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CAPÍTULO 2 – ENQUADRAMENTO NO CONTEXTO ARQUEOLÓGICO

H. Hugot define as armaturas de “Ponta de Seta” como um objecto munido de uma extremidade distal em ponta; o termo ponta utilizado isoladamente é inexacto: evoca

4.1. O Povoado de Fontes (Abrantes)

Fig. 1 – Georeferenciação do sítio e vectorização em ArcGIS 9.2. do excerto da Carta Militar 311 (1980)

O Povoado de Fontes, arqueosítio identificado em trabalhos de prospecção por Álvaro Batista, é um povoado de cumeada situado na margem esquerda do vale do Baixo Zêzere, no lugar da Cruz do Carregal, Concelho de Abrantes e tem como coordenadas geográficas UTM – M. 566,500; P. 4384,180; Altitude média: 294 m.

Topograficamente, localiza-se numa plataforma relativamente suave, sem inclinações ou declives dignos de nota, orientando-se para o vale abrupto. Do ponto de vista da visibilidade abarca para Oeste o vale do Rio Zêzere, para Norte a Ribeira da Ferraria e dos vales do Praceiro e do Cré; para Este e para Sul a visibilidade é bastante restrita, mantendo uma implantação privilegiada na paisagem.

Uma observação minuciosa dos materiais recolhidos em prospecção por Á. Batista valeu uma visita ao sítio. Verificou-se nessa altura que uma grande área do mesmo se encontrava parcialmente destruída, quer pelo incêndio que grassou em 2005, quer ainda pela abertura sistemática de valas (realizadas sensivelmente no sentido Este-Oeste, com

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 107 cerca de setenta centímetros de largura e sessenta de profundidade), com distâncias regulares de cerca de dois a três metros entre si.

Os materiais recolhidos em prospecção de superfície constavam de uma variedade de achados líticos, dos quais devem ser salientados um crescente em sílex, um disco em quartzito, núcleos informes, percutores, lâminas e lamelas (fragmentadas) em sílex, macrolascas em anfibolite, quartzito e quartzo, seixos talhados em anfibolite e quartzito, raspadores e raspadeiras e um fragmento de mó plana. No plano dos materiais cerâmicos, salientamos a existência de cerâmicas lisas e cerâmicas com decoração impressa e incisa, um elemento de preensão e suspensão fragmentado, e fragmentos de barro cozido que, enquanto conjunto artefactual e de cronologia relativa no seu todo, poderá ser integrável no Neolítico Antigo-Médio.

Para além dos achados acima descritos, foram ainda recolhidos pequenos fragmentos de xisto com marcas gravadas de incisão, contínuas e sem orientação particular, não formando qualquer tipo de padrão identificável.

É pois num quadro de apreciação geral dos artefactos recolhidos à superfície e de constatação da parcial destruição do sítio em ordem à plantação de novas árvores de fruto (substituindo o que foi destruído pelo incêndio) que se procedeu à intervenção de emergência de campo, tendo por objectivo testar, por um lado, uma eventual potência estratigráfica em profundidade e, por outro, definir a contextualização estratigráfica dos vários elementos arqueográficos em contexto.

Em termos de estratégia de intervenção, foi necessário adequar uma desejável intervenção em área ao panorama real de revolvimento e remeximento tal como às nossas capacidades de trabalho, optando-se assim por abrir pequenas sondagens em locais seleccionados em perfil, em função da maior ou menor dispersão dos materiais, particularmente dos fragmentos de xisto com gravações.

Por questões de rentabilidade de tempo e de esforço físico, foi apenas aberta na primeira campanha, uma sondagem – a sondagem 1 - com seis metros quadrados de comprimento por dois de largura, cujo resultado passaremos a descrever, tendo em mente projectar outras sondagens a serem realizadas em campanhas posteriores, aproveitando o mais possível o espaço deixado livre pelas valas e pelas novas árvores.

A metodologia adoptada nesta intervenção manteve a mesma integridade do já explicado no capítulo 3.

Assim, como ponto de partida, e considerando que, à excepção das zonas onde foram plantadas novas árvores, o resto do terreno se encontrava cheio de mato por desbravar, procedeu-se a uma nova peritagem pelas valas abertas pelas máquinas, procurando identificar zonas, em perfil, onde a variação da coloração do solo fosse efectiva, denotando potenciais estruturas de combustão, zonas onde se encontrasse maior concentração de achados, zonas de concentração de vestígios de barro de revestimento ou zonas de concentração de blocos de xisto com dimensões médias ou grandes.

Após esta tarefa que nos tomou uma manhã de trabalho, elegeu-se a área identificada como sondagem 1, quadriculando uma área correspondendo a seis quadrículas com um metro de lado. A quadriculagem, orientada pelo Norte magnético da bússola, obedeceu ao seguinte critério: a) eixo Norte-Sul correspondendo ao eixo Y, b) eixo Este-Oeste correspondendo ao eixo X; foi ainda fixado um ponto 0 a partir do qual se obtiveram os valores em profundidade.

A decapagem dos sedimentos foi realizada por níveis artificiais de 5cm centímetros, sendo os mesmos crivados em malha fina de 2mm. Aos níveis artificiais sucederam as camadas arqueológicas, distintas entre si, fundamentalmente, através da sua coloração e textura.

Os achados foram coordenados tridimensionalmente, segundo os seguintes critérios (ainda que no universo previamente estipulado nem todas as categorias tenham sido exumadas por ausência absoluta):

1. indústria lítica (independentemente da sua matéria-prima) – indústria sobre seixo, indústria sobre lasc (lascas inteiras, lâminas, lamelas (mesmo que fragmentadas), geométricos) e indústria polida;

2. recipientes cerâmicos – bordos, bojos, bases, elementos de preensão e suspensão e fragmentos atípicos de cerâmica decorados;

3. arte móvel – fragmentos de xisto gravados;

4. adornos, artefactos ideotécnicos, indústria óssea, fauna e ossos humanos foram considerados individualmente, enquanto categorias nos cadernos de campo, muito embora não se tenham verificado vestígios dos mesmos nesta campanha.

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 109 Os achados não coordenados ou recolhidos no crivo foram numerados, enquanto material sem coordenação, em gabinete, sendo individualizados por quadrículas. Muito embora não se tenham obtido as coordenadas X e Y destes achados, foi possível obter a sua cota real, a partir dos dados da microtopografia dos níveis artificiais.

Foi elaborado o desenho, em planta geral, à escala 1:20, da base da sondagem, com as respectivas estruturas postas a descoberto e dos perfis estratigráficos obtidos. Procedeu-se ainda a registo fotográfico sempre que se entendeu necessário.

O Povoado de Fontes está implantado em terrenos atribuídos pela Carta Geológica de Portugal (escala 1:500.000) ao Ordovício Inferior, com quartzitos e xistos indiferenciados, conglomerados e brechas sedimentares, podendo ocorrer esporadicamente sedimentos de cobertura do Miocénio (argilas de Tomar). De facto, e segundo observação de campo, o espaço envolvente à área do povoado possui substrato xistoso, sendo portanto de supor que os sedimentos que o recobrem sejam formações sedimentares relativamente recentes.

Nestes sedimentos foi possível obter uma estratigrafia fina, diferenciada da seguinte forma:

Camada A - Corresponde ao horizonte O. Sedimento muito pulverulento, crestado e queimado, de cor negra a olho nu, envolvendo raízes, troncos e outro tipo de matéria orgânica. Envolve macrolascas de variado tipo de matéria-prima (muitas delas indeterminadas e fragmentadas por acção do fogo) e pequenos fragmentos atípicos de cerâmica. Possui uma espessura variável entre 0 e 5cm. Classificação segundo o Código de Munsell – 5Y 2.5 / 1.

Camada B - Sedimento arenoso relativamente concrecionado, de cor castanha a olho nu. Possui na sua base (no contacto com o topo da camada C) uma fina camada de seixos de pequenas e médias dimensões, formada, pensamos, por coluvião, que em observação macroscópica nos parece serem termoclastos. Embala macrolascas em quartzito e em anfibolite, um crescente, algum material residual em sílex e fragmentos atípicos de cerâmica lisa e decorada com caneluras leves. Esta fina camada de seixos sela o topo das estruturas de barro de cozido. Possui uma espessura varável entre os 10 a 15cm. Classificação segundo o Código de Munsell – 10 YR 4 / 3.

Camada C - Sedimento arenoso relativamente concrecionado, de cor alaranjada a olho nu. Embala macrolascas (algumas fragmentadas) em quartzito e em anfibolite, algum desperdício de talhe em sílex e fragmentos de cerâmica lisa e decorada com caneluras leves, que terão migrado da camada B, através da pressão exercida pelas raízes de pinheiro. Nesta unidade estratigráfica detectaram-se as duas estruturas constituídas por barro cozido. Classificação segundo o Código de Munsell – 7.5 YR 5 / 4.

Para o sedimento da camada C obteve-se a seguinte datação sobre recolha executada pelo ITN: 6.400±400 a.C.

As estruturas colocadas a descoberto abrangem uma área de cerca de um metro de comprimento por sessenta centímetros de largura e localizam-se fisicamente nos quadrados L100-L99 / M100-M99. Ambas possuem uma planta em elipse alongada, relativamente simétrica. São constituídas por barro cozido relativamente compactado, de espessura variável entre os 5 e 10 centímetros, assemelhando-se a fornos/silos. As datações obtidas sobre barro cozido localizado no topo da camada C são de 9.200±600 a.C., 8.900±600 a.C. e 9.300±600 a.C.

Camada D - Corresponde ao substracto geológico.

Os materiais acima referenciados em gráfico, recolhidos em prospecção apresentam-se numa desproporção bastante elevada: de 94% no que diz respeito ao conjunto de indústria lítica contra 6% de fragmentos de cerâmicos.

0 50 100 150 200 250 Cerâmica Lítica Gráfico 1 - FNT

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 111 Esta desproporção aparenta ser significativa, se olharmos para os materiais recolhidos em contexto estratigráfico, mantendo-se o mesmo perfil proporcional, isto é, 67% de materiais líticos contra 33% de fragmentos cerâmicos. Estes valores, dos quais apenas um recipiente é passível de reconstituição, representam uma amálgama de fragmentos de recipientes de impossível reconstituição. Se, por um lado, a desproporção entre os dois conjuntos pode não trazer dados significativos relativamente a uma interpretação comportamental dos grupos humanos que habitaram e exploraram este sítio num dado momento da pré-história recente, já o tipo de matéria-prima preferencialmente utilizada para o talhe - a anfibolite - seguida percentualmente pelo quartzito, poderá dar- nos indicações mais precisas sobre o tipo de actividades desenvolvidas.

O próprio estado de profunda alteração pós-deposicional deste sítio levar-nos-ia a considerar que surgisse uma percentagem de fragmentos cerâmicos tão elevada quanto os desperdícios de talhe ou mesmo as lascas indeterminadas. No entanto, esta suposição inicial não foi confirmada. Há ainda que ter em mente que provavelmente esta área aberta esteja afastada da área doméstica do povoado e, por essa razão, não termos ainda determinado as percentagens relativas aproximadas destas duas grandes categorias.

0 20 40 60 80 100 120 140

Anfibolite Quartzito Quatzo Sílex Xisto

Gráfico 2 - FNT

Frequência de Matéria-Prima dos Objectos Líticos

Obteve-se então, a partir da amostra exaustiva recolhida à superfície para a indústria lítica, uma percentagem de 53% de materiais talhados em anfibolite, seguida de 27% em quartzito, 11% em xisto, 6% em sílex e 3% em quartzo. Embora por si só seja

desmedido retirar conclusões finais sobre esta amostra, pensamos, no entanto, que, à luz dos elementos recolhidos em contexto estratigráfico, esta tendência se mantém como um elemento preferencial comportamental, sendo indicador da exploração local de matéria- prima. 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Cre scen te Des perd ício Dis co Núc leo Per cuto r Lâmi na Lam ela Lasc a Mó Pla ca Ras pado r Ras pade ira Sei xo T alha do Gráfico 3 - FNT Frequência de Tipos Líticos

Já relativamente ao tipo e categoria dos achados líticos surge-nos com uma maioria expressiva de 69% o grupo das lascas, evidenciando dois momentos de talhe: uni e bidireccional. A proporção de 10% é atribuída aos fragmentos de xisto polidos e gravados, 7% aos percutores duros, 6% a desperdícios, 4% a núcleos e os restantes 4% estão distribuídos pelas categorias representadas no gráfico apenso acima.

A quantidade de lascas recolhidas exigiu um olhar atento, do ponto de vista da acção e do estado da debitagem, sendo interessante observá-las no plano do seu lugar na cadeia operatória de produção. Esta análise é realizada com o suporte do sistema de classificação de P. Villa (1978) e de A. Tavoso (1972), tendo sido definidos e discriminados os tipos no capítulo 3.

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 113 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Inde term inad a

tipo1 tipo2 tipo3 tipo4 tipo5 tipo6 tipo7 tipo9tipo1 0 tipo1 4 tipo1 5 tipo1 6 tipo1 8 Gráfico 4 - FNT Frequência de Lasca-Tipo

Verificámos então que, na sua grande maioria, estamos perante uma amostra com talhe preferencialmente unidireccional e unifacial, sendo percentualmente lascas tipo 9 o que se destaca, muito embora existam vestígios de talhe bifacial, com a presença de alguns dos seus tipos (10,14,15,16 e 18).

Em termos de cadeia operatória, poderemos supor que o produto de debitagem unidireccional teria, por si só, bastado para as necessidades do quotidiano destes grupos humanos ou, em alternativa, supor que a abundância de matéria-prima seria de molde a proporcionar “desperdício” de núcleos enquanto produção local.

Por oposição, os objectos produzidos em sílex (crescente, lâminas e lamelas) já finalizados poderiam ser “importados”, se atendermos à escassez deste tipo de matéria- prima, e largados fora, por já não terem mais utilização e por se encontrarem fragmentados.

O tipo de matéria-prima dos achados líticos recolhidos em contexto estratigráfico não está em discordância com os recolhidos em prospecção de superfície.

Assim, foram obtidos os seguintes valores percentuais: 55% para o anfibolio, 34% para o quartzito, 9% para o quartzo e 2% para o xisto, sendo, no estado actual dos trabalhos, de salientar mais uma vez a preferência pela utilização do anfibolito.

Ainda em contexto estratigráfico, são escassas as categorias-tipo de vestígios líticos por camada, verificando-se 25% de desperdícios de talhe na camada A, 65% na Camada B e 10% na Camada C. Quanto à frequência de núcleos, obtivemos 50% para a

Camada A e 50% para a Camada B. Quanto à frequência de lascas, 48% para a Camada A, 31% para a Camada B e 21% para a Camada C.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% A B C Gráfico 5 - FNT

Frequência de Objectos Líticos por Camada Arqueológica

Lasca Núcleo Desperdício

Relativamente à frequência de matéria-prima por tipo de achado lítico, verificámos, para a Camada A, a ocorrência de desperdícios na proporção de 40% para o quartzito, 40% para o sílex, 20% para o quartzo e 0% para a anfibolite e para o xisto. Quanto aos núcleos verificámos a frequência de 100% para o quartzito. Para as lascas, foi obtida a frequência de 62% para a anfibolite e 38% para o quartzito.

Na camada B, a variação de matéria-prima para a categoria dos desperdícios é de 38% para o sílex, 31% para a anfibolite, 15% para o quartzo, 8% para o quartzito e 8%

0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Anfibolite Quartzito Quartzo Sílex Xisto Gráfico 6 - FNT

Frequência de Matéria-Prima de Objectos Líticos da Camada A

Desperdício Núcleo Lasca

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 115 para o xisto. Para os núcleos, verificámos a frequência de 100% para o anfibolite, e, para as lascas, 67% para a anfibolite e 33% para o quartzito.

Na camada C obteve-se para a categoria dos desperdícios a proporção de 50% de anfibolite e 50% de quartzito. Verificámos nesta camada a ausência absoluta de núcleos. Para as lascas, obtiveram-se as percentagens de 57% para a anfibolite, 29% para o quartzito e 14% para o quartzo.

Os resultados obtidos, após o tratamento dos dados da indústria lítica, devem contudo ser observados em duas perspectivas. Por um lado, são significativos relativamente à amostra fóssil contida na sondagem 1, tendo em linha de conta que, com a preservação excelente destas estruturas, nos encontramos perante uma área

0 1 2 3 4 5 6

Anfibolite Quartzito Quartzo Sílex Xisto Gráfico 7 - FNT

Frequência de Objectos Líticos da Camada B

Desperdício Núcleo Lasca 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4

Anfibolite Quartzito Quartzo Sílex Xisto Gráfico 8 - FNT

Frequência de Objectos Líticos na Camada C

Desperdício Núcleo Lasca

especializada do povoado/habitat, por outro, podem de facto não ser representativos após uma intervenção em área mais vasta deste arqueosítio.

Assinalamos a ausência absoluta de indústria polida, muito embora a percentagem de lascas de anfibolito seja a mais elevada.

Relativamente à amostra de fragmentos de recipientes cerâmicos e abordando especificamente a questão das cadeias operatórias de produção dos mesmos, poderemos afirmar, após uma análise macroscópica, que estamos perante uma amostra onde os elementos de moscovite se apresentam em grande abundância; a sua espessura centra-se nos muito finos e estão organizados de uma forma heterogénea. O grau de cozedura irregular oscila entre o oxidante e o redutor sem preponderância para qualquer um deles, sendo um possível indicador tecnológico do tipo de fornos construídos.

Os escassos bordos que foram exumados possuem uma forma e uma direcção que alterna entre o apontado-recto e o redondo-recto, as paredes dos recipientes são finas, com dimensões que não ultrapassam um centímetro.

Relativamente aos elementos presentes decorados (recolhidos em contexto de prospecção), poderemos induzir um recipiente, com forma indeterminada, possui bojo com decoração incisa e motivos em zig-zag; no entanto, não existe possibilidade de reconstrução do perfil, um recipiente fechado, com elemento de preensão e suspensão (asa) com orientação em direcção ao bordo, com decoração linear incisa no bojo superior, um recipiente, com forma indeterminada, com decoração incisa impressa, um recipiente aberto, com bordo apontado-recto e com decoração denteada e decoração incisa impressa no bojo superior. Em contexto estratigráfico, foram exumados fragmentos atípicos com decoração canelada.

A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 117 Relativamente às categorias de fragmentos exumados e considerados no gráfico verificámos, quanto aos atípicos, uma frequência de 10% para a Camada A, a ausência de fragmentos atípicos com decoração, de fragmentos de bojo com decoração, de fragmentos de bordo com decoração e de fragmentos de bordo. Há 10% de fragmentos de barro de revestimento.

Na Camada B verifica-se a percentagem de 85% para os atípicos, 100% de fragmentos atípicos com decoração canelada, 100% de fragmentos de bojo com decoração, 100% de fragmentos de bordo com decoração, 100% de fragmentos de bordo e 10% de fragmentos de barro de cozido.

Na Camada C verifica-se a percentagem de 5% para os atípicos, a ausência de fragmentos atípicos com decoração, de fragmentos de bojo com decoração, de fragmentos de bordo com decoração, de fragmentos de bordo e a presença de 80% de fragmentos de barro cozido.

Uma vez mais, é de olhar para estes resultados da mesma forma que se olha para os elementos líticos, sem descurar o facto de estarmos muito provavelmente numa área de especialização do povoado.

A integração dos fragmentos de xisto gravados recolhidos neste sítio surge como um trabalho de difícil investigação, razão pela qual se recorreu ao universo bibliográfico de arte móvel gravada, numa tentativa de estudo comparado.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Atíp ico Atíp ico Dec orad o Bojo Dec orad o Bord o D ecor ado Bord o Barr o R eves timen to Gráfico 8 - FNT

Frequência de Tipos de Cerâmica por Camada

C B A Gráfico 9 – FNT

As evidências de arte móvel paleolítica são raras no nosso País. As suas existências podem ser observadas na Gruta do Caldeirão (Tomar), consistindo numa placa gravada em ambos os lados (onde provavelmente se pode observar uma figuração feminina estilizada), atribuída a uma fase de transição entre o Solutrense e o Magdalenense(Zilhão, 1989: 29-30; Gomes, 2002: 174).

No Cabeço de Porto Marinho (Rio Maior) detectou-se um seixo de quartzito juntamente com restos de ocre vermelho (Gomes, 2002: 174).

Na Buraca Grande (Vale de Poio, Redinha - Pombal), foram encontrados alguns fragmentos de uma zagaia magdalenense, com ambas as faces decoradas (incisões paralelas e série de covinhas), de placa de xisto com restos de ornamentação, talvez de carácter zoomórfico, da mesma idade (Gomes, 2002: 174).

Em Xarez (Reguengos de Monsaraz), perto do Guadiana, foi identificado um fragmento mesial de seixo, cuja matéria-prima é o xisto jaspóide, decorado nas duas faces, uma das quais com uma série vertical de finas incisões em forma de V, atribuível ao Magdalenese (Gomes, 2002: 174).

É ainda de referir que no sítio do Vale da Fonte da Moça (nos concheiros epipaleolíticos) foram descobertos, em 1987, fragmentos de seixo de quartzito, onde foi possível definir, no córtex dos seixos, gravuras zoomórficas e alguns signos, ficando assim demonstrada a existência de arte móvel no Epipaleolítico do Ribatejo. Foram ainda observados prováveis riscos, marcas de percussão e minúsculos picotados do estilo sub- naturalista do início do pós-glaciar e da orla oriental do Mediterrâneo (Santos, 1993:236).

Estes níveis comparativos, não em termos cronológicos mas em termos de produção de arte móvel, podem ajudar-nos a inferir uma tradição pleistocénica para as gravações agora encontradas em contexto holocénico. Ainda que possamos admitir um fio condutor desta arte móvel desde tempos paleolíticos, podemos, no plano teórico, admitir um fio condutor entre estes fragmentos aliatoriamente gravados e a produção