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5 ANÁLISE DOS DADOS

5.1 Questionário

5.1.4 Resultados dos questionários

Os dados dos questionários desenvolvidos indicam que a plataforma de redes sociais online Facebook teve impacto na aquisição de informações sobre as eleições 2018 por parte dos usuários da ferramenta. Os respondentes concordaram que a plataforma foi uma das principais fontes de informações sobre as eleições 2018 e, apesar de não elegerem a ferramenta como a sua fonte principal de informação, a grande maioria afirmou ter recebido informação sobre as eleições 2018 mais de uma vez por dia durante a campanha eleitoral. Os respondentes também afirmaram que a plataforma incentiva as pessoas a se informar sobre política e terem sido expostos a mais informações relacionadas ao tema em função do uso da ferramenta. Ao mesmo tempo, os

respondentes avaliam negativamente as informações recebidas através da ferramenta, identificam a circulação de boatos e informações falsas e afirmaram não confiar nas informações recebidas na plataforma Facebook.

Ainda pensando na aquisição de informação política por parte dos usuários, mas procurando investigar a existência dos fenômenos filtro bolha e câmaras de eco, podemos destacar que os respondentes afirmam ter recebido informações de fontes e conteúdos diversificados na plataforma Facebook e terem amigos com ideologias diferentes ou que são eleitores de candidatos diferentes na ferramenta. Porém, ao mesmo tempo, os respondentes dizem não terem recebido informações de todos os candidatos igualmente, já ter excluído e parado de seguir pessoas em função de seus posicionamentos políticos e que não procuram seguir páginas e pessoas que defendem diferentes espectros políticos, ideologias e candidatos – o que podem ser indícios dos fenômenos filtro bolha e câmara de eco.

É importante ressaltar que, comparando o questionário 1 e o questionário 2, identificamos algumas alterações nas respostas. A percepção da influência da plataforma Facebook na política aumentou: mais pessoas passaram a achar que a ferramenta é a principal fonte de informação sobre as eleições e que incentiva as pessoas a se informar sobre o pleito. Além disso, as pessoas passaram a receber informações sobre o tema com mais frequência na linha do tempo da plataforma ao longo da campanha. Ao mesmo tempo, as pessoas passaram a perceber uma maior circulação de boatos e informações falsas - isso pode se dar tanto pelo número de boatos e informações falsas circulando na plataforma rede social online ter aumentado no final da campanha, tanto por as pessoas estarem mais cientes e atentas ao fenômeno.

A mudança mais relevante para essa pesquisa foi o aumento da participação dos respondentes no debate acerca das eleições na plataforma. Os dados indicam que as pessoas foram incentivadas e passaram a compartilhar mais informações políticas e a se engajarem em mais debates na plataforma ao longo da campanha eleitoral 2018. Porém, não é possível concluir se esta mudança de comportamento se dá em função da campanha eleitoral – particularmente polarizada em 2018 -, do uso da ferramenta Facebook ou os dois fenômenos em conjunto. Aqui, é importante lembrar que as plataformas não apenas mediam as informações, mas são projetadas para moldar a participação dos usuários e para fazer com que eles passem o máximo de tempo utilizando a ferramenta (GILLESPIE, 2018; HARRIS, 2016).

Além disso, como Vaidhyanathan (2018) explica, a plataforma Facebook amplifica os conteúdos que geram emoções fortes como prazer ou indignação, como os temas e posicionamentos mais radicais e polêmicos da política, o que pode justificar este aumento de engajamento ao longo da campanha eleitoral. Esta prática da ferramenta também pode levar a um acirramento da polarização política e incentivar as pessoas a se fecharem em câmaras de eco em função deste contato com conteúdo que causam indignação. De qualquer maneira, o debate que acontece na rede é mal avaliado pelos próprios respondentes e os dados sugerem que eles não são realizados em redes heterogêneas - o que a literatura defende que é o melhor para o funcionamento da democracia. Em relação a influência do uso da plataforma de redes sociais online Facebook no comportamento eleitoral, os respondentes acreditam que a ferramenta influencia o voto das outras pessoas, mas não admitem a influência na decisão do seu próprio voto. Como vimos, esta divergência nas respostas pode ser causada pelo medo do julgamento por parte dos respondentes (CHAGAS, 2000). Baseado na literatura que defende que a informação e o conhecimento político é vital para que os cidadãos possam tomar decisões e a democracia possa funcionar (MUNGER et al., 2017; DAHL, 2000), e que as pessoas afirmaram ter recebido informação sobre as eleições mais de uma vez por dia e terem sido expostas a mais informações sobre o pleito em função do uso da ferramenta, é possível considerar que o uso da plataforma de redes sociais online influencia a formação do voto ao menos parcialmente. Afinal, se as informações e o conhecimento político são tão importantes para a tomada de decisões e os usuários da plataforma Facebook recebem tantas informações políticas através da plataforma, estas informações recebidas através da plataforma devem influenciar, mesmo que seja em parte, o comportamento eleitoral de seus usuários. Além disso, nos questionamos se o recebimento de informações através da ferramenta pode ser considerado um atalho informativo, uma maneira de se informar e tomar decisões com o menor esforço, como explica a Teoria da Escolha Racional, tratada no primeiro capítulo desta dissertação. Será possível investigar este ponto mais afundo através das entrevistas.

Apesar de ser difícil medir o tamanho da influência da plataforma de redes sociais online Facebook na formação do voto dos usuários, esta acontece em um contexto de desordens informativas e bolhas ideológicas. As desordens informativas, apontadas pela literatura e pelos respondentes nos questionários, podem levar as pessoas ao engano, achando que estão bem informadas quando não estão e fazer com que as pessoas tomem decisões que podem não estar de acordo com as suas opiniões e necessidades. A polarização política que permeou a campanha

eleitoral 2018 pode ser reforçada pelos fenômenos filtro bolha e câmara de eco identificados nos questionários, fazendo com que o consumo de informações políticas e debate político que acontece na ferramenta sejam realizados em redes homogêneas, o que também é ruim para a democracia de acordo com a literatura trazida nesta dissertação.

Apesar dos dados indicarem que a plataforma aumenta a exposição a informações políticas, incentiva as pessoas a se informar sobre as eleições e se engajar em debates sobre o tema e influencia a formação do voto ao menos parcialmente, esta influência exercida pela ferramenta parece ser mais negativa do que positiva. A influência deve ser negativa em função das pessoas estarem inseridas em redes sociais homogêneas dentro de bolhas ideológicas - causada não só pelos algoritmos da ferramenta, mas ativamente pelos usuários - e do cenário de desordens informativas que foi estabelecido na ferramenta - como a literatura defende e os dados analisados sugerem. A análise destes questionários indica que o uso da plataforma de redes sociais online Facebook incentiva e aumenta o engajamento com as eleições - o que seria positivo para a democracia -, porém, reforça a polarização política e dissemina as desordens informativas, o que pode levar as pessoas tomarem decisões e assumirem posicionamentos políticos que não teriam em um ambiente diferente.