A NATUREZA E O DIREITO
4.9 A POSITIVIDADE DA DIGNIDADE DA VIDA NO BRASIL
“A constitucionalização dos direitos – enfatiza Canotilho – revela a fundamentalidade dos direitos e reafirma a sua positividade no sentido de os direitos serem posições juridicamente garantidas e não meras proclamações filosóficas, servindo ainda para legitimar a própria ordem constitucional como ordem de liberdade e de justiça.”180
E a nossa constituição de 1988 tornou-se verde. Rompemos a barreira do trato exclusivo de relações entre pessoas, para contemplar esse novo ator, ou, como se referiu Serres, incluir o cenário onde se travam as batalhas humanas. Em diversos dispositivos dessa Carta democrática, o meio ambiente foi contemplando, permeando todo o seu texto com a nova preocupação, para culminar com um capítulo específico sobe o meio ambiente. “Atualmente, no Brasil, é o direito a um meio ambiente sadio reconhecido como direito fundamental do cidadão”, certifica Freitas.181
Grande avanço, mas já insuficiente para dar conta das demandas atuais a respeito da questão. Tudo, nessa Carta, gira em torno da pessoa humana. Já no artigo
179 MORIN, Edgar. O método II. Portugal: Europa-América, 1999, p.399.
180 CANOTILHO, J. J. Gomes. Estado de direito. Lisboa: Fundação Mário Soares, 1999,p. 56.
181 FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2ª. Ed., 2002, p. 25.
primeiro, a dignidade referida é a da pessoa humana. Também o direito à vida e o princípio da igualdade contidos no caput do artigo quinto reportam-se exclusivamente à nossa espécie.
Da mesma forma, o artigo 225 da Constituição não tem outro destinatário que exclusivamente o ser humano. Tudo existe e deve ser protegido com a finalidade precípua de assegurar o bem-estar das gerações humanas, presentes e futuras.
Há quem pretenda ver no inciso VII do referido artigo um direito de os animais não serem submetidos à crueldade. Todavia, somente uma construção jurisprudencial muito sensível aos atuais reclamos da consciência ecológica permitirá tal dedução, visto que o contexto está a mostrar o contrário. Existe sim, um direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, mas direito fundamentalmente humano e destinado aos humanos, como princípio e fim de todas as coisas.
Pensamos que as linhas precedentes evidenciaram que essa posição não pode mais subsistir, sob o risco de seguirmos na mesma lógica instalada, com uma velocidade destrutiva sem precedentes e com evidentes riscos de colapso. A constituição precisa ser verde para o verde e não para o homem. Este deve incluir-se naquele e não o contrário.
Conforme pontua Clève182:
Para a redefinição do saber jurídico, o diálogo entre juristas, filósofos, sociólogos e cientistas políticos, como lembra Gómez, é de singular importância. Parcela significativa dos juristas brasileiros tem aceitado o diálogo interdisciplinar. Mas a preocupação com a reelaboração do discurso jusfilosófico não é apenas de ordem acadêmica. Ao tempo em que se investiga o fenômeno jurídico em todas as suas dimensões cognoscíveis, compreendido num contexto interdisciplinar, procuram-se bases sólidas para transformá-lo. A questão da transformação libertária, neste particular, é claramente assumida pela nova filosófica do direito.
Já em 1982, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou, em sua 48ª reunião plenária, “a carta mundial para a natureza”183, na qual reconhece que cada
182 CLÈVE, Clèmerson Merlin. O direito e os direitos. Elementos para uma crítica do direito contemporâneo.
São Paulo: Max Limonad, 2 ed., 2001, p. 167.
forma de vida é única, devendo ser garantido seu respeito, independentemente do seu valor para o homem.
O valor intrínseco da diversidade biológica também já foi formalmente reconhecido pelo Brasil quando ratificou a Convenção da Diversidade Biológica, em 28 de fevereiro de 1994, cujo preâmbulo diz:
As Partes Contratantes,
Conscientes do valor intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético da diversidade biológica e de seus componentes,
Conscientes, também, da importância da diversidade biológica para a evolução e para a manutenção dos sistemas necessários à vida da biosfera,
Afirmando que a conservação da diversidade biológica é uma preocupação comum à humanidade, ...
Mas vem o homem cheio de razões e argumentos para trazer todo o tipo de problema na implementação de uma nova mentalidade, temeroso que essa história acabe por engolir o seu egocentrismo e que o direito venha a perder sua referência.
Relatam Maturana e Varela já no final de sua obra: 184
Conta-se que havia uma ilha, que ficava em Algum Lugar, em que os habitantes desejavam intensamente ir para outra parte e fundar um mundo mais sadio e digno. O problema era que a arte e a ciência de nadar e navegar ainda não tinham sido desenvolvidas – ou talvez tivessem sido há muito esquecidas.
Por isso, havia habitantes que simplesmente se negavam a pensar nas alternativas à vida na ilha, enquanto que outros tentavam encontrar soluções para os seus problemas, sem preocupar-se em recuperar o conhecimento de como cruzar as águas. De vez em quando, alguns ilhéus reinventavam a arte de nadar e navegar. Também de vez em quando chegava a eles algum estudante, e então acontecia um diálogo assim:
“Quero aprender a nadar.”
“O que quer fazer para conseguir isso?”
“Nada. Só quero levar comigo uma tonelada de repolho.”
“Que repolho?”
“A comida de que vou precisar no outro lado, ou seja lá onde for.”
“Mas há outras coisas para comer no outro lado.”
“Não sei o que quer dizer. Não tenho certeza. Tenho de levar meu repolho.”
“Mas assim não vai poder nadar. Uma tonelada de repolho é uma carga muito pesada.”
“Então não posso aprender. Para você, meu repolho é uma carga. Para mim, é um alimento essencial.”
183 Aprovada e proclamada em 28 de outubro de 1982.
184 MATURANA, R. Humberto e VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 3ª. Ed., 2003, p. 271/2.
“Suponhamos que – como numa alegoria – os repolhos representem as idéias adquiridas, pressupostos ou certezas.”
“Hum... Vou levar meus repolhos para onde haja alguém que entenda as minhas necessidades.”
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