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A PROPRIEDADE INTELECTUAL COMO DIREITO FUNDAMENTAL

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI (páginas 150-173)

A Constituição brasileira garante a propriedade em nível de direito fundamental, transportando para o campo da propriedade imaterial, o legislador constitucional também preconizou sua proteção, dentro do capítulo dos direitos fundamentais.

Art. 5°, XXVII – aos autores pertence o direito ex clusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível

487

MOREIRA, Aroldo. A propriedade sob diferentes conceitos, p. 90.

488

ARONNE, Ricardo. Propriedade e Domínio: Reexame Sistemático das Noções Nucleares de Direitos Reais, p. 41.

489

aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;

XXVIII – são assegurados, nos termos da lei: a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas; o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas;

XXIX - a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País;

Porém, numa análise do direito de propriedade intelectual na Constituição, verifica-se que a norma pertenceria mais ao campo da ordem econômica do que, propriamente, do campo dos Direitos e Garantias Fundamentais do Homem.

Com efeito, tem-se que não há direito natural aos bens intelectuais490

, sendo garantidos apenas o que expressamente tem proteção mediante as leis de propriedade intelectual, o que permanece fora do escopo específico da proteção fica no domínio comum da humanidade.491

Quanto à inexistência de um direito natural egoístico e exclusivo às criações intelectuais é de que o elemento de partida da criação intelectual é sempre o repositório precedente, cultural e técnico, da humanidade.492

A criação intelectual nunca é um labor egoísta, ela é sempre relativa, pois envolve diversos agentes da sociedade. Portanto, a tutela das criações encontra limites nas demais liberdades e garantias constitucionais.

490

BARBOSA, Denis Borges. Uma Introdução à Propriedade Intelectual, p. 88.

491

GAMA CERQUEIRA, João da. Tratado de Propriedade Industrial, p. 379.

492

A regulamentação positiva dos resultados da atividade do intelecto resultou sempre de uma escolha e freqüentemente de um compromisso entre duas exigências contrastantes: o interesse da coletividade em utilizar livre e imediatamente o resultado, e o interesse do autor em reservar para si o emprego econômico, ou ao menos em retirar proveito do aproveitamento alheio.493

Do reconhecimento constitucional da propriedade intelectual como direito fundamental não se pode concluir que ela deva ser assim considerada na análise do caso concreto. Pois os direitos fundamentais protegem a dignidade da pessoa humana e representam a contraposição da justiça ao poder de forma a garantir a liberdade humana.494

Provavelmente haveria alguma razão para listar entre os direitos fundamentais o estrato moral dos direitos autorais e de propriedade industrial [...] quanto ao aspecto patrimonial de tais direitos, ou se adota a posição de que não tem natureza de direito fundamental ou que estariam corretamente vinculados ao artigo 5°, mas integralmente submetidos às limitações das propriedades em geral – especialmente a do uso social [...]495

As disposições acerca da propriedade intelectual têm antes o aspecto de comando constitucional dirigido ao legislador ordinário – reprise-se: ‘a lei assegurará...’ – e não propriamente um reconhecimento automático de um direito fundamental do autor intelectual.496

O direito aos bens intelectuais é dado de acordo com a vontade e conveniência da sociedade, [...] é um movimento de política, e

493

CHAVES, Antonio. Direito de Autor, vol.I – Princípios Fundamentais, p. 8-9.

494

COMPARATO, Fábio Konder. Direitos e deveres fundamentais em matéria de propriedade. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, n. 7, p. 73-88.

495

BARBOSA, Denis Borges. Uma Introdução à Propriedade Intelectual, p. 92.

496

política econômica mais do que tudo, e não um reconhecimento de um estatuto fundamental do homem.497

O dispositivo que define e assegura a propriedade intelectual está entre os direitos individuais, sem razão plausível para isso, pois evidentemente não tem natureza de direito fundamental do homem. Caberia entre as normas da ordem econômica.498

Destarte, a CRFB não só indica a tutela dos direitos subjetivos, interesses individuais, à produção autoral, mas também aponta para a existência de interesses coletivos ou societários no mesmo âmbito temático, cometendo ao Estado o dever de garantir o acesso a tais objetos culturais. Tais como os dispositivos:

Art. 215 – O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

(...)

Art. 216 – Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I – as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

497

BARBOSA, Denis Borges. Uma Introdução à Propriedade Intelectual, p. 90.

498

Enquanto aos autores de obras intelectuais de predominância literária, artística e científica é enfatizado o aspecto privado desse direito pessoal e exclusivo, como um direito fundamental da pessoa humana garantida pela carta das Nações Unidas, a proteção aos inventos, às marcas estará diretamente relacionada ao interesse social e ao desenvolvimento econômico do país.499

A Ordem Econômica e Financeira no Brasil pugna pelo princípio da livre concorrência (artigo 170, inciso IV), então visa a proteção da propriedade intelectual, como forma de garantir a busca de novas tecnologias e conseqüentemente produzir o desenvolvimento nacional.

Apesar dessa vinculação da propriedade intelectual à preceitos de ordem econômica e financeira , e de suas limitações frente à função social, assim como a propriedade lato sensu, a propriedade intelectual também trata-se de um direito fundamental.

499

ABRÃO, Eliane Y. Direito autoral e propriedade industrial como espécies do gênero propriedade intelectual. Suas relações com os demais direitos intelectuais. Revista dos Tribunais, v. 739, p. 90.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como objetivo investigar a propriedade, os aspectos intrínsecos e extrínsecos que afetam o instituto, à luz da constituição brasileira e, em caráter específico verificar a abrangência da propriedade intelectual como direito fundamental na constituição brasileira.

O interesse pelo tema abordado deu-se em razão de sua atualidade e pela diversidade de modo que o tema vem sendo abordado no contexto nacional.

A dificuldade na elaboração do trabalho foi mediana em razão de que muitas das bibliografias utilizadas são por demais antigas em suas edições, embora atuais quanto ao tema abordado. Colaboraram substancialmente para a obtenção das obras o acervo da biblioteca da UNIVALI, a biblioteca do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e sua respectiva página na internet e também a estante operacional do Centro de Pós-graduação em Direito - CPGD da Universidade Federal de Santa Catarina.

Para seu desenvolvimento lógico o trabalho foi dividido em três capítulos.

O primeiro, tratou de abordar a propriedade desde a antiguidade até os dias atuais, analisando a sua evolução em busca de legitimidade, os seus fundamentos e seu conceito.

Nele foi apresentada a propriedade, na antiguidade, como direito divino, era o elo entre a família e a terra, por ser utilizada para adorar os deuses domésticos, antepassados falecidos, não poderia ser limitado, renunciável ou alienável.

Em seguida, analisamos o direito romano, fonte do direito ocidental, e constatamos a existência de quatro espécies de propriedade: a quiritária, a bonitária, a provincial e a peregrina.

Porém, o direito de propriedade vai sofrendo evoluções em busca de sua utilização conforme as razões do direito, respeitando o direito de vizinhança, servidão e limitações aos poderes do senhor sobre os escravos.

Com o surgimento do feudalismo, na Idade Média, a propriedade fundava-se numa unidade de produção chamada feudo, na qual existia uma cadeia de poderes sobre a terra determinada pela hierarquia social das pessoas. A propriedade reunia a idéia de poder civil e poder político, o senhor feudal exercia um tipo de soberania sobre a propriedade.

Os jusnaturalistas foram responsáveis pela caracterização da propriedade como um direito individual, por fundamentaram o direito de propriedade no trabalho da pessoa, que enquanto força que emana do corpo do indivíduo.

Mas a propriedade privada sofreu reações que buscavam uma distribuição da justiça social da propriedade, condicionando a concepção individual da propriedade privada ao interesse social.

Hodiernamente, é essa concepção que subsiste, a idéia de um direito de propriedade com conteúdo de direitos reais e obrigacionais, ou seja, o proprietário pode usar, gozar, dispor e reaver desde que cumpra o ônus de atribuir-lhe uma destinação útil.

Na sociedade contemporânea, há uma crescente importância do conhecimento e da informação, fazendo surgir a necessidade de protegê-los, e essa proteção se dá através da garantia da

propriedade intelectual abrangendo o campo da propriedade industrial e dos direitos autorais.

O segundo capítulo, foi destinado a tratar do Estado contemporâneo como garantidor da função social da propriedade, intervindo através das suas normas de direito público no direito privado.

Iniciou-se apresentando os limites da propriedade e seu condicionamento a função social da propriedade, como forma de fortalecer o instituto da propriedade através de seu aperfeiçoamento, também no que se refere às diversas espécies de propriedades, como a propriedade intelectual que também deve cumprir uma função social.

Seguiu-se analisando a dicotomia público/privado, que surgiu na modernidade quando com o advento da Constituição os assuntos relacionados com o Estado eram de direito público e os restantes eram de direito privado. Atualmente esta linha divisória não está mais definida, mas a dicotomia é relevante como método para definir termos conceituais distintos, porém há um entrelaçamento e interação dos termos na regulação das relações jurídicas.

Relaciona esta superação da dicotomia com a constitucionalização do direito privado, que migrou para a Constituição as bases axiológicas do Direito positivo, e ocasionando uma releitura dos institutos fundamentais do direito privado, como a propriedade. Essa revisão dos institutos, através da moldura constitucional, é uma busca de legitimação de conceitos estanques através da sua inserção na realidade social.

Para encerrar o segundo capítulo, apresentou-se o conceito contemporâneo de Estado como um fenômeno político e também jurídico, que deve comportar-se sob a égide da primazia do humano sobre a força econômica e, servindo de instrumento para realização do bem estar

comum.

No terceiro e último capítulo, tratou-se das normas como princípios e regras, para viabilizar o estudo sobre formas de solução de tensões entre direitos subjetivos divergentes consagrados na Constituição, como a propriedade e a função social.

De acordo com o exposto a propriedade se relativiza diretamente por outro princípio jurídico, que é o da função social da propriedade, e ambos só se hierarquizam axiologicamente perante o caso concreto, pois não há um princípio que sempre prevaleça.

Dessa forma, discorda-se da doutrina que defende tratar-se de antinomia jurídica a distinção axiológica entre propriedade privada e função social da propriedade.

A função social da propriedade privada, prevista constitucionalmente em nosso ordenamento jurídico, representa um avanço ideológico-social, determinando que a propriedade deva estar em contínua mudança para se adaptar e responder às necessidades sociais.

Na doutrina estudada não ficou determinado se a propriedade ao ter limitações perde sua abrangência como direito fundamental.

Com efeito, houve a necessidade de estabelecer nesse trabalho um estudo sobre os direitos fundamentais, desde seu conceito, suas gerações e sua fundamentação nas teorias juspositivista e

jusnaturalista.

Direitos fundamentais são aqueles necessários para assegurar a todos uma existência digna, livre e igual. Contudo não são passíveis de uma concepção definitiva, têm conceito materialmente aberto, são resultado da confluência de interesses e valores sociais.

Ao tratar das dimensões dos direitos fundamentais, verificou-se que a essência dos referidos direitos eram as liberdades públicas ou direitos individuais, e a elas, posteriormente, se agregaram direitos econômicos, sociais e os direitos de solidariedade.

Apesar de doutrinadores entenderem que os legítimos direitos fundamentais não são passíveis de limitação, verificou-se que esses direitos não podem ser considerados absolutos, de aplicação ilimitada, uma vez que ao exercitá-los poderá haver conflito entre eles.

O constitucionalismo brasileiro consagra a publicização dos direitos individuais fundamentais, buscando resguardar valores sociais intangíveis, sem suprimir poderes particulares, prevalecendo o sentimento de solidariedade política, econômica e social.

E diante, desta constatação, finalmente encerrou-se o capítulo apresentando a propriedade intelectual como direito fundamental, apesar de suas limitações.

Por fim, retomam-se as três hipóteses básicas da pesquisa: a) foi constatado que hodiernamente a propriedade é um direito condicionado ao cumprimento de uma função social; b) com relação à segunda hipótese pode-se afirmar que mesmo com os limites impostos a propriedade é considerada direito fundamental; c) com relação à terceira hipótese demonstrou-se que diferentemente do que se entendia inicialmente, o direito intelectual também podem ser considerado direito fundamental do indivíduo apesar de estar vinculado à Ordem Econômica e Financeira.

Com a consciência de não se ter esgotado todos os âmbitos de análise do tema, pretende-se que o estudo sirva de estímulo a novas pesquisas e reflexões na área.

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