A VIDA NA PERSPECTIVA DO NOVO PARADIGMA
2.1 A EVOLUÇÃO DA VIDA
Estabelecidas as novas premissas que, com algumas variações, estão na ordem do dia na ciência nova, vamos voltar um pouco aos tempos das aulas e biologia, lembrando que esta ciência do homem equivale a um nada no tempo, se comparada com as estimativas de tempo de universo (7 bilhões de anos), da terra (5 bilhões de anos), da vida (2 bilhões de anos), os vertebrados (600 milhões de anos) dos répteis (300 milhões de anos), dos mamíferos (200 milhões de anos), dos antropóides (10 milhões de anos), dos hominídeos ( 4 milhões de anos), do homo sapiens (de cem a cinqüenta mil anos).47
Sabe-se que todos os sistemas vivos são constituídos por células, desde os mais simples, que são as células bacterianas, até os mais sofisticados, sejam árvores ou mamíferos.48 Apesar da simplicidade de sua estrutura interna, também a célula pressupõe alguma complexidade bioquímica para sua sobrevivência, sendo que as moléculas de proteínas e ácidos nucleicos desempenham papel fundamental, a ponto de se poder afirmar que um sistema vivo é o que contém DNA, apesar de não ser propriedade exclusiva deste, já que o DNA persiste após a morte.
Assim, o critério para definir um organismo como vivo depende de outros elementos, especialmente da membrana celular, onde a célula estabelece as relações com o meio em que vive, possibilitando seu metabolismo. A membrana celular, juntamente com o metabolismo, portanto, são elementos caracterizadores da vida celular, já que é por meio deles que se estabelecem as trocas químicas com o sistema no qual a célula está inserida. “Esta é a chave da definição sistêmica da vida:
as redes vivas criam ou recriam a si mesmas continuamente mediante a transformação
47 MORIN, Edgar. O paradigma perdido. Trad. Hermano Neves. Portugal: Europa-América, 2000.
48 CAPRA relata que as mais simples das células “pertencem a uma família de minúsculas bactérias esféricas chamadas de microplasma, que medem menos de um milésimo de milímetro de diâmetro e cujo genoma consiste num único anel feito de dois filamentos de DNA. [e que] as bactérias mais simples são as cianobactérias, as antepassadas algas azuis”. Fritjof. Conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002, p.22.
e substituição de seus componentes. Dessa maneira sofrem mudanças estruturais contínuas ao mesmo tempo que preservam seus padrões de organização, sempre assemelhados a teias”.49
Essa autogeração - criar-se e recriar-se, cuja denominação de autopoiese já se tornou bastante difundida, indica que a existência da vida pressupõe uma rede e não pode ser atribuída a um ou outro componente isolado. Assim é que, mediante esse mecanismo de autogeração, o vírus não pode ser considerado ser vivo, visto que não realiza metabolismo próprio.
Da perspectiva autopoiética da vida, decorre também que a transmissão das características genéticas não é exclusiva do DNA, mas sim de um contexto no qual este está também inserido.
Fechados na sua organização mas abertos para troca de matéria e energia, o que possibilita produzir, reparar e perpetuar de si mesmo, os sistemas vivos, apesar de conservarem sua estrutura como um todo, mantêm-se, dentro de certos limites, abertos para as possibilidades de adaptação às mudanças que possam vir a ocorrer.
Essa relação da estrutura com o fluxo de mudanças foi denominada de “estrutura dissipativa” por Ilya Prigogine.50
Existiu também uma evolução pré-biótica, em que só havia elementos químicos e que foi da interação desses elementos, que supõe-se serem basicamente formados de carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio, fósforo e enxofre, é que surgiram as primeiras formas de vida. Ou seja, “a vida celular tem suas raízes numa física e numa bioquímica universais, que já existiam muito tempo antes e evoluírem as primeiras células vivas.”51
A vida, enfim, desde os seus primórdios, evoluiu por três caminhos distintos: mutação genética; intercâmbio de genes e simbiose, sendo que os dois últimos modos, de maneira muito mais comum e eficiente.
Relembrando as distinções já feitas sobre organização e estrutura, sendo que aquele nos remete à configuração de suas características essenciais e este à forma
49 Idem, p. 27.
50 PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas. São Paulo: UNESP, 1996, p. 70.
51 CAPRA, Fritjof. Conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002, p.36.
como estas características se organizam, Capra concatena as diferentes perspectivas científicas e propõe entender a autopoiese como o padrão da vida (ou organização dos sistemas vivos), a estrutura dissipativa como a estrutura dos sistemas vivos e, finalmente, agrega a idéia de cognição, ou atividade envolvida na incorporação contínua do padrão ao sistema, como o processo da vida.52
2.2 AUTOPOIESE
Considerando que os sistemas vivos sempre se organizam em rede, esta é a sua principal característica, agrega-se a ela o fato de que tem a capacidade de produzir-se a si mesmo continuamente. Autopoiese é justamente essa capacidade própria dos seres vivos onde seus diversos componentes são produzidos pela rede e também produtos dela.
Pelo fato seus elementos serem produtos e produtores, diz-se que a rede autopoiética é um sistema organizacional fechado, embora estuturalmente seja aberto para receber energia e matéria. Assim, o comportamento de um sistema vivo não é determinado pelo meio em que se encontra, mas por si mesmo, sendo que o intercâmbio de energia e matéria não tem a capacidade de determinar como esse sistema vivo se organiza.
Os componentes de uma rede autopoiética estabelecem, portanto, relações dinâmicas entre seus componentes, numa interdependência recíproca, e o colapso desses processos implica o colapso da organização, ou seja, a morte.
A vida se identifica muito com a rede ou teia, na qual todos os sistemas vivos são interligados e interdependentes e também estruturados e vinculados uns aos outros de diversas formas, como em associações, simbiose, predações, parasitismo etc.
James Loverlock mostra, com sua teoria de Gaia, que há um entrelaçamento e interdependência de todos os elementos da natureza, vivos e não vivos, envolvendo o planeta na sua integralidade. Ou seja, desde os organismos unicelulares até onde o ser humano consegue abarcar, tudo se entrelaça em sistemas dentro de sistemas, que se revelam autolimitantes (fixam fronteiras), autogeradores
52 CAPRA, Fritjof. A teia da vida. Trad. Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1997, 14 ed. p.135.
(converte substancias inorgânicas em matérias vivas) e autoperpetuantes (os processos permitem uma contínua reposição).