• Nenhum resultado encontrado

3. A CRIAÇÃO DOS INSTITUTOS FEDERAIS E A IMPLANTAÇÃO DO IFES

3.1. Os Institutos Federais: uma novidade não tão nova

3.1.2. A proposta da polivalência na educação profissionalizante

Para que se possa compreender o conceito de polivalência colocado como ideal pelos idealizadores da formação profissional a serviço do mercado, faz-se necessário retomar algumas ideias relativas à relação entre capital e educação na perspectiva liberal ou neoliberal.

Dentro desta perspectiva temos a concepção de que o motor da humanidade e de suas relações é o comércio, o mercado. É este que deve ditar os rumos da sociedade. Nesta perspectiva vigora a concepção do Estado mínimo – dependendo da intensidade da proposta liberal: conservador, neoliberal, liberal-social, etc; enquadra-se um modelo de Estado maior ou menor –, limitado em suas ações quanto à infraestrutura para que o mercado esteja livre para cumprir o seu papel comercial. Deste modo a educação e a formação humana estarão a serviço das necessidades e demandas do mercado. O que determinará os processos educacionais será a esfera privada e a sua reprodução.

A lógica que condiciona este processo é a de que a educação, enquanto subordinada aos interesses do capital, manifesta-se explicitamente em termos de uma diferenciação da educação ou formação humana para as classes dirigentes e para a classe trabalhadora. Como vimos, Marx e Engels (1992), em diferentes momentos

questionam a subordinação da escola ao capital, e, consequentemente a formação dos trabalhadores de acordo com os interesses das classes dominantes.

Com o desenvolvimento do capitalismo e com as teorias do Fordismo e do Taylorismo no campo da educação, esta prática não somente se consolidou como adquiriu caráter científico. As atividades no campo da produção foram simplificadas ao extremo, demandando do trabalhador, cada vez mais, operações mais simplificadas, e, portanto, um processo de educação que priorize o domínio destas atividades. No Brasil tal perspectiva, denominada instrumentalista e pragmática com uma vertente de adequação ao mercado de trabalho, foi desenvolvida nos anos 1940 com a criação das escolas técnicas industriais e agrícolas, e também do SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (FRIGOTTO, 2010).

O Fordismo e o Taylorismo, nos moldes que se estruturaram para a potencialização da produção nos inícios do século XX, acabaram no final deste século e início do terceiro milênio manifestando-se insuficientes diante das exigências do mercado globalizado que, por sua vez exigiu uma nova classe trabalhadora. O emprego de novas tecnologias nas indústrias, além da consequente substituição de boa parte dos trabalhadores por máquinas com um complexo sistema informático, trouxe a exigência de um trabalhador mais reflexivo. Segundo Salerno,

dois aspectos nos ajudam a entender por que o capital depende de trabalhadores com capacidade de abstração e de trabalho em equipe. […] O novo padrão tecnológico calcado em sistemas informáticos projeta o processo de produção com modelos de representação do real e não com o real. Estes modelos, quando operam, entre outros intervenientes, em face de uma matéria-prima que não é homogênea, podem apresentar problemas que comprometem todo o processo. A intervenção direta de um trabalhador com capacidade de análise torna-se crucial para a gestão da variabilidade e imprevistos produtivos (SALERNO, 1992, p. 153-154

Neste novo modelo de produção, denominado Toyotismo, constata-se uma equação na qual mudadas as bases materiais de produção, faz-se necessário capacitar o trabalhador para que atenda às demandas de um novo processo produtivo

Mudam as capacidades, agora chamadas de “competências” no âmbito da pedagogia toyotista, que se deslocam das habilidades psicofísicas para o desenvolvimento de competências cognitivas complexas, mas sempre para atender às exigências do processo de valorização do capital. Neste sentido, as ferramentas que buscam superar os obstáculos decorrentes da fragmentação do trabalho, em particular no que diz respeito a todas as formas de

desperdício, tais como a multitarefa ou o controle de qualidade feito pelo trabalhador, têm, antes a finalidade de evitar todas as formas de perda e assim ampliar as possibilidades de valorização do capital, do que reconstruir a unidade rompida (KUENZER, 2005, p. 80).

Para estar preparado para este novo tipo de exigência do trabalho é necessário que o trabalhador não seja simplesmente um executor de tarefas, mas que ele se enquadre no que os autores denominam como um “trabalhador polivalente”. Compreendendo-se por polivalência, múltiplas competências do trabalhador em contraposição à especialização requerida no modelo taylorista. Ana Maria Rezende Pinto (1992, p. 4) destaca o que se espera do novo trabalhador: “Boa formação geral, atento, leal, responsável, com capacidade de perceber um fenômeno em processo, não dominando, porém, os fundamentos científico-intelectuais subjacentes às diferentes técnicas produtivas modernas”. Sem dúvida, o último ponto revela que o trabalhador polivalente não deve ser um trabalhador crítico, conhecedor dos fundamentos do processo produtivo, o que nos leva a dizer, o novo trabalhador continuará a ser resultado do processo de alienação.

Quando se pensa em formação profissional para se atender às demandas do mercado, como é a proposta da parceria público-privado no sistema S e mesmo em programas governamentais como o PRONATEC – Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego –, pensa-se neste tipo de trabalhador. Roberto Boclin (1992), um dos mais destacados dirigentes do SENAI, explicita, ao nosso ver, como o conceito de polivalência é compreendido na perspectiva dos homens de negócio ou de seus prepostos:

Longe de se pensar na desqualificação da força de trabalho pelo advento da informatização, o que se considera é a formação integral do técnico, que de uma certa forma vem a ser a polivalência, distinta dos princípios marxistas e ajustada à realidade do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Vem a ser uma visão teórico-prática que ofereça um aprofundamento do conhecimento, que possibilite a assimilação dos processos de trabalho e que ofereça múltiplas condições de acesso a emprego. A polivalência na escola deve aproximar-se da polivalência no trabalho (BOCLIN, 1992, p. 21).

A polivalência no trabalho exige então, segundo este pensamento a polivalência na escola, e, para isto faz-se necessário uma formação que leve o indivíduo a um processo de policognição tecnológica.

o processo de policognição tecnológica se caracteriza por um conjunto de conhecimentos que envolvem: a) domínio dos fundamentos científico- intelectuais subjacentes às diferentes técnicas que caracterizam o processo produtivo moderno, associado ao desempenho de um especialista em um ramo profissional específico; b) compreensão de um fenômeno em processo no que se refere tanto à lógica funcional das máquinas inteligentes como à organização produtiva como um todo; c) responsabilidade, lealdade, criatividade, sensualismo; d) disposição do trabalhador para colocar seu potencial cognitivo e comportamental a serviço da produtividade da empresa (PINTO, 1992, P. 3).

A consciência do trabalhador é moldada desse modo para um novo padrão de conhecimento útil ao processo produtivo e, consequentemente às necessidades do mercado de forma que gere mais valia para os donos do capital.

Ao se pensar sobre a formação profissional em nossos dias, sobretudo nos Institutos Federais vemos que este modelo não responde ao que se propõe como proposta para uma educação que leve à formação integral do indivíduo, inclusive de seu senso crítico. Por isso, no texto supracitado de Boclin, se afirme com todas as letras a distinção desse processo com relação ao que ele denomina de “princípios marxistas”.