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Observação Entrevistas

PARTICIPAÇÃO DOS ALUNOS SURDOS

10 Os profissionais desenvolvem recursos compartilhados para suporte à aprendizagem.

4.3. Realização de entrevistas

4.3.3. A professora do atendimento educacional especializado

A entrevistada é professora há 29 anos, mas somente há quatro atua como professora da SRM. Com Graduação em Psicologia e Especialização em Psicomotricidade, a professora busca permanente formação e durante o percurso de sua carreira tem frequentado cursos de extensão, de formação continuada e eventos relacionados às temáticas da educação especial e da educação bilíngue para surdos.

Ao iniciar o trabalho de AEE, com enfoque na escolarização de alunos surdos, a professora desconhecia por completo a língua de sinais. A partir do contato com a antiga instrutora surda na SRM, a professora começou a desenvolver aptidão no uso da Libras. No ano seguinte, 2012, a professora ingressou no curso de Libras oferecido pelo INES. Na ocasião, a professora realizou uma prova de nivelamento e conseguiu avançar iniciando o curso no nível três. A professora completou o curso após realizar os terceiro, quarto e quinto

níveis. Ficou constatada em nossas observações sua competente capacidade de comunicação em Libras.

A professora afirma de modo categórico que a SRM não é destinada a um reforço escolar, sua função é ―expandir o acesso educacional dos alunos que precisam de um atendimento especializado‖. No que diz respeito à metodologia do trabalho desenvolvido com os alunos surdos, a professora relata o uso de diversas tecnologias e materiais adaptados. O uso de imagens é bastante explorado. Entretanto, ela acredita que a principal diferença é o uso da Libras na comunicação com os alunos surdos, e a oportuna utilização desta língua como instrumento de mediação para construir significados em L2.

Além de imagens (desenhos, fotos e mapas), a professora diz explorar jogos e outros recursos do dia-a-dia para desenvolver letramento em português. A professora aproveita datas comemorativas, experiências pessoais dos alunos e passeios pedagógicos para desenvolver suas aulas. Os temas transversais a serem trabalhados na sala de aula regular são discutidos anteriormente no espaço da SRM, deste modo o aluno surdo constrói conhecimentos prévios por intermédio da sua L1, o que os permite desenvolver com mais propriedade conceitos a serem abordados na sala regular.

(...) Eu sempre procuro contextualizar as aulas para que os alunos surdos consigam perceber os significados das palavras em português... Mostro pra eles o sinal em Libras e a palavra escrita em português... Quando um deles erra, peço para os colegas ajudarem... [00: 38: 21]

Para a professora, a maior dificuldade de José é comportamental. O aluno costuma não apresentar interesse em realizar as tarefas, ainda que responda às questões usando Libras ou gestos, ele nem sempre gosta de registrá-las. Em sua avaliação, Maria também possui dificuldades na língua portuguesa, todavia, não tanto quanto a professora regente alega. De acordo com a professora, o processo de letramento em português dos alunos surdos não deve ser comparado ao dos alunos ouvintes. Um fator limitante no avanço dos alunos surdos é o fato das aulas na sala regular comportarem um número grande alunos e, principalmente, serem voltadas para a maioria ouvinte. A professora diz que costuma dialogar com os professores das salas regulares a respeito das especificidades da surdez no processo de ensino- aprendizagem. Entretanto, alguns desses profissionais ainda se mostram desconfortáveis com a sua colaboração, pois a compreendem como uma interseção desnecessária ou uma forma de

vigilância. Sendo assim, a professora tenta aproveitar ―ocasiões mais leves‖ ou a troca de e- mails para transmitir as informações que julga necessárias. A professora compartilha materiais com a equipe escolar, muitos desses são produzidos pelo IHA. Segundo narra a professora, ―a direção e coordenação da escola dão apoio e confiam no trabalho da sala de recursos‖.

A professora classifica a convivência da comunidade escolar geral como ―boa‖. Em sua opinião, todos os educadores da escola-piloto bilíngue deveriam estar prontos para discutir suas dificuldades com o grupo e receber maior formação no assunto. Seu relacionamento com os alunos surdos é descrito por ela como ―ótimo‖. Os alunos se sentem à vontade em sua presença pela possibilidade de se expressarem em Libras sem quaisquer impedimentos. Entre os alunos surdos e ouvintes, a professora narra um acréscimo gradual nas relações positivas dentro da escola.

(...) Eles gostam da sala de recursos porque aqui eu falo em Libras com eles... Tem o instrutor surdo... [00: 42: 15]

A atuação pedagógica da professora da SRM atende a visão vigotiskiana (1982) de um ensino dialógico, cultural e processual da escrita. A construção textual parte das práticas e interações sociais, do momento histórico e do ambiente sócio-cultural dos alunos. A professora emprega uma metodologia adequada ao ensino de português como L2 para surdos. De acordo com parâmetros de ensino de L2 para alunos surdos, sugeridos por Salles et al. (2004), a aprendizagem da escrita ocorre em construção de etapas. É recomendável que o docente seja bilíngue, estabeleça relações dialógicas com imagens, transcreva as palavras em português na estrutura da Libras, teça comentários sobre o assunto, peça ao aluno para conferir sentidos usando a língua portuguesa, solicite que o aluno reescreva as frases na estrutura do português, destaque as palavras-chaves e as palavras desconhecidas do texto, e discuta novas possibilidades com os alunos.

Segundo Lacerda (2006, p. 165):

[...] a proposta de educação bilíngue que toma a língua de sinais como própria dos surdos, sendo esta, portanto, a que deve ser adquirida primeiramente. É a partir desta língua que o sujeito surdo deverá entrar em contato com a língua majoritária de seu grupo social, que será, para ele, sua segunda língua. Assim, do mesmo modo que ocorre quando as crianças ouvintes aprendem a falar, a criança surda exposta à língua de sinais irá adquiri-la e poderá desenvolver-se, no que diz respeito aos aspectos cognitivos e lingüísticos, de acordo com sua capacidade. A proposta de educação bilíngüe, ou bilingüismo, como é comumente chamada, tem como objetivo

educacional tornar presentes duas línguas no contexto escolar, no qual estão inseridos alunos surdos.

O ensino de Língua Portuguesa deve se dar em um espaço que ofereça práticas reais de uso da linguagem. É preciso assumir a linguagem como objeto de reflexão e sistematização teórica, de modo a construir categorias que signifiquem o seu funcionamento. Deve-se atentar para a capacidade dos alunos desenvolverem competência discursiva para ler e escrever em diversas situações de interação social.