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Capítulo 2 – Governamentalidade, racionalidade ambiental e avaliação de

2.1. Caracterizando a racionalidade ambiental em termos foucaultianos

2.1.1. Soberania, disciplina e governamentalidade

Como será apresentado mais adiante, a maior parte dos autores que trabalha a relação entre meio ambiente e política se valendo de conceitos foucaultianos como instrumental teórico para suas análises parte da ideia de

governamentalidade (Foucault, 1991, 2008; 2012) para adaptá-la ao que será chamado de ‘ecogovernamentalidade’ ou, ainda, ‘environmentality’. Foucault desenvolve o referido conceito de forma substantiva nas aulas de 1978 e 1979 em que introduz debates acerca das relações de governo. De todo modo, antes de tratar especificamente das tecnologias de poder trabalhadas por Foucault, cumpre introduzir de forma sucinta uma perspectiva geral sobre três pressupostos conceituais relacionados entre si, quais sejam, as relações de poder, a produção de verdade e a subjetivação, e que são fundamentais para o desenvolvimento do debate em questão.

Para Foucault (2015), o poder não é algo que se adquire, guarde, compartilhe, ou se perca. Não está localizado em um ponto central, em um foco de soberania, ele é exercido a partir de inúmeros pontos e em meio a relações intencionais desiguais, móveis e instáveis. Essa perspectiva relacional do poder não implica em localizá-lo em posição de superestrutura ou exterioridade a outras relações, pelo contrário, ela lhes seria imanente. Diferentemente de uma abordagem negativa e repressiva do poder, Foucault identifica que este possui um papel diretamente de produtor, de verdades, subjetividades e saberes – constituídos por conceitos, objetos, campos de conhecimento, técnicas de objetivação etc. Essa relação produtora que o autor identifica não tem por princípio ou matriz geral a existência de uma oposição binária e global entre dominadores e dominados, mas uma série de correlações de forças múltiplas e se forma e atua nos mais diversos campos. Desse modo, onde houver poder haverá resistência, pois esta também nunca se encontra em posição de exterioridade e se exerce sob uma pluralidade de resistências. Assim, é possível perceber o poder como onipresente – não porque agrupa tudo sob uma pretensa unidade – mas porque está a todo instante sendo produzido.

São essas relações de poder que qualificam os discursos como verdadeiros e falsos. Isso implica dizer que os objetos que virão a ser apreendidos pelos saberes não existem previamente ao próprio conhecimento, estes teriam sido justamente inventados, e a sua validação no interior de um regime de produção de verdade dependeria da adequação e submissão a procedimentos específicos. Esses modos de conhecer a verdade também decorreriam de sua implicação com as relações de poder. Nesse sentido, a

verdade não existiria fora ou sem o poder. Foucault estabelece uma relação circular entre os conceitos, haja vista que, ao mesmo tempo em que as relações de poder criam efeitos de verdade e saber, estas também criar efeitos de poder. Ou seja, a multiplicidade de relações de poder anteriormente descrita não se dissocia, estabelece, tampouco opera sem a produção, acumulação, circulação e funcionamento de discursos de verdade.

A própria relação do homem com a verdade define formas especificas de produção de subjetividades na medida em que o sujeito não é uma essência ou uma substância que preexiste à sua constituição, mas uma forma que é produzida historicamente a partir de discursos tidos como verdadeiros sobre os próprios sujeitos. Desse modo, as relações de poder não reprimem ou dominam subjetividades, mas participam do seu processo de constituição. Esses modos de subjetivação são percebidos por Foucault também como formas de objetivação, em que o sujeito é colocado sob condição de objeto em relações de saber e poder. Sob esse aspecto, objetivação-subjetivação seriam faces da mesma moeda, conectados um ao outro, cujo desenvolvimento é recíproco. A partir dessa objetivação que transforma os seres humanos em sujeitos, Foucault percebe o homem tanto como um objeto para o saber, visando a definição de um estatuto de verdade; para os poderes, a partir de práticas de individualização e normalização social; e, para si mesmo. Assim, a produção de subjetividades é o resultado de condições históricas, temporais, relacionadas a um momento específico e, nessa medida, tendentes ao desaparecimento, assumindo novas formas, dadas as alterações nas correlações entre poder e saber.

Feitas as referidas considerações, cumpre introduzir as três tecnologias de poder trabalhadas por Foucault: soberania, disciplina e governamentalidade. Tal como resume no curso “Segurança Território e População” (2008), essas tecnologias comporiam as grandes economias de poder no Ocidente. Em primeiro lugar, a soberania, que se configura no Estado de justiça, concebido a partir de uma territorialidade feudal, associado grosseiramente à uma ‘sociedade da lei’ constituída a partir de um jogo de compromissos e litígios; em seguida, a disciplina, no Estado administrativo, desenvolvido haja vista uma perspectiva territorial fronteiriça e não mais feudal, gerida por meio de regulamentados e instituições individualizadoras; e, por

último, a governamentalidade, centrada no Estado de governo, orienta-se não mais pelo território, mas sim em virtude da superfície ocupada por uma massa denominada população – seu principal objeto –, cuja administração se dá por instrumentos econômicos. Apesar de localizá-las historicamente em períodos específicos, Foucault afirma que não haveria uma sucessão de períodos, mas sim uma relação complexa entre os mecanismos que operacionalizam essas tecnologias em que dado uma correlação específica, uma ou outra seria percebida como predominante.

A primeira delas, apresentada como dominante pelo autor até o século XVIII, trata da soberania. Esta é operacionalizada pelo mecanismo jurídico-legal, a partir da divisão binária permitido-proibido e seu respectivo acoplamento a um código que registra a atividade vedada, bem como sua punição. A soberania se articula com o poder na medida em que este seria percebido como um direito originário e o contrato seria o fundamento do poder político. A relação soberano-súdito que se estabelece não ocorreria de forma absoluta, em paralelo a uma espécie de dominação. Pelo contrário, o exercício dessa soberania seria mediado pela existência de fundamentos obrigacionais legais que permitiriam sua manipulação visando a sobrevivência do próprio soberano, ou punindo uma violação de um mandamento previamente estabelecido. Sob essa perspectiva, o poder seria exercido de forma assimétrica e possuía características confiscatórias, como um direito de se apropriar de parte dos produtos, dos bens, do tempo, dos corpos e da vida – para, em última instância, suprimi-la.

Foucault observa uma transformação na correlação desses mecanismos de poder que culminará com o deslocamento da justificação jurídico-legal e a predominância do biológico, em que a vida passaria ser o objeto do poder. Com essa mudança o poder passaria a estabelecer de modo predominante seus pontos de fixação sobre a vida e seu desenrolar, surgindo a morte como o limite derradeiro. Sob essa perspectiva, os processos biológicos seriam apropriados, controlados e modificados pelos mecanismos disciplinares. Em oposição à natureza confiscatória parcial da soberania, agora se verifica uma apropriação total e completa do corpo, da vida e do tempo dos indivíduos, que ocorre de forma produtiva, e não destruidora. Tendo em vista a condição do

indivíduo singular, Foucault (1987) observa a emergência de um poder disciplinar voltado para um agir direto sobre o indivíduo e seu corpo adestrável. Essa relação se daria a partir de diversas instituições que atravessariam a vida desses sujeitos a serem disciplinados (e.g., escola, hospital, fábrica, prisão etc.) e o resultado observável seria um aumento da sua utilidade e força econômica, evidenciada haja vista as práticas de maximização de organização, produção e vigilância, e uma redução de sua capacidade política, materializada pelos processos de docilização dos corpos. Portanto, a disciplina também poderia ser observada sob um viés positivo, voltado para a produção de uma individualidade. Na última seção do primeiro volume da História da sexualidade (2015), publicado em 1976, para além de trabalhar a questão da gestão da vida a partir do prisma do corpo individualmente considerado pelos mecanismos disciplinares, Foucault trata também da administração do corpo a partir da sua condição como espécie humana, o que chama de ‘uma biopolítica da população’21. Assim, seriam as disciplinas do corpo e as regulações da população os dois polos em que o poderia teria se organizado sobre a vida. O autor retoma essa discussão em 1978 quando leciona o curso “Segurança Território e População” (2008). Nessa ocasião, é possível perceber logo na primeira aula um descolamento da noção de biopolítica anteriormente trabalhada e a introdução do que vem a ser compreendido como dispositivo de segurança, o mecanismo operacional que permitiria exercer a terceira tecnologia de poder, qual seja, a governamentalidade – cujo objeto principal seria a população22. Trabalharemos esta última tecnologia de forma mais detida haja vista suas implicações com relação à bibliografia mobilizada na seção seguinte e a interface evidente entre a lógica operacional do dispositivo de segurança e o meio.

21Naquele momento Foucault conceituou biopolítica como: “o que faz com que a vida e seus

mecanismos entrem no domínio dos cálculos explícitos, e faz do poder saber um agente de transformação da vida humana”. (2015, p. 154).

22 Ao trabalhar as características dos mecanismos de segurança, Foucault (2008) sustenta que

a população não poderia ser considerada a soma dos indivíduos que habita um determinado território, mas sim um conjunto de elementos que estaria inserido no regime geral dos seres vivos – espécie humana – e que apresenta uma superfície de contato para transformações autoritárias, mas refletidas e calculadas. Assim, agir sobre a população significaria atuar sobre coisas aparentemente distantes, mas que podem efetivamente atuar sobre ela, haja vista cálculos, análises e reflexões previamente conduzidas.

Foucault (2008) entende a governamentalidade a partir de pelo menos três elementos. Como um conjunto de instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer essa forma de poder cujo alvo principal é a população, cuja forma de saber principal é a economia política, e cujo instrumento técnico essencial seriam os dispositivos de segurança; como uma tendência no Ocidente em direção à promoção desse tipo de poder denominado pelo autor de ‘governo’ que teria culminado com o desenvolvimento de aparelhos e saberes específicos; e, por último, caracterizaria o resultado pelo qual o Estado de justiça da Idade Média – que nos séculos XV e XVI se tornou Estado administrativo – viu-se paulatinamente governamentalizado.

Para Koerner (2015), Foucault teria proposto o termo a fim de designar “um campo de problemas em que o exercício da autoridade do Estado tem como objeto a gestão de populações, em que os indivíduos são tomados como exemplares de uma espécie”. Desse modo, contrastaria com as duas outras formas de exercício do poder, a soberania e a disciplina. Ou seja, não se trata apenas de um modo historicamente referenciado de atuação do poder, mas de um campo de possibilidades a partir do qual há o encontro entre técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si (Foucault, 2012).

Essa forma própria de governo, cujo objeto é a população, teria sua lógica determinada principalmente pelos mecanismos de segurança. Para tratar especificamente desse assunto, Foucault (2008) o faz comparando-os tanto com a soberania, mas, principalmente, com o dispositivo disciplinar. No que diz respeito ao espaço de intervenção da segurança, afirma que estes mecanismos produziriam os ambientes em função de acontecimentos, série de acontecimentos ou elementos possíveis, remetendo a um temporal e a um aleatório que precisarão ser inscritos em um espaço determinado, identificado como meio. Dessa forma, se para a soberania a localização da sede do soberano é seu principal problema em relação ao território e para a disciplina o cerne é a organização hierárquica e funcional do espaço, os mecanismos de segurança trabalham, criam, organizam e planejam o meio antes mesmo da noção haver sido formada e isolada. O meio surge como o campo de intervenção possível para se atingir uma população, e sua manipulação a partir de técnicas políticas seria um dos eixos na implantação do mecanismo de segurança. Essa gestão

no nível das populações se dá haja vista uma lógica de preservação da liberdade dos comportamentos dos indivíduos e por meio de intervenções ambientais. A operacionalização desses mecanismos implicou na objetivação das populações e do ambiente, produzindo saberes que tratam especificamente das dinâmicas básicas de interação entre esses dois elementos.

Nesse contexto, a manutenção da liberdade dos indivíduos passa a operar como um correlativo da implantação do dispositivo. Uma relação de dependência que determinaria o seu funcionamento adequado. Considerando que os mecanismos de segurança não incidem diretamente sobre os comportamentos individuais, tal como a disciplina, que limita e a todo instante diz o que deve ser feito, Foucault (2008) sustenta que seu funcionamento depende de um distanciamento para que a realidade efetiva seja apreendida e, a partir dessa experiência, trabalhada por meio de seus elementos que são postos para atuarem uns em relação aos outros, em virtude e por meio de análises e disposições específicas. O autor afirma que as sociedades políticas modernas encontrar-se-iam comprometidas com a ideia de que a política não deve promover um conjunto de regras tendo em vista sua natureza, mas, pelo contrário, deve atuar segundo a ordem natural, permitindo que a realidade se desenvolva com base em seus princípios e regras.

Por último, um outro aspecto caracterizador dos mecanismos de segurança estaria relacionado a sua forma de normalização. Há aqui uma inversão importante em relação à disciplina. Para esta, a existência da norma seria o elemento fundamental. Afirma Foucault (2008) que o mecanismo disciplinar analisa, decompõe, compõe indivíduos, lugares, tempos, gestões, operações a fim de conhecê-los, classificá-los, organizá-los e transformá-los a partir de objetivos determinados e por meio de procedimentos de adestramento que permitirão atingir os resultados ótimos. Somente então será possível extrair o que é normal e anormal. Em relação à segurança, a identificação do normal e anormal se dá a partir de curvas de normalidade –identificadas mediante a apreensão distanciada da realidade. A norma é deduzida do normal ou por meio do estudo da normalidade, e pode desempenhar seu papel operacional de normalização que, nesse caso, trata de fazer as distribuições de normalidade

funcionarem umas em relação as outras, por exemplo, por meio da aproximação das mais desfavoráveis com as mais favoráveis.

Para Foucault (2008), o tema da população se coloca como central, inclusive no que diz respeito à viabilização de pensamentos, reflexões e cálculos sobre o problema do governo, ou das artes de governar, fora do marco jurídico da soberania. É graças a emergência do problema da população e o distanciamento da economia em relação à gestão familiar que será possível desbloquear as discussões no entorno da razão de Estado23. Esse movimento compreende a inserção do sujeito-objeto população no interior das análises e cálculos sobre as riquezas e será o principal motor de uma transformação na arte de governar. Retomando as discussões desenvolvidas por Foucault (2004) no curso Nascimento da Biopolítica, ministrado em 1979, essa alteração implicaria na instauração de um princípio da arte de governar intrínseco a ela. Isto é, uma espécie de “regulação interna da racionalidade governamental” (2004, p. 14), diferente da condição extrínseca do direito no século XVII, e gestada no interior do Estado administrativo (ou de polícia24) – haja vista seu alinhamento com os objetivos de auto conservação próprios à razão de Estado – e viabilizada por um instrumento intelectual específico, a economia política.

Essa autolimitação interna, que caracterizaria o sistema do governo frugal ou da razão do Estado mínimo, incidiria sobre o próprio agir governamental – e não sobre os indivíduos – e demarcaria de forma clara o que se deve fazer e o que não convém fazer a partir de princípios internos à própria prática de governo. Não haveria que se buscar essa orientação em fundamentos externos, mas no próprio governo, de modo que estes limites não seriam definidos por aqueles que governam. Trata-se de uma limitação geral, válida sob toda e qualquer circunstância, distante dos conselhos de prudência definidos para situações específicas. Sua violação não indicaria um governo ilegítimo ou

23 Foucault (2008) localiza entre fins do século XVI e início do XVII as discussões a respeito da

expressão razão de Estado. Sob a perspectiva objetiva da palavra razão, a expressão é qualificada no texto como aquilo que é necessário e suficiente para conservação do próprio estado. Em um sentido subjetivo, esta seria uma regra ou uma arte que permitiria conhecer os meios para manter a integridade e tranquilidade do estado. Essas definições, que se referem nada mais do que ao próprio estado, se afastam de uma abordagem fundacional e se filiam à uma estratégia de permanente e contínua conservação.

24 Nas palavras de Foucault (2004, p. 51) “um governo que é inteiramente administrativo e uma

usurpador, como no caso direito – que operaria no entorno do binômio legitimidade-ilegitimidade –, mas sim um governo inadequado, excessivo. O fracasso de um governo não encontraria fundamento na maldade do soberano, mas na sua ignorância.

Para além da autolimitação, também entra na arte de governar pelo viés da economia política a questão da verdade – que tratará de delimitar os mecanismos naturais daquilo que o governo manipula. Mais do que configurar um discurso científico e teórico que indicaria ao governo quais seriam as boas condutas, o papel da economia política era direcionar onde deveria ser buscado o princípio de verdade da prática governamental, isto é, no mercado. Assim, será por meio da formação de preços que se constituirá um padrão de verdade responsável por discernir as práticas governamentais em corretas e erradas. O mecanismo da troca operaria tal como um local de veridição, um espaço de verificabilidade/falsificabilidade da prática governamental (Foucault, 2008).

Para além do mercado, o outro ponto de ancoragem da nova razão governamental liberal seria a vinculação da existência e ação do poder público ao princípio da utilidade. Enquanto o mercado deve ser respeitado como espaço de veridição, o poder público deve ser circunscrito às medidas de utilidade e sua respectiva jurisdição interna. Seu exercício deve ocorrer somente e precisamente onde for útil. Esses dois princípios fundamentais autolimitadores da razão governamental seriam abrangidos por uma categoria geral, qual seja, a do interesse – entendida como princípio da troca e critério da utilidade. Sob essa perspectiva, a referida autolimitação funcionaria com base em um interesse que não se refere a si mesmo, como na razão de Estado, mas sim a um complexo jogo de interesses individuais e coletivos, utilidade social e benefício econômico, equilíbrio do mercado e regime do poder público, direitos fundamentais e independência dos governados (Foucault, 2008). Em resumo, essa nova razão governamental não agiria diretamente sobre os indivíduos, mas por meio dos interesses, eles seriam o meio pelo qual o governo agiria sobre todas as coisas.

Para concluir a caracterização do liberalismo, Foucault adiciona um terceiro elemento, a constituição de um mercado mundial tendo a Europa como sujeito econômico coletivo. A introdução pelos liberais da ideia de que o enriquecimento individual só poderia ser mantido mediante a produção de uma

prosperidade mútua, rompendo a ideia de um equilíbrio europeu, dependeria que novos mercados fossem adicionados para que se houvessem ingressos contínuos. Dessa forma, há um convite à mundialização do mercado no entorno da Europa. Sob essa perspectiva, o mundo poderia e deveria ser percebido como parte do domínio econômico europeu. Apesar de não associar essa dinâmica a formação de um outro imperialismo, Foucault (2008) identifica um novo tipo de cálculo planetário na prática governamental europeia manifesta, por exemplo, no direito marítimo do século XVIII ou, ainda, nos projetos de paz e organização internacional formulados no período em questão.

Apresentadas suas características, Foucault (2008) enumera quais seriam as principais consequências dessa arte liberal de governar que, na medida em que manipula interesses, é também gestora dos perigos e dos mecanismos de segurança/liberdade. A primeira delas seria exatamente a condição perpétua de submissão dos indivíduos às situações de perigo. Há a instituição de uma cultura e um incentivo ao medo do perigo que seria condição, o correlato psicológico e cultural interno do liberalismo. Em segundo, seria