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A PROGRAMAÇÃO SOCIAL DO TEMPO

No documento analise transacional (páginas 46-50)

O homem possui, além das necessidades biológicas, comuns a todos os animais, as necessidades psicológicas que o caracteriza. Dentre estas encontra-se a de programar o tempo disponível em seu estado de vigília.

Você já deve ter passado por situações não estruturadas temporalmente, como por exemplo, estar presente em uma reunião social onde não conhece ninguém. Você começa a sentir que olham como se perguntassem: - “Como é, você não fala?” e percebe que o tempo passa, arrastando-se pesadamente no silêncio formado a sua volta. Se for tímido, sua cabeça estará fervilhando de frases cuidadosamente construídas para evitar “um fora”. E como resultado, aparece um mal-estar que perdura até o momento em que alguém ou você mesmo começa a falar. E todos embarcam naquela conversa tão oportuna, seja sobre o jogo de futebol do dia anterior ou sobre o frio que tem feito ultimamente.

Todos nós passamos por situações semelhantes à descrita acima, nas quais surgem frases como: “e agora, o que vamos fazer para passar o tempo?” ou “o que é que vou fazer agora?” ou ainda “eu não posso ficar à toa, preciso fazer alguma coisa!!”

Para superar a ansiedade resultante da vivência de períodos de tempo não estruturados, o homem criou, no decorrer de sua história, algumas maneiras de programá-los e com isso sentir-se bem.

São seis as formas de programação social do tempo: 1. ISOLAMENTO 2. ATIVIDADE 3. RITUAL 4. PASSATEMPO 5. JOGOS PSICOLÓGICOS 6. INTIMIDADE. 5.1 – O ISOLAMENTO OU ALHEAMENTO

- Isolamento ou alheamento é a forma de programação temporal, na qual o indivíduo afasta-se das outras pessoas e do ambiente externo, penetrando em seu mundo interno, subjetivo.

- Uma representação anedótica do isolamento é o avestruz com a cabeça enfiada na areia.

Esse comportamento descreve uma atitude típica de defesa passiva, que deve ter sido a sua origem. Atualmente o isolamento apresenta-se sob diversas facetas e serve de meio a vários objetivos. Um deles, provavelmente o mais primitivo, é a defesa passiva. Diante de uma situação espaço-temporal não estruturada, o indivíduo retira-se para o seu interior à procura de reforçadores encobertos, como lembranças de experiências passadas, fantasias e mensagens parentais protetoras. Isso ocorre com indivíduos tímidos, cuja dificuldade de relacionamento interpessoal os leva a adotar comportamentos arredios, característicos de sua introversão. O emprego constante desse tipo de isolamento, pode levar a um empobrecimento gradativo da expressão muscular no meio ambiente, ou seja, a uma diminuição da taxa de respostas expressas. E com isso, em nível patológico, ao autismo.

Outro objetivo do isolamento é a auto-flagelação psicológica, caracterizada pela ocorrência de pensamentos auto-destrutivos. É um comportamento bem peculiar da “eterna vítima”, que se delicia com a própria desgraça e faz dela um modo de passar o tempo, repetindo sempre as mesmas lamúrias, como um disco rachado. Desse modo, ela adquire a sua quota de emoções negativas para manter em nível adequado a sua

bateria negativa. Uma exacerbação patológica desse comportamento pode levar o indivíduo ao suicídio.

O terceiro objetivo do isolamento é o auto-conhecimento e auto-construção. Um exemplo típico é a terapia NAIKAN, método japonês de auto-observação, durante o qual o indivíduo examina suas experiências passadas, reflete sobre elas, busca suas limitações e com base nesse conhecimento de si, inicia ou prossegue sua auto-reforma. Outro exemplo é a meditação Zen, na qual o indivíduo procura esvaziar-se dos diálogos internos e alcançar a compreensão de seu verdadeiro ser.

O isolamento nesse caso, atua como um impulsionador do desenvolvimento da personalidade, portanto, como um fator atualmente positivo.

É comum encontrar-se em ambiente de trabalho indivíduos muito retraídos, que bastam-se a si próprios ou preferem o isolamento ao relacionamento pessoal em nível superficial. São pessoas que gostam de trabalhar sozinhas.

É importante reconhecer esses indivíduos a fim de adequar sua posição na empresa e seu tipo de serviço à sua forma de estruturação do tempo. Elas podem ser muito bem aproveitadas em atividades de planejamento e pesquisa, entre outras que exijam reflexão, concentração prolongada e criatividade, principalmente no nível abstrato.

O desconhecimento desse traço de personalidade poderá conduzir a certos absurdos como o de indicar um indivíduo com tendências ao isolamento para funções que exijam contato com o público, ou trabalho em equipe. Com uma falha desse tipo a empresa estará sofrendo um prejuízo duplo: um, por má utilização de seus recursos humanos e outro, por dificultar o desenvolvimento profissional do indivíduo.

A pessoa que utiliza muito o isolamento para estruturar o seu tempo, pode por aproximação, deslocar-se para outra forma de estruturação do tempo, a atividade.

5.2 – A ATIVIDADE

Essa forma de estruturação temporal tem também como objetivo evitar o mal-estar, a ansiedade e o contato íntimo com as outras pessoas. Esses são os motivos psicológicos encobertos, que podem ser transformados em socialmente aceitos e expressos em forma de atividade construtiva, como o trabalho; em atividade lúdica como o esporte e o hobbie; em atividade artística como a música, a pintura, a escultura, a poesia e outras formas.

A atividade caracteriza-se principalmente pela relação homem-objeto material ou abstrato, onde o primeiro procura atingir certos objetivos, como manter-se ocupado, através da utilização do segundo.

O trabalho é a atividade primordial de qualquer sociedade e como tal é empregado por seus membros como modo de sobrevivência, de auto-realização e/ou de programação do tempo. É essa última utilização que abordaremos. A pessoa que emprega o trabalho para preencher seu tempo psicológico, tem nele, principalmente, uma defesa contra possíveis ameaças a sua individualidade.

Por isso desempenha constantemente o papel de ocupadíssimo, buscando com unhas e dentes qualquer coisa para executar. Para ele, o importante não é o “como” ou o “que fazer”, mas apenas não parar de fazer, para não ter tempo de relacionar-se com outras pessoas.

Quando vem a aposentadoria, insiste em continuar trabalhando, pois sente que essa é a única maneira de sentir-se bem. Se soltar essa bengala, certamente cairá, talvez num asilo para pessoas idosas ou numa entidade para doentes mentais.

É muito comum encontrarmos esse tipo de pessoa em ambiente de trabalho, por isso convém conhecê-lo para alocá-lo no setor e espécie de trabalho que melhor se ajuste a sua forma de estruturação do tempo.

Indicá-lo, por exemplo, para trabalhar como Relações Públicas da empresa, poderia ser uma calamidade e seus resultados poderiam ser observados através do

número de reclamações dos clientes sobre “um funcionário mal-educado, que não gosta de falar com o público, porque nunca tem tempo para isso.”

Ora, ao invés de forçar a sua adaptação ao trabalho, é preferível procurar um trabalho adequado à sua forma básica de estruturação do tempo. Com isso, lucra a empresa e lucra o indivíduo. Afinal de contas, se todos gostassem de azul o que seria do vermelho? Do mesmo modo, assim como certos indivíduos estruturam seu tempo basicamente com atividade, outros o fazem com rituais. É o que veremos a seguir.

5.3 – O RITUAL

Esta é uma outra maneira de passar o tempo longe das pessoas, embora camuflado por uma proximidade aparente. Existem rituais realizados sozinho, outros coletivamente. Alguns são aceitos e aprovados, enquanto outros são condenados pela sociedade. No ritual há sempre um elemento de fundo, o seu caráter repetitivo e, às vezes, compulsivo.

Exemplo de um ritual muito comum é o “aperto de mão” no momento de encontro de duas pessoas conhecidas. Porque elas apertam mutuamente suas mãos? É provável que não saibam. – “Mas para que saber, as pessoas fazem isso a tanto tempo e nunca precisaram saber o porquê...”. É exatamente essa uma das características principais do ritual – o desconhecimento do “porquê” é realizado. Isso reflete sua forma de aprendizagem. Por ser transmitido de geração a geração, do Pai para a Criança Adaptada e ser aceito como inquestionável, tem características dogmáticas que devem ser seguidas em sua totalidade ou renegadas também integralmente.

As sociedades secretas, as seitas religiosas e os clubes fechados possuem rituais que asseguram sua sobrevivência.

Também nas empresas ocorrem rituais, principalmente naquelas de características patriarcais e de estrutura hierárquica rigidamente estabelecida. São exemplos disso, as reuniões solenes, o cumprimento cordial no início e término do expediente.

Em algumas empresas a comunicação administrativa sofre acomodações que com o passar do tempo propiciam o surgimento de um ritual muito freqüente na administração formal – a burocracia, com sua corrente infindável de elos “de-para” ou “ao...ao...”. A cadeia de informações pode ter sido muito útil na época em que foi estabelecida, por representar uma situação de fato dentro do órgão. – para a toma da de decisão era necessário ouvir os pareceres de todos os escalões até alcançar o escalão superior onde finalmente a decisão era tomada. No início da instalação de uma empresa, ou no princípio de uma mudança de normas de trabalho ou de alteração da produção, a corrente de pareceres pode funcionar como um recurso para o aumento de segurança e diminuição de erros. Porém, três anos mais tarde, a corrente de “ao-ao” pode ter transformado-se num fóssil inútil á tomada de decisões, passando a atuar como um elemento restritivo ao desenvolvimento da organização. – Tornou-se um ritual.

Para exemplificar, digamos que os diversos setores da empresa alcançaram um nível de competência considerável e que com isso possam dispensar mutuamente grande parte dos pareceres, aumentando a rapidez da tomada de decisões e a flexibilidade no estabelecimento de metas de trabalho.

Se a empresa possuir uma sistemática de comunicação administrativa rígida, estabelecida pela cúpula, segundo a qual é imprescindível o cumprimento das normas regimentais; as quais estabelecem que a decisão de aumento ou redução da produção, as alterações no sistema de vendas, a mudança de produto, etc, só deverão ser tomadas depois de um percurso de “cinco elos”; os diversos setores terão que acomodar-se sem objeções. Ou seja, deverão cumprir o ritual à risca, do contrário sofrerão as conseqüências. O que estará ocorrendo nesse caso é uma transação típica de Pai – Criança Adaptada através de um ritual que deve ser obedecido.

Não será difícil prever os resultados de um ritual desse tipo, entre eles, a redução do dinamismo da empresa com reflexos diretos sobre o atendimento ao mercado de consumo.

O ritual que ocorre no processo decisório é semelhante a um enferrujamento no delicado mecanismo da tomada de decisões, de tal modo que tornará cada vez mais difícil e demorada a resposta às necessidades do ambiente.

O incrível é que apesar da empresa querer corrigir suas limitações para desenvolver-se, os rituais poderão impedi-la devido às suas características de verdade estabelecida do alto, de coisa sagrada, de dogma e á dificuldade de analisá-lo friamente, Adultamente. O fato é que por suas peculiaridades, o ritual bloqueia a percepção da realidade, o raciocínio frio e baseado em dados. E em certos casos, bloqueia a execução de medidas que o eliminem. E quando o eliminam, resta sempre como sub-produto um resquício de dúvida, de culpa, diante de uma advertência – “Vocês é que sabem, se quiserem mudar, que mudem, mas não se arrependam depois”... lançada pelo Pai (Bruxo) do presidente ou diretor da empresa às Crianças Adaptadas dos subordinados.

É portanto imprescindível o conhecimento dos diversos rituais que ocorrem na organização para a eliminação de seus sub-produtos nocivos ao bem-estar da empresa, como um todo, e das pessoas envolvidas.

Enquanto algumas pessoas e empresas preenchem seu tempo com rituais, outra optam por uma forma mais descontraída e descompromissada de estruturar o tempo – o passatempo.

5.4 – 0 PASSATEMPO

Esta é uma maneira gostosa de fazer o tempo passar mais rápido e sem grande perigo de envolvimento pessoal. Seu objetivo psicológico além da estruturação do tempo é também evitar a intimidade no relacionamento humano, como os outros mecanismos de programação do tempo já analisados.

Você já deve ter visto duas pessoas conversando animadamente sobre a crise energética mundial, sobre o futebol brasileiro, sobre os últimos lançamentos da moda de verão ou sobre outro tema qualquer. E deve ter observado que o objetivo do “papo” não era o de informar sobre os fatos objetivos, mas apenas expressar opiniões.

É típica a ocorrência do passatempo em reuniões sociais. aliás, a reunião social é a própria institucionalização do passatempo.

Existem diversos tipos de passatempo que podem ser classificados em três grandes categorias: passatempos realizados com o estado de ego Pai, com o estado de ego Adulto e com o estado de ego Criança.

A - Passatempos de Pai

Esses passatempos encerram basicamente mensagens de duas categorias: de crítica e de proteção.

É muito comum encontrarmos duas ou mais pessoas conversando sobre os “defeitos da juventude de hoje”, com um tema complementar de “no meu tempo não era desse modo”.

Outro assunto predileto do Pai Crítico é a política internacional de alguns países, hoje com maior realce no problema do petróleo.

Aqui no Brasil, um passatempo muito comum, quase institucionalizado pelo Pai Crítico é: “é um absurdo o técnico do time ter escalado o jogador “X” para esse jogo”... – “É tem razão, eu por exemplo acho que ele deveria ter escalado o “Y”...” – “Pois é, e além disso blá, blá, blá (...)”.E nesse “papo” os dois terão assunto, para uma noite toda, regado por uma cervejinha de vez em quando. Geralmente um passatempo puxa o

outro, à semelhança de uma cadeia de numerosos elos. O número total de elos da cadeia de passatempos, dependerá da disposição dos elementos envolvidos e do hábito já adquirido em algum passatempo particular. Quanto maior o hábito, maior será a necessidade de mudar de passatempo para não ficar desocupado, e com isso sujeito a um aumento de tensão que poderá alterar a forma de estruturação do tempo.

É comum a passagem de um passatempo de Pai Crítico para outro de pai Nutritivo. Essa mudança poderá ocorrer mais ou menos do seguinte modo: dois indivíduos estão discutindo sobre a decisão dos árabes de aumentarem o preço do petróleo. Ambos atacam a decisão tomada, cada vez com maior veemência, até o momento em que um deles julga estar sendo muito cruel, “pois afinal, os árabes sempre sofreram tanto que têm razão de descontarem agora”... Nesse momento, surge um outro elemento no diálogo – o de proteção, que produzirá alguma modificação no passatempo, podendo inclusive transformá-lo em “bate-boca” (um tipo de jogo psicológico, que veremos mais adiante) ou em afastamento, isolando os dois indivíduos. Porém, se o indivíduo B concordar com a atitude do A em proteger os árabes, poderão, a partir desse ponto, iniciar o passatempo de Pai Protetor e com isso passar mais um tempinho aparentemente juntos. Em outros casos, o passatempo de Pai Protetor vem associado com o de Pai Crítico; por exemplo, enquanto protegem os “velhinhos abandonados em instituições”, atacam os “filhos ingratos que os abandonaram”; enquanto criticam os “jovens viciados em drogas” protegem ou têm pena de seus “pais que sofrem com essa ingratidão...”

No documento analise transacional (páginas 46-50)

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