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6. PARÂMETROS CONSTITUCIONAIS E INTERNACIONAIS À EC 95/1

6.3. O CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE COMO FERRAMENTA

O controle judicial de constitucionalidade148 é uma ferramenta para a averiguação da

compatibilidade ao todo o sistema e as normas Constitucionais, em especial, quanto às cláusulas pétreas, que, como visto, é o núcleo imutável da Constituição. E igualmente, a emenda poderá sofrer este controle quando averiguada a incompatibilidade constitucional.

Porquanto, é possível apontar que a compatibilidade constitucional da emenda deve ser analisada em relação às cláusulas pétreas149. A saber, a forma federativa de Estado, o voto

direto, secreto, universal e periódico, a separação dos poderes, os direitos e garantias individuais. De modo específico, a principal consideração quanto a compatibilidade da EC 95/16 deve ser feita em relação aos direitos e garantias individuais.

147 Ibidem.

148 A CRFB inovou e trouxe o controle de constitucionalidade como um limite constitucional oponível por uma série de legitimados. Como o Presidente da República, a Mesa do Senado Federal, a Mesa da Câmara dos Deputados, a Mesa de uma Assembleia Legislativa, o Governador do Estado, o Procurador-geral da República, o Conselho Federal da OAB, partido político com representação no Congresso Nacional, confederações sindicais ou entidades de classe no âmbito nacional.

Dito isto, o Brasil como um dos países mais desiguais do mundo, conforme o índice de Gini, necessita antes da melhora no equilíbrio fiscal. A fruição das garantias que passam pelo orçamento público necessitam antes reforma tributária com justiça fiscal. Exatamente o oposto do que o atual governo fez com a EC 95/16. De igual maneira, os Estados signatários do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), de força constitucional vinculante (Decreto 0591), como o Brasil, comprometem-se a adotar medidas, utilizando o máximo de seus recursos disponíveis, que assegurem progressivamente pleno exercício dos direitos. O que se contrapõe frontalmente com o teto para as despesas sociais, sem regulamentar as despesas financeiras.

Outrossim, através da análise dos objetivos constitucionais e os compromissos internacionais assumidos e os efeitos advindos da EC 95/16, é possível apontar que seja pelo financiamento do Estado com Justiça Fiscal, o uso máximo de recursos disponíveis, a realização progressiva de direitos, ou a participação social, há patente inconstitucionalidade na manutenção do NRF. Este cenário, dá ao Brasil uma perspectiva de futuro deveras insatisfatório. Tanto pelo subdesenvolvimento, seja pela perspectiva de voltar ao Mapa da Fome150. A EC 95/16 não atende nenhum dos princípios aspectos internacionais de Direitos

humanos, assumidos perante as Nações Unidas relativos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), tampouco responde positivamente ao dever constitucional de busca ao Desenvolvimento.

Especificamente, como vê-se a criação do limite financeiro aos próximos 20 anos, imputado pela EC 95/16, retira uma série de garantias e diretos de modo a ser consolidar como uma afronta aos direitos e garantias individuais. Pois, além de retirar a apreciação democrática e popular da escolha e destinação dos recursos públicos, a EC 95/16 também faz consolidar um projeto ulterior de austeridade e desregulador de benefícios. Uma contramão à plurifuncionalidade dos direitos e do Desenvolvimento.

Desta sorte, é necessário que seja realizada uma crítica à fixação destes parâmetros econômicos, que tem um norte absolutamente austero e que mantém o corte de gastos como

150 Estudo elaborado desde 1990 pela FAO, principal órgão internacional de incentivo a políticas de combate à fome e à promoção do alimento. O mapa reúne e analisa dados sobre a situação da segurança alimentar da população mundial. O Brasil saiu deste mapa em 2014.

motriz ao crescimento econômico, ao passo que a dinamicidade do mercado, produção e consumo globais seguem no sentido oposto ao de mais investimento e maior incremento público às garantias e à redução da pobreza. Ao mesmo tempo, parece estender a austeridade à um caminho desacertado socialmente, incongruente no âmbito econômico e inconstitucional. Ao tratar, de forma simplória, a austeridade como a chave econômica para o regresso do desenvolvimento.

Viu-se que a austeridade se baseia em um plano de que tanto o mercado quanto os empresários irão retomar a confiança e que por isso operacionalizarão mais investimentos. Entretanto, não há evidência que sustente tal suposição, a não ser a confiança de mercado. Mas, como visto, as posturas internacionais dos países em processo de desenvolvimento costumam fazer justamente o contrário. Ao passo que o modelo econômico da EC 95/16 tem se mostrado, como um norte de recessão econômica que aprofunda, fortemente, a desigualdade social e a pobreza, principalmente a população mais vulnerável do país.

Um problema, como enfrentamento ao desenvolvimento plurifuncional da CRFB. Bem como, há de se mencionar, a concepção econômica elegida é, segundo Stiglitz151, um

acreditar na força e vontade dos atores do mercado, que não sustenta certeza à população. Em sede de uma construção argumentativa de resposta à crise, por uma opção política e de fragilidade técnica, que busca manter, por um extenso prazo de 20 exercícios financeiros, a austeridade imutável e a opção econômica de fuga à crise econômica, mas que poderá aumentar, ainda mais, a desestabilidade econômica e social.

Viu-se, na exposição de motivos do ainda Projeto de Emenda Constitucional n° 241, enviado à Câmara dos Deputados, que a implementação da EC 95/16 se motiva justamente por estas razões, a do reestabelecimento fiscal e econômico do país. Segundo o documento elaborado pelo então Ministro da Fazenda e Ministro do Planejamento, diz-se que:

“A implementação dessa medida aumentará previsibilidade da política macroeconômica e fortalecerá a confiança dos agentes; eliminará a tendência de crescimento real do gasto público, sem impedir que se altere a sua composição; e

reduzirá o risco-país.” 152

É, pois, mostrado o NRF como ferramenta indispensável à solução econômica, ao passo que também se expõe como uma opção política, e, diante das cláusulas pétreas, a Emenda Constitucional nº 95/16 retira as diversas maneiras de enfrentar o problema. Não se trata, de modo algum, de uma decisão técnica. Mostrando-se, em especial pela manutenção das desigualdades e da pobreza, como uma opção que incrementa a derrocada dos valores constitucionais, democráticos e sociais.

152 MEIRELES, H. de C. OLIVEIRA, D.H. Proposta de Emenda à Constituição – PEC 241. Brasil, 2016.

Disponível em <

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1468431&filename=PEC241/2016> Acesso em 20 jul. 2019.

7. CONCLUSÃO: A PERSPECTIVA JURÍDICA AO ENFRENTAMENTO DA