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3 CARAVANAS DA UGC: ESTUDANTES NISSEIS EM TRÂNSITO

3.4 A PRIMEIRA CARAVANA E O ESPORTE COMO FORMA DE

e levando-se em conta a flexibilidade do conceito é difícil realizar um levantamento preciso de todas as caravanas realizadas pelos gakusseis ao longo do recorte estudado. Há certos tipos de viagem que normalmente não eram descritas nos documentos como caravanas, mas sim como

excursões. Em outros casos, as atas registram caravanas programadas para uma série de locais,

mas não informam se elas foram ou não realizadas e na ausência de outros documentos que as detalhem não é possível realizar análises aprofundadas sobre estas.

O que é possível se extrair dos registros com precisão é o momento da realização da primeira caravana patrocinada pela UGC enquanto entidade estabelecida. Com o objetivo de divulgar o nome da agremiação por núcleos de concentração nikkei para o Norte do Estado e

437 Matsura não aprofundou-se a respeito do que considera ser o racismo, mas é bastante provável que ele estivesse se referindo às posturas segregacionistas dentro da comunidade nipo-brasileira, o que nos anos 1950 era mais comumente descrito como o maior problema racial envolvendo os nikkeis no Brasil. A superação do problema estava diretamente relacionada com a melhora da imagem dos nisseis na sociedade como um todo.

438 MASTURA, Queenti. ”Gakusseis” ou “Hyde Park”?. In: A Voz da União. Curitiba, Maio, 1955, p.2. 439 Ibid., p. 3.

incentivar a vinda de jovens nisseis para Curitiba, a viagem teve como destino os municípios norte-paranaenses de São Jerônimo da Serra, Assaí, Londrina, Cornélio Procópio, Uraí e Bandeirantes e foi realizada entre os dias 2 e 6 do mês de setembro de 1950.

O documento mais antigo que faz referências a este evento data de 22 de agosto de 1950. Trata-se de um ofício enviado pela UGC, assinado por seu então presidente Américo Sato para Bunji Tadano, um proprietário de terras de Cornélio Procópio. No ofício, o então presidente da UGC coloca que seus colegas seguiriam para o Norte do Paraná com o objetivo de “representar os ‘Gakusseis nisseis’ de Curitiba, na magna missão cultural e esportiva”, enviando equipes de beisebol, futebol e atletismo440, com aproximadamente 40 caravanistas441. Em termos

semelhantes, um ofício de 2 de setembro enviado pela Liga Esportiva Norte Paraná (Uraí-PR) informa que, infelizmente, não poderá receber a UGC por falta de tempo, conquanto “não é possível realizar competições esportivas ou reuniões para debates culturais, que tanto desejávamos e que desejamos, porque este é o único meio de elevar o nível cultural da colônia”442.

Internamente, os preparativos para a primeira caravana demonstram tensão e cautela entre os ugecenses. Primeiro, tomou-se uma decisão a respeito de quem participaria do evento443. Na 4ª Assembleia Geral da UGC, aonde discutiu-se a organização para a caravana,

desentendimentos e longas discussões acerca de como a entidade deveria proceder no Norte do Estado foram registrados na ata. O presidente Américo Sato apontou uma série de recomendações como evitar acidentes, comportar-se da melhor maneira possível, não tomar

bebidas alcoólicas, agir com senso de responsabilidade e não deixar os locais de hospedagem sem a autorização de algum membro da diretoria. A cartilha desagradou certos componentes,

que cobravam uma atitude mais imponente. Na mente dos integrantes, estava em jogo a reputação da UGC no epicentro da colônia japonesa do Estado e a entidade precisava mostrar firmeza em seus ideais e atitudes. O próprio redator da ata teceu a Sato críticas pessoais, mencionando que

Quanto às recomendações, foram um pouco falhas, pois mesma excursão como esta [sic.], pela primeira vez em que a maioria não tem experiência, devia de ser tratado com mais carinho o assunto, um pouco mais vigorosas as recomendações, mas infelizmente foi pelo contrário, após estas ligeiras e fracas palavras do sr. Presidente,

440 Ao final, as equipes de futebol e atletismo não participaram da caravana.

441 UGC. [Ofício], 22 de agosto de 1950, Curitiba [para] TADANO, Bunji. Cornélio Procópio. 1f.

442 LIGA ESPORTIVA NORTE PARANÁ. [Ofício], 2 de setembro de 1950, Uraí [para] UGC. Curitiba. 1f. 443 UGC. Sede da UGC. Ata da 6ª Sessão da Diretoria - 23 de agosto de 1950. Livro de Atas da UGC (1950- 1953), p. 14-17.

transformou a sessão numa novena mole, sem quase proveito, pois é necessário que todos compreendam que é desta vez que iremos decidir o êxito ou fracasso da UGC444 Os estudantes deixaram Curitiba em um sábado, dia 2 de setembro. O primeiro ponto de parada foi a cidade de Araiporanga, hoje São Jerônimo da Serra. Ao longo do mesmo dia, os ugecenses deslocaram-se para Assaí, aonde permaneceram até o domingo. No dia 4 dirigiram-se para Londrina. No 5, para Uraí. No 6, o último da viagem, os caravanistas estiveram em Bandeirantes e Cornélio Procópio.

Note-se que a excursão parece ter sido realizada em um número bem menor de integrantes do que os documentos que a antecederam sugeriam. Pelos álbuns, pode-se estimar algo em torno de 10 componentes, sem a presença de mulheres. Algumas imagens foram registradas em pacatas ruas de pequenas cidades, como ocorreu em São Jerônimo da Serra. Em Cornélio Procópio, Londrina e Assaí, os ugecenses aparecem em propriedades rurais, que aparentemente pertenciam a outros nikkeis. Londrina é o único local aonde foram realizadas imagens em espaços mais urbanizados. Na mesma cidade, explicita-se o contato dos caravanistas com jovens da região. De Uraí há apenas o registro dos ugecenses se divertindo em um rio. Em Bandeirantes, eles aparecem brincando nas Termas de Yara, um tradicional ponto turístico da região.

O caráter esportivo do circuito realizado ficou evidente na passagem por Assaí. A UGC disputou duas partidas de beisebol, uma diante do Bálsamo e outro contra a Seleção Assaisense. Este foi um dos momentos de maior interação dos estudantes nisseis curitibanos com jovens que tinham uma idade parecida e viviam no Norte do Estado. Em uma imagem, há uma perspectiva da arquibancada do campo, que limitava-se a três bancadas enfileiradas, aonde acomodavam-se homens nikkeis de todas as idades, desde meninos até senhores. A fotografia passa a impressão de um campo um tanto quanto improvisado, localizado em uma chácara, sítio ou fazenda. Na Figura 1, vemos a equipe da UGC perfilada à esquerda diante do adversário, também repleto de moços, para um dos jogos a serem realizados. Ao fundo, estão senhores de mais idade utilizando o uniforme de árbitro.

444 UGC. Sede da UGC. Ata da 4ª Assembleia Geral - 23 de agosto de 1950. Livro de Atas da UGC (1950-1953), p. 17-18.

Figura 1 – Equipe da UGC perfilada para uma partida de beisebol em Assaí (PR)

Fonte: Álbum de fotografias da Gestão 1949-1950 da UGC, autoria desconhecida, 1950.

De acordo com Ii-Sei Watanabe, ao longo da trajetória dos nikkeis no Brasil o beisebol constitui-se como uma das principais atividades recreativas da colônia japonesa, servindo também como elemento constituinte de identidade nipo-brasileira. Segundo o autor, inicialmente a prática do esporte no país “ficou restrita a japoneses e seus descendentes, pois os velhos imigrantes entendiam que, através de beisebol os jovens seriam educados e a sua prática contribuía para o desenvolvimento do caráter, personalidade e cidadania”445. Watanabe

pontua também que as equipes de beisebol no Brasil “surgiram acompanhando as frentes pioneiras de expansão da cafeicultura e as ferrovias que eram construídas para o escoamento do café” fazendo com que a modalidade se expandisse de São Paulo para o Paraná e o Mato Grosso446.

No período do pós-Guerra, a prática do beisebol contribuiu para a reconstrução do espaço étnico através de atividades como as analisadas. Para a UGC, o esporte era de tal modo importante que, como colocado anteriormente, a nomenclatura Baseball Esporte Clube foi sugerida no momento da fundação. Vale recordar que duas das três entidades nipo-curitibanas que surgiram no imediato pós-Guerra tinham no beisebol sua principal atividade. A função deste esporte para o estabelecimento da UGC como entidade relevante nos meios nikkeis e a divulgação de suas pautas políticas, conectadas ao movimento estudantil da época, pode ser

445 WATANABE, Ii-Sei. Beisebol e sua História. In: Centenário: Contribuição da Imigração Japonesa para o Brasil Moderno e Multicultural. São Paulo, Paulo’s, 2010, p. 141.

captada através de um depoimento concedido por Nobutero Matsuda. Segundo o ex-presidente da UGC, o contato com as demais entidades étnicas de Curitiba era feito

através do esporte. Beisebol (...) Era o único [esporte] que poderia, que o pessoal sabia, tinha gente que entendia, então poderia ensinar e fazer as reuniões, embates esportivos. E daí nós poderíamos divulgar o bom dos nossos pensamentos. Dizer ao pessoal da colônia que não só os rapazes estudassem, mas também as mulheres, moças, crianças estudassem também na faculdade. Tornassem cidadãs. Daí começou o nosso movimento e, ao mesmo tempo, nós imputávamos na cabeça dos antigos que acreditavam que o Japão tinha vencido a Guerra, mesmo após o término, eles ainda tinham, alguns elementos ainda acreditavam, e não admitiam que o Japão tivesse perdido447.

É de se supor que mesma prática tenha valido para atividades como as caravanas para o Norte do Estado, aonde contribuiu também para a divulgação da existência da UGC nos núcleos de concentração de nipo-brasileiros. Ao fim do evento, os resultados foram vistos com cautela pela diretoria da entidade. Na 5ª Assembleia Geral, realizada no dia 12 de setembro de 1950, pouco tempo depois do retorno, ugecenses justificavam certas falhas ao decorrer do evento, sem que a ata detalhe a que estavam se referindo em específico. De todas as maneiras, os gakusseis conseguiriam de lideranças étnicas doações para o funcionamento da entidade que, descontados os altos gastos da caravana, geraram uma arrecadação de 1.722 Cruzeiros448,

essencial para a execução de suas atividades ao longo do ano449.

Ao longo da década de 1950, o Departamento Esportivo da UGC ampliou suas atividades, tendo no beisebol seu carro-chefe. Torneios municipais passaram a ser disputados com regularidade em Curitiba a partir de 1953, com os estudantes nisseis obtendo diversas conquistas nos certames. A equipe de beisebol da UGC esteve presente em outras viagens e caravanas, tendo também disputado partidas contra times que visitavam a cidade de Curitiba. Neste período, outras modalidades como futebol, tênis de mesa e voleibol ganharam força na entidade. Em 1957, o Departamento Esportivo organizou sua própria caravana, para Arapongas (PR).

No ano seguinte, um evento semelhante se destinou a cidade de Bandeirantes (PR), para enfrentar equipes de jovens daquela cidade e também de Andirá (PR). O perfil da entidade tinha mudado. Ao todo, 38 caravanistas participaram da excursão, que teve Samir Abujamra, um ugecense de origem árabe que jogou por dez anos pela Seleção Brasileira de Beisebol450, como

um de seus principais organizadores. Além deste esporte, estavam reunidas equipes de basquete, tênis de mesa, futebol e vôlei. Naquela ocasião, uma das grandes novidades foi a

447 MATSUDA, Nobutero. Entrevista concedida para Ivan Araújo Lima. Curitiba, 2014. 448 Em janeiro de 1952, o valor do salário mínimo no Brasil era de 1.200 Cruzeiros.

449 UGC. Sede da UGC. Ata da 5ª Assembleia Geral - 12 de setembro de 1950. Livro de Atas da UGC (1950- 1953), p. 18-19.

formação de uma equipe de vôlei feminino, a única que abrigava mulheres, contando com dez jogadoras ao todo451.

3.5 AS CARAVANAS RECEBIDAS E A UGC PARA SECUNDARISTAS E