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3.2 A PERSPECTIVA DA PRAGMÁTICA

3.2.1 A proposta de Grice

Ao perceber que uma lógica rege a conversação, e que os diálogos são esforços cooperativos, Herbert Paul Grice, em 1975, formula o Princípio da Cooperação, que estabelece: “faça sua contribuição conversacional tal como é requerida, no momento em que ocorre, pelo projeto ou direção do intercâmbio conversacional em que você está engajado” (GRICE, 1982, p. 86).

Tal noção de cooperação propõe que os interlocutores, em uma interação verbal, por serem racionais e objetivarem uma comunicação eficiente, cooperam para que essa interação transcorra de maneira adequada. Isto é, o Princípio diz respeito ao que o locutor pode dizer, dentro de determinadas circunstâncias, levando em conta as expectativas de seu interlocutor.

De acordo com Oliveira (2011, p. 10), as considerações de Grice se sustentam na idéia de que existem alguns princípios gerais que regulam a maneira pela qual, numa conversação, o ouvinte pode reconhecer, por um

raciocínio seu, a intenção do locutor e assim depreender o significado do que ele diz.

Ao considerar que os indivíduos respondem de maneiras diferentes, Grice (1982) delimitou quatro máximas conversacionais, com suas respectivas submáximas. Desta forma, se os falantes atuarem cooperativamente, respeitando estas máximas, o processo interacional ocorrerá de maneira eficiente e adequada. As máximas conversacionais são as seguintes:

QUADRO 1 - MÁXIMAS CONVERSACIONAIS DE GRICE FONTE: ADAPTADO DE GRICE (1982)

Grice (1982) também cunhou o termo implicatura, para discutir o que os interlocutores inferem em uma interação, a partir do próprio enunciado e de sua relação com a situação em que este acontece. Quando isso ocorre, cabe ao interlocutor procurar entender que o falante está querendo dizer outra coisa, além daquilo que foi dito. Ou seja, como um texto ou uma fala nunca apresenta todas as informações necessárias para sua compreensão, existem elementos implícitos que o leitor/ouvinte precisa recuperar para interpretá-lo.

Assim, Grice (1982) estipula dois tipos de implicaturas: a convencional e a conversacional. A primeira corresponde a inferências associadas aos significados convencionais das palavras, ao próprio léxico. No enunciado (1)

“Luiz é dedicado e pontual, mas foi demitido”, implica-se que Luiz, sendo um trabalhador dedicado e pontual não deveria ter sido demitido de seu emprego, mas foi. As informações são apresentadas claramente, e o emprego da conjunção “mas” denuncia qual a interpretação pretendida pelo falante.

MÁXIMA DA QUANTIDADE (Diga apenas o necessário)

a) Seja tão informativo quanto requer o propósito da conversação;

b) Não informe mais do que lhe é requerido.

MÁXIMA DA QUALIDADE (Seja verdadeiro)

a) Não diga o que acredita ser falso;

b) Não diga nada cuja verdade não possa provar.

MÁXIMA DA RELAÇÃO

Já a implicatura conversacional ocorre quando os falantes interagem por meio de enunciados indiretos, de modo que as implicaturas são geradas no ato comunicativo. Como a implicatura não está codificada no enunciado, condiciona-se à intenção27 do falante, a elementos contextuais e saberes prévios dos interlocutores. A implicatura conversacional é, portanto, resultante do não cumprimento de uma ou mais máximas conversacionais durante a interação. Assim, quando o falante viola intencionalmente uma das máximas, o interlocutor pode procurar a intenção de tal violação e descobrir o significado pretendido pelo falante. Por exemplo:

(2) A e B são colegas de curso e conversam enquanto esperam o professor entrar na sala de aula:

A: — Você estudou para a prova de hoje?

B: — Confio em você.

Em (2), tem-se uma implicatura conversacional, pois B viola as máximas conversacionais de Grice, obrigando o interlocutor A a descobrir o motivo da sua desobediência às máximas. Ao invés de responder simplesmente “sim” ou

“não”, B viola a máxima de quantidade, pois fornece mais informação do que lhe foi solicitado, e a máxima de modo, pois não sendo claro obriga A a fazer inferências para descobrir o significado implícito em seu enunciado. Assim, por meio de inferências, A pode compreender a seguinte implicatura: “B espera que ele passe as respostas da prova”. Tal implicatura conversacional é possibilitada pelos conhecimentos prévios dos interlocutores, como o fato de B raramente estudar para as provas e de sempre pedir ajuda aos colegas.

27Segundo Oliveira (2009, p. 81), a intenção exprime uma direção para as ações individuais.

Assim como os desejos, são sempre acerca de alguma coisa, e visam alterar estados mentais do indivíduo ou estados de coisas da realidade. Essa noção de intenção apóia-se nas leis do comportamento humano. Isso não quer dizer que as intenções estejam codificadas no sistema interno dos indivíduos, mas que se trata de comportamentos responsivos às solicitações que lhes são feitas enquanto seres sociais. Afirmar que há uma intenção é afirmar que são inteligíveis o agente, a ação, e um contexto ou situação em que o termo é usado. Em resumo, o autor explica que a intenção deve ser entendida no sentido proposto por Wittgenstein (1985):

meramente uma palavra usada nesta ou naquela situação para justificar um padrão de comportamento por nós elaborado e contemplado.

Dascal (2005) lembra que as implicaturas conversacionais são reconhecíveis de modo eficaz somente se o ouvinte busca identificar a intenção comunicativa do falante que elucida a transgressão das máximas, permitindo, dessa forma, preservar a suposição da racionalidade do falante.

Ao estabelecer regras que, consciente ou inconscientemente, as pessoas seguem para a obtenção de êxito comunicativo e delas inferir corretamente o alcance sentencial, Grice motivou, entre outros, um tipo especial de crítica (LIMA, 2002, p. 33).

Como salienta Fiorin (2002, p. 178), alguns autores dizem que Grice tem uma concepção idealista da comunicação e, por conseguinte, da sociedade, porque imagina a troca verbal como algo harmonioso. Por outro lado, diz-se que Grice é normativo, que ele pretende ditar regras para a comunicação humana.

A primeira crítica sustenta que Grice tem uma concepção idealizada de comunicação, pois a concebe como um evento contratual, ignorando os antagonismos e discordâncias que caracterizam as trocas linguísticas.

Segundo Lima (2002, p. 33), Lakoff argumenta que seria insustentável participar de ou ouvir uma conversação que seguisse literalmente as máximas de Grice, assim como manter uma conversação com alguém que dissesse o que tivesse de dizer, no momento em que tivesse de dizer, e da forma como tivesse de dizer. Ou seja, segundo tal crítica, Grice tem uma concepção normativa da conversação, pois estabelece determinadas regras que os falantes devem obedecer para que a comunicação seja bem sucedida.

Ambas as críticas são improcedentes e ignoram, segundo Lima (2002, p.

33) “os mais atuais processos de investigação científica em que o objeto é construído intrateoricamente”. Para Lima (2002) o que Grice propõe é um modelo. As pessoas ao se comunicarem agem como se estivessem seguindo determinadas leis, o que não significa nem mesmo que estejam conscientes delas. Isto é, as máximas não são um corpo de princípios a ser seguido na comunicação, mas uma teoria de interpretação dos enunciados.

Além disto, Grice não ignora as divergências nos atos comunicativos, o que ele expõe, através do Princípio da Cooperação, é que uma troca verbal, mesmo conflituosa, só pode operar sobre determinados princípios de

interpretação, que constituem a cooperação, sem o que não se pode nem mesmo discordar. Os interlocutores, durante a enunciação precisam interpretar adequadamente o que se diz. Por isso, a troca verbal funciona com base em certas condições de uso da linguagem.

Apesar de algumas críticas e reformulações, os princípios conversacionais de Grice foram fundamentais para o desenvolvimento dos estudos sobre a polidez, uma vez que, ao apresentá-los, o autor acrescentou:

Há, naturalmente, toda sorte de outras máximas (de caráter estético, social ou moral), tais como ‘Seja polido’, que são também normalmente observadas pelos participantes de uma conversação, e estas máximas também podem gerar implicaturas não convencionais (GRICE, 1982, p. 88).

Como se pode observar, Grice abre o caminho para uma abordagem linguística da polidez, que enfatizasse o uso da língua, a partir de escolhas linguísticas estratégicas que os falantes fazem em situações concretas de comunicação, segundo suas intenções e as restrições que lhe são impostas em contextos específicos.