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A presentei o que considero o essencial da crítica da

racionalidade científico-filosófica tal como é formulada em O nascimento da tragédia e nos escritos e fragmentos que lhe servem de preparação. É indispensável porém salientar que essa crítica é sempre retomada por Nietzsche, impondo-se co­ mo tema constante, malgrado as diferenças conceituais que servem para formulá-lo. Os textos imediatamente posteriores, como, por exemplo, o conjunto de fragmentos que deveriam constituir O livro do filósofo, retomam a mesma problemática da relação entre arte e conhecimento. Mas se a crítica à meta­ física persiste nesses escritos, como em toda a obra de Nietzsche, ela não mais se faz em nome de uma metafísica de artista, isto é, de uma dimensão metafísica da arte ou de uma experiência artística da essência do mundo - o elemento da arte é a ilusão. A crítica à institução da dicotomia metafísica verdade-aparência agora é realizada a partir do conceito de "instinto de conhe­ cimento" ou instinto de verdade, sem que o elogio da arte explicite uma dualidade de elementos ou de forças, mesmo que seja para afirmar uma síntese, uma reconciliação ou uma unificação.

O que é o "instinto de conhecimento"? Para sabê-lo é preciso resolver um problema: alguns textos negam claramente a existência de um instinto de conhecimento, de um "instinto de verdade honesto e puro" .1 O que Nietzsche pretende então é ressaltar que o conhecimento não faz parte da natureza hu­ mana, ou melhor, não está no mesmo nível que os instintos e que não é possível dizer, por exemplo, como Aristóteles no início da Metafísica, que todos os homens desejam natural­ mente conhecer. O conhecimento não é um instinto do ho­ mem, quer dizer, não é da mesma natureza que os instintos. O

conhecimento foi produzido, o conhecimento foi inventado, como enuncia a bela fábula criada por Nietzsche: "Em algum ponto do universo inundado por cintilações de inúmeros siste­ mas solares houve um dia um planeta em que animais inteli­ gentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais orgulho­ so e mais mentiroso da 'história universal', mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza o planeta se congelou e os animais inteligentes tiveram que morrer". 2 Quando afirma não haver instinto de conhecimento, ele quer salientar que não se deve definir o homem pelo conhecimento ou o conhecimento como o valor principal do homem porque os instintos são mais fundamentais do que o conhecimento.

Por outro lado, quando ele se expressa em termos de instinto de conhecimento ou de verdade, a expressão deve sempre ser entendida como se referindo a um instinto da cren­ ça no conhecimento ou na verdade. Propriamente o instinto de que fala Nietzsche é de crença e não de conhecimento. É o que significa, por exemplo, a afirmação, à primeira vista enigmá­ tica, de que "não existe instinto de conhecimento e de verdade, mas apenas um instinto de crença na verdade; o conhecimento puro é privado de instinto" .3 E se "instinto de conhecimento" tem o sentido, não de uma tendência natural para a verdade, mas de uma crença - produzida - na verdade é porque não há posse da verdade, mas apenas convicção, suposição de pos­ suir a verdade. "Análise da crença na verdade: pois toda posse da verdade é, no fundo, apenas uma convicção de possuir a verdade. O pathos, o sentimento do dever, vem desta fé e não da pretensa verdade."4 A verdade não tem como critérios a evidência e a certeza; tem como condição um esquecimento e uma suposição.

Ora, dizer que o instinto de conhecimento - denomi­ nação que em Nietzsche é geralmente utilizada criticamente, com a conotação de signo de baixeza, de decadência, de de­ clínio; signo de que a vida envelheceu e de que os instintos fundamentais se tornaram fracos5 - é produzido significa di­ zer que sua análise remete às condições de seu nascimento, de seu aparecimento. É então que aparece uma idéia que cada

Nietzsche e a verdade

vez mais se imporá a seu pensamento: as condições de possi­ -�lidade do conhecimento são sociais, políticas ou, mais pre­ cisamente, morais. Relação entre verdade e moral que é assina­ lada inúmeras vezes em O livro do filósofo. Eis alguns exemplos: § 91: "A crença na verdade é necessária ao homem. A verdade aparece como uma necessidade social; por uma metástase ela é, em seguida, aplicada a tudo, mesmo onde não é necessária. Todas as virtudes nascem de necessidades. Com a sociedade começa a necessidade de veracidade, senão o homem viveria em eternos véus. A fundação dos Estados suscita a veracidade.

O instinto de conhecimento tem uma fonte moral." § 130: "Por natureza o homem não existe para o conhecimento - a vera­ cidade (e a metáfora) produziu a inclinação para a verdade. Assim, um fenômeno moral, esteticamente generalizado, produz o instinto intelectual." § 133: "A necessidade produz, às vezes, a veracidade como meio de existência de uma sociedade. O

instinto se reforça por um exercício freqüente e é agora injus­ tamente transposto por metástase. Torna-se a tendência em si. Do exercício para casos determinados se faz uma qualidade. Temos agora o instinto de conhecimento." § 134: "O homem bom também quer ser verdadeiro e acredita na verdade de todas as coisas. Não apenas da sociedade, mas também do mundo."

Nessa época, é em "Verdade e mentira no sentido extra­ moral" que a relação entre verdade e sociedade é mais explici­ tamente tematizada. Partindo da distinção entre estado de na­ tureza e estado de sociedade, Nietzsche negará a existência de um desejo natural de verdade através de uma concepção do intelecto como tendo um efeito específico de dissimulação. O

intelecto, que é um meio de conservação dos indivíduos mais fracos, tem originariamente por função produzir disfarce, más­ cara, ilusão, mentira com o objetivo de compensar uma falta de força.

É sobre esse fundo de mentira que vai ser formulada a questão da verdade no estado de sociedade. Para instaurar a paz ou fazer desaparecer o aspecto mais brutal da guerra de todos contra todos, são fixadas leis da verdade a partir das leis

da linguagem: são essas leis que instituem pela primeira vez a oposição entre verdade e mentira. A partir do momento em que se estabelece uma designação . uniformemente válida e obri­ gatória para as coisas, o mentiroso é aquele que utiliza as palavras, as designações pertinentes, para fazer o irreal parecer real. É esta convenção que estabelece a verdade. A verdade não é uma adequação do intelecto à realidade; é o resultado de uma convenção que é imposta com o objetivo de tornar possível a vida social; é uma ficção necessária ao homem em suas relações com os outros homens.

Conclusão: O homem não ama necessariamente a verdade: deseja suas conseqüências favoráveis. O homem também não odeia a mentira; não suporta os prejuízos por ela causados. O que se proscreve, o que não se aceita e não se deseja é o que é considerado nocivo: são as conseqüências nefastas tanto da mentira quanto da verdade. A obrigação, o dever de dizer a verdade nasce para antecipar as conseqüências nefastas da men­ tira. Quando a mentira tem valor agradável ela é muito bem permitida.6

Pelo modo como tematiza. a questão do aparecimento do instinto de conhecimento e de verdade podemos facilmente ·

observar - o que é uma característica permanente de suá reflexão - como a análise de Nietzsche nunca se situa em um nível propriamente epistemológico, que teria por objetivo esta­ belecer critérios de demarcação entre o verdadeiro e o falso conhecimento. Desde o início, a investigação nietzschiana so­ bre o conhecimento não se limita ao interior da questão do conhecimento, mas o articula com um nível propriamente po­ lítico ou social com o objetivo de mostrar que a oposição entre verdade e mentira tem uma origem moral. Articulação do conhe­ cimento com o social que neste momento pretende sobretudo elucidar como a exigência de verdade surge da exigência da coexistência pacífica entre os homens, da exigência da vida gre­ gária. Paz, segurança e lógica estão intrinsecamente ligadas.7

A relação entre conhecimento e moral não é, entretanto, estabelecida por uma teoria moral. A perspectiva que denuncia a oposição verdade-mentira como fundada na moral é, como

Nietzsche e a verdade

Nietzsche a denominou, "extramoral" - ou empregando um termo que já aparece neste momento e que posteriormente ganhará toda sua importância - "fisiológica". 8 É essa perspec­ tiva extramoral que, criticando o instinto de conhecimento e de verdade, afirma a necessidade da ilusão, isto é, "de não-ver­ dades tidas como verdades", salientando que o conhecimento verdadeiro tem o mesmo valor que a mentira, a falsidade, a ilusão, a aparência. Desde o início de sua reflexão Nietzsche luta contra a oposição metafísica de valores, afirmando a posi­ tividade do aspecto que foi subestimado: a ilusão é a essência que o homem se criou.9

Daí a perspectiva extramoral implicar uma apologia da arte. Se a crítica da ciência e sua pretensão de verdade, insur­ gindo-se contra a desclassificação da aparência, luta pelo re­ nascimento da arte, é porque a arte é o domínio da aparência. Isto significa o desaparecimento da oposição, não fundamental nos textos que analisamos, entre o apolíneo e o dionisíaco, ou entre um dionisíaco bárbaro e um dionisíaco grego: por ser necessariamente artístico, o dionisíaco nietzschiano implica o apolíneo. Desaparece o conflito entre a bela aparência e uma verdade fundamental dionisíaca. A afirmação da vida, da reali­ dade, que caracteriza a arte trágica é afirmação da aparência porque a própria vida é aparência. Se a arte, diferentemente da ciência, está do lado da vida, é porque a vida quer a aparên­ cia, não despreza seus véus e ilusões. O que era característica da arte apolínea torna-se condição indispensável de toda arte digna desse nome, isto é, da arte dionisíaca; radicalização, atra­ vés da aparência, de um parentesco entre arte e vida que sem­ pre esteve presente no pensamento de Nietzsche. "Única pos­ sibilidade de vida: na arte. De outro modo nos desviamos da vida. O movimento instintivo das ciências é o aniquilamento completo da ilusão: se não houvesse arte, a conseqüência seria

o quietismo."10 .

A perspectiva extramoral critica o desejo de verdade co­ , mo sendo um esquecimento de que o homem é um artista, um

nismo entre arte e ctencia no próprio campo da ilusão. No fundo, dois tipos de ilusão: a ilusão socrática, ilusão metafísica, que considera a verdade superior

aparência; e a ilusão ar­ tística, consciente do valor da ilusão, que sabe que tudo é ilusão, "figuração", "transfiguração", criação. Utilizando o pro­ cedimento de inversão tão caro a Nietzsche, poder-se-ia dizer

que enquanto a "mentira" da ciência seria querer encontrar a verdade do mundo como outra coisa que não a aparência, a "verdade" da arte é acreditar na imagem como imagem, na aparência como aparência. Ou, em outros termos, enquanto "a humanidade tem no conhecimento um belo meio de perecer", 11 a superioridade <ia arte sobre a ciência é não opor verdade a ilusão, é afirmar integralmente a vida.

Nessa propriedade de afirmação ou de negação da vida se encontra o essencial da reflexão nietzschiana sdbre a re­ lação entre arte e ciência, que se faz não na perspectiva da verdade e da falsidade, mas na perspectiva da força. O an­ tagonismo entre arte e ciência é um antagonismo de forças. A

força da arte é a afirmação da vida, que é totalmente incom­

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tível com a negatividade que caracterizà a ciência. "A arte é mais potente do que o conhecimento, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final que o conhecimento atinge nada mais é do que - o aniquilamento."12 Mais forte do que o conhecimento, a arte foi, no entanto, desclassificada por ele em seu desejo de verdade. O que significa justamente o início de um período de decadência que, sob diferentes formas, se tem perpetuado na história. A alternativa proposta por Nietzsche é inverter essa correlação de forças, negando a negação da vida através da arte trágica considerada como afirmação. Se a força científica reprimiu a força artística dionisíaca, isto é, se a arte, e com ela a vida, foi desvalorizada pela metafísica so­ crática, é preciso revalorizar a arte - que cria uma super­ abundância de forças, que é o grande estimulante da vida, uma embriaguez de vida - para obrigar o saber a um retorno

à vida.

No conflito entre o instinto estético e o instinto de conhe­ cimento, Nietzsche toma claramente posição ao lado da arte. O

Nietzsche e a verdade

que de modo algum significa um projeto de destruição, de aniquilamento da ciência. Sua idéia é que cabe à arte, e à

filosofia, estabelecer o valor da ciência ou, o que vem a ser o mesmo, dominar o instinto de conhecimento. Alguns textos de O livro do filósofo enunciam claramente esta idéia. § 28: "Não se trata de um aniquilamento da ciência, mas de seu domínio. Em todos os seus fins e todos os seus métodos, ela depende, na verdade, inteiramente de pontos de vista filosóficos, mas o esquece facilmente. Mas a filosofia dominante também deve levar em consideração o problema de saber até que ponto a ciência pode se desenvolver: ela deve determinar o valor. " § 31: "Os mais antigos filósofos gregos devem ser entendidos como os que dominam o instinto de conhecimento. Como foi pos­ sível que a partir de Sócrates ele tenha caído de suas mãos?" § 46: "O conteúdo da arte e da filosofia antiga coincidem, mas nós encontramos elementos isolados da arte utilizados como filosofia para dominar o instinto de conhecimento." § 38: "(O último filósofo) demonstra a necessidade da ilusão, da arte e da arte dominando a vida. Não nos é possível produzir no­ vamente uma linhagem de filósofos como fez a Grécia no tem­ po da tragédia. A partir de então, apenas a arte realiza a tarefa deles." E o § 39 completa a idéia: "A partir de então o domínio da ciência só se produz pela arte."

É preciso esclarecer, antes de mais nada, o parentesco que esses textos estabelecem entre a filosofia e a arte. Eis uma opção importante da filosofia nietzschiana - filosofia trágica, dionisíaca - em luta contra a filosofia racional. A filosofia de Nietzsche é célebre não só por estabelecer uma ruptura entre filósofos pré e pós-socráticos, como também por afirmar a su­ perioridade dós primeiros. O critério que permite esta divisão e possibilita esta valorização é fornecido pela antinomia arte-ciência: Sócrates é o divisor de águas entre dois tipos de filosofia que têm como modelos a arte trágica e a racionali­ dade científica. A importância dos filósofos pré-socráticos, dos filósofos da Grécia arcaica, e sua superioridade com relação aos socráticos ou platônicos, é que eles filosofaram no' "mundo esplêndido da arte", "quando a vida atingiu sua realização",

sem desprezar os véus e as ilusões, características fundamen­ tais da arte e da vida.13 Por isso a filosofia trágica, a filosofia dionisíaca, "o verdadeiro filosofar", se insurgindo contra a filo­ sofia socrática, que fez fracassar o fim originário da filosofia, deve retomar a direção da filosofia pré-socrática reabilitando o profundo parentesco com a arte.

Mas a relação entre a arte e a filosofia se esclarece mais completamente através da compreensão da tarefa que Nietzsche lhes assinala de dominar a ciência. Dominar a ciência significa discipliná-la, controlar seus excessos. O que caracteriza a posi­ ção socrática, e é criticado por Nietzsche, não é exatamente o conhecimento; é o "instinto de conhecimento sem medida e sem discernimento", o "instinto ilimitado de conhecimento", o "instinto desencadeado do saber", o "conhecimento incessante", "a verdade a qualquer preço". Dominar a ciência é determinar seu valor no sentido de controlar a exorbitância d� suas pre­ tensões, no sentido de estabelecer até onde ela pode se desen­ volver. É formular a questão dos limites. Idéia que já se encon­ tra em O nascimento da tragédia quando, assinalando a luta entre uma concepção teórica e uma concepção trágica do mun­ do, afirma que só haverá um renascimento da tragédia quando o espírito científico tiver atingido seus limites, e sua pretensão a uma validade universal tiver sido aniquilada.14 Idéia que rea=-­ parece em O livro do filósofo ao afirmar que "o instinto de conhecimento, tendo àtingido seus limites, se volta contra si mesmo para chegar à crítica do saber" .15 Não é por si mesmo,· não é por exaustão, que o conhecimento atingirá seus limites. O que Nietzsche assinala e analisa é uma luta, uma correlação de forças; um combate entre o trágico e o racional, entre uma civilização socrática e uma civilização artística, dionisíaca. A

crítica à universalidade do conhecimento só pode vir do exte­ rior do próprio conhecimento; não é uma autocrítica. É uma perspectiva inerente ao caráter afirmativo da arte trágica com relação à vida.

E como uma civilização socrática se funda em uma re­ pressão do trágico, a crítica, o controle, do instinto ilimitado de conhecimento, do instinto desenfreado de saber, se faz pela

Nietzsche e a verdade

edificação de um novo tipo de vida em que os direitos da arte, que foram confiscados pela racionalidade científica, sejam res­ tituídos, reconquistados. " O filósofo do conhecimento trágico.

Ele domina o instinto desenfreado de saber, mas não por uma nova metafísica. Não estabelece nenhuma nova crença. Sente tragicamente que o terreno da metafísica lhe foi retirado e entretanto não pode se satisfazer com o turbilhão confuso das ciências. Trabalha pela edificação de uma nova vida: restitui à arte seus direitos."16 "O filósofo do futuro? Ele deve tornar-se a Corte Suprema de uma civilização artística, uma espécie de segurança pública contra todas as transgressões.'m O que, já se sabe, implica uma reabilitação da ilusão, da aparência como características essenciais da arte e da vida. Assim, enquanto a ciência e as filosofias que nela continuam _ainda a agir têm ao "conhecimento absoluto", 18 enquª-nto a "filosofia do conhecimento desesperado" é dominada por uma ciência cega, isto é, pelo saber a qualquer preço,I9 a filosofia trágica deve ajudar a viver, acentuando a "relatividade de todo conhe­ cimento" e sua força de ilusão.20 O conhecimento a serviço da melhor vida. Deve-se querer até a ilusão - é isso que é. o trágico.21

Daí a importância que Nietzsche reconhece, e não cansa de assinalar, à filosofia pré-socrática e à arte trágica como mo­ delos de um tipo de filosofia e de arte capaz de superar a decadência. A superioridade do grego arcaico, esse modelo de povo forte, sadio, esse povo que filosofou em uma civilização trágica, está no fato de ter dominado o instinto ilimitado de conhecimento em nome de uma afirmação da vida: "os gregos dominaram seu instinto de conhecimento, em si mesmo in­ saciável, graças ao respeito que tinham pela vida, graças à exemplar necessidade que tinham da vida - pois o que apren­ diam logo queriam viver."22 Enquanto Sócrates é aquele em quem o instinto de conhecimento se desenvolveu exacerbada­ mente, subordinando todos os outros, hipertrofia do lógico que corresponde a uma atrofia dos instintos fundamentais, a lição da arte trágica aponta em uma direção inteiramente diferente.

conhecimento é prejudicial, 23 Édipo também mostra como o desejo de saber excessivo e ilimitado é um crime contra a natureza.24

A arte aparece sempre na filosofia de Nietzsche como a alternativa para a ciência, ou, utilizando a terminologia dos textos que estamos analisando, para o "instinto ilimitado de conhecimento". Isto não quer dizer, no entanto, que a perspec­ tiva nietzschiana pretenda uma negação do conhecimento ou uma redução da totalidade do campo do saber à arte. Significa que na luta contra o desejo de verdade a todo custo, na crítica

à tese metafísica de que a verdade é um valor superior, a arte não só é reabilitada por sua força afirmativa da vida, como também é escolhida como modelo capaz de impregnar o pró­ prio conhecimento com a dimensão do trágico. A grande am­ bição da filosofia de Nietzsche é dar ao conhecimento as ca­ racterísticas da arte.

Que significado pode ter a proposta de pensar o conhe­ cimento a partir da arte instituída como critério senão a reafir­ mação do grande princípio da aparência? Contra a oposição metafísica de valores, a arte oferece uma valorização da apa­ rência, da ilusão que dá conta çle um valor essencial da vida menosprezado pela racionalidade._ Controlar -ª- ciência, limitan­ do o instinto de conhecimento, é impor ao conhecimento o valor da ilusão ou a ilusão como um valor tão importante quanto a verdade; é, portanto, pensar o valor do conhecimen­ to neutralizando a questão da verdade ou falsidade e privile­ giando a dimensão da força, que é a-marca dos valores artísticos. No pensamento de Nietzsche valorizar a aparericia é afir­ mar a força; é porque a arte é uma afirmação da vida como aparência que ela cria uma superabundância de forças. Pois