• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I - Literatura em Psicanálise

1.3 A psicanálise do texto: um mergulho (in)consciente

No primeiro tópico do capítulo, fica evidente de que forma a literatura perpassa a obra freudiana, e como o autor utilizou-se de sua contribuição para descrever e aprimorar o próprio método psicanalítico, inclusive, assumindo o risco de exagerar em analogias e análises que careciam de recursos para serem melhor fundamentadas. Freud sempre foi conhecido como um grande leitor e colecionador de arte, e durante toda a sua vida transitou em vários círculos intelectuais, correspondendo-se muitas vezes com algumas das principais figuras literárias de seu tempo.

Restam poucas dúvidas de que os amantes da psicanálise costumam ser ávidos leitores e intérpretes habilidosos. Nomes como André Green e Bellemin-Nöel contribuíram de forma significativa para as inúmeras aproximações entre Psicanálise e Literatura realizadas desde Freud e Lacan. Mas um ponto fundamental de tudo o que tem sido discutido é o que esses críticos e psicanalistas concordam a respeito dessas duas áreas: a literatura está repleta de trabalho inconsciente, e a psicanálise é a ciência que busca desvendar o que foge ao consciente. Assim, aproximá-las e até confundi-las é a maior tentação do crítico literário que se utiliza de métodos psicanalíticos para ler uma obra.

No Brasil, Willemart, Gutfreind e Eizirik são alguns dos expoentes dessa vertente. Para Eizirik (2002), um crítico psicanalista é aquele que desenvolve uma prática literária que tem por finalidade estudar a interpretação das relações entre o texto e o inconsciente. O recorte dessa crítica permite ao psicanalista atingir um aspecto do texto até então oculto, que por meio de outra técnica não poderia ser revelado. Assim como a escuta clínica, a leitura psicanalítica busca o que normalmente escapa aos olhos e aos sentidos, o que permanece escondido ou camuflado entre as palavras.

Para não confundir os aspectos inconscientes do texto com o seu próprio inconsciente, o crítico psicanalista, assim como o terapeuta, precisa trabalhar bem os seus próprios conteúdos, de modo a não deixar que um aspecto fale no lugar do outro. Essa responsabilidade é o pré-requisito não apenas de uma boa crítica, mas de uma boa análise. Eizirik (2002) retoma os estudos literários de André Green para exemplificar que diante de um texto, o psicanalista se transforma, de modo que não apenas leia o texto, mas o escute, oscilando entre uma leitura mais rigorosa e outra indolente, flutuante, necessária para que a associação livre aconteça – única regra de ouro da psicanálise.

Diante de um texto literário, surgem no leitor uma ideia e um afeto. A ideia assume a forma de um enigma, já o afeto é, na proporção em que emociona, o do fascínio gerado pelo texto. Assim, a interpretação concedida ao texto acontece a partir de sua própria interpretação quanto aos efeitos do texto sobre o inconsciente de seu leitor. Green propõe que o analista não lê o texto, mas tenta desligá-lo, quebrando o seu processo secundário, tirando-o de sua trilha. Em um exercício arriscado, o analista delira o texto (EIZIRIK, 2002).

Bellemin-Nöel31 admite desde o princípio que “a literatura é algo diferente do corpo mais ou menos embalsamado de ideias já feitas”, ou seja, o discurso literário não deixa de ser uma representação distorcida da realidade, segundo sua própria época, costumes e valores artísticos. Quando escrevem, os autores falam do que sabem e, principalmente, do que não sabem, assim, a obra tem sempre mais a dizer do que o poeta.

Para o autor, o que mais aproxima a literatura e a psicanálise é a leitura que ambas fazem do quotidiano do homem e de sua vida, excluindo-se qualquer metalinguagem. Quando uma obra aborda determinada temática, não há diferença entra o tema e o discurso que se faz a partir dele. Falar de algo implica em não conseguir se separar totalmente do que é dito, por mais que se pretenda alcançar alguma verdade com isso. Em termos psicanalíticos, dir-se-ia não ser possível separar o sujeito desejante do próprio desejo.

Conforme visto anteriormente, Freud sempre foi amante das artes e da literatura, prestando um cuidado especial às palavras e à linguagem, cuidado este que foi resgatado e muito mais aprimorado por Lacan. Essa característica fala não apenas sobre o espírito de suas épocas, onde, para o primeiro, o cientificismo ganhava força e, para o segundo, a linguística se

31 BELLEMIN-NOËL, J. Psicanálise e Literatura. Trad. Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini; São Paulo: Ed. Cultrix, 1983, p. 12.

fazia notória e bem desenvolvida, mas sobre o olhar psicanalítico. Ler com os óculos de Freud é:

[...] ler numa obra literária – como atividade de um ser humano e como resultado desta atividade – aquilo o que ela diz sem o revelar, porque o ignora; ler o que ela cala através do que mostra e porque o mostra por este discurso mais do que por um outro. Nada é gratuito, tudo é significante; e o que acena para Freud são os rebentos do inconsciente. O texto é, sem o saber nem querer, um criptograma que pode e deve ser decifrado (BELLEMIN-NÖEL, 1983, p.19).

Na análise da Gradiva de Jensen, ficou clara a correlação entre fantasia, narrativa ficcional e sonho. Bellemin-Nöel, em sua textanálise, também admite que um sonho se apresenta da mesma forma que um texto, com frases encadeadas que descrevem uma sucessão de condutas de sensações, onde as ideias concretas são as representações. Mas vai além, ao salientar que o mais importante é o trabalho do sonho, o ponto entre o desejo que este oculta e a sua narrativa. O desejo nunca vem à tona, forçando a narrativa a inventá-lo. Para o autor, tal trabalho é o mesmo utilizado na construção de um texto. Uma espécie original de trabalho.

Para Eizirik (2002), o ponto em comum entre o texto literário e o texto do sonho é o fato de ambos se apresentarem por meio de uma elaboração secundária; do processo que substitui os conteúdos inconscientes por outras coisas aceitas pela consciência. Essa analogia se aproxima com a de Freud, ao comparar o texto literário com a fantasia, considerando que, na fantasia, os processos primários (característicos do inconsciente) se misturam com os processos secundários (do consciente), onde o último finda moldando o primeiro.

Percebe-se que em sua correlação entre sonho e fantasia (ou sublimação, a atividade mais exercida pelos poetas), Freud não realiza a mesma analogia que Bellemin-Nöel. Assim como Eizirik (2002), ele falava uma outra linguagem, mais voltada à concepção de obra de arte que não permitia tal reescritura do onírico em termos de texto, da forma que foi proposta pelo outro, mas sim de voz. Mas essa nova leitura permitiu ao autor responder a duas perguntas essenciais. O que um escritor lê ao escrever? E o que um crítico/leitor lê quando está lendo? “A resposta é a mesma: lemos primeiro a nós mesmos, seja qual for a obra literária, quer a produzamos, quer a consumamos” (BELLEMIN-NÖEL, 1983, p. 34).

Assim, acredita-se que ambas as analogias não se excluem, mas se complementam, um texto literário pode ser interpretado conforme um sonho, e escutado conforme uma narrativa

clínica, uma vez que o crítico se utilize dos recursos apropriados. É importante não se deixar cair no erro da antiga hermenêutica, que transcreve e traduz, decodificando ou substituindo equivalências simbólicas – a interpretação psicanalítica supõe um fechamento do texto lido.

Na textanálise de Bellemin-Nöel, não se transborda para fora, mas para dentro do texto lido, o que acontece devido efeito das rupturas do inconsciente; ouvir com a intenção de intervir é o verdadeiro interpretar – captando os encadeamentos de significados e os ecos de significantes. O primordial são as associações a partir de um elemento que chama a atenção do crítico devido ao seu caráter insólito ou extrema banalidade. É verdade que o crítico associa esses elementos com aquilo o que o constitui como sujeito – seu próprio psiquismo -, mas não de maneira gratuita, através da técnica, ele associa tudo com suas próprias fantasias, sem cair no fantasioso.

Para os que criticam a psicanálise enquanto um repertório de símbolos, Bellemin-Nöel responde que “toda psicanalise do texto só é redutora quando se tem um conhecimento reduzido da psicanalise” (1983, p. 97), de forma que a diferença entre as críticas não está entre os maus e os bons intérpretes, mas entre aqueles que utilizam o texto no interesse da teoria e aqueles que utilizam a teoria no interesse do texto. Assim, com a crítica, escreve-se à margem do texto, e tal atividade não deixa de ser reveladora, como a busca de uma construção pessoal, uma leitura guiada por uma teoria que a orienta, que se torna um algo-além: um encontro às escuras a fim de iluminar-se.

CAPÍTULO II