Certa feita houve rumores de que um vizinho do Senhor das Chagas estava tendo uma praga de cobras nas terras dele, esse vizinho era o senhor Sebastião, que igual ao benzedor era pequeno fazendeiro e vivia da terra, ou seja, da roça e do gado.
Os rumores aumentavam a cada semana. Em uma tarde quando das Chagas já estava descansando das lides diárias e sentado na varanda picava fumo para fazer um cigarro, Sebastião chegou, parecia muito aflito e foi logo dizendo:
- Buenas tardes Seu das Chagas! Como vai o amigo?
- Vou bem obrigado, e quanto a vosmecê ouvi dizer que a coisa não anda boa lá para os lados da Nossa Senhora das Graças.
Respondeu das Chagas.
- Pois é, além de visitar o amigo, é também esse o propósito da minha visita, os problemas na minha fazenda. Vosmecê sabe que recebi aquela fazenda como parte do pagamento de uma dí-vida que os Damasceno tinham comigo. O velho morreu e os filhos para honrarem o compromisso me passaram integralmen-te a fazenda. Eles não são genintegralmen-te de confiança mas não fizeram nenhum empecilho pra me pagar, trouxeram um advogado da capital e em menos de um mês a fazenda tinha a escritura no meu nome. A única exigência que eles fizeram é que seu fosse vender que eles tivessem a prioridade de compra.
- E desde que vosmecê chegou pra lá, não vem se sentindo bem e nem confortável naquelas terras.
- Seu das Chagas é isso mesmo. Não sei bem dizer por-que mas me sinto injuriado e arrependido de ter me desfeito da minha chacrinha e pego aquela fazenda. O negócio até que foi bom, peguei a fazenda, vendi a “chácra” e a fazenda tá cheia de gado, mas não estou feliz lá.
Das Chagas pensou e olhou atentamente os olhos tristes e
a expressão angustiada de seu vizinho. Pensou, hesitou um pou-co, mas enfim, disse:
- Vou ajudar-te meu amigo. Ao falar isso seu semblante ficou carregado, pois sabia que estava se metendo em encrenca das grossas. Ele sabia muito bem que cobras, não se reúnem ale-atoriamente em um lugar, alguém com muita maldade no co-ração havia mandado essa praga para lá. É sabido que desde a antiguidade usa-se esses bichos nojentos para fazer mal para os outros, mas sabe-se também que quem pode mais é Deus e que nem uma folha cai de uma árvore sem a vontade Dele. Com essa convicção o senhor das Chagas conversou mais um pouco com o amigo e disse que na próxima lua nova ele iria lá na propriedade do vizinho.
Passaram-se os dias e a lua nova chegou. Ao cair da tarde, das Chagas arreou seu tordilho, que tinha uma bela cabeçada de alpaca e estribos do mesmo material, com pelegos vermelhos e uma bela sela com suas iniciais, partiu em direção à fazenda vi-zinha, ele estava com toda a indumentária pantaneira, faixa bem presa à cintura, guaiaca por cima da faixa, faca, 38 niquilado, uma capa gaúcha bem dobrada atrás da traia e um chapéu com o barbicacho bem apertado no queixo. A distância entre as duas propriedades era de mais ou menos uns cinco quilômetros e ele colocou seu tordilho ao passo e enquanto se deslocava, saboreava um “paieieiro”.
Assim ele chegou à propriedade vizinha, desceu e sem fa-lar com ninguém da casa foi até a invernada mais longe, a noi-te já havia coberto o dia com seu manto, porém a noinoi-te estava clara. Apeou do cavalo e o amarrou um pé de lixeira, caminhou um pouco e viu uma carcaça de gado no chão. Continuou cami-nhando e viu outra carcaça, mas até o momento não tinha
vis-to nenhuma cobra. O mal primeiro se escondeu do benzedor, não queria um confronto, o mal é ardiloso e onde você acha que não está é lá que ele aparece. Das Chagas não estava sozinho, um amigo invisível aos olhos mortais o acompanhava, era um velho índio terena, que o guiava e lhe dava serenidade.
Após andar mais ou menos duzentos ou trezentos metros, sentou-se em uma laje de pedra e lá permaneceu naqueando ago-ra ao invés de fumar o “paieiro”. A lua estava já bem alta e ilumi-nava toda a invernada. Das Chagas estava fazendo uma oração e após a oração abriu os olhos e parecia estar em uma espécie de transe, seus olhos tinham uma expressão viva e obstinada, então ele começou a falar:
- Apareçam, não adianta vocês se esconderem de mim!
Apareçam agora, em nome do Criador! Aos poucos algumas co-bras foram aparecendo, primeiro umas cobrinhas verdes, depois bocas-de-sapo, jararacas, surucucus do brejo. Na verdade ele não falava, ele pensava e a força de seu pensamento inspirado pelo te-rena invisível começou a dominar as cobras que se alinharam em sua frente, formando várias filas de cobra como se fosse uma pa-rada militar dos infernos. As serpentes estavam enfileiras à frente do benzedor e então ele falou com elas que queria falar com a sua líder. Elas se entreolharam e começaram todas ao mesmo tempo a sibilar e de repente uma jararaca, uma enorme jararaca, de qua-se um metro, apareceu e qua-se posicionou à frente de das Chagas, ela se esticou toda e ficou “em pé”, na ponta do rabo e sibilou, mostrando as presas e a língua. O sibilar dela dizia que era a líder.
Das Chagas a repreendeu e cuspiu fumo nos olhos da cobra que ficou no chão a se contorcer:
- Você suma daqui, não és a líder da maldição, vá embora e volte com a líder ou cuspo fumo no seu olho de novo ser in-fernal. O benzedor não via, mas percebia junto às cobras uma
presença maligna e profana, que de certa forma o amedrontava.
Uma criatura invisível aos olhos mortais volitava por cima das cobras, a criatura era um homem da cintura para cima e cobra da cintura para baixo, seria um horror aos olhos humanos ver um demônio como esse. Sob luz do luar a cena era também era grotesca e amedrontadora. Das chagas havia repreendido a cobra que sibilava e se contorcia, na verdade esta cobra estava magne-tizada pela criatura que falava através dela e pela astúcia queria enganar das Chagas. Não deu certo. Ele cuspiu fumo novamente nos olhos dela, então a serpente saiu desesperada. De novo ele invocou a líder enquanto todas as outras permaneciam enfilei-radas esperando como se fossem soldados do mal, aguardando a estratégia e as ordens de sua líder demoníaca.
Apareceu outra serpente e desta vez era uma coral, olhava--se na cara dela e seus olhos adquiriram feições humanas e nessa altura das Chagas teve medo, mas firmou o pensamento e a fé, nesse momento a cobra se postou frente a ele e como a outra ficou na ponta do rabo, sibilando e mostrando suas presas pelas quais escorriam veneno capaz de matar um cavalo com uma gota.
A enviada do diabo disse ao benzedor:
- Acha mesmo que você e esse velho índio tem poder sobre eu e minhas filhas?
- Na verdade nem eu nem ele temos poder sobre você, mas Jesus tem e você vai embora daqui junto com aquele que coman-da vocês, em nome coman-da Cruz de Nosso Senhor. Ao falar isso ele destampou uma garrafa com água benta e jogou no meio da for-mação das cobras. O ser maligno e rastejante disse a ele com um sibilo:
- Nós vamos embora, você jogou essa água e chamou esse nome do Cordeiro, maldição, maldição, malditos sejas tu. Como que para se proteger das maldições das Chagas fez o sinal da cruz
e sem que ele visse ganhava novas energias pelas mão do velho terena invisível. A serpente “falou” de novo:
- Vamos embora minhas filhas, mas você benzedor, arru-mou encrenca pelos séculos e através dos séculos. E foram em-bora ordenadamente dando a entender que faziam uma retirada honrosa, o horrível espectro que comandava e usava as cobras pra falar com o benzedor também foi e ficou olhando a retirada de sua legião infernal.
Depois da retirada das serpentes, das Chagas começou a passar mal, começou a suar e a ter fraqueza e tontura, continuou sentado na laje e quando menos esperava adormeceu estendido na pedra. O esforço para lutar contra o mal foi tanto que o ben-zedor ficou esgotado. A carne é fraca, mas o espírito é forte. E enquanto sua carcaça descansava seu espírito conversava com o índio, que era um antigo companheiro de muitas e muitas aven-turas.
- Essa deu trabalho não é mesmo!? Disse o índio.
- Oh se deu, mas no fim o bem sempre vence. Respondeu o benzedor, e continuaram conversando enquanto o corpo dele dormia, e como se fosse uma viagem astral percorreram toda a propriedade do vizinho. Quando acordou ele não se lembrava direito do que tinha acontecido e sua memória foi voltando aos poucos. O sol, já alto, estava machucando os seus olhos, a inver-nada estava limpa, a não ser pela presença das carcaças de gado.
Seu cavalo permanecia arreado e amarrado na lixeira e enquanto esperava mastigava o freio e saboreava o verde capim.
Ele montou no cavalo e foi embora direto pra sua casa. E começou as lides diárias normalmente, olhou o praieiro engar-rafar o leite tirado, acendeu o fogo para a mulher fazer almoço e então decidiu ir olhar como estava o serviço dos empreiteiros que estavam reformando a cerca de umas invernadas.
- Bom dia Sr. Ayala, como estão as coisas? Está precisando de alguma coisa para o serviço.
- “Buenos dias patrôn, no precissa de nada hoy tá tudo tránkilo. Agora de manhá termina esse lánce do cerca dele”. Res-pondeu o paraguai velho.
- Então tá bom, vou correr o rodeio e na hora do almoço a gente se fala. Ao fechar a boca eis que surge um cavaleiro a todo o galope e entra porteira a dentro em direção à sede da fazenda.
O cavaleiro era o vizinho que gritava:
- Das Chagas, das Chagas! Onde vosmecê tá homem? Das Chagas vinha andando bem devagar e quando Sr. Sebastião o viu foi correndo em sua direção e às lágrimas o abraçou. O homem chorou copiosamente e agradecia sem parar o benzedor que disse.
- Olha, que bom que as cobras foram embora, mas eu não fiz nada não. Eu tô muito feliz por você mas agradeça a Deus, porque eu não fiz nada não, nem saí de casa. O outro ficou com uma cara de espantado, mas a alegria era tanta que nem teve a importância quem mandou as cobras embora.
- Vou matar duas vacas e fazer o maior churrasco do ano pra comemorar. Das Chagas ficou olhando pra ele, pensou um pouco e disse:
- As cobras foram embora?
- Foram uai! Respondeu o outro.
- Pois bem, como elas foram embora, você não pode derra-mar sangue na sua fazenda por pelo menos um ano, de bicho ne-nhum, se não elas voltam. Se você quer agradecer a Deus a graça alcançada, vá até a cidade e ajude aquele orfanato ou o asilo, ou os dois, dependendo da sua alegria.
- Mas como é que você sabe disso? Perguntou Sebastião, olhando com a cara mais “deconfiada” do mundo, como diz o paraguai.
- Não sei como eu sei, só sei que sei. Dito isso convidou o Sr. Sebastião para um tereré e sentaram-se na varanda, prosearam alegremente enquanto sorviam a água amarga da erva. Sebastião não acreditava de jeito nenhum que das Chagas nada tinha a ver com o sumiço das cobras, mas como o amigo não queria assumir o “filho” ele não insistiu.
Dizem os antigos que tudo o que você deseja de mal para os outros lhe acontece em dobro. Soube-se mais tarde que os negócios dos Damascenos pioraram tanto que eles tiveram que vender as duas casas da cidade e que uma doença horrível que deixava a pele com um aspecto escamoso se abateu sobre a moça e o filho mais moço levou uma picada de víbora e a perna dele secou. Deus que acuda, mas esse negócio de fazer maldade para os outros nunca deu certo. Será que os Damascenos têm alguma coisa a ver com a Praga das Serpentes?
“Os demônios imploraram a Jesus: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. Ele lhes deu permissão, e os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou.”
Essa citação do Evangelho de Marcos no cap. 5:12-13, le-vou muitos povos a consideram os porcos como animais imun-dos ou impuros. Os judeus e os muçulmanos por exemplo não comem carne de porco. Os cristãos (com exceção dos