CAPÍTULO I - Literatura em Psicanálise
1.1 O que Freud tem a dizer?
1.1.7 Dostoiévski e o parricídio (1928)
O autor de Os irmãos Karamazov é um dos escritores mais estimados por Freud, que o aproxima de Shakespeare em talento e coloca sua obra como o maior romance já escrito. Na correlação entre Dostoiévski e o parricídio, Freud analisa de que forma os sintomas epiléticos manifestados durante a vida do escritor se justificam pelo desejo da morte de um agente paterno problemático.
Adentrando na vida de Doistoiévski, chega-se a uma discussão que aproxima o autor de seus personagens, através da análise da ética ante o crime. Para Freud, um indivíduo ético é aquele que consegue reagir a uma tentação interna sem ceder a ela. Se uma pessoa peca com frequência, estabelece em seu arrependimento exigências éticas elevadas que possam garantir o seu conforto. No caso de Dostoiévski não houve a renúncia, o cumprimento da ética, “pois a condução ética da vida é um interesse prático da humanidade” (FREUD [1928], 2015, p. 283).
Há certa resistência em considerar o escritor como um criminoso, resistência que não deveria desqualificar suas ações enquanto tal. Para Freud (2015), isso acontece devido aos temas retratados por Dostoievski em suas obras; seus personagens são assassinos, de
personalidade violenta e egoísta, o que sugere ao leitor a existência de tendências semelhantes em quem os escreveu e, além disso, o reflexo de algumas dessas atitudes em sua própria vida.
O autor acredita que Dostoiévski dirigiu seu impulso destrutivo contra si mesmo, impedindo que a tendência o tornasse um criminoso, de fato, e, assim, manifestou-se como masoquismo e sentimento de culpa. É possível, com isso, justificar a neurose do escritor ao pontuar que sua epilepsia era um sintoma manifesto dela, sendo considerada então como uma epilepsia histérica grave (FREUD, 2015).
Inúmeros biógrafos levantaram a correlação entre Os irmãos Karamazov e a maneira como o pai do autor morreu, sugerindo semelhanças na análise do evento com o que diz quecertos estudos psicanalíticos. O olhar destinado por Freud tentou caracterizar esse acontecimento e a reação de Dostoiévski enquanto uma característica essencial para a formação de sua neurose.
Ainda menino o autor sofreu de uma melancolia súbita, chegando a comentar com um amigo que iria morrer em breve, seguindo-se a esse momento um estado semelhante à morte real. De maneira didática, Freud explica como esses ataques de morte podem ser claramente vinculados ao desejo de que o pai indesejado de Dostoievski morresse:
Os ataques de morte significam a identificação com um morto, uma pessoa que realmente está morta ou que ainda vive e de quem desejamos a morte. O ataque tem então o valor de uma punição, no último caso. Deseja-se a morte de outro, mas somos nós mesmos esse outro e estamos mortos. [...] Segundo uma conhecida concepção, o parricídio é o crime principal e originário da humanidade, assim como o do indivíduo (FREUD, 2015, p. 291).
Dessa forma, fala-se de uma relação ambivalente entre pai e filho. O menino sente ódio, pois gostaria de ver o pai afastado, já que ele é o seu rival, mas também sente afeição, o que garante a identificação com esse agente. Gostaria de ser como ele, mas quer eliminá-lo, assim, gostaria de ser o próprio pai, tomando o seu lugar. Com medo de que a punição por tal desejo seja a castração, o desejo incestuoso de eliminar o pai e possuir a mãe é abandonado (FREUD, 2015). E assim se efetiva o Complexo de Édipo25.
25 Termo utilizado por Freud para descrever uma das principais etapas do desenvolvimento sexual infantil, durante a fase fálica. Freud se utilizou da tragédia de Sófocles (496–406 a.C.), Édipo Rei, para descrever a “disputa” pelo afeto do progenitor do sexo oposto travada pela criança, desencadeando a ambivalência e a internalização da norma social, através da interdição ao incesto.
Se o pai for violento e cruel, o Supereu assume essa disposição em sua relação com o eu, resultando em sua passividade. Uma vez que o Supereu assume uma postura sádica, o eu se mostra masoquista (passivo); surgindo disso a necessidade de ser punido. Assim, punição é castração, resultado da antiga configuração passiva em relação à figura do pai. Nesse sentido os processos normais e anormais de formação da consciência moral deveriam ser bastante semelhantes. Manifesta-se no escritor a vontade de matar o pai para assumir seu papel e assim ser o pai, mas o pai morto de seus sintomas histéricos (FREUD, 2015).
Com o passar dos anos o caráter do pai piorou e Dostoiévski continuou nutrindo ódio por ele e desejando a sua morte. Quando estava na Sibéria, há relatos de que o autor não teve crises. Justifica-se a análise de Freud (2015); ele não teve ataques pois já estava sendo punido, assim não precisava se punir. No entanto, Freud diz que o escritor jamais se livrou do peso na consciência por tal desejo contra a vida do pai.
Essa temática é muito recorrente na literatura universal, somada ainda à rivalidade sexual em torno da figura feminina, para citar alguns exemplos além d’Os Irmãos Karamazov, temos Hamlet, de Shakespeare, e Édipo Rei, de Sófocles. Freud (2015) afirma que é comum que escritores a quem ele comunica uma interpretação assegurarem que ela não condiz com o seu próprio ponto de vista, mesmo que na narrativa apareçam vários detalhes que coincidam com seus conteúdos ocultos. Para ele,
É também interessante perceber como a fachada da novela construída pelo escritor procura ocultar seu sentido analítico. [...] Não encontramos, de fato, em nenhum caso de neurose aguda, no qual a satisfação autoerótica da infância e da época da puberdade não representava seu papel e as relações entre a preocupação em recalcá-las e o medo diante do pai são bastante conhecidas, para necessitar mais do que uma menção (FREUD, 2015, p. 304).
Percebe-se que a última análise literária de Freud apresenta elementos biográficos que apontam de que forma o conteúdo da obra tem relação com as vivências de seu autor, sem com isso condená-lo por aquilo que cria. Freud acreditava que a escrita era uma forma de sublimação, assim, vários impulsos sexuais e destrutivos poderiam ser transformados em uma obra-prima como resultado de mecanismos do psiquismo do autor. Uma das coisas que a psicanálise pode acrescentar, diante disso, é uma luz acerca de tais processos.