CAPÍTULO 2 – ENQUADRAMENTO NO CONTEXTO ARQUEOLÓGICO
2.9. A Proposta de Carta Arqueológica do Concelho de Abrantes
A Carta Arqueológica de Abrantes coordenada pelos serviços de arqueologia do município (Silva, Batista e Gaspar, 2009) e publicada em formato digital, dá-nos uma leitura dos sítios arqueológicos por ordem das respectivas freguesias do concelho. Neste caso, ao contrário da Carta Arqueológica do Concelho de Constância, observamos os arqueosítios enumerados pela sua ordem cronológica sendo que, em alguns casos, alguns sítios estão comentados e organizados em dois grandes grupos, o grupo dos sítios detectados até 1995 e o grupo dos sítios detectados depois de 1995.
Inicialmente foi elaborada desde 1980, pelos dois primeiros autores, a que corresponde a primeira parte da obra, até 1995, sendo a espinha dorsal de toda a obra. Com a entrada do terceiro autor, a investigação de inventariação prosseguiu dando origem à segunda parte da obra, após 1995. Esta carta arqueológica representa um inventário de arqueosítios do concelho de Abrantes e pretende balizá-los entre o Paleolítico e o período Alto Medieval.
Apoiando-se na sua maioria em recolhas superficiais, pretende, com a proposta de cronologia relativa, fornecer sobre os vários sítios uma cronologia abrangente. É notória a dificuldade em termos de cronologia absoluta, face à leitura de arqueosítios cujo espólio abarca o Languedocense, ou Tagano, na proposta de Álvaro Batista (2004). Uma parte da obra, que fez alargar a proposta de cronologia do trabalho inicial, é o resultado de todo o acompanhamento de obras no Centro Histórico de Abrantes.
Os autores enumeram os arqueosítios organizados por freguesia, classificando-os individualmente quanto ao plausível período cronológico atribuído (intimamente ligado ao tipo de recolhas efectuadas) e por tipologia de sítio. A informação que se segue é uma compilação desses sítios, organizados por tipo de sítio e, dentro de cada tipo, por cronologia relativa mais ou menos lata.
* Oficina de Talhe (?)
Barca do Pego II (148) e Casal Ribeiro da Vide (150) são sítios atribuídos ao Languedocense / Neolítico (?), em função da recolha de lascas de debitagem em sílex e em quartzito, alguns núcleos, um raspador e uma mó movente de granito (Silva et al., 2009).
* Acampamento / Oficina de Talhe (?)
Facheiros I (234), Facheiros II (235), Monte dos Negrinhos de Cima II (237), Casal Cortido (41), Lezíria (20), Quinta do Pombal (22), Barroca de S. Lourenço - Vale de Zebrinho (99), Favaqueira VIII (255), Ribeiro da Mulher III (143), Caldeiro (26), Casal do Meirinho (28), Baralho (169), Barrocão do Telhado (170), Casal do Pereiro II (176), Salvadorinho IV (186), Vale da Pedra III (196), Salvadorinho II (184) e Salvadorinho III (185) - são sítios que possuem uma periodização atribuível ao Languedocense, com base na recolha de um pico, uma raspadeira, um calhau truncado, lascas simples em quartzito, uma lâmina em quartzo leitoso, um raspador e um uniface.
A Ribeira do Fernando II (207) e Montelhão - Azinhal (21) possuem uma periodização do Languedocense e/ou Neocalcolítico, com indústria lítica quartzítica de tradição languedocense. As recolhas que o atestam são calhaus truncados, raspadores, lascas de quartzito (Lang), cerâmicas manuais lisas, lascas de sílex, mós planas dormentes e moventes.
O Casal das Freiras I (216) é um sítio com uma periodização de longa duração que se estende desde o Neolítico / Calcolítico / Idade do Bronze Final / Idade do Ferro até ao período Romano. Foram recolhidos um calhau truncado de talhe bifacial ou seixo afeiçoado em ponta, lascas, fragmentos de pavimento ou de revestimento, cerâmicas lisas, um peso de rede e uma mó manual dormente (Silva et al., 2009).
* Acampamento / Oficina de Talhe e Povoado
Casal da Quinta Velha (151), Pinhal da D.Beatriz - Arreciadas (116), Casal do António - Coalhos (72), Lobato (74) e Vale de Figueira (80) são sítios atribuídos ao Languedocense. Nestes locais recolheram-se um raspador, lascas simples, uma grande lasca afeiçoada em forma de ponta ou buril (?), um disco de quartzito e um pico.
Chão de Lucas (138), Águas Belas (243), Monte da Quinta do Está Feito, Ribeira do Fernando (208) eVale de Porco - Vale de Zebrinho (105) são sítios que possuem uma atribuição cronológica do Languedocense e/ou Neocalcolítico, com indústria lítica quartzítica de tradição languedocense. Foram recolhidos calhaus truncados, um raspador
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 61 lateral, um raspador em forma de D, um disco e lascas de quartzito, cerâmicas manuais lisas e mós planas, movente e dormente.
Forno do Pereira - Canto das Bichas (112) sítio de periodização atribuível ao Neocalcolítico. A justificação desta periodização remete para os materiais recolhidos: raspador de quartzito e dois machados de pedra polida em xisto anfibólico (Batista, 2004: 160; Silva et al., 2009).
* Acampamento - Povoado
Casal da Várzea I (17) é um sítio que apresenta uma periodização lata que inclui o Languedocense, o Neolítico, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. A justificação para esta cronologia encontra-se nas recolhas efectuadas: um disco de quartzito, uma mó plana de granito, cerâmica comum de pasta grosseira, micácea e quartzosa (atribuível à II ª Idade do Ferro), bordos fragmentados com algumas decorações incisas ou com leve canelura vertical, um bojo com decoração impressa e diversos tipos de bases (Silva et al., 2009).
* Povoado
Quinta da Légua I – Amoreira (91), Olival Comprido II (153), Casal do Vale das Donas (266) e Casal Trás das Hortas (284) são sítios que possuem uma periodização de Acheulense Médio / Superior e Idade do Bronze Inicial / Médio. Foram recolhidaslascas em sílex, um peso de rede, um calhau truncado de talhe bifacial e cerâmicas manuais lisas.
Jogada I (03), Casal da Coelheira I (134), Amieira II (262) e Calça Torta (227) são sítios que possuem uma periodização correspondente ao Languedocense / Neolítico, com indústria lítica quartzítica de tradição languedocense. As recolhas incluem pesos de rede, material em pedra polida (um fragmento de talões de machados polidos com secção circular e rectangular), um núcleo de sílex informe, um raspador bifacial em calote de seixo, uma raspadeira, lascas simples e retocadas em quartzito e em sílex, unifaces ou picos, calhaus truncados uni e bifacial, mós planas dormentes e alguns fragmentos de cerâmica manual.
Muros Brancos (246) é um sítio que possui uma periodização centrada no Neolítico. Aqui foram recolhidas cerâmicas manuais lisas e lascas em quartzo leitoso.
Salvador - Coalhos (78) é um sítio que possui uma periodização que integra o Languedocense e/ou o Neolítico Antigo Cardial, com indústria lítica quartzítica, até à Idade do Bronze Inicial / Médio. Neste sítio recolheu-se um raspador em forma de D, um uniface ou pico, lascas de quartzito, núcleos, lâminas, lamelas, lascas, um furador, uma mó plana, um peso de rede, um pequeno machado votivo, de osso, cerâmicas lisas e decoradas em grande quantidade e de bastante diversidade (impressas cardial, incisas, penteadas, mamilares, denteadas, com caneluras) e argila de pavimento ou de revestimento.
Pai Neto - Arreciadas (115) é um sítio que possui uma periodização de longa duração, que se estende desde o Languedocense, ou desde o período compreendido entre o Neolítico Antigo Evolucionado e o Calcolítico, com indústria lítica quartzítica de tradição languedocense. Foram recolhidos materiais de entre os quais se destacam um calhau truncado, núcleos, lâminas e lascas em sílex, cerâmicas lisas e decoradas (incisas - um dos bordos apresenta incisões no lábio, sob o bordo e na parede externa, e é denteado no bordo) e fragmentos de pavimento ou revestimento em argila.
Belga (133) e Monte Galego III (160) possuem uma cronologia que se estende desde o Languedocense e/ou período compreendido entre o Neolítico Antigo Evolucionado e o Neolítico Final da Estremadura, com indústria lítica de tradição languedocense; inclui possivelmente Campaniforme Inciso (?), Idade do Bronze Inicial / Médio (?) e Iª Idade do Ferro. As recolhas atestam a existência de cerâmicas lisas e decoradas (incisas, caneluras fundas, caneluras leves e boleadas, com pegas de preensão), raspadores em forma de D, núcleos e discos, uma calote de seixo, lascas e artefactos diversos em sílex como lâminas, lamelas, trapézios, um crescente, lascas em quartzo hialino, uma goiva (?) e uma mó plana.
Pinhal da Coelheira (140) é um sítio que possui uma cronologia que se estende desde o Languedocense e/ou período compreendido entre o Neolítico Antigo Evolucionado e o Neolítico Final da Estremadura, com indústria lítica quartzítica de tradição languedocense, passando pelo Calcolítico e Campaniforme, até à Idade do Bronze Inicial / Médio e Iª Idade do Ferro. Esta cronologia de longa duração é justificada
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 63 pela recolha de calhaus truncados de quartzito, raspadores em forma de D, núcleos e lascas simples, lâminas, lamelas e lascas em sílex e em quartzo hialino, machados de pedra polida, pesos de rede, uma mó plana, abundantes cerâmicas lisas e decoradas (impressas pós-cardial, incisas, caneluras fundas e leves, boleadas, almagre ou de influência orientalizante, campaniforme inciso) e ainda conchas de Mityllus sp.(?).
Casal da Coelheira II (135), Qta de S.João II (164), Casal da Coutada (136), Qta de S.João III (165) e Qtª de S.João IV (166) possuem uma periodização que compreende o Languedocense e do Calcolítico à Idade do Bronze. As recolhas atestam a existência de indústria lítica quartzítica de tradição languedocense, um raspador simples, um raspador em forma de D, lascas de quartzíto, lâminas, lamelas, núcleos de lamelas em sílex, resíduos de talhe, cerâmicas manuais, um fragmento carenado alto com decoração em caneluras e um pequeno vaso de bordo reentrante com provável fundo plano, ligeiramente convexo.
Bom Sucesso III (149), Aldeias III (213), Serra das Lercas (226), Nossa Senhora dos Matos III (225), Favaqueira II (101) e Favaqueira III (102) são sítios atribuídos ao Neocalcolitico, com indústria lítica quartzítia de tradição languedocense. As recolhas centram-se em cerâmicas lisas, sem formas, uma mó plana dormente, uma ponta de seta em sílex de base triangular, um calhau truncado de talhe bifacial, um núcleo retocado para raspador em sílex, machados de pedra polida de secção rectangular e uma goiva ou formão de xisto, fracturado no gume, com secção oval.
Chã III (47), Souto (31), Bioucas I (281) e Colos II (251) são sítios que apresentam uma periodização que se estende desde o Neocalcolítico até à Idade do Bronze Inicial / Médio. Esta periodização é justificada pelas recolhas de cerâmicas manuais, machados de pedra polida (um de secção quadrangula,r de arestas maceradas, e outro de secção rectangular), lascas simples em quartzito e em anfibolite, uma lâmina retocada em sílex, uma mó plana dormente, um núcleo de lamelas em sílex, cerâmicas manuais lisas e um fragmento cerâmico com decoração incisa junto do bordo.
Maxial - Horta Grande (49), Castelo de Abrantes (126) e Quinta da Capela (90) são sítios que possuem uma periodização em termos de cronologia relativa apontada para o Neolítico Final / Calcolítico Pleno / Final / Idade do Bronze Inicial. A periodização é justificada pela recolha de bordos e fragmentos de recipientes diversos, uns lisos outros
com mamilo e furo de suspensão, com decoração incisa puncionada, um fragmento de prato de bordo almendrado e fragmentos de taças carenadas, um fragmento de peso de tear quadrangular, fragmentos de ídolos de cornos, um machado de pedra polida em anfibolite, enxós polidas em anfibolite, uma clava fragmentada, um polidor em xisto, uma conta de colar de xisto, de cor verde, um peso de rede em xisto-grauváquico, mós planas provavelmente em grés, moventes e dormentes, alguns fragmentos de lâminas, lamelas e lascas. A taça carenada, o prato de bordo almendrado e a taça larga de bordo espessado interno foram os três principais tipos cerâmicos que nortearam esta premissa cronológica (Batista, 2004: 160; Silva et al., 2009).
* Monumentos Megalíticos
Relativamente a qualquer outro tipo de sítio cartografado podemos apenas salientar o sítio de Alqueidão II (52), caracterizado pelos autores como monumento megalítico composto por 60 monólitos com uma funcionalidade ritual. O sítio Jogada II (04) e o núcleo megalítico de Vale Chãos (05) forneceram, em recolha de superfície, uma lamela em quartzo e um fragmento de machado ou enxó em anfibolite (com secção oval), núcleos e lascas em quartzito e anfibolite, materiais em sílex, um disco e um seixo trabalhado em quartzito (Cruz, 1997: 276-278; Batista, 2004; Batista, 2006 e 2007; Batista e Gaspar, 2007).
O Menir e o Habitat da Medroa (Batista e Gaspar, 2006) é um arqueosítio intervencionado em 2006. Está implantado em local de cumeada, em terrenos do Mio- Pliocénico e dista pouco do núcleo megalítico de Vale Chãos e da Pedra da Encavalada. Na campanha de intervenção foi possível confirmar a suspeita inicial de se tratar de um menir, através da escavação do alvéolo a que este pertencia. Ao ser levada a cabo a escavação em extensão na área onde se reposionou o menir, foi detectada uma estrutura ovalada com abertura a Oeste (com 7,50 m. de comprimento total por 3,50 m de largura máxima), que veio a identificar-se como sendo uma cabana, após a evidência de buracos de poste. No interior desta estrutura virtual evidenciou-se ainda um pequeno silo circular com uma cobertura de lajes de granito e de seixos, cuja orientação se inclina para Oeste. Foi detectada ainda outra estrutura circular, com 1,20 m de diâmetro máximo, contendo no seu interior seixos em quartzito e blocos de granito, que poderá ter tido a
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 65 funcionalidade de lareira. Entre os materiais exumados constam lâminas e lamelas em sílex, lascas de quartzito, uma mó plana, fragmentos cerâmicos com decoração canelada e em “espinha de peixe”, recolhidos no interior da cabana e sobre o piso; do ponto de vista da cronologia relativa, poder-se-ão enquadrar no Calcolítico Inicial e Médio (Batista e Gaspar, 2006).
* Conheira
O tipo de sítio Conheira está descrito pelos autores como podendo ter uma ocupação que ascende ao Calcolítico e se estende até à época da Romanização. Deste grupo tipificado destacam-se Alagoa (50), Arneirinho (53), Casal da Serra II (55), Conheira (56), Giesteira (57), Pero Farinha (58), Pinhal dos Frades (59), Tojeira (60), Vale Madeiro I (61), Vale Madeiro II (62), Bairro Cimeiro I (01), Conheira (48), Conheira da Matagosa (39) e Senhora da Guia (46) (Batista; 2004: 160; Silva et al., 2009).
* Santuário de Arte Rupestre
Barca de Rio de Moinhos – Abrançalha (120) e Colos III (252) têm uma periodização, atribuída pelos autores, que se pode estender desde o Neolítico até à Idade do Bronze Final / Idade do Ferro (Silva et al., 2009).
* Achado Isolado
Na Quinta de Vale de Zebro (95) foi detectada uma foice em bronze, cuja cronologia aproximada será em torno de 850 a. C. (Pereira, 1970: 215; Silva et al., 2009).
* Indeterminado
Adro I (240), Barca do Pego / Alferrarede Velha (06) e Nossa Senhora dos Matos II (224) são sítios apontados como tendo uma cronologia languedocense, justificada pela recolha de um raspador aparentando forma de D, lascas simples e um peso de rede.
A Quinta da Baeta II (96) é um sítio apontado como pertencendo ao Languedocense ou ao Neocalcolítico. Neste local foi recolhida indústria lítica quartzítica
de tradição languedocense, lâminas simples e retocadas, lascas em quartzo leitoso e hialino, uma mó plana, cerâmicas manuais lisas e um peso de tear.
Mourões (245), Casalinho (137), Alto da Portela I (203), Galhoufa II (206), Colos I (250) e Quinta de Coalhos (76) são sítios apontados como atribuíveis ao Neocalcolítico e justificados pela recolha de uma lasca simples, uma ponta de seta, de base triangular em sílex, um núcleo com levantamentos de lâminas em sílex, uma mó plana dormente de granito. (Silva, et al., 2009).
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 67
CAPÍTULO
3
– NOMENCLATURA E ATRIBUTOS: A METODOLOGIANos últimos vinte anos do século XX difundiu-se na Arqueologia terminologia e vocabulário directamente relacionados com o espaço e o território, tendo sido introduzidos na disciplina novos conceitos como “análise espacial” ou “arqueologia
espacial”, “estudos territoriais”, “território”, “meio ambiente”, “meio físico”, “relações ecológicas”, “nicho ecológico”, “arqueologia da paisagem” e “arqueologia aérea”, que
se tornaram a partir daí incontornáveis no discurso arqueológico (Orejas, 1991:192). O conceito “paisagem” que nos importa de sobremaneira e norteou a própria lógica de elaboração da base de dados tem um sentido paradoxal, pois torna-se tão impreciso como de fácil compreensão, sendo ainda de muito difícil tradução, já que por ele se derivaram conceitos e paradigmas que conservam uma certa indefinição em termos de leitura histórica. Contudo, existe um aspecto em que, pensamos, se tenha encontrado unanimidade, e essa é a vinculação entre a paisagem e a percepção sensorial e visual que dela obtemos (idem:193-194). Obtém-se desta forma uma alteração na perspectivação do termo; deixa de ser quase exclusivamente uma entidade idílica e artística para se transformar num bem de consumo.
Tornou-se então fundamental proceder à caracterização da paisagem, de forma precisa e objectiva, limitando as adjectivações que definissem a sua morfologia. Passou a considerar-se a paisagem numa perspectiva de organização espacial, reflectindo características de uma determinada sociedade e das suas relações com o meio ambiente. Esta abordagem fornece vantagens na conceptualização da “paisagem cultural” face ao seu outro antípoda, por oposição do cultural com o natural, interagindo com a “paisagem
histórica” ou “arqueológica” (idem: 196).
A nível regional pretende definir-se com precisão a diferenciação entre região (definida pelos seus limites administrativos) e paisagem (enquanto território cientificamente definido). Fochler-Hauke (1959), citado por Orejas, apresenta-nos cinco prováveis formas de abordarmos a paisagem no âmbito científico; são elas: a morfológica, a ecológica, a cronológica, a regional e por último a classificação das paisagens(idem: 198).
Em simultâneo surge uma nova resposta a este modelo com a alvorada da Nova Geografia, representada por Schaefer (1953) (idem: 199), elegendo-se o espaço e a sua organização como temática específica na investigação em Geografia. Com esta nova forma de investigar noções e conceitos como o “espaço relativo”, a “aplicação de
modelos”, a “análise locacional”, as “técnicas de quantificação” tornaram-se nas
ferramentas para compreender e representar o espaço físico, criando-se novos paradigmas de explicação, planificação e gestão do espaço (idem: 199).
A Nova Arqueologia, socorrendo-se destes paradigmas, propõe uma nova abordagem do tema através do paradigma do “funcionalismo ecológico” (idem: 202). Assim, o conceito de “território” passa a ser compreendido como um conjunto de recursos que deverá manter-se em equilíbrio com a comunidade que o explora, e o conceito de “cultura” é visto como uma adaptação extrassomática ao meio ambiente.
Qualquer ruptura entre os recursos e a comunidade que os explora obriga a uma nova adaptação, sobressaindo neste modelo três factores fundamentais: as relações entre o homem e o meio, do ponto de vista ecológico, o meio ambiente enquanto recurso a ser explorado pelas comunidades e a relação entre território e comunidade. É este paradigma que impulsionará novas abordagens e novos interesses na abordagem do espaço e do território, sendo exemplo disso o surgimento da Arqueologia Espacial ou os Territórios
de Captação de Recursos (idem: 202).
Almudena Orejas, propõe uma postura face à Arqueologia da Paisagem que se coloca no âmbito da Ecologia Histórica, fundamentada numa dialéctica relacional entre sociedade e natureza. O modo e sistema de produção é transformado nas manifestações das relações ecológicas entre a sociedade e o meio, numa via de determinismo ecológico
relativo, ou seja, as sociedades e as paisagens que elas próprias geram passam por etapas
de bloqueio agro-técnico, nas quais o meio é determinante, causando evolução ou superação técnica das situações de estagnação. É neste contexto que se compreende o surgimento das inovações tecnológicas do Neolítico, irrompendo a agricultura como um novo sistema noutro em estagnação (caça e recolecção); o equilíbrio pré-existente é perturbado e cria novos e sucessivos desafios (idem: 203). Na leitura da Fenomenologia
Existencial, a relação entre ecossistema e sistema sócio-cultural mantém uma relação
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 69 tensões e conflitos que dão lugar à mudança(idem: 204). Simultaneamente são criadas as bases da Arqueologia Espacial (D. Clarke, I. Hodder e C. Orton, 1990); tendo como premissas a localização exacta dos artefactos a nível intra-sítio, a localização dos sítios no espaço, permitindo abrir horizontes na disciplina e a colocação de questões de interpretação que ainda hoje são pertinentes. Exemplo disso é a objectivação da dimensão espacial e da valorização do meio e a sua relação com a actividade humana (idem: 205).
Esta perspectiva defendida por Orejas vai para além dos elementos morfológicos directamente detectáveis; cria uma gradação entre a prospecção de campo (como instrumento de detecção de sítios arqueológicos), da sondagem de controlo (com o objectivo de observação do potencial estratigráfico) e a sua relação com a cultura material (idem: 212). A Arqueologia da Paisagem debruça-se sobre o todo cujas trajectórias interagem com muitas outras disciplinas de contributo essencial para a interpretação histórica, sendo, em última análise, uma integração interdisciplinar(idem: 213).
Partindo do pressuposto que a Arqueologia pretende conhecer a história das sociedades do passado, mediante as suas fontes (Gutiérrez Lloret, 1997: 13) necessário se torna então perspectivar os conceitos de “obtenção”, “classificação” e “estudo” e a sua própria “natureza material”, ou “histórica”. Desde logo, ela surge como uma construção material de civilizações, propondo-se investigar aspectos de ordem social, económica, política e ideológica (idem: 17).
As fontes disponíveis poderão reunir os requisitos para serem consideradas quer fontes materiais quer escritas, entendendo-se por restos materiais os achados recolhidos em escavação ou em prospecção (idem: 20). Contudo, observamos uma postura paradoxal entre a totalidade das fontes materiais arqueológicas e uma parte das mesmas, já que a escavação arqueológica é fundamental, mas não exclusiva, uma vez que trata também de numerosos restos móveis e imóveis que nunca estiveram enterrados.
Daí decorre o nosso entendimento de que as fontes arqueológicas serão todas as