A VIDA NA PERSPECTIVA DO NOVO PARADIGMA
3.8 A PERSPECTIVA DE EDGAR MORIN
Edgar Morin130 considera espantosa a capacidade criativa e destrutiva que brotaram do breve tempo de existência do homo sapiens, se considerarmos a história de milhares de anos corridos desde o aparecimento dos primeiros hominídeos. Assim, a evolução poderia ser considera metahistórica, mais ligada aos ruídos, desordens e
130 MORIN, Edgar. O paradigma perdido: a natureza humana. Portugal: Publicações Europa-América, 6 ed.
2000, p.186.
incertezas. Não descarta, assim, a possibilidade de, após a paleossociedade, a arquisociedade, a sociedade histórica, surja um quarto nascimento da humanidade, agora hipercomplexa, dada a capacidade de reprodução ilimitada dos habitantes deste planeta.
Alguns aspectos que prenunciam essa nova humanidade seriam os diversos sistemas sociais que se baseiam mais na intercomunicação que na coerção, com o conseqüente enfraquecimento da hierarquia e aumento da participação dos seus integrantes, com diversos centros de poder. Uma reforma ou revolução – diz Morin - não consegue por abaixo as instituições e a classe dominante, já que o sistema que produz essa constelação de valores sociais “tem raízes primáticas muito profundas”, herdeira das diversas sociedades e da estrutura cérebro/mental dos seus componentes que remontam as suas primeiras origens, trazem impresso, além de um Estado que se formou no longo período da sociedade histórica e precedentes, também revelam valores e artifícios que tornam bastante complexa a mudança, que pressupõe não só mudar de vida, mas também transformar o mundo.
A viabilidade dessa progressão está vinculada ao desenvolvimento da consciência que cada vez mais cresce, dadas as evidencias reveladas pelos produtos não desejados da modernidade.
Morin propõe ainda uma vida bio-antropo-ética. Lembrando que a ação do homem sobre a vida, que se iniciou na pré-história pela domesticação, sujeição, subjugação, prosseguiu como manipulação pelas hibridações e pelos cruzamentos, alcançando hoje o santuário dos genes131, cuja engenharia genética e a respectiva bioindústria já reprogramam micróbios, transformando-os em verdadeiros escravos biológicos, novo tipo de máquina industrial.
De fato, a bioindústria hoje está presente em diversas áreas, especialmente a agricultura, pecuária, alimentação, na farmácia, dentre outros. Se, por um lado, há uma elevação da capacidade de produção, por outro, há uma clara “redução do ser vivo ao estatuto do artefacto e praticamente transformação dos seres vivos em máquinas
131 MORIN, Edgar. O Método II: a vida da vida. Portugal: Europa-América, 1999, 3 ed. p.394.
artificais (já a criação industrial dos porcinos e bovinos os transformam em puras e simples máquinas de fazer carne).”132
A manipulação da vida torna-se rapidamente o grande eldorado da bioindústria, manipulando os seres vivos com peças são usadas na indústria mecânica e cujo potencial de crescimento evidencia uma nova etapa da mesma lógica do cientificismo tecnológico voltado para o mercado e para o lucro, legitimado pelo mesmo argumento de acabar com a fome e o sofrimento. Promessa que a modernidade não pagou, apesar de todos os efeitos negativos que já produziu.
A proteção contra experimentos e manipulações que agora incluem também o ser humano, não é, segundo Morin, científica. “Não reside na prática da investigação que aprisiona, envenena, tortura, mutila os animais de laboratório. Não reside no princípio que guia o pensamento científico. Este princípio dissocia o facto e o valor, isto é, elimina de si próprio toda a competência ética no seio do conhecimento científico. Seleciona apenas objetos e oculta os sujeitos.”133
Diante dos danos de diversas ordens já produzidos no ambiente natural e mesmo das conseqüências que essa degradação trazem, inclusive para os seus próprios produtores, a idéia de homem dono e senhor da natureza deve ser abandonada. Aliás, a experiência humana obtida com a manipulação da natureza, nas suas diversas formas já está em condições de concluir que todo o ganho também significa uma proporcional perda. A sabedoria oriental traduz isso em duas das sete leis da ordem no universo, onde uma afirma que “tudo possui frente e verso”e a outra, “quanto maior a frente, tanto maior o verso”.134
Ressalta Morin, porém, que todo o ser vivo trata como objeto o indivíduo-sujeito que constitui seu alimento e, portanto, somos insensíveis à subjetividade mastigada pelos nossos molares, donde a necessidade de um mínimo de antropocentrismo vital. A questão, todavia, é refrear e controlar a manipulação sem
132 Idem, p.395.
133 Idem, p.397.
134 BOMTEMPO, Marcio. Medicina natural: medicina oriental. São Paulo: Nova Cultural, 1992, p 13.
limites. Ou seja, “temos que buscar, a partir do reconhecimento da nossa pertença à natureza viva, uma nova fronteira do antropocentrismo e da crueldade.”135
O poder que nós humanos passamos a obter sobre a vida, torna-nos responsável por ela e é a consciência dessa responsabilidade que deve fazer-nos protetores dela, defendendo sua complexidade e defendendo seus valores. “Uma antropoética defende o valor da vida e os valores da vida. Precisa duma ciência da vida e duma política da vida.”136
Ao considerar hipercomplexidade “um aumento de aptidões organizacionais, nomeadamente inventivas e evolutivas, ligado a uma diminuição de imposições, e, correlativamente, como um aumento da transformação das desordens em liberdades”137, Morin evidencia a necessidade sempre crescente de hipercomplexidade demandada pelo próprio exercício dinâmico da inteligência, que, por sua vez, é fruto das demandas atuais e conseqüentemente geradoras de mais complexidade.
Considerando, por outro lado, que toda hipercomplexidade traz em si também um aumento na fragilidade, e, por conseguinte, estando sujeita a um limiar de desintegração, pergunta-se onde está esse limite, já que é a resposta que definirá a posição política. Todavia, o risco faz parte da hipercomplexidade, donde a abolição dela representa um retrocesso, que faz prevalecer, além da fraca interação entre indivíduos e grupos, também centralização, hierarquia, a repressão em nome da ordem, o dogma, a fé, a pretensão de estabilidade.
Somente as forças vivas da fraternidade e do amor é que podem compensar as fragilidades decorrentes da hipercomplexificação social. Em Morin, a fraternidade tem precedência cronológica, ontológica e organizacional tanto sobre a maternidade que por sua vez precede a paternidade. “Mitologica e realmente, a sociedade humana deve incessantemente basear-se em bases fraternitárias, na luta permanente e ambígua contra a dominação paternalizada e a paternidade dominadora, as quais, mitológica e realmente, renascem incessantemente.”138
135 MORIN, Edgar. O Método II: a vida da vida. Portugal: Europa-América 1999, 3 ed. p.398.
136 Idem p.400.
137 Idem p.402.
138 Idem, p.408.
Apesar da união contra as forças externas, internamente as relações fraternárias também comportam disputas, rivalidades, conflitos e desigualdades, donde a nova fraternidade ou neofraternidade pretendida por Morin há de suplantar esses comportamentos e, ao invés de fechada, abrir-se para a inclusão também do estranho, numa identidade comum, sejam indivíduos, grupos ou nações. E o caminho para suplantar essas rivalidades é o amor.
O amor é que promove o encontro, a comunicação, que liga permanecendo livre, que mantém unido aqueles que estão distantes, que supera o ódio, que faz arder nossa vida e, enfim, diz Morin, “é verdadeiramente religião – no sentido original do termo: aquilo que liga – da hipercomplexidade.”
O amor e a fraternidade, porém, devem ser inteligentes. Capazes de reconhecer o falso, a ilusão ideológica, a mentira, significando que a consciência, como faculdade inteligente, ou inteligência da inteligência, deve integrar e definir as condutas de nossa vida. “A fraternidade amante e a inteligência consciente são as forças vivas da humanidade.”139 Humanidade que deve ser nossa comunidade de destino.
139 Idem, p.414.
Capítulo IV