2 O Pensamento Sistêmico e a Soft Systems Methodology
2.2 A Soft Systems Methodology
2.2.2 A prática da SSM
Mesmo antes da consolidação do modelo atual da SSM, Checkland já reconhecia que a metodologia é apenas uma versão mais organizada e formal do que fazemos de qualquer forma quando pensamos intencionalmente (CHECKLAND & SCHOLES, 1990). Com isso, ele explicava por que o seu uso parece natural. Todavia, diversos desafios permanecem para aqueles que praticam a SSM:
manter pessoas reunidas, lidando com as intransigências de visões de mundo historicamente impregnadas, abrir as pessoas para perceber que suas visões de mundo não necessariamente refletem a forma como o mundo é, levá-los a expressar as situações de forma diferente, fazer a conversação acontecer, gerenciar os fluxos emocionais, entender os fundamentos comportamentais e emocionais de diferentes descrições de eventos, lidar com possíveis conflitos entre eles, encontrar um lugar para a conversação da SSM em meio à cacofonia de ruídos que ocorre além do preparado para a intervenção, atingir mudanças tangíveis pela transformação de aprendizagem individual em aprendizagem organizacional. E essa lista não é exaustiva. (BROCKLESBY, 2007, p. 167, tradução nossa)
Dessa forma, a literatura sobre SSM apresenta, além de estudos que cobrem o trabalho de Checkland como ele é descrito em suas publicações, também um nível de discussão mais sofisticado, no qual muito desse trabalho é tomado como dado e o foco se volta para aspectos particulares (HOWELL, 2000). É predominante na literatura secundária, formada pelas publicações de pesquisadores externos ao grupo de Lancaster, que desenvolveu a metodologia, o relato de utilização da SSM na sua forma convencional, como um processo de sete passos. Apesar de superada por Checkland, essa representação da metodologia ainda é frequentemente utilizada hoje (JACKSON, 2003). Checkland (2000a) critica essa literatura, dizendo que a SSM foi mal servida por seus comentaristas, muitos dos quais escrevem com base em apenas um conhecimento superficial da literatura primária. Todavia, como afirma Howell (1999, p. 773, tradução nossa), “nenhuma contribuição significante para o pensamento ocorre sem o desenvolvimento de uma literatura secundária”, e uma grande falha da SSM foi a sua estância de isolamento (MINGERS, 2000a). Mas há de se ter bastante crítica para distinguir entre os relatos com real contribuição para a metodologia e aqueles cheios de erros e mau entendimentos.
Conforme já mencionado anteriormente, a SSM também vem sendo bastante utilizada em combinação com outros métodos e metodologias, muitas vezes como metodologia dominante, aumentada por outros métodos. O objetivo é combinar vários métodos para se adaptar à riqueza da situação-problema e lidar efetivamente com diferentes estágios de um projeto. Nesse sentido, não é necessário utilizar todo o método, sendo possível decompô-lo em várias técnicas e usá-las fora do método, em outros contextos ou com outros métodos (MINGERS, 2000b). É necessário considerar, entretanto, que a SSM é uma metodologia em si, e ao reparti- la, o usuário pode perder alguma ajuda que ela pode oferecer ao ser usada como um todo, como um sistema de investigação.
Para avaliar até que ponto trabalhos baseados na SSM seguem as suposições que fundamentam a metodologia, pode-se utilizar o que se chamou de regras constitutivas da SSM, que consistiam em cinco proposições delineando tais pressupostos. Com as mudanças na expressão preferida da SSM, deixando pra trás o modelo de sete passos e reconhecendo a possibilidade de utilização do Modo 2 da SSM, essas regras constitutivas também sofreram alterações (CHECKLAND, 2000a). Análises de experiências práticas mostram que qualquer uso da SSM envolve quatro elementos: (1) uma situação problema do mundo real percebida; (2) um processo para lidar com aquela situação para alcançar alguma melhoria; (3) um grupo de pessoas envolvidas no processo; e (4) a combinação desses três como um todo com
propriedades emergentes. Essas são as propriedades emergentes da SSM em uso (CHECKLAND, 2000b). Atualmente, procura-se ainda avaliar o que é SSM em três níveis: as pressuposições, o processo de investigação e os elementos usados nesse processo. Os pressupostos são que (i) deve-se aceitar e agir de acordo com a suposição de que a realidade social é construída social e continuamente, (ii) deve-se usar, conscientemente, dispositivos intelectuais explícitos para explorar, entender e agir na situação, e (iii) deve-se incluir nos dispositivos intelectuais ‘holons’3 na forma de modelos de sistemas de atividade intencional, construídos com base em visões de mundo declaradas. Já o processo de investigação, necessariamente cíclico e iterativo, deve ser informado por um entendimento da história da situação e de suas dimensões cultural, social e política. Ele deve levar à aprendizagem de um caminho, através de discursos e debates, para acomodações que possibilitem ação para melhoria e entendimento. Seus elementos, além de modelos de atividade, devem incluir figuras ricas, root definitions, CATWOE, etc (HOWELL, 19974 apud CHECKLAND, 2000a). Para se dizer que utilizou a SSM, é importante seguir essas regras constitutivas. Elas não restringem, entretanto, a forma como a metodologia deve ser utilizada. É possível abordar a situação a partir de modos distintos. No modo ‘liberal’, o uso da SSM é orientado para o problema; no modo profissional, a SSM é utilizada como um conhecimento do consultor, não necessariamente compartilhado com os clientes; e, no modo ideológico, o trabalho é dominado por um comprometimento ideológico em ajudar que a cooperação seja efetiva (CHECKLAND, 2000a). Que modo adotar depende da situação, dos objetivos a alcançar, da disposição da organização em compartilhar a consciência do uso da metodologia, e do próprio facilitador do trabalho.
A SSM é utilizada em diferentes áreas, para diferentes tipos de problemas, como, por exemplo, reestruturação organizacional, sistemas de informação e avaliação de desempenho (MINGERS & ROSENHEAD, 2004). No Brasil, há relatos de aplicações para melhorar o desempenho organizacional (FERRARI, FARES & MARTINELLI, 2002; LUNARDI & HENRIQUE, 2002; MARTINELLI & VENTURA, 2006), gerenciar mudança organizacional (COSTA, 2003; MARTINELLI & VENTURA, 2006), projetar e melhorar processos (COTA
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Holon é um termo proposto para ser utilizado no sentido ontológico nominalista, como alternativa à palavra ‘sistema’, em referência à idéia de um ‘todo’. O objetivo é evitar a confusão com o uso da palavra sistema no sentido ontológico realista, comum no dia a dia (CHECKLAND & SCHOLES, 1990).
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HOWELL, S. E. (1997) Soft systems methodology and its role in information systems, Ph.D. Dissertation, Lancaster University.
JÚNIOR, FREITAS & CHENG, 2007; GONÇALVES et al., 2007; MATA, DIAS & MARTINELLI, 2007), auxiliar no planejamento estratégico (ALMEIDA et al., 2007), ajudar na solução de problemas em relações inter-organizacionais (LIBONI, CEZARINO & MARTINELLI, 2007) e propor ações de política pública (PINHEIRO et al., 2006). Essas aplicações estão restritas, quase sempre, ao uso do modelo convencional de sete passos, alheias à evolução sofrida pela metodologia. Outro fato relatado por alguns autores brasileiros, similar ao encontrado na literatura internacional, é o uso da SSM em conjunto com outros métodos.