Capítulo 3 – Emergência e desenvolvimento da avaliação de impacto ambiental
3.3. A Política Nacional Ambiental e seus instrumentos
Como política pública, a criação do NEPA representa uma tentativa de regulação da administração, orientando-a com base em princípios tais como o da eficiência e da transparência. Em outras palavras, transformar o agir estatal a partir da criação de procedimentos de auxílio à tomada de decisão – que, no caso norte-americano, já vinha ganhando força com o Administrative Procedure Act, de 1946 – e que contemplem a variável ambiental em sua análise. A despeito dos múltiplos efeitos e apropriações, em especial por parte do movimento ambientalista, o comprometimento dos membros do congresso
naquele momento era com a otimização da gestão pública, ainda que o rol de princípios do artigo 101 seja mais amplo, incluindo diversos temas de natureza ambiental. Como descreve Caldwell (1998 p. 48), a estratégia da avaliação de impacto ambiental era corrigir a tendência das agências federais de perseguirem objetivos orientados a uma só direção, com informações inadequadas e pouca atenção em relação a efeitos colaterais ou consequências não desejadas (tradução livre). O NEPA introduz um expressivo deslocamento tanto no que diz respeito ao papel do Estado como na forma em que os recursos naturais devem ser administrados. Ou seja, o controle direto que incide sobre o entorno é preterido em relação à uma abordagem gerencial, na qual a função administradora é direcionada e justificada no sentido da eficiência econômica.
De forma simplificada, segundo a legislação em vigor, a aplicação do NEPA se dá sempre que agências federais propõem uma ação com potencial de afetar o meio ambiente45. Essas ações incluem políticas públicas, planos, programas e projetos, inclusive aqueles que utilizam recursos federais. Por outro lado, nem todos os Estados possuem normas a respeito. Levantamento realizado por Welles (1997) apontava que, até a publicação do artigo, apenas 17 Estados possuíam regras similares – uma pesquisa preliminar realizada no curso do presente trabalho indica que este número se mantém praticamente inalterado, ainda que a legislação ambiental estadual tenha se ampliado e outros estudos e análises incluídos no processo decisório.
Em adição aos preceitos principiológicos que conferem ao NEPA características de texto constitucional, para sua operacionalização, o estatuto normativo se vale principalmente de dois elementos, quais sejam, o Conselho de Qualidade Ambiental (CEQ) e a avaliação de impacto ambiental. O primeiro, trata-se de órgão diretamente subordinado à Presidência, composto por três membros indicados pelo Presidente e confirmados pelo Senado, cujo status se equivale ao do Conselho de Atividades Econômicas. Isto é, suas principais obrigações incluem a elaboração de relatórios anuais sobre a política ambiental,
45 Ainda que, no início, as avaliações de impacto ambiental fossem preparadas apenas por
agências públicas para seus respectivos projetos, o entendimento atual é que sua aplicação inclui os projetos privados que de aprovação do governo federal, seja por meio da concessão de licenças e autorizações ou, ainda, no que diz respeito ao financiamento com recursos federais de determinados projetos (cf., por exemplo, o caso Friends of Mammoth v. Mono County no Estado da Califórnia).
o monitoramento acerca da implementação do NEPA pelas agências federais, a mediação dos conflitos potenciais entre essas agências, e a elaboração de diretrizes para o cumprimento da legislação ambiental.
Dentre as atribuições listadas, atualmente a principal competência do CEQ está relacionada ao dever de assegurar que as agências federais cumpram e implementem as disposições contidas no NEPA. Ressalte-se que tal competência não estava originalmente prevista no texto aprovado, foi designada pelo presidente Nixon em 1970 a partir da edição de Decreto (Executive Order n. 11514) que autorizou o CEQ a emitir regulamentos para fixar os procedimentos de implementação da política ambiental. No mesmo ano, o conselho passou a editar diretrizes, entretanto, estas não possuíam caráter vinculante às agências federais. Essa situação foi alterada somente em 1977, quando o presidente Carter modificou a natureza das normas produzidas pelo CEQ tornando-as de cumprimento obrigatório por todas as agências submetidas à sua regulação. A partir dessa alteração, as diretrizes emitidas pelo CEQ foram revistas e incluíram não apenas o aprendizado decorrente da aplicação da norma, mas também outras inovações normativas (e.g., do Clean Air Act) e decisões judiciais (Luther, 2005).
O segundo principal instrumento introduzido pelo NEPA é a avaliação de impacto ambiental. Isto é, a norma obriga que todas as agências do governo federal elaborem e incluam em suas recomendações, relatórios sobre propostas legislativas ou outras ações importantes uma ‘declaração detalhada’ (detailed statement) para toda ação capaz afetar de forma significativa a qualidade do meio ambiente humano (art. 102, alínea c). Esse documento deverá conter, obrigatoriamente, o impacto da ação proposta; os efeitos ambientais adversos que não poderão ser evitados, caso seja implementada; alternativas ao projeto; a relação entre os usos locais e de curto prazo do ambiente humano e a manutenção e melhoria da produtividade a longo prazo; e, qualquer comprometimento irreversível e irrecuperável de recursos envolvidos, caso a ação proposta seja implementada. Essa ‘declaração detalhada’ descrita e incorporada no NEPA ao longo do processo legislativo veio a ser popularmente conhecida como avaliação de impacto ambiental. Esse caráter altamente pragmático do procedimento pode ser percebido como uma resposta à
necessidade de operacionalizar as diversas propostas legislativas ‘anti-poluição’ e concernentes à política ambiental em curso no congresso naquele período. Em sua maioria, estas tratavam apenas de princípios ou mecanismos vagos, sem capacidade de instrumentação da política pública ambiental (Caldwell, 1977).
A avaliação de impacto ambiental é comumente definida pela bibliografia a partir do trabalho de Munn (1977, p. 135), que entende o instrumento como uma atividade projetada para identificar, prever, interpretar e comunicar informações sobre impactos na saúde e bem-estar humanos causados por determinadas ações, como grandes obras de engenharia (tradução livre). Devido a sua relevância e importância para a promoção do instrumento internacionalmente, destacamos também as definições produzidas pela International Association for Impact Assessment (IAIA) que entende a avaliação como o processo de identificar, prever, avaliar e mitigar efeitos biofísicos, sociais e outros considerados relevantes nas propostas apresentadas antes que decisões sejam tomadas e compromissos assumidos (tradução livre) (IAIA, 1999); e, pelo novo Marco Social e Ambiental do Banco Mundial, publicado em 2017, que a define como sendo um instrumento para identificar e calcular impactos sociais e ambientais potenciais de um projeto proposto, avaliar alternativas e projetar as medidas próprias de mitigação, administração, e monitoramento46. Sintetizando, Wathern (1988) afirma tratar-se de um processo que visa fornecer aos tomadores de decisão uma indicação das prováveis consequências de suas ações47. Para o autor, a avaliação de impacto não força os tomadores de decisão a adotarem a alternativa menos danosa do ponto de vista ambiental, se fosse esse o caso, poucos projetos seriam adotados.
Essas definições explicitam um elemento fundamental do instrumento, qual seja, ainda que esteja orientada para observar uma conduta ou um conjunto de comportamentos, a avaliação não incide diretamente sobre eles. Ao contrário, o procedimento requalifica e estrutura o quadro possível de ações e, ainda, oferece estímulos e informações para que, no interior de uma ampla margem permitida, a resolução do problema seja desenvolvida pelos
46 http://documents.worldbank.org/curated/en/383011492423734099/pdf/114278-WP-REVISED-
PUBLIC-Environmental-and-Social-Framework-Dec18-2017.pdf (último acesso em 08.02.2018)
47 Outras definições podem ser observadas em Formby (1990); Formby (1990), Glasson, Therivel
próprios atores. A avaliação de impacto desloca o papel do Estado da condição de determinador das condutas para a posição de mantenedor e estimulador do cumprimento de regras básicas operacionais de acesso e exploração do meio ambiente. Ou seja, mesmo que ao final do procedimento o Estado emita uma manifestação autorizativa, em regra, esta refletirá as análises e decisões construídas no interior da dinâmica promovida pela avaliação de impacto.
Como reiteradamente sustentado, a instituição do referido modelo de avaliação está ligada a uma ruptura muito específica no que se refere ao modo no qual o homem e seu entorno passam a ser considerados no planejamento e execução de empreendimentos públicos e privados. Isso, por outro lado, não implica dizer que, antes da instituição dos processos de avaliação fundados no NEPA, o território, seus componentes e potenciais interferências eram desconsiderados, apropriados de forma caótica, ou possuíam uma menor representatividade na formação da escolha dos agentes envolvidos. Pelo contrário, apenas para nos limitarmos ao século XX, Munn (1977) afirma que, por vários anos, cientistas já vinham conduzindo avalições ambientais, em especial nos países socialistas e em temáticas específicas, tal como energia nuclear. Tais estudos possuíam caráter majoritariamente técnico, com circulação limitada, sendo, em geral, sigilosos.
Adicionalmente, esse deslocamento da ação pública, que vem acompanhado de uma parametrização específica dos saberes envolvidos, aglutina uma pluralidade de matérias em uma cadeia de procedimentos específicos. Essa reorganização multidisciplinar, que fundamenta a própria avaliação, produz novos dados e informações cuja forma e conteúdo são característicos da operacionalização do procedimento. Não se trata de tornar público informações pré-existentes, ao contrário, o instrumento viabiliza a criação de um novo conjunto de elementos e, estes sim, são disseminados publicamente. Seria equivocado, por exemplo, imaginar que a avaliação iluminaria o agir oculto da burocracia, isso porque, até então, esta nunca havia agido desta maneira. Uma vez disponibilizado, esse conjunto de análises – produzidas e organizadas a partir de um formato definido pela própria avaliação – pode ser apropriado e manipulado pelos atores envolvidos de maneiras, ao menos em tese, distintas, inclusive para outros casos. De todo modo, importante
observar que as formas de apropriação popular – ao menos no início da aplicação do NEPA – limitaram suas abordagens aos aspectos formais do procedimento, deixando de tratar sobre questões de ordem material, cuja complexidade da intervenção, em regra, apresenta-se diretamente proporcional a magnitude da ação estudada (Sumek, 1973).
Ainda que a publicização dos saberes seja um elemento importante nessa dinâmica, a conceituação de meio ambiente, as diversas disputas entre os saberes, a aglutinação destes em processos e a intensificação das tentativas de objetivação dos bens ambientas, emergem como fundamentos indissociáveis na formulação dessa nova perspectiva de administração do homem e do seu entorno. Os limites do liberalismo econômico, a escassez, os impactos provocados pelos conflitos na primeira metade do século XX e, em seguida, a tensão imposta pela guerra fria colocavam ainda mais em evidência a necessidade de mapear elementos estratégicos e de potencial interesse; fomentar o desenvolvimento de técnicas para otimização do seu acesso; e, promover novos padrões legítimos de exploração dos recursos naturais. Sob essa perspectiva, uma vez que se propõe racional, técnica, neutra, autônoma, gerencial e universal, a avaliação de impacto norte-americana, elaborada sob a premissa de promoção da eficiência na esfera estatal, acaba por desempenhar também um papel estratégico na reorganização do mercado. Essa atuação se opera na medida em que, ao tornar o escrutínio técnico da proposta de acesso (a bens ambientais) um imperativo para qualificar a empreitada e a atuação estatal como legais, legítimas e responsáveis, estaria também se opondo às práticas de exploração fomentadas pelo laissez-faire que, sob a ótica ambiental, poderiam ser resumidas na ideia de subjugação pela espécie humana de tudo aquilo que se apresente como uma oposição ou seja aparentemente indomável.
Desse modo, com a edição do NEPA, abre-se caminho para o desenvolvimento da ideia que cada intervenção humana capaz de provocar interferências no meio ambiente pode (e deve) ser submetida a um processo de avaliação. Repare que o tipo de intervenção apenas distinguirá o procedimento e seu respectivo conteúdo. A partir dessa nova perspectiva de compreensão dos desdobramentos das interferências sobre o meio ambiente, toda e qualquer ação (deve) passar por um crivo analítico, em regra, racional e científico. Veja, nesse
sentido, o procedimento criado pelo NEPA para controle das ações conduzidas pelas agências federais, a seguir descrito de forma simplificada apenas para fins de ilustração da afirmação anterior.
Conforme ilustra a Figura 1, em primeiro lugar, é conduzida uma análise a fim de verificar se a ação proposta produzirá significativo impacto ambiental – conforme o contorno conceitual definido na norma48. Caso negativo, indaga-se sobre a possibilidade de aplicar a regra de exclusão categórica49 à ação proposta. Não havendo qualquer circunstância extraordinária que impeça o prosseguimento do procedimento (e, portanto, caracterize a necessidade de uma avaliação mais detida) a atividade é submetida ao escrutínio decisório da agência federal respectiva (CEQ, 2007).
A segunda possibilidade, que se apresenta como intermediária, ocorre nos casos em que se tem dúvida a respeito da existência de significativo impacto ou nas situações em que – em função de circunstâncias extraordinárias, também definidas pelas agências – não é possível aplicar a regra de exclusão categórica. Nesses casos, elabora-se uma avaliação ambiental (environmental assessment - EA) inclusive contanto com intervenções populares. Caso essa análise, cuja complexidade é inferior à condução de um estudo de impacto ambiental (EIA) (environmental impact statement - EIS), não detecte a existência de significativo impacto50, prevê-se a elaboração de documento conclusivo a respeito da desnecessidade de se prosseguir uma apreciação mais detalhada (Finding of No Significant Impact – FONSI) e o processo é encaminhado à decisão. Caso a agência proponente opte pela realização da ação, segundo a legislação, esta deverá se comprometer com a execução de medidas de mitigação e monitoramento sugeridas na análise ambiental (CEQ, 2007).
48 Haja vista que nos primeiros anos as diretrizes da CEQ não possuíam natureza vinculante,
parte dos conceitos chave para aplicação do NEPA acabou sendo definida a partir de disputas judiciais. Como é o caso do conceito ‘significativo’. Nessa situação, foi decidido que a agência deve classificar o impacto por meio da criação de uma linha de base que considere a área afetada para definir a partir de que momento os impactos gerados podem ser considerados significativos. (Sobre esse assunto ver o caso Hanley v. Kleindienst).
49 Trata-se de uma categoria de ações em que a agência compreende que não há significativo
impacto na qualidade do meio ambiente, seja individual ou cumulativamente. Com base na sua experiência acumulada, as diversas agências federais elaboram listas de ações específicas, ligadas às suas atividades, nos momentos em que desenvolvem ou revisam seus procedimentos de implementação do NEPA (cf. CEQ NEPA Regulations, 40 C.F.R. § 1.508.4).
50 Ou caso os impactos significativos detectados sejam compensáveis mediante a aplicação de
NÃO 5. Efeitos ambientais significativos incertos ou não aplicação da exclusão categórica 7. Descoberta de ausência de impacto significativo (FONSI) 6. Desenvolvimento de uma avaliação ambiental (EA) com envolvimento público praticável Efeitos ambientais significativos? SIM 8. Efeitos ambientais significativos podem ou irão ocorrer 9. Aviso de intenção de preparação do EIA (EIS) 10. Scoping e envolvimento público 11. Rascunho do EIA 12. Envolvimento, comentários, e revisão pública 13. EIA Final 14. Publicação da decisão final 15. Decisão final (Record of Decision)
Implementação com monitoramento conforme previsto na decisão final 3. A ação proposta
está incluída na regra de exclusão
categórica
1. Identificação e elaboração de proposta de ação pela agência
2. Indaga-se: os efeitos ambientais podem ser significativos?
NÃO SIM
Decisão 3. A ação proposta
está incluída na regra de exclusão
categórica SIM NÃO
NÃO
SIM
Figura 1 – Procedimento de avaliação de impacto ambiental (NEPA)
Por fim, a terceira hipótese contempla as situações em que as agências envolvidas concluem pela existência de possíveis impactos ambientais significativos na proposta avaliada. É somente nesses casos que a legislação exige o preparo de um estudo de impacto ambiental pelo NEPA51. Essa análise detalhada ocorre por meio de procedimento específico – ainda que as agências federais possuam alguma autonomia em relação a determinados aspectos, por exemplo, no que diz respeito à fase de definição do escopo da avaliação (em inglês, scoping). De forma sintética, e seguindo o fluxo apresentado na Figura 1, a primeira etapa desse estágio é o anúncio público acerca da elaboração do estudo de impacto ambiental em relação a determinada proposta de ação. A esse estágio segue-se a mencionada fase de scoping. Isto é, momento no qual são definidos os elementos que serão submetidos à avaliação, essa etapa deve permitir intervenções externas, produzidas pela sociedade civil – em especial no tocante à identificação das questões mais sensíveis para a comunidade local. É também fixado o cronograma de execução do estudo. Em seguida, um rascunho do trabalho é elaborado e submetido ao escrutínio popular por meio de nova fase de comentários, que pode incluir também a realização de audiências públicas. Incorporadas as manifestações e conduzidos os eventuais ajustes, uma versão final da análise é preparada e novamente encaminhada para controle externo. Somente ao final desse processo o documento decisório pode ser emitido (Record of Decision)52. Dentre outros, este deve identificar as alternativas consideradas, especificar as alternativas e medidas mitigadores preferenciais sob o ponto de vista ambiental, bem como – no caso de não execução da ação – se comprometer a condução do monitoramento da implementação das sugestões introduzidas pela avaliação (CEQ, 2007).
Observando estritamente sob a perspectiva normativa, o NEPA define um procedimento prévio de orientação à tomada de decisão que inclui um
51 Em virtude da amplitude do escopo da norma o estudo de impacto ambiental pode ser
produzido para atender a uma demanda de projeto específico (site-specific) ou um grupo de ações conectadas para implantar um plano ou uma política pública (programmatic). Nesse último caso, criou-se ainda um outro procedimento, a avaliação ambiental estratégia.
52 Ainda que algumas agências federais prevejam procedimentos administrativos revisionais,
iniciados a partir de um pleito externo ao final dos processos de avaliação, o questionamento judicial dos procedimentos, em regra, tem por objeto as decisões finais emitidas, seja a exclusão categórica, a conclusão de identificação de ausência de impacto, ou o registro de decisão, no caso do estudo de impacto ambiental.
conjunto específico de elementos a serem considerados, aglutinados no conceito de meio ambiente. Inaugura-se uma etapa contínua e complexa de novas categorizações, hierarquizações, objetivações e embates no entorno dos procedimentos de avaliação. Apesar das prescrições legais buscarem criar um procedimento padrão, pretensamente hermético, a pluralidade de análises envolvidas escapa às tentativas de simplificação, tornando fluxogramas como o da Figura 1, um mero esboço incapaz de identificar outras etapas intermediárias desenvolvidas para lidar com situações específicas. Essa dinâmica também é observada no que diz respeito à composição do conjunto de bens ambientais. Isso porque, a definição do escopo da avaliação também é objeto de constantes disputas que operam produzindo múltiplas tensões no interior do quadro de possibilidades. A própria definição – larga e abrangente – sobre o que vem a ser considerado meio ambiente é simultaneamente reiterada e posta em xeque a cada tentativa de se conduzir uma nova avaliação.
Destacamos uma passagem do texto de Munn (1975 p. 135) que ilustra as disputas entre os diversos saberes e as dificuldades experimentadas pelos técnicos em ter que lidar com a ampliação dos debates técnicos para incluir também a arena pública.
A comunidade científica tem o sentimento desconfortável que o quadro institucional para AIAs foi colocado antes do estabelecimento de uma base científica. Em particular, os cientistas de diferentes disciplinas ainda não sabem como trabalhar uns com os outros ou sociólogos ou economistas. Os cientistas não estão acostumados a terem suas análises submetidas ao escrutínio público e isso os deixa desconfortáveis. No passado, uma avaliação era considerada um ‘tigre de papel’ que raramente era questionada, exceto por colegas. (tradução livre)
De todo modo, importante ressaltar que, mesmo diante de uma pluralidade de oposições, são raros os posicionamentos que pretendem marginalizar a necessidade do cálculo resultante do processo de avaliação. Veja, por exemplo, o discurso empregado por aqueles que defendem que o aquecimento global não decorre da ação humana (cf. os posicionamentos públicos, por exemplo, do Dr. Philip Lloyd, Prof. Anastasios Tsonis, Prof. Claude
Allègre etc.)53. A profunda incorporação dessa prática desde a sua previsão primeira na década de 1970 pode ser ilustrada a partir do emblemático posicionamento de uma servidora pública do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano norte-americano (United States Department of Housing and Urban Development). Em um treinamento on-line promovido pela referida agência sobre o NEPA, a funcionária afirma “que a Política Nacional transformou a forma que agimos ao transformar a forma que pensamos”54.