O novo paradigma no mercado de alimentos requer novas políticas e estratégias que permitam migrar de um cír- culo vicioso para um círculo virtuoso, agregando renda para os agricultores, com produtos de maior valor.
A segmentação do mercado de alimentos e a eleva- ção dos padrões de qualidade apontam para a diferenciação
A
LT
MANN
como importante estratégia para que a agricultura familiar possa ingressar num círculo virtuoso. Se os pequenos pro- dutores não podem ser competitivos com base na produção em larga escala, devido ao pequeno tamanho de suas explo- tações agrícolas3, têm todas as condições para o serem na
produção diversifi cada de alimentos de alta qualidade. Entre as ferramentas de apoio a estratégias de dife- renciação, ganhou ênfase na União Européia, a partir dos anos 90, a certifi cação de origem e qualidade no mercado de alimentos, muito embora alguns países europeus já há déca- das tenham experiência nesse tema.
Os selos ofi ciais de qualidade permitem acrescentar a garantia do poder público à qualidade e origem geográfi ca dos alimentos e dos produtos agrícolas. Eles possibilitam aos produtores interessados tornar conhecidos seus produtos e servem para orientar os consumidores, garantindo-lhes qua- lidade, origem e forma de obtenção.
Um dos objetivos de uma política de garantia de qua- lidade é evitar a competição com os produtos padronizados (em que a diferença se dá pelo preço) e segmentar o merca- do com produtos cuja qualidade, além de identifi cada e ga- rantida, responda às expectativas dos consumidores.
Santa Catarina deu um importante passo com vistas a se dotar de um arcabouço jurídico para apoiar a melhoria da qualidade dos alimentos, com a aprovação da Lei n° 12.117, de 7 de janeiro de 20024, que cria selos para identifi car a qua-
lidade e a origem dos produtos agrícolas de Santa Catarina. Dentre os cinco selos criados – Indicação Geográfi ca Protegida, Denominação de Origem Controlada, Agricultura Orgânica, Produto de Origem Familiar e Certifi cado de Con- formidade –, merecem destaque os dois primeiros, porque se inserem no âmbito da propriedade intelectual, capítulo das
3 Explotação agrícola: do verbo explotar. Tirar proveito econômico de.
Termo que nos parece mais apropriado que o de exploração agrícola.
A
LT
MANN
indicações geográfi cas e, destarte, representam um impor- tante instrumento de desenvolvimento rural.
De acordo com a legislação catarinense, inspirada nos textos legais europeus que regem o tema, constitui Indicação Geográfi ca Protegida – IGP – o nome de uma região ou local determinado do estado de Santa Catarina que sirva para de- signar um produto agrícola ou um alimento originário des- sa região ou localidade, quando a reputação ou caracterís- tica peculiar do produto, embora ainda não cientifi camente comprovada, possa ser atribuída a essa origem geográfi ca, e quando sua produção, processamento, transformação ou elaboração ocorrer na área geográfi ca delimitada.
Constitui Denominação de Origem Controlada – DOC – o nome dado a uma região ou localidade do estado de San- ta Catarina que sirva para designar um produto agrícola ou um alimento originário dessa mesma região ou localidade, quando a qualidade ou características específi cas possam ser, de forma comprovada, atribuídas, essencialmente ou ex- clusivamente, ao meio geográfi co – compreendendo os fato- res naturais e humanos – e quando sua produção, processa- mento, transformação ou elaboração ocorrer nessa mesma área geográfi ca delimitada.
Embora, à primeira vista, as defi nições de IGP e DOC possam ser muito parecidas, nas denominações de origem a vinculação com o território é mais forte.
As indicações geográfi cas protegidas – IGP – ou as denominações de origem controlada – DOC – possibilitam reconhecer produtos cuja qualidade resulta de característi- cas regionais únicas de solo e clima, permitem valorizar vo- cações e tradições locais do saber-fazer e destacar a natureza artesanal da produção.
Entre os produtos catarinenses com potencial para obter uma Denominação de Origem Controlada, podemos citar as maçãs da região de São Joaquim, onde a combina- ção de solo, clima, insolação, altitude – entre outros fatores – propicia colheitas de maçãs com características excepcio-
A
LT
MANN
nais e únicas de qualidade. Em áreas com altitudes acima de 1.200 metros, a variedade Fuji, por exemplo, expressa carac- terísticas únicas, que não são obtidas em altitudes menores ou em outras regiões produtoras: o fruto apresenta formato mais alongado (em altitudes menores é mais achatado); a cor vermelha é mais intensa e o sabor é distinto. Um conhecedor facilmente distingue a maçã Fuji de São Joaquim. Pode-se dizer que essa maçã é como uma impressão digital de seu território de origem e do saber-fazer de seus produtores. A notoriedade dessas frutas já é reconhecida até mesmo fora do País.
Quando um produto ou alimento tem o nome da zona de produção cujas características de qualidade decor- rem dos atributos desse território (características do solo, cli- ma, orografi a) e do saber-fazer (tradição) dos produtores, e quando esse produto conquistou notoriedade (por seus atri- butos), pode-se considerar que essa tipicidade única é como a originalidade criativa, isto é, um bem imaterial.
O bem imaterial é propriedade coletiva inseparável do território de produção, do qual os produtores são usuá- rios. Esse direito de uso é comparável ao direito de explora- ção de uma patente, com a diferença de que nas denomina- ções o direito de uso é monopólio dos produtores do respec- tivo território, sem limitação de uso enquanto persistirem os fatores técnicos, naturais e humanos que lhe deram origem. O poder público assume, então, a tutela da denominação, fa- zendo prevalecer os interesses coletivos: proteção dos pro- dutores contra a concorrência desleal, e dos consumidores contra as falsifi cações ou a propaganda enganosa.
Um alimento ou produto agrícola reconhecido como denominação de origem deve, obrigatoriamente, ser produ- zido, processado ou industrializado no território de origem, o que confi gura uma situação de proteção de nicho de mer- cado. Ou seja, um produto DOC não pode ser processado ou industrializado em região distinta daquela em que foi produ- zido. Assim, por exemplo, a bebida Cognac só pode receber
A
LT
MANN
esse nome se produzida em Cognac, na França. Champagne é outra denominação de origem protegida, razão pela qual os fabricantes brasileiros dessa bebida passaram a denomi- ná-la “vinho espumante” e não mais champagne, como fa- ziam anteriormente.
O nome dá uma indicação de origem, mas, além da origem, o produto incorpora atributos do território (únicos e próprios do lugar) e do saber-fazer; destarte, não pode ser “reproduzido” em outro território. Por isso, voltando ao exem- plo da maçã Fuji da região de São Joaquim, em outra região não se conseguem maçãs iguais, com os mesmos atributos.
No Brasil, esse é um tema muito recente (a Lei nº 9.279, que trata do assunto, é de 14 de maio de 1996) e há, até o mo- mento, apenas uma indicação geográfi ca aprovada no âmbi- to do INPI, em benefício da Associação dos Produtores de Vi- nhos Finos do Vale dos Vinhedos (Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos).
Uma produção de alimentos com garantia de qualida- de e origem pode assegurar melhores preços a seus produ- tores, abrir mercado para diversos produtos tipicamente re- gionais, bem como criar condições de competitividade para os pequenos produtores familiares. Representa uma alterna- tiva para valorizar o seu trabalho (por diferenciar produtos tí- picos regionais e fugir à lógica da produção em larga escala), assegurando sua permanência no campo.
Essa foi a estratégia adotada por vitivinicultores na Alemanha, França, Itália e Espanha, ao perceberem suas per- das no mercado mundial de vinhos e a guinada no perfi l da demanda. Ao melhorar a qualidade de seus vinhos, entraram num círculo virtuoso, em que a alta qualidade se traduz por melhores preços, que, por sua vez, permitem produzir ainda
menores quantidades com qualidade ainda maior, por preços ainda mais elevados.5
5 Revolution in the vineyard. Business Week, 29 de dezembro de 1997. p.
A
LT
MANN
A aplicação de um selo de garantia de qualidade por si só não assegura a colocação de produtos no mercado em condições vantajosas. É preciso que o sistema seja plena- mente conhecido e respeitado por produtores, industriais, distribuidores (atacado e varejo) e, sobretudo, reconhecido pelos consumidores. Isso pressupõe também investimentos em marketing para que os operadores de mercado e os con- sumidores identifi quem a imagem dos selos com a qualida- de desses produtos.
Implica, acima de tudo, práticas leais e transparentes e ética nas relações econômicas.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALTMANN, R. et al. Perspectivas para a agricultura familiar. Horizonte 2010. Florianópolis: Instituto Cepa/SC, 2002. 112p.
LORENTE, M. La fuerza de la diferencia. La Denominación de Origen, un ins- trumento para el desarrollo. Ediciones La Val de Onsera. Huesca, 2001. 221p.
CARSALADE, F.L. Registro dos queijos de Minas como patrimônio cultural. Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. Internet: http://www.iepha.mg.gov.br/noticia_queijo.htm
WORLD TRADE ORGANIZATION. Agreement on trade-related aspects of In- tellectual Property Rights. Geographical Indications.
Internet: http://www.wto.org/french/tratop_f/trips_f/intel2_ f.htm#geographical
RASTOIN, J.L. e VISSAC-CHARLES, V. : Le groupe stratégique des entreprises de terroir. Revue Internationale des PME, Vol.12, n° 1-2, 1999. Institut de Re-
T
ONIET
T
O
EXPERIÊNCIASDE DESENVOLVIMENTODE INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS:
VINHOSDA INDICAÇÃODE PROCEDÊNCIA VALEDOS VINHEDOS1
JORGE TONIETTO2