ainda cita outros empecilhos para a internet e as plataformas de redes sociais online configurarem uma esfera pública: o acesso a essas ferramentas ainda é limitado, grupos de elite dominam o debate e o uso de anonimato é nocivo à deliberação pública.

Bruns e Highfield (2016) identificam a mesma fragmentação do debate, mas, para eles, isso não faz com que o ambiente online necessariamente deixe de configurar uma esfera pública. Os autores defendem que, no contexto da internet, existem microesferas públicas que coexistem e se sobrepõem umas às outras de maneira dinâmica. Apesar de existirem separadamente, essas microesferas públicas são conectadas por alguns usuários que circulam entre essas diferentes

microesferas e funcionam como pontes, levando informação de uma para a outra e fazendo com que elas não sejam completamente isoladas.

Dahlgreen (2005) defende que, apesar dos problemas como fragmentação e privacidade, a internet de fato oferece muitos espaços e oportunidades para desenvolver o debate em relação a assuntos de interesse público para pessoas que têm acesso à internet, motivação política e vivem em sociedades democráticas. Para o autor, é importante não exagerar quanto ao impacto dos debates políticos online, porém, também não se pode desconsiderar os impactos da internet neste sentido. Na obra The Internet, public spheres, and political communication: Dispersion and

deliberation, publicada em 2005, Dahlgreen previu que a discussão sobre se a internet poderia vir

a configurar uma esfera pública iria permanecer na agenda de pesquisadores por bastante tempo, o que, até o momento, se mostrou verdade, dado que não há consenso na literatura.

Dentro desse debate, esta pesquisa alinha-se com a visão de Papacharissi (2009) que defende que uma tecnologia sozinha não pode ser responsável por criar ou acabar com a esfera pública, mas é o uso que as pessoas fazem dela, somado ao contexto social e cultural, que possibilita que certos fenômenos ocorram:

Embora seja importante evitar o ponto de vista determinista de que as tecnologias online são capazes, por si próprias, de ‘criar ou quebrar’ uma esfera pública, também é necessário entender que as tecnologias frequentemente incorporam suposições sobre seus possíveis usos, que podem ser rastreados ao ambiente político, cultural, social e econômico que os traz à vida. Portanto, não é a natureza das tecnologias em si, mas sim o discurso que as rodeia, que orienta como essas tecnologias são apropriadas por uma sociedade. (PAPACHARISSI, 2009, p. 230)

Sem a pretensão de concluir se existe uma esfera pública digital, nossa intenção foi trazer algumas visões sobre este assunto para compreender as principais potencialidades e desafios da deliberação pública no ambiente online. As plataformas de redes sociais online possuem algumas propriedades e potencialidades que poderiam ser utilizadas para estabelecer uma esfera pública robusta e incentivar o processo de deliberação pública - como o acesso à informação quase irrestrita, o potencial de comunicação muitos-muitos e espaços para debate abertos a todos que tiverem acesso à tecnologia e visíveis para serem acompanhado por muitos. Porém, outros fenômenos trazidos ao longo deste capítulo - como as desordens informativas e as bolhas ideológicas - atrapalham este processo deliberativo no ambiente online, limitando os ganhos democráticos e, por fim, diminuindo a possibilidade de o debate nas plataformas de redes sociais online configurar uma deliberação pública ou ainda, uma esfera pública. Durante nossa pesquisa,

investigamos como ocorreu o debate político sobre as eleições brasileiras de 2018 na plataforma de redes sociais online Facebook para tentar compreender se este debate pode ser considerado um debate político com deliberação pública ou se ele foi contaminado em função da desordem informativa, discurso incivilizado e bolhas ideológicas.