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O Cao do Inferno ~

No documento Conselho Editorial Life Editora (páginas 47-55)

- Não faça isso de jeito nenhum minha filha. Disse energi-camente a velhinha. Temos que ficar nós três juntos, não saía da-qui. Estou com um sentimento ruim, algo horrível nos espreita e não é desse mundo e nem de Deus.

- Credo dona Rute, assim a senhora me assusta, mas eu também sinto uma coisa ruim no peito. Será que, Deus nos livre, aconteceu alguma coisa com Miguel?

- Não, mas poderá acontecer conosco, firme seu pensa-mento em Deus e em Jesus, nosso Salvador. Eu me lembrei agora, tenho uma chave que você me deu há algum tempo. Vou abrir a casa.

Quando dona Rute colocou a chave na fechadura seu cor-po se arrepiou e ela teve medo, cor-porém foi em frente cor-pois sua fé em Deus era inabalável e em pensamento fez uma oração, pe-dindo proteção ao Criador. Evangélica devota, dona Rute era possuidora de uma superioridade moral que poucos possuem, a bondade e a humildade dela a faziam assim.

Girou a fechadura e abriu a casa, deparou-se com um enor-me cachorro, todo preto, que ao vê-la afastou adentrando mais na casa, enquanto rosnava e babava mostrando os enormes cani-nos. A velhinha percebeu que não se tratava de uma coisa desse mundo, era um espírito maléfico com intenções igualmente ma-léficas que ali estava para perturbar o sossego e a paz da família.

Ele só não contava com a intervenção divina feita por meio de dona Rute e teve que se materializar, que o repreendeu energica-mente em nome de Jesus e disse:

- Vá embora dessa casa e deixe essa família na paz de Deus, eu te esconjuro criatura do mal! Ao escutar essas palavras o ca-chorro soltou um uivo horroroso, um lamento e uma ameaça e partiu para cima de Dona Rute, não para atacá-la mas para sair

pela porta que estava aberta, e assim o fez assustando mãe e fi-lho que estavam um pouco mais atrás da avozinha. Foi o tempo dele passar por eles e quando olharam de novo o cachorro havia sumido diante de seus olhos. Ficaram assustados, mas também gratos a Deus. Terminaram de entrar na casa e as duas senhoras, uma espírita outra evangélica tinham uma certeza, que Deus as guardou daquela presença horrenda. E cada uma a seu modo fo-ram agradecer a proteção divina sobre suas vidas, apesar de terem se livrado do mal maior, elas nunca iriam esquecer que toparam frente a frente com um cão do inferno.

Em uma fazenda no pantanal, na região de Porto Murti-nho, viviam o Sr. Medina e sua esposa Dona Raquel, casados há pouco tempo viviam nessa fazenda sem filhos ainda. Ocuparam na propriedade uma boa casa, pois Medina era o gerente. Mas havia um fato porém que eles não sabiam e que ninguém havia comentado, na casa aconteciam coisas estranhas. Os moradores tinham pesadelos, objetos caiam do nada e outras esquisitices aconteciam na casa.

Ignorando essas coisas o casal mudou-se e logo nos primei-ros dias eles notaram que uma irritação crescia entre eles, provo-cando discussões bobas a todo momento. Certa feita a mulher reclamava que não tinha um lugar coberto para lavar roupa e que estava lavando roupa ao sol quente. Nesse mesmo dia o mari-do prometeu fazer um puxamari-do para a esposa não ficar no sol en-quanto lavava roupa.

Durante a noite, Raquel viu um vulto de uma criança de doze ou treze anos e foi ver quem era, não era ninguém. Ela aca-bou ficando meio “cabreira” mas decidiu deixar pra lá e nem con-tar para o marido que certamente não acredicon-taria e iria rir dela.

Jantaram e foram dormir. Durante o sono Raquel começou a se agitar, quando de repente deparou-se com o garoto que antes era só um vulto, mas que agora estava bem a sua frente. Ele tentava falar e não conseguia, parecia asfixiado, estendeu os braços e com as mãos apertou fortemente o pescoço de Raquel, que se debatia em agonia e acordou com aquela sensação de que aquilo não fora simplesmente um sonho.

Não conseguiu mais dormir e o dia veio. Ela não se

aguen-Asfixia

tava mais, e, enquanto preparava o café e o “quebra-torto” para o marido comentou com este sobre o sonho, ele disse simplesmen-te a ela: “vai rezá”. Foi o que ela fez, acendeu uma vela para pedir a Nossa Senhora Imaculada Conceição uma solução para tudo aquilo que eles estavam vivendo, pediu pela alma do rapazinho, que parecia ser muitíssimo atormentada. A oração fez bem a ela e aliviou seu coração, então ela prosseguiu normalmente as ati-vidades do lar.

O marido conforme o prometido mandou fazer o puxado pra ela lavar as roupas, determinou a um peão que sabia fazer algum serviço de pedreiro cavar para fazer um alicerce básico para sustentar a pequena construção. Durante a escavação o peão-pedreiro deparou-se com algo estranho, que simplesmente quebrou ao contato com a ferramenta, o objeto fez um “crec”, o que fez o pedreiro pensar que era um pedaço de madeira. Ele resolveu tirar a madeira que estava atrapalhando o andamento do serviço e puxou com a mão. Para a surpresa dele não se tratava de uma madeira, mas de um osso de costela, que parecia ser de...

gente. O pedreiro chamou Medina que logo apareceu juntamen-te com a esposa. Os dois homens começaram a cavar em volta, e em poucos minutos acharam uma ossada humana inteirinha.

Pelo tamanho da ossada, chegaram à conclusão de que se tratava de uma criança, de doze ou treze anos, quando Dona Ra-quel olhou de perto, como que em transe e de repente a ossada ganhou carne e osso. Era o rapaz do sonho, que entre o revoltado e o triste, ainda com dificuldade para respirar disse:

- Dona, eu vi que a senhora é uma boa mulher, de todos os que por aqui passaram foi a única que não abandonou a casa e teve a ideia de fazer uma oração, que me fez muito bem. Não entendo porque morri, porque ninguém cuidou de mim e

tam-bém não entendo porque fui enterrado igual a um bicho, sim-plesmente me jogaram em um buraco e jogaram terra em cima.

- Fique tranquilo agora, vamos providenciar um enterro cristão pra você e eu vou pedir pro padre quando eu for na cida-de pra rezar uma missa pela sua alma.

- Eu agradeço muito Dona, minha família era muito po-bre, da época que essa fazenda foi aberta, meus pais eram cer-queiros. Só me lembro que fiquei doente, com muita tosse e o patrão expulsou toda a minha família daqui, com medo de que nós contaminássemos todos os outros. Porém, antes de irmos embora, desmaiei e acho que morri. Só porque era bugre, pobre e doente, me enterraram igual a um cachorro.

- Raquel, Raquel! Com quem diabos você está falando?

Disse Medina, a mulher estava meio atordoada, mas acordou da-quele torpor. Amparada pelo marido, ela disse:

- Vamos enterrar o garoto, peça pra alguém na marcenaria fazer um caixão pra ele. O garoto só quer um enterro cristão.

- Como assim? Como você sabe o que ele quer? Perguntou desconfiadamente Medina.

A essa altura dos acontecimentos, todos já tinham para-do de trabalhar para ver a ossada, e começaram mil especulações sobre o porquê a ossada estava lá, sobre qual a causa mortis do menino, etc. Nesse ínterim, chegou um velho bugre, remanes-cente da época da abertura da fazenda, ele já tinha idade avan-çada, andava muito devagar e falava mais devagar ainda, mas era totalmente lúcido. Todos na fazenda tinham grande respeito por ele, e então Medina convidou-o para entrar e sentar-se. Honório Lipu, esse era o nome do velho bugre que começou a tecer a se-guinte narrativa:

- Inda me lembra desse família que moro aqui no fazenda.

Eis pegaram tudo esse tuberculose e o patrão mando tudo eis im-bora daqui do fazenda. Só que esse kalivôno ivókovone1, como que fala mesmo? Só que esse menino morreu, antes deis imbo-ra. O patrão mando interra esse kalivôno no meio do invernada, onde é esse casa agora.

Após o relato do “Seu” Lipu, tudo se encaixou, as irritações na casa, os vultos, os pesadelos e lógico a asfixia, mas tudo o que o indiozinho queria era ser tratado como gente, mesmo após sua morte.

A história comoveu a todos na fazenda, e logo após o cai-xão ficar pronto, colocaram a ossada do menino dentro, e um cortejo fúnebre seguiu até o pequeno cemitério da fazenda, e, onde todos tornam-se iguais, ou seja na morte. O em vida des-prezado e sofrido indiozinho foi enterrado de maneira decente.

Não se conhece suas divindades, não se sabe se era cristão, mas espera-se que depois da comoção e do enterro digno que lhe foi dado, ele tenha encontrado a paz, seja lá qual forem as suas di-vindades.

Era um dia de sol muito quente, mas do alto do Morro de Camisão soprava uma leve brisa que aliviava o árduo trabalho na roça. Estavam carpindo um eito de terra o Sr. Aníbal e seus três filhos mais velhos, Israel, Miguel e Rafael. Ainda eram crianças, com idade entre seis e dez anos. Levavam o serviço meio que na brincadeira. A hora do almoço estava próxima e Aníbal decidiu mandar Israel e Rafael irem embora para casa, enquanto ele ter-minava o eito com Miguel. Assim foi feito.

Os dois guris ficaram muito satisfeitos por terem sido libe-rados, pegaram cada um seus estilingues e foram embora corren-do. No meio do caminho tiveram a malfazeja ideia de matar pas-sarinhos, mas matavam só por matar, nem era sequer pra comer.

E assim fizeram, como não há limites pra maldade e pra arte do

No documento Conselho Editorial Life Editora (páginas 47-55)

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