CAPÍTULO 2 – ENQUADRAMENTO NO CONTEXTO ARQUEOLÓGICO
2.6. Vale do Nabão: do Neolítico à Idade do Bronze
Neste trabalho faz-se uma resenha global dos trabalhos de prospecção e de escavação não só no vale do Nabão mas também no vale do Zêzere e do Tejo, organizando os mesmos em três grandes manchas.
Estas manchas têm uma relação de natureza cronológica e elementos de exclusão mútua, do ponto de vista cultural (Cruz, 1997: 51); e são instrumentos que possibilitam a integração do registo arqueológico numa sequência coerente e flexível. São noções sincréticas, que se distinguem dos conceitos cronológicos específicos na medida em que estes são sínteses posteriores do registo arqueológico. (idem: 52). São construções que se organizam em três momentos ou lapsos de tempo. O critério predominante para a atribuição de um sítio a uma das manchas foi a associação tipológica de materiais.
Estas três manchas são o instrumento teórico que tem como objectivo reintegrar todos os dados num fluxo com um extremo na transição Mesolítico - Neolítico (mancha 1), e outro extremo da transição Calcolítico – Idade do Bronze (mancha 2), e entre ambos um processo de recortes mal definidos (mancha 2), (idem: 56).
A mancha 1 compreende sítios atribuídos ao Neolítico Antigo e sítios ‘tipo Povoado da Amoreira’ e corresponde, no plano cronológico, à fase que se situa entre 6.000 e cerca de 4.500 a.C.
Os sítios organizados na mancha 1 traduzem uma realidade da qual é possível formular algumas assumpções. Toda a região está povoada nesta época e organizada em núcleos populacionais de reduzidas dimensões, instalados em habitats com estruturas construídas em materiais perecíveis e tumulados em estruturas funerárias pétreas, (idem: 115). Os principais indicadores económicos associáveis ao Neolítico são uma realidade no Alto Ribatejo.
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 47 Aparentemente existiram áreas devotadas preferencialmente aos mortos, como parece ser o caso dos Canteirões e do Baixo Zêzere.
A cerâmica ocorre em todos os contextos, mas assume particular importância no vale do Nabão, enquanto que uma indústria lítica “pesada” parece dominar os vales do Zêzere e sobretudo do Tejo.
São identificáveis três grandes conjuntos artefactuais. Um associado à cerâmica cardial, outro associado à presença de indústrias macrolíticas e outro associado ao megalitismo (idem: 116).
A mancha 2 compreende sítios atribuíveis ao Neolítico médio e final e ao Calcolítico e corresponde a um lapso cronológico que se baliza entre 4.500 e cerca de 2.500 a.C. (idem: 52).
Existem indícios de duas fases – uma inicial, que revela continuidade em relação às características sugeridas para o período correspondente à mancha 1, e outra que poderá corresponder à calcolitização progressiva, a partir de meados do IVº milénio a. C.
A fase mais antiga é ilustrada pela continuidade das áreas sepulcrais dos Canteirões e Baixo Zêzere, de habitats dispersos com reduzidas dimensões, e persistência dos grupos tipológicos cerâmicos e muitos tipos líticos.
Nesta tradição poderiam integrar-se talvez os enterramentos da Gruta do Cadaval, de acordo com os estudos antropológicos.
Uma segunda fase é marcada por inovações progressivas, com o surgimento de povoados de grandes dimensões, vestígios de intercâmbio e interdependência entre os sítios das diversas áreas; há aumento dos vestígios de tecelagem e de moagem e uma generalização do modo de vida neolítico e eventual aumento demográfico.
Os conjuntos artefactuais do período correspondente à mancha 2, ao mesmo tempo que evidenciam a intensificação do intercâmbio de matérias-primas da região, vêem diminuídos os vestígios de intercâmbio a longa distância, representados nos sítios da mancha 1, sobretudo pelas conchas marinhas. Estes vestígios estão presentes em contextos do período cronológico compreendido pela mancha 2, essencialmente reduzidos a padrões decorativos cerâmicos, às formas de alguns recipientes, designadamente pratos de bordo almendrado e às placas de xisto (idem: 133).
No entanto, no seu conjunto, estes elementos são extremamente minoritários, quando comparados com evidências de intercâmbio constatadas nos sítios das manchas 1 e 3. As dificuldades experimentadas na definição e faseamento da mancha 2, apesar do elevado número de sequências estratigráficas obtidas e de sítios identificados, poderá ser fruto desta aparente retracção da região sobre ela própria, a partir do Neolítico médio.
Se se conceber os sítios do período cronológico atribuído à mancha 2 como correspondendo, genericamente, à consolidação do modo de vida neolítico, não é improvável que os elementos inovadores e de ligação intensa inter-regional tenham uma projecção diminuída.
A mancha 3 engloba sítios atribuídos ao Campaniforme e Idade do Bronze inicial, e baliza-se entre 2.500 e 1.500 a. C., (idem: 52).
Este período teria as seguintes características:
a) Consolidação da tendência já verificada na segunda fase da mancha 2 para a crescente importância dos habitats na estruturação do território que na mancha 3 mantém uma provável hierarquização, embora com deslocação dos povoados dominantes em cada área;
b) Proximidade clara entre locais de habitat e solos de classe A;
c) Domínio a nível funerário, das tumulações individuais, muitas vezes reutilizando espaços sepulcrais anteriores (grutas ou antas);
d) Termo do padrão nuclearizado de enterramentos, diversificando-se as soluções de articulação habitat-enterramentos;
e) Evidências claras de domesticação de bovinos, tecelagem e moagem, em continuidade com a mancha 2;
f) Ocorrência de cobre, sem vestígios directos de metalurgia;
g) Diminuição da frequência de matérias-primas exógenas, mas com indícios de intercâmbios não estritamente funcionais;
h) Redução da diversidade tipológica na indústria lítica, com o desaparecimento dos materiais macrolíticos;
i) Identificação de uma fase campaniforme e de uma outra, que lhe é posterior, de acordo com alguns elementos simbólicos (decoração na cerâmica), mas sem rupturas claras face à ocupação anterior (idem: 141-142).
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