• Nenhum resultado encontrado

4.1 O MODELO DE BROWN E LEVINSON (1987 [1978])

4.1.2 Revisões e ampliações do modelo de Brown e Levinson

Embora aceite as considerações do modelo de Brown e Levinson, Kerbrat-Orecchioni (2004; 2006) aponta algumas limitações e confusões dessa teoria. No entanto, a autora reconhece que isso não invalida essa abordagem, pois ela pode ser aperfeiçoada.

Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 42) argumenta que a originalidade do trabalho de Brown e Levinson consiste na “reciclagem” que os autores fazem sobre a noção tradicional de atos de fala, considerando-os em função dos efeitos que produzem sobre as faces dos interlocutores, e transforma essa noção de FTA num dos fundamentos de uma nova teoria de polidez.

No entanto, a autora considera que um dos aspectos problemáticos é o fato do trabalho apresentar uma visão excessivamente pessimista da interação, em que as pessoas estão constantemente sob a ameaça de FTAs. Nas palavras da autora:

Com efeito, é incontestável que Brown e Levinson reduzem demais a polidez à sua forma “negativa”: bastante revelador desse aspecto é o fato de que, buscando reciclar a noção de atos de fala na perspectiva de uma teoria da polidez lingüística, eles apenas tenham focalizado os atos potencialmente ameaçadores para as faces, sem pensar que alguns atos de fala também podem ser valorizadores para essas mesmas faces, como o elogio, o agradecimento ou os votos (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 201-202).

Desse modo, em oposição à noção de FTA, a autora introduz a noção de Atos Valorizadores da Face – FFAs45, que são uma espécie de antiameaças. Assim, o conjunto de atos de fala divide-se em dois grupos:

aqueles que produzem efeitos negativos para as faces, como ordens ou críticas, ou efeitos positivos, como elogios e agradecimentos (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006, p. 82).

45 No inglês, Face Flattering Acts.

Em suma, todo ato de fala pode ser descrito como um FTA, um FFA, ou um complexo desses dois componentes. O desenrolar de uma interação aparece como um incessante e sutil jogo de pêndulo entre FTAs e FFAs. A distinção entre FTA e FFA também esclarece a distinção entre polidez positiva e polidez negativa, que na perspectiva de Brown e Levinson, encontra-se confusa.

De acordo com Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 82), a polidez negativa consiste em evitar produzir um FTA, ou em suavizar sua realização. Por outro lado, a polidez positiva consiste em efetuar algum FFA para a face negativa ou positiva do interlocutor.

A partir destes aperfeiçoamentos, Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 84-92) apresenta uma relação dos procedimentos linguísticos de polidez positiva e polidez negativa. Os procedimentos verbais de polidez negativa, que permitem ao falante atenuar ameaças potenciais de um ato de fala, são classificados como substitutivos e acompanhantes.

Os procedimentos substitutivos, em que a formulação explícita de um FTA é substituída por outra mais atenuada, incluem:

a) Formulação indireta do FTA

2. “Nós” ou “a gente” (substituindo “você”, em enunciados negativos, e substituindo “eu”, em enunciados positivos);

d) Procedimentos retóricos

1. Litotes (em lugar de uma crítica ou reprovação);

Ao comentar alguns destes procedimentos, Kerbrat-Orecchioni (2006, p.

85) afirma que a função dos desatualizadores é distanciar a realização do FTA e, no caso específico dos desatualizadores pessoais, promover o apagamento da referência direta aos interlocutores. O pronome pessoal “senhor (a)” atenua a agressividade do tratamento ao mesmo tempo em que enfatiza a deferência, e o uso polido de “nós” ou “a gente” adquire valor de solidariedade. Já os litotes consistem numa frase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação, e são comuns em lugar de críticas ou reprovações, entretanto, como podem ter força irônica, nem sempre seu efeito é suavizador.

Os falantes podem recorrer ainda aos procedimentos suavizadores acompanhantes. A formulação de um FTA pode ser suavizada, com os

3. Críticas ou objeções: “Eu posso te dar uma opinião / fazer uma observação / uma

pequena crítica?”;

4. Convites: “Você esta livre neste final de semana?”;

3. Reparações

1. Pedido explícito de desculpas: “Eu te peço desculpas por isso”; “Perdão”; “Perdoe-me”;

2. Pedido implícito de desculpas: a) Descrição de um estado de alma: “Eu sinto muito”; b) Justificativa: “Estou sem nenhum real aqui”; c) Reconhecer o erro: “Sei que estou sendo rude e grosseiro”;

6. Desarmadores

1. “Não queria te importunar, mas..”; “Fico envergonhado por te incomodar, mas..”;

“Espero que você não me interprete mal, mas..”;

7. Moderadores

1. “Por gentileza, me passe o açúcar”; “Feche a porta, meu querido”; “Você, que sabe das coisas, me diga..”;

QUADRO 7 - PROCEDIMENTOS ACOMPANHANTES, SEGUNDO KERBRAT-ORECCHIONI (2006)

FONTE: ADAPTADO DE KERBRAT-ORECCHIONI (2006)

O enunciado preliminar pode abrandar a ameaça intrínseca em perguntas invasivas ou indiscretas, críticas e sugestões. Os minimizadores parecem reduzir a ameaça contida no FTA, pela forma como se apresenta. Já os modalizadores projetam certa distância entre o sujeito da enunciação e o conteúdo do enunciado. Por meio dos desarmadores o indivíduo antecipa uma reação negativa do interlocutor e tenta neutralizá-la. Finalmente, os moderadores visam suavizar de alguma forma o efeito do FTA.

Dias (2010, p. 54) lembra que, considerando as manifestações de polidez negativa sistematizadas por Kerbrat-Orecchioni (2006), é importante observar que a inclusão da “indiretividade” como um dos procedimentos substitutivos introduz uma alteração significativa no sistema de Brown e Levinson, o qual considera as estratégias do tipo Off Record como um grupo à parte.

Já os procedimentos verbais de polidez positiva consistem na produção de algum ato “antiameaçador” (FFA) para seu interlocutor, como: convite, oferta, acordo, elogio, agradecimento, entre outros. Kerbrat-Orecchioni (2006) ainda observa que a realização dos FFAs costuma ser acompanhada de intensificadores. Isso pode ser observado, como exemplifica Dias (2010), no caso dos agradecimentos, em que normalmente não se diz apenas “obrigado”, mas “muito obrigado” ou “muitíssimo obrigado”, numa mostra de intensificação da gratidão46.

Em relação às reformulações propostas por Kerbrat-Orecchioni, parece-nos que estas solucionam parte das limitações e falhas do modelo de Brown e

46 Aqui, é preciso considerar o contexto e, principalmente, a intenção do falante, pois o enunciado pode ser irônico.

Levinson. Portanto, acreditamos que o modelo proposto por Kerbrat-Orecchioni, com a introdução dos Atos Valorizadores da Face, assim como uma reformulação dos conceitos de polidez positiva e negativa oferece um suporte teórico eficaz e consistente para a análise das estratégias de polidez.

No entanto, a fim de propor outras reflexões sobre o estudo do fenômeno, consideramos outros ângulos de visão que apresentamos a seguir.