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2. A FORMAÇÃO DO TRABALHADOR POLITÉCNICO EM MARX E NOS

2.1. A educação profissionalizante na perspectiva de Marx

2.1.4. Politecnia, unilateralidade e omnilateralidade

Faz-se necessário, nesse momento, traçar algumas considerações sobre os conceitos de politecnia e omnilateralidade dentro do pensamento marxiano e que influencia em toda conceptualização do pensamento marxista quanto à educação profissional. Não é possível abordar este tema sem retomar alguns aspectos da questão do trabalho alienado no mundo capitalista, o que gera sua característica de unilateralidade no campo do aprendizado ou mesmo do ensino. Como evidenciamos, partimos da compreensão da centralidade da filosofia da práxis no pensamento marxiano. Como observa Souza Júnior (2010, p. 71), tal categoria “representa a construção político-pedagógica dos trabalhadores”, entendendo que nessa construção estão presentes para além de sua formação formal, isto é, no ambiente escolar, a autoformação proporcionada nos partidos, associações, sindicatos, que sempre constituíram uma dimensão fundamental dentro da compreensão marxiana de educação.

O autor italiano Mario Alighieri Manacorda, em sua obra Marx e a Pedagogia Moderna (2007) aborda a questão do trabalho e do ensino nas obras de Marx e de Engels. Como se observou acima, o trabalho ocupa um lugar central no pensamento marxiano e engelsiano. Cumpre ressaltar a visão negativa do trabalho – nos moldes do capital e, portanto, trabalho estranhado/alienado – que os dois autores compartilhavam. De acordo com Marx, o trabalho, que difere o homem genericamente dos outros animais, uma vez que “O objeto do trabalho é portanto a objetivação da vida genérica do homem: ao se duplicar não só intelectualmente tal como na consciência, mas operativa, efetivamente e portanto ao se intuir a si mesmo num mundo criado por ele” (MARX, 1989, p. 157, grifo do autor). Mesmo em A Ideologia Alemã Marx e Engels (2009), fazendo uma gênese do trabalho, ao se contrapor aos neo-hegelianos, que viam na historicidade e na consciência a essência do ser-humano, notam que para que o homem possa fazer história ele precisa primeiro satisfazer às suas necessidades vitais, ou, indo mais diretamente ao ponto, às suas necessidades materiais. Disto segue a afirmação:

Podemos distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião – por tudo o que se quiser. Mas eles começam a distinguir-se dos animais assim que começam a produzir os seus meios de subsistência [...], passo esse que é requerido pela sua organização corpórea. Ao produzirem os seus meios de

subsistência, os homens produzem indiretamente a sua própria vida material (MARX, ENGELS, 2009, p. 24, grifo do autor).

Os autores observam que este ato de produção é efetivamente uma exteriorização da vida ou de um modo de vida dos homens que são os artífices dessa produção. Como eles exteriorizam a sua vida, desse mesmo modo eles o são. “Aquilo que os indivíduos são, depende, portanto das condições materiais da sua produção” (MARX, ENGELS, 2009, p. 25). Foi demonstrado acima, a partir dos capítulos históricos de O Capital, que o desenvolvimento do trabalho, com seus modos de produção e suas divisões, significaram contraditoriamente a perda desse domínio criativo dos homens. Ao se atingir o nível máximo no desenvolvimento da produção na grande indústria, temos contraditoriamente o apogeu do estranhamento entre o homem e o fruto do seu trabalho. Nos Grundrisse, Marx (2011) retoma suas conclusões da juventude sobre o trabalho estranho e alienado, ressaltando que na perspectiva do capital quanto mais o trabalhador produz riqueza, mais ele se empobrece:

[...] todos os progressos da civilização ou, em outras palavras, todo aumento das forças produtivas sociais, se se quiser, das forças produtivas do próprio trabalho – tal como resultam da ciência, das invenções, da divisão e combinação do trabalho, do aperfeiçoamento dos meios de comunicação, da criação do mercado mundial, da maquinaria, etc. –, não enriquecem o trabalhador, mas o capital; em consequência, só ampliam o poder que domina o trabalho; só multiplicam a força produtiva do capital (MARX, 2011, p. 381-382, grifos do autor).

Nesse processo, cada vez mais o trabalho se transforma em uma realidade objetiva estranha ao homem. O homem, marcado pela produção em massa, pelas linhas de produção, levadas ao extremo por teorias científicas para se alcançar o máximo da produção, torna-se um ser unilateral, monotécnico, ou seja, formado para exercer uma única atividade, alheio às suas potencialidades criativas e transformadoras da realidade. Todavia, esse processo é histórico, ou seja, não natural. Trata-se de uma realidade construída pelos próprios homens. O que significa que há a possibilidade de sua transformação a partir da tomada dos meios de produção por parte daqueles que são os mantenedores dessa situação, pois, são eles os produtores, ou seja, o proletariado, como o demonstram Marx e Engels (2011) no Manifesto do Partido Comunista.

Manacorda (2007) observa que há uma antinomia na visão marxiana do trabalho, uma vez que se, por um lado o trabalho se torna a miséria do homem, uma vez que por ele o homem é expropriado de suas forças em benefício do capital, este também se

torna, positivamente, como atividade criadora e atividade vital humana. Para isso, faz-se mister romper com os grilhões da sociedade capitalista. Nas palavras de Manacorda (2007, p. 64): “Que o trabalho seja, por uma parte a miséria absoluta enquanto objeto e, por outra parte, a possibilidade absoluta de riqueza, enquanto sujeito e atividade; de fato, os dois aspectos se condicionam e reciprocamente resultam da divisão do trabalho”.

Para Marx, portanto, o homem se realiza em seu ser na medida em que deixa de identificar-se, como fazem os animais, com a natureza. Ele se torna homem quando começa a produzir para satisfazer as suas próprias necessidades. E isso ele o faz pelo trabalho. Tal desenvolvimento abre para o homem uma multiplicidade de possibilidades em um desenvolvimento humano omnilateral. Contudo no desenvolver-se na história o homem produziu também a divisão do trabalho, trazendo consigo a divisão do próprio homem. “Assim tem sido o processo histórico da formação contraditória – ou seja, desenvolvimento e perda de si mesmo, crescimento e divisão – do homem, desde o momento em que, graças ao trabalho, se distinguiu da pura natureza” (MANACORDA, 2007, p. 74).

Tal realidade, por mais que possa parecer ontológica e estável – como muitos o fazem crer –, é histórica e passível de ser superada. Tal superação se dará a partir da superação do modo de produção capitalista que, diante das especialidades da divisão do trabalho se intensifica através da divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual. Ligado a esta divisão do trabalho está o domínio sobre o tempo livre, sobre o ócio necessário para a criação e a fruição, mas também a possibilidade para a produção e apropriação do conhecimento científico:

A capacidade de fruição é condição da fruição, ou seja, seu primeiro meio, e essa capacidade é desenvolvimento de uma aptidão individual, força produtiva. A poupança de tempo de trabalho é equivalente ao aumento do tempo livre, i. é., tempo para o desenvolvimento pleno do indivíduo, desenvolvimento este que, como a maior força produtiva, retroage sobre a força produtiva do trabalho. Do ponto de vista do processo de produção imediato, a poupança de tempo de trabalho pode ser considerada como produção de capital fixo, este capital fixo sendo o próprio ser humano. [...] O tempo livre, que é tanto tempo de ócio quanto tempo para atividades mais elevadas, naturalmente transformou o seu possuidor em outro sujeito, e é inclusive como este outro sujeito que ele então ingressa no processo de produção imediato. Esse processo é disciplina, no que se refere ao ser humano em formação, e ao mesmo tempo experiência prática, ciência experimental e ciência materialmente criativa e que se objetiva, no que se refere ao ser humano já formado, em cujo cérebro existe o saber acumulado da sociedade (MARX, 2011, p. 950-951, grifos do autor).

Obviamente que tal posse do tempo livre necessário para as atividades mais elevadas do conhecimento que forjará um novo ser humano não era – e hoje ainda não é – disponível para a classe assalariada. Por isso, como veremos mais adiante, a superação da dualidade do ensino, como também, de uma escola que atinja a omnilateralidade não é possível na sociedade capitalista. O que não quer dizer que a escola não ocupe um lugar estratégico no processo de formação do trabalhador para uma práxis revolucionária.

Como pôde ser visto acima, em suas análises, Marx traça tanto uma crítica da sociedade marcada pelo capital, com suas contradições, procurando compreender essa mesma sociedade e apresentando o processo de sua superação. Algumas vezes, Marx tem como interlocutor o Estado diante do conflito de classes. Em outras situações, Marx, aprofunda-se mais e visa o estabelecimento de uma nova ordem, baseada na quebra de todo aparato burguês e que levaria à libertação de toda alienação e exploração dando origem à sociedade onde os meios de produção serão comuns.

Dentro da compreensão de dois momentos sempre presentes na análise da sociedade pensada por Marx que se articulam os dois conceitos, de politecnia e de omnilateralidade. Ao mesmo tempo que estes trazem uma contradição, eles se complementam:

O primeiro, referente à formação politécnica, traz consigo uma limitação, pois comporta apenas uma série de habilidades manipuladoras e conhecimentos técnicos úteis para a produção social; o segundo, referente à formação omnilateral, representa uma formação ampla do homem nas suas múltiplas possibilidades, enquanto ser livre que só se constrói em relações sociais livres; enquanto a politecnia se mostra uma proposta de educação/formação articulada às possibilidades dialéticas da contradição do trabalho abstrato, a omnilateralidade precisa articular-se a todo o conjunto das atividades humanas, portanto às dimensões do trabalho e da práxis social livres e da sociabilidade não alienada/estranhada (SOUZA JÚNIOR, 2010, P. 75)

A politecnia é um tipo de formação da força de trabalho demandada pelo próprio desenvolvimento da produção capitalista. É o próprio mercado de trabalho com seu modo de produção que requer a formação do trabalhador, que este seja versátil e que possa trabalhar em diferentes ramos da produção. Nesse sentido a politecnia, pode, se não passarmos pela força semântica que esta adquiriu no pensamento marxiano e engelsiano, compreendê-la como sinônimo da polivalência, preconizada nos moldes do Toyotismo e que será discutida na próxima parte de nosso trabalho. Souza Júnior

apresenta a distinção entre a visão burguesa e marxiana sobre a politecnia da seguinte forma:

A formação politécnica para Marx surge acima de tudo como meio de fortalecimento das classes trabalhadoras no seu processo de formação revolucionária. Já para a concepção burguesa, a formação politécnica surge como uma questão meramente instrumental de preparação da mão de obra para a produção, segundo as exigências do processo de acumulação capitalista (SOUZA JÚNIOR, 2010, p. 83).

Insere-se, portanto, a politecnia na dinâmica interna contraditória do capital, segundo a qual, a própria alienação e exploração do trabalhador tem em si os elementos da revolução. Com a união trabalho-ensino abre-se a perspectiva de se discutir possibilidades concretas de se opor à degradação do trabalho e favorecer a construção das classes trabalhadoras para sua autoconsciência de seu lugar na sociedade como única classe capaz de empreender a revolução. Contudo, a politecnia está presa ao momento do trabalho alienado e estranhado, não sendo capaz da formação do homem omnilateral preconizado por Marx.

O conceito de omnilateralidade supõe uma formação integral do homem que só será possível numa sociedade onde as relações de trabalho alienado já estejam superadas. Nos Manuscritos Econômico filosóficos de 1844, Marx afirma que o livre desenvolvimento humano dependia da superação das barreiras impostas pelas relações do modo de produção capitalista, e estaria ligado à

abolição positiva da propriedade privada, a apropriação sensível da essência e da vida humana, do homem objetivo, das criações humanas para e através do homem, não deve considerar-se apenas no sentido do ter. O homem apropria- se do seu ser omnilateral de uma maneira omnicompreensiva, portanto como homem total. Todas as relações humanas com o mundo – visão, audição, olfato, gosto, percepção, pensamento, observação, sensação, vontade, atividade, amor – em suma, todos os órgãos da sua individualidade, como também os órgãos que são diretamente comunais na forma, são a apropriação da realidade humana (MARX, 2004, p. 197).

O homem omnilateral é, portanto, fruto de uma sociabilidade nova, conquistada somente após a supressão da propriedade privada. É impossível pensar nesta possibilidade no mundo do trabalho marcado pela exploração e a alienação presentes na realidade capitalista. O fundamento para a compreensão do homem omnilateral é manifestação de um conjunto de condicionamentos não alienados, cujo fundamento é o trabalho social livre, o planejamento e a execução coletivos do trabalho, e também a repartição justa de seus frutos.

Ao se perceber a distinção entre os dois momentos é interessante observar que, ao se trabalhar a politecnia como categoria do modo como Marx pensava a educação no mundo capitalista e a omnilateralidade numa sociedade em que já se supõe a libertação de suas amarras, que elas se complementam. Paolo Nosella (2007), dentro da discussão sobre o uso do termo politecnia no Brasil pela Pedagogia Histórico-crítica, alerta para o fato de que ao discutir a educação politécnica, ou como ele prefere, o ensino tecnológico, não se pode esquecer ou secundarizar os demais momentos e espaços formadores, como os conselhos, sindicatos, associações, etc. Tal discussão da educação que esqueça tais espaços formativos torna-se cômoda para alguns marxistas pouco afeitos ao envolvimento com os trabalhos organizados da classe trabalhadora.

Pode-se perceber que a análise empreendida por Marx está enraizada na realidade de seu tempo. Ao analisar a situação da classe trabalhadora dentro do sistema fabril do século XIX que se percebe que será através da união do ensino-trabalho que se conseguirá fazer avançar a práxis revolucionária. Se por um lado a realidade dos trabalhadores é de extrema exploração, alienação, expropriação em nome da mais-valia em benefício dos donos do capital, a educação, formal ou informal, embora seja um elemento superestrutural tem condições de dar os elementos teóricos necessários para que se compreenda a prática transformadora da organização proletária.