3. A CRIAÇÃO DOS INSTITUTOS FEDERAIS E A IMPLANTAÇÃO DO IFES
3.3. O Plano de Desenvolvimento Institucional do Ifes Ausência de um Projeto Político
3.3.2. O Plano de Desenvolvimento Institucional do Ifes
O Instituto Federal do Espírito Santo – Campus Ibatiba – Ifes-Ib. não possui um Projeto Político Pedagógico, e sim um Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI –, contendo em seu terceiro capítulo um Projeto Pedagógico Institucional – PPI. Tanto o PDI quanto o PPI foram elaborados para a totalidade dos 22 campi do Ifes.
Quanto ao procedimento de elaboração do PDI, o documento apresenta:
Alinhado ao Planejamento Estratégico 2014-2018 e fundamentado nas dimensões históricas e sociais do Ifes ao longo de sua trajetória, o PDI é fruto de um trabalho coletivo, construído pela comunidade do Instituto, que hoje atua na reitoria, no Centro de Referência em Formação e em Educação a Distância (Cefor) e em 21 campi em todo o Estado do Espírito Santo, alcançando desde a Educação Básica até os níveis da pós-graduação (lato e stricto sensu), sem perder de vista seu compromisso social, traduzido em projetos de extensão e em cursos de formação inicial e continuada.
Nesse processo, a instituição empreendeu esforços para a construção coletiva do PDI, promovendo sua discussão em cada campus e, posteriormente, disponibilizando o documento para Consulta Pública, para enfim, revisá-lo e aprová-lo no Colégio de Dirigentes e no Conselho Superior. Um trabalho executado a muitas mãos, no qual prevaleceu o diálogo, a cooperação, a ética, as decisões coletivas e a participação democrática na gestão pública (IFES, 2014, p. 12).
Cumpre ressaltar que tal empreendimento de construção de um projeto para toda uma unidade da Federação, em um instituto que conta com 22 campi, com realidades das mais diversas – desde o centro da capital até as periferias, de grandes cidades da região metropolitana até cidades com vinte mil habitantes, realidades socioeconômicas e
culturais das mais variadas – é uma tarefa hercúlea. Sem negar a pertinência e as necessidades legal e burocrática de um projeto institucional para o Ifes como um todo, não é difícil concluir que no que se refere às realidades particulares e singulares de cada campus, tal empresa apresentará falhas e inconsistências.
Mesmo com os esforços para a construção coletiva do PDI, observa-se que tais discussões acontecem, na prática e na maioria das circunstâncias no interior da comunidade acadêmica, muitas vezes parcialmente representada, sem a participação dos discentes e, muito menos, da comunidade do entorno dos campi.
Dentro do PDI, encontra-se no capítulo terceiro o Projeto Pedagógico Institucional – PPI –. Duas observações são necessárias: Primeiro que a substituição do conceito de Projeto Político Pedagógico por Projeto Pedagógico Institucional – em que os conceitos político e institucional têm uma carga semântica obviamente diversa é paradigmática. Não obstante os termos democracia, participação e até mesmo política apareçam nos textos, a compreensão da natureza política de um projeto pedagógico deve ser evidenciada e vivida em cada momento de sua construção e execução. Político apontaria para esta participação, própria do processo democrático e voltada para a realidade e necessidades da sociedade. Institucional, remete às realidades burocráticas da gestão. Desse modo volta-se para o interno da instituição. Segundo que, dentro de uma percepção da importância de um PPP, os aspectos da gestão, da instituição, do planejamento estratégico, das finanças são inseridos em seu interior como instrumentos, ações, estratégias de seu objetivo que é a educação, a formação dos estudantes. Quando se insere o PPI dentro do PDI, a mensagem é que o fundamental, o mais importante são os aspectos institucionais e não os pedagógicos e menos ainda os políticos. É preciso ressaltar que tal estrutura que aqui questionamos segue as orientações e o aparato normativo-legal do MEC. Mas mesmo assim, constitui em uma prática equivocada quanto à educação.
O PPI é definido da seguinte forma:
O Projeto Pedagógico Institucional (PPI) é o instrumento teórico e metodológico que define a política pedagógica das instituições de ensino. Muito além de uma série de apontamentos burocráticos, trata-se de um documento que se quer transformador e inspirador das práticas cotidianas, no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão, uma vez que indica os elementos de caráter político, pedagógico e filosófico que fundamentam as ações educacionais, sugerindo as condições de humanidade e sociedade que são desejadas coletivamente pela instituição. O PPI faz parte de um
documento maior – o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) – e se orienta a partir de sua missão, das diretrizes e dos objetivos, constituindo-se em referência fundamental e concreta não apenas para a elaboração dos projetos pedagógicos dos cursos, mas também para a pluralidade de práticas pedagógicas que coexistem no cotidiano institucional (IFES, 2014, p. 37-38).
O texto, em seguida afirma a necessidade de a elaboração ser coletiva, contando com a participação ativa de todos os envolvidos com o trabalho pedagógico. Quando, porém, é apresentada a forma de estruturação dos trabalhos, pode-se concluir que o processo participativo teve suas deficiências:
Os trabalhos de elaboração do PPI do Ifes foram conduzidos por uma comissão representativa dos campi, reservando espaços de ampla discussão com as comissões locais de Planejamento Estratégico e com representantes dos setores discente, docente e técnico administrativo, envolvidos no processo de produção do documento (IFES, 2014, p.38, grifo nosso).
No PPI encontram-se muitas referências à educação na perspectiva da formação do cidadão em consonância com uma educação libertária, tendo por referencial teórico autores que trabalham numa perspectiva socialista – Kosik, Frigotto, Kuenzer, Ciavatta, etc. – entretanto o modo de se fazer o PPP, é tão importante quanto o seu conteúdo. Ressalvada a já mencionada dificuldade de se construir um projeto para 21 campi, que contemple suas realidades e necessidades, nem sempre a metodologia da representação se revela como a mais democrática e participativa15. Como condição para que, de fato, possa ser construído um Projeto Político Pedagógico, em consonância com suas características apontadas neste trabalho, seria necessário tanto a participação de toda a
15 Para uma informação complementar sobre o processo de estruturação do PPI o documento apresenta:
“O Projeto Pedagógico Institucional começou a ser estruturado por uma comissão composta por representantes de vários campi, nomeada pela Portaria no 1.407, de 03 de setembro de 2013. Os trabalhos
foram iniciados a partir de estudos e discussões do Projeto Pedagógico já existente no Ifes e de PPIs em construção em outras instituições. A intenção que permeou a elaboração deste projeto sempre foi de tornar as discussões e produções as mais democráticas possível (sic), inclusive com a participação amplo da comunidade, e, por isso, tivemos um primeiro momento no qual os membros das Comissões Locais de Planejamento Estratégico de todos os campi e da reitoria foram convidados a fazer modificações e acréscimos numa primeira minuta do PPI. As contribuições dadas pelas comissões, em oficina realizada no dia 11 de novembro de 2013, foram acolhidas e com elas foi gerada uma primeira versão do documento ainda em fase de minuta. Após as adaptações necessárias, foi a vez de envolver toda a comunidade nessa grande e importante discussão. Para isso, foi disponibilizada uma nova versão da minuta do PPI do Ifes à qual, em um trabalho conduzido pelas Comissões Locais de Planejamento Estratégico, toda a comunidade de cada campus pôde dar as suas contribuições, buscando validar, modificar, complementar ou retirar o que fora estruturado até então. O convite, portanto, foi feito para que pudéssemos realizar uma produção colaborativa, tendo em vista nortear as ações pedagógicas do Ifes pelos próximos cinco anos. Após essa nova etapa, a Comissão Geral do PPI novamente se debruçou em discussões e análises para compilar as diversas opiniões e materializá-las em um documento que pudesse realmente refletir tanto a realidade presente quanto as perspectivas futuras de nossa instituição (IFES, 2014, p. 37).
comunidade de cada campi, sua elaboração de acordo com as particularidades de cada localidade e uma melhor clareza de seus aspectos políticos.
O PPI, organizado em princípios, políticas e diretrizes aponta uma visão limitada com relação a compreensão de políticas:
As Políticas de gestão consistem em definições das posturas da instituição quanto às diferentes temáticas que devem ser desenvolvidas, com foco no alcance de sua missão e visão. São consideradas como os objetivos maiores que nortearão o planejamento estratégico. Na construção dessas políticas, é fundamental que se promova e garanta o alinhamento como os princípios, as diretrizes, a missão, a visão e os valores institucionais (IFES, 2014, p. 37, grifo do autor).
É preciso mencionar que o texto tem seu grande valor uma vez que busca responder a problemas concretos diante das demandas do país e, consequentemente das comunidades onde os campi se encontram. Desse modo as diretrizes quanto à educação envolvem questões do cotidiano da educação: 1. Educação e trabalho; 2. Educação e juventude; 3. Educação, diversidade e inclusão; 4. Educação de jovens e adultos; 5. Educação especial na perspectiva inclusiva; 6. Educação, gênero, sexualidade e orientação sexual; 7. Educação para as relações étnico-raciais; 8. Educação para a sustentabilidade; 9. Educação a distância; 10. Educação e produção animal e vegetal (IFES, 2014).
Sem dúvida o PPI apresenta princípios, diretrizes e, por que não, políticas que direcionam para uma educação transformadora nos diversos aspectos da vida humana. Entretanto, a crítica para que novas práticas democráticas sejam implementadas se faz necessária. Urge repensar a pertinência de um PPI pensado para todos os campi. Com certeza, enquanto uma instituição que atingiu uma grandeza considerável, com milhares de estudantes espalhados em diversos municípios de diversas regiões do estado do Espírito Santo, seria mais pertinente e coerente com os princípios democráticos que houvesse diretrizes gerais a serem implementadas em cada campus. Desse modo poderia ser construído um PPI, mais abrangente e, em cada campus ser discutido democrática e participativamente um PPP, que respondesse às demandas e necessidades dos principais implicados neste processo: os alunos.