4. O DESENVOLVIMENTO
4.2 A PLURIFUNCIONALIDADE E O DESENVOLVIMENTO
94BARROSO, L. R. Vinte anos da Constituição de 1988: A reconstrução democrática do Brasil. Revista de informação legislativa, v. 45, n. 179, p. 25-37, jul./set. 2008. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/outras- publicacoes/volume-i- constituicao-de-1988/vinte-anos-da-constituicao-de-1988-a- reconstrucao-democratica-do-brasil. Acesso em 10 jun. 2019.
A ideia de plurifuncionalidade95 significa, entre outras acepções que a classificação dos
direitos em gerações não é suficiente às necessidades que os direitos tentam enfrentar. Pois, neste sentido, os direitos têm várias funções. Ou seja, os direitos não são em si uma razão, mas na verdade eles tencionam ao alcance de um propósito. Daí a expressão plurifuncionalidade de direitos, direitos que assumem várias funções. De fato, a plurifuncionalidade é uma classificação mais robusta que a classificação em dimensões, visto que ao considerar as diversas funções se consagra a prática dos tribunais, que caso a caso relacionam-se a um plexo de direitos. Dessa forma, um só direito comporta uma série de funções, variáveis conforme a situação. Ao passo que as gerações de direitos trazem a ideia de que os direitos vão se aperfeiçoando e por isso dando espaço a novos direitos, quando na verdade eles tencionam a prestações diversas.
Ao passo que o direito se manifesta de diversas formas eles tem efeitos tanto na esfera pessoal, individual quando social, coletiva. Todo direito se manifesta por meio de um exercício social. Tem-se como exemplo o direito à vida, que em primeiro momento parece ser um direito iminentemente pessoal, entretanto, ter direito a vida – em seu aspecto individual - também significa ter direito a que outro não o mate – que configura seu aspecto social. Igualmente, sob a função desenvolvimentista, poder-se-ia mensurar o “direito à livremente desenvolver-se”.
Com o fito de relacionar as diversas funções simultâneas que um só direito pode assumir, a expressão que consegue instrumentalizar os diversos direitos que decorrem de um só, é a plurifuncionalidade. Esta nomenclatura faz ser possível que exista uma inferência de que os direitos não só se dividem entre “individuais” e “sociais”, mas na verdade aprofunda-se a discussão quanto a complementariedade das funções e dos direitos.
Inclusive, isto também afasta a já desgastada separação entre os direitos individuais, que necessitam ser protegidos, e os direitos sociais que precisam ser prestados, bem como para caracterizar o real titular dos direitos. Em específico, quanto as funções desempenhadas pelos direitos, Mendonça traz-nos quatro categorias: a função desenvolvimentista, individual, social
95 MENDONÇA, F. A. de S. Introdução aos direitos plurifuncionais: os direitos, suas funções e a relação com o desenvolvimento, a eficiência e as políticas públicas. Natal: 2016. A plurifuncionalidade, as diversas funções, fazem ser possível ponderar os variados aspectos que um mesmo direito alcança. Como a saúde, por exemplo, manifesta-se sob a função individual quando se mensura o “direito de manter-se saudável”, ou sob a função social que mensura o “direito a uma prestação de saúde”.
e ambiental96.
Por certo o princípio de desenvolvimento assume no plano jurídico grande importância. Igualmente, a categoria desenvolvimento também pode ser concebida como um direito. Diz-se isso pela relação entre o texto constitucional e a exigência oponível ao judiciário que aponta a perspectiva do desenvolvimento como motor da relação jurídico-normativa. De igual forma ocorre com as prestações constitucionais e as funções operadas pelo Direito.
Pari passu, vincular à orientação constitucional e seus propósitos é falar sobre direitos.
Ante a garantia de prestações, vê-se como necessário indicar um horizonte em que o desenvolvimento, como um direito, signifique amplo acesso às políticas públicas. Pois, as funções necessárias ao homem se enquadram na maior projeção e maior expressão dos outros direitos. Significa, quase mensurar um direito em ter direitos. Pode-se discernir um cenário em que o direito ao desenvolvimento significa exigir prestações atreladas à função desenvolvimentista, efetivamente, as políticas públicas. Pois ressoa em todos os níveis do sistema jurídico, político e principalmente social, intimamente ligada à função desenvolvimentista. A partir disso, é oferecido um desenvolvimento humano capaz de conectar- se a normatividade fundamental.
Nesta perspectiva, vinculando à orientação constitucional e seus propósitos, busca-se uma abordagem mais ampla e que integre as transformações sociais e econômicas. É preciso ampliar os aspectos discutíveis e controvertidos do desenvolvimento, considerando os aspectos jurídicos. É necessário indicar um horizonte em que o desenvolvimento, como um direito, signifique amplo acesso às políticas públicas. Este é o centro da discussão, o direito de acesso as políticas públicas e os recursos orçamentários.
Ao retratar sob uma construção histórica desta perspectiva, pode-se afirmar que após a Segunda Guerra Mundial, operou-se determinada atenção a reconstrução de mecanismos que facilitassem a reestruturação de linhas de governabilidade globais e a criação de acordos
96As individuais dizem respeito ao papel do direito no que diz respeito aos interesses que são diretamente relacionados à possibilidade individualizável de alguém deter algo, fazer ou deixar de fazer alguma conduta ou exigir que alguém permita essa opção, de maneira excludente em relação aos demais indivíduos ou para o qual seja indiferente o exercício não conflituoso por outro indivíduo. As funções sociais estão diretamente relacionadas com a garantia das condições reais de exercício da função individual, a partir da consideração dos grupos sociais.
internacionais para o crescimento e facilitação das trocas tecnológicas e de mercado. Buscava- se a retomada do desenvolvimento, no sentido da reconstrução das possibilidades políticas e econômicas de relação entre os países e o fomento aos cuidados sociais.
Nesse hiato, as teorias do desenvolvimento assumem relevante papel na economia e no plano jurídico, vez que a compreensão das fases e objetivos do desenvolvimento possibilitam estruturar as decisões que coadunem às metas do Estado97. Portanto, além do aspecto normativo,
trata-se de uma discussão interdisciplinar que envolve tanto a via jurídica quanto a econômica. Destarte, o Desenvolvimento, além de uma pretensão atrelada aos objetivos do Estado Democrático de Direito é também um direito exigível, fundamental. Esta acepção instrumental faz valer a exigência da inserção em uma dinâmica de políticas, ações governamentais ou jurídicas, que resultem em ganhos de outras capacidades.
Considerar tantos fatores que possam se relacionar a esta razão, esta normatividade jurídica é aplicar a expansão das capacidades, das liberdades98. Por meio desta implementação
de políticas, o desenvolvimento se desenrola. O processo, entretanto, diz respeito a uma série concatenada de exigências a nível institucional e normativo: um novo enfoque às políticas. Significa que esta intenção passa a incorporar as próprias razões de estado, bem como seus objetivos. Igualmente, para construir uma análise profícua, é preciso não deixar de considerar que ao se tratar do objetivo de expansão de direitos e liberdades é fundamental trazer à voga a orientação jurídica dada ao tema e a discussão sobre os custos implicados
Nessa linha, compreendido o direito ao Desenvolvimento como um direito fundamental inserido na Constituição, há um reforço da obrigatoriedade da efetivação dos direitos sociais, culturais, econômicos e ambientais ali alicerçados, o que incrementa, sobremaneira, a responsabilidade estatal na criação e na condução das políticas públicas que visam à promoção desses direitos.
Afirma-se que o desenvolvimento assume um caráter mais normativo, palpável e
97 FREITAS, T.D. et al. Sen e o Desenvolvimento como liberdade. In: NIERDELE, T. A., RADOMSKY, G.F.W. (Org.). Introdução às teorias do desenvolvimento. Porto Alegre: UFRGS, 2016. p.50-64. Disponível em:
<http://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad101.pdf >. Acesso em: 8 abr. 2019.
98 As liberdades apontadas por Amartya Sen são as que criam as bases para o desenvolvimento. Esta dinâmica de instrumentalidade dá a possiblidade do desenvolvimento acontecer a medida em que a intervenção e atenção aos direitos estão atrelados.
exigível por meio das políticas públicas é antes uma pretensão dirigida aos objetivos do Estado, com ares de fundamental. Isto porque, além de estabelecido normativamente no corpo da CRFB, esta instrumentalidade tenciona a inserção de um objetivo constitucional. Ou seja, políticas, ações governamentais ou jurídicas, que resultem em ganhos de outros direitos.