5 Aplicação da SSM na Embrapa
6.2 O modelo de referência específico
6.2.1 Características do modelo do PDC na Embrapa Milho e Sorgo
A macro-fase de melhoramento do modelo genérico não tem um número definido de fases, mas para um modelo específico, que vai orientar o trabalho operacional em uma empresa, é necessário que isso seja determinado. O modelo de referência específico para o PDC da Embrapa Milho e Sorgo tem a mesma estrutura do modelo genérico, mas com oito fases nessa primeira macro-fase. Após os ensaios de cruzamentos-teste, são três anos de ensaios de avaliação, chamados, respectivamente, de Ensaios Preliminares, Ensaios Elite de 1º ano e Ensaios Elite de 2º ano. Nos ensaios preliminares são avaliados os materiais que foram selecionados nos ensaios de cruzamentos-teste. Aquelas cultivares selecionadas seguem para os ensaios elite. Estes são realizados anualmente, com materiais de 1º e 2º ano em um mesmo campo. Assim, as cultivares que chegam ao pós-melhoramento passam pelos ensaios elites por dois anos consecutivos, tendo as mesmas características avaliadas duas vezes. Mas a quantidade de cultivares sob avaliação pelo primeiro ano é maior que aquelas sendo avaliadas pela segunda vez e os híbridos são gerados com linhagens em um grau de endogamia mais avançado para o segundo ano de avaliação.
As demais fases do processo são as mesmas apresentadas no modelo genérico. Assim, são doze fases no total, com sete pontos de decisão ao longo de todo o processo. A tabela 9 mostra os objetivos de cada um desses pontos de decisão. Os cinco primeiros gates são voltados para a seleção dos melhores materiais, enquanto os dois últimos se relacionam com a decisão final por lançar ou desistir das cultivares que foram avaliadas positivamente nas avaliações agronômicas. O peso das informações de mercado é maior nesses dois últimos, mas deve também ajudar nas decisões de seleção feitas pelos melhoristas. As duas fases do pós-melhoramento não são seqüenciais, e geralmente devem ser conduzidas paralelamente. O que as distingue é que as atividades da fase de preparação para o lançamento devem ser realizadas apenas para as cultivares que forem escolhidas para serem lançadas. Dessa forma, o sexto ponto de decisão, que determina se a cultivar deve ou não ser lançada, não precisa
esperar os resultados de todas as atividades da fase de avaliações técnicas. As avaliações feitas nessa etapa podem oferecer mais informações que auxiliem nessa decisão, mas muitas vezes o potencial da cultivar já é reconhecido pelas avaliações agronômicas e pela análise da concorrência realizadas nas fases anteriores, o que é suficiente para justificar o seu lançamento. As novas informações podem ser utilizadas, então, para o posicionamento do produto no mercado e a diferenciação em relação às concorrentes. Entre os dois últimos gates há ainda a possibilidade de voltar atrás nessa decisão, mas após o sétimo ponto de decisão, apesar de ainda serem realizadas duas etapas do processo, o lançamento da cultivar já foi decidido e não há mais oportunidade de abortar o projeto.
Gate Fase avaliada Objetivo
D1 Obtenção de progênies
Descartar as progênies que não apresentem bom desempenho quanto a produção, acamamento e resistência a doenças. D2 Cruzamentos-teste Selecionar progênies com melhor capacidade de combinação D3 Ensaios
Preliminares
Selecionar híbridos com melhor desempenho para características agronômicas específicas
D4 Ensaios Elite 1º ano
Selecionar híbridos com melhor desempenho para certas características agronômicas e com bom potencial de mercado D5 Ensaios Elite 2º
ano
Selecionar híbridos com melhor desempenho para certas características agronômicas e com bom potencial de mercado D6 Avaliações técnicas Decidir pelo lançamento ou não das cultivares
D7 Preparação para lançamento
Avaliar se cultivares estão prontas para serem transferidas, física e juridicamente
Tabela 9 - Objetivos dos gates do PDC no modelo de referência específico
Não há pontos de decisão entre as atividades de multiplicação de materiais e os ensaios de avaliação. Essas duas fases poderiam se fundir em apenas uma, já que são realizadas em paralelo e a multiplicação dos híbridos e linhagens tem o objetivo principal de preparar as sementes para serem utilizadas nos ensaios. Todavia, foi demandada a inclusão de uma etapa específica para a multiplicação de materiais uma vez que se configura como um gargalo do processo, que deve ser bem planejado e acompanhado.
Diferente de um modelo genérico, um modelo de referência específico de uma determinada empresa pode conter os nomes dos departamentos, áreas, colaboradores e até das pessoas responsáveis pelas atividades (ROZENFELD et al., 2006). O modelo proposto para a Embrapa Milho e Sorgo distribui as atividades das diferentes etapas entre grupos funcionais, como mostra a figura 30. Esses grupos incluem diferentes atores dentro do centro de pesquisa, além de parceiros que participam do processo. Suas denominações são apresentadas nesse trabalho de forma distinta da real, para despersonalizar e preservar informações próprias da empresa.
O primeiro grupo, chamado de Melhoristas, inclui os pesquisadores responsáveis pelo melhoramento das cultivares e que, assim, realizam o trabalho de cruzamento e seleção. O segundo grupo, chamado de Pesquisadores, envolve quaisquer outros pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo que realizem atividades de pesquisa que agregam valor às cultivares. O terceiro grupo, denominado Pós-melhoristas, diz respeito à equipe responsável pelo desenvolvimento das atividades de preparação das cultivares para a inserção no mercado. É a principal equipe que conduz o pós-melhoramento, mas inicia seu trabalho ainda durante o melhoramento das cultivares para que as atividades principais da segunda macro-fase possam ocorrer no momento correto. O quarto grupo, chamado de Transferidores, representa a área da Embrapa responsável pela transferência de tecnologias para o setor produtivo. Não faz parte da Embrapa Milho e Sorgo, mas atua como parceira interna na Embrapa. O último grupo é o das empresas privadas que licenciam e comercializam as cultivares e devem, também, participar ativamente no processo de desenvolvimento desses produtos.
Além da matriz funcional, algumas atividades foram acrescentadas ao modelo específico, além das propostas no modelo genérico. Entre elas estão o licenciamento das cultivares para empresas privadas e a transferência de semente dos parentais para essas empresas. Tais atividades são necessárias na Embrapa, já que é uma instituição pública de pesquisa que não comercializa as cultivares diretamente para o agricultor.
Além dessa visão geral, o modelo também detalha objetivo, descrição, responsáveis, local e período de execução, recursos utilizados e resultados esperados para cada atividade do processo, assim como os critérios de avaliação utilizados nos diferentes pontos de decisão. O número aproximado de materiais avaliados em cada ensaio é determinado, refletindo a idéia do funil de desenvolvimento. São cerca de 3000 materiais avaliados nos ensaios de cruzamentos-teste, aproximadamente 100 avaliados nos ensaios preliminares, 30 avaliados nos ensaios elite pelo primeiro ano e 10 reavaliados nos ensaios elite de 2º ano. A quantidade de locais também varia a cada fase de avaliação, sendo realizados ensaios em até 5 locais na fase de cruzamentos-teste e 12 locais na etapa de ensaios preliminares, enquanto os ensaios elite são conduzidos em cerca de 50 ambientes. Esses números e locais, entretanto, não são exatos, havendo flexibilidade para um planejamento específico a cada ano.