• Nenhum resultado encontrado

4.1 O MODELO DE BROWN E LEVINSON (1987 [1978])

4.1.1 Críticas ao modelo de Brown e Levinson

Como explicitado anteriormente, entre as teorias sobre a polidez, a de Brown e Levinson tornou-se uma das propostas mais conhecidas e referenciadas, principalmente por seu detalhamento descritivo. Alguns autores pós-modernos, tais como Eelen (2001), Mills (2003) e Watts (2003), fazem um balanço crítico deste modelo e reavaliam alguns de seus princípios, passando a entender a polidez não mais como uma forma de cooperação para a

42 Nesta fórmula, (W) representa a quantidade de trabalho de face requerida; (x) representa o FTA; (D) representa a distância social entre (F), falante, e (O), ouvinte; (P) representa o poder relativo entre F e O e (R), o grau de imposição. Isto é, o risco do ato de ameaça à face igual a distância social entre falante e ouvinte mais o poder relativo que o ouvinte exerce sobre o falante mais o grau de imposição do ato em uma determinada cultura.

preservação da face, mas como uma co-construção entre falantes e ouvintes, um produto da negociação com o outro.

As críticas e revisões mais relevantes foram sistematizadas por Dias (2010, p. 47-48) da seguinte forma: a divisão entre face positiva e negativa e a universalidade; a correlação entre indiretividade e polidez; as variáveis; e a impolidez (EELEN, 2001; KERBRAT-ORECCHIONNI, 2004, 2006; MILLS, 2003).

Em primeiro lugar, a divisão entre face negativa e face positiva, principalmente com relação aos conteúdos atribuídos a face negativa, tem sido questionada a partir de evidências empíricas observadas em diferentes culturas (DIAS, 2010). Em culturas asiáticas, como a japonesa, por exemplo, Matsumoto43 (1988, citado por Dias, 2010) afirma que a polidez não estaria vinculada à vontade de atender aos desejos das faces do interlocutor, estando mais relacionada à noção de discernimento ou a normas sociais prescritas.

Assim como este, vários outros exemplos acabam por questionar a divisão proposta por Brown e Levinson (1987 [1978]).

Neste mesmo sentido, Kerbrat-Orecchioni (2004) esclarece que o problema se instaura na base do modelo, a partir do conceito de face, ao qual Brown e Levinson incorporaram a noção de Goffman de “território” e passaram a chamar de face negativa em oposição à face positiva. Conforme a autora, não há oposição, mas complementaridade entre esses dois aspectos da identidade social. Por isso, essa terminologia provoca interpretações equivocadas.

No que tange à universalidade da polidez, para Kerbrat-Orecchioni (2004), no modelo de Brown e Levinson os princípios gerais da polidez é que são universais, isto é, todos os indivíduos possuem a necessidade de preservar seu território e de serem aceitos socialmente, e, em toda parte, as interações verbais são passíveis de conflitos. No entanto, os autores admitem que existam diferenças transculturais na aplicação de seus princípios.

43 MATSUMOTO, Y. Reexamination of the university of face: politeness phenomena in Japonese. Journal of Pragmatics, v. 12, n. 4, p. 403-426, 1988.

Em outros termos, Kerbrat-Orecchionni (2004, p. 39-40) explica que embora o conteúdo do conceito de face apresente diferenças de cultura para cultura, a necessidade de preservação da face constitui um princípio dinâmico fundamental para o desenvolvimento de qualquer interação e um marco universal para os fenômenos de polidez.

Contudo, em relação à realização de atos linguísticos específicos, a discussão da universalidade versus o que é específico de cada cultura e/ou sociedade tem provocado opiniões adversas, como as de Fraser (1985) e Wierbizcka (1985), apresentadas por Kerbrat-Orecchioni (2004).

Enquanto Fraser (1985) alega que as estratégias utilizadas para realizar os atos de fala, expressar polidez e minimizar a força dos enunciados são as mesmas em línguas e culturas diferentes, sendo a noção de uso apropriado dessas estratégias que mudam de cultura para cultura, Wierbizcka (1985) desafia tal posicionamento. Para esta autora, as diferenças nas línguas estão ligadas a diferenças básicas no “ethos cultural”. Wierbizcka considera ainda que qualquer argumento de universalidade na realização da polidez nos atos de fala seria uma mostra de anglo-centrismo (DIAS, 2010, p. 48).

Outros teóricos defendem que o trabalho de Brown e Levinson está ligado a certo etnocentrismo e, em particular, na visão de que este modelo reflete a polidez que prevalece na cultura ocidental de tipo anglo-saxão. Esta crítica, no entanto, não é tão bem fundamentada, pois Brown e Levinson continuamente recorrem aos dados de culturas e línguas não européias, enquanto deixam claro que apenas os princípios gerais do modelo são universais, enquanto sua implementação varia culturalmente.

Na reedição do livro Politeness: some universals in language usage (1987), os autores esclarecem essas questões:

Esta é a essência da noção de face a qual nós argumentamos que é universal, mas que em qualquer sociedade em particular nós esperamos que seja alvo de considerável elaboração cultural. Por um lado, este conceito central esta sujeito a especificações culturais de muitos tipos — que tipos de atos ameaçam a face, que tipos de pessoas possuem direitos especiais de terem sua face protegida, e

que tipos de estilo pessoal (…) são particularmente apreciados (…) (BROWN e LEVINSON, 1987, p. 13, tradução nossa)44.

Assim, nos parece claro que a teoria dá uma atenção especial para as elaborações específicas de cada sociedade e cultura. Por isso, no que se referem às críticas com relação à universalidade do modelo, acompanhamos o posicionamento de Kerbrat-Orecchionni (2004).

Com relação às variáveis contextuais (P), (D) e (R), Watts et al. (1992) sugerem que existe uma simplificação do contexto e que é impossível quantificar objetivamente o peso de tais variáveis. Do mesmo modo, Holmes (2006) ressalta que a gama de variáveis sociais relevantes para a análise da polidez é muito mais extensa do que as que Brown e Levinson identificam e cita fatores como o nível de formalidade, a presença de um público e o grau de simpatia entre os interlocutores como elementos que podem afetar o peso dos FTAs.

Sobre a impolidez ou descortesia, Gino Eelen (2001) em sua obra A critique of Politeness Theories critica a falta de atenção e espaço de Brown e Levinson para essa questão. Segundo Eelen (2001, p. 98-101), a impolidez é, em diversos casos, compreendida somente como a ausência de polidez, isto é, como a falta, ausência, ou violação de normas.

Eelen ressalta que a impolidez não pode estar atrelada somente à questão do engano por parte do interlocutor que comete atos impolidos, uma vez que, em alguns casos, o propósito da impolidez tem valor argumentativo.

Deste modo, para o autor, a impolidez não pode ser explicada do mesmo modo que a polidez.

Admitindo algumas dessas contradições e limitações, Kerbrat-Orecchioni (2006) alega que estas não invalidam o modelo teórico de Brown e Levinson (1987 [1978]). Assim, a autora elenca aspectos importantes deste modelo, para, em seguida, aperfeiçoá-lo e complementá-lo.

44 Tradução livre para: “This is the bare bones of a notion of face which (we argue) is universal, but which in any particular society we would expect to be the subject of much cultural elaboration. On the one hand, this core concept is subject to cultural specifications of many sorts – what kinds of acts threaten face, what sorts of persons have special rights to face-protection, and what kinds of personal style (…) are specially appreciated (…)” (BROWN e LEVINSON, 1987, p. 13).