• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I - Literatura em Psicanálise

1.1 O que Freud tem a dizer?

1.1.3 O Motivo da Escolha dos Cofrinhos (1913)

Em 1913, Freud apresentou uma segunda análise de natureza literária, utilizando-se de duas cenas de Shakespeare, uma feliz e outra triste, para explicar de que forma alguns autores retomam conteúdos mitológicos para suas criações. A primeira cena está presente em O Mercador de Veneza, quando Portia oferece três cofres, um de ouro, um de prata, e um de bronze para seus pretendentes. Somente aquele que acertasse em qual cofre estava o seu retrato poderia desposá-la. Bassânio, seu preferido, escolhe o terceiro cofre, o de bronze, e assim conquista a sua amada.

Não foi Shakespeare, no entanto, quem inventou o oráculo da escolha dos três cofres, tendo-lhe tomado emprestado de uma narrativa da Gesta Romanorum21.Também na narrativa, há três possíveis opções, as quais representam o jovem sol, com o ouro, a jovem lua, com a prata, e a jovem estrela, com o bronze. Freud reconhece que na raiz de seu problema se encontrava, na realidade, um mito astral.

A partir disso, explica que a psicanálise não acredita naquelas pesquisas sobre mitos de cunho mais religioso, que creditam suas origens ao divino, mas o julga de uma forma que, seguindo Otto Rank, admite-se que eles são projetados no mundo superior, mas que surgem, em algum lugar, sob condições puramente humanas.

A segunda cena a qual Freud faz alusão está presente em Rei Lear, quando o rei, que se encontra moribundo, diz que dividirá o seu reino entre as três filhas. As duas primeiras fazem de tudo para provar o seu amor, enquanto a terceira, que o ama, não faz nada e considera absurda a proposta, ficando, para indignação geral, sem parcela na divisão devido ao seu silêncio.

Freud também se utiliza de contos de fadas como o da Cinderela, onde o príncipe escolhe entre três irmãs para explicar a correlação com os três cofrinhos. Dessa associação, apreende o significado de que se trata de três mulheres, dentre as quais a terceira é a mais perfeita, sendo que todas devem ser compreendidas como similares, já que são apresentadas como irmãs. Percebe-se que a terceira, que é perfeita na maioria dos inúmeros casos, possui, além de sua beleza, uma certa especificidade. Qualidades que parecem ansiar por uma certa unidade (FREUD [1913], 2015).

Para Freud, ouro e prata “falam”, enquanto que o cobre permanece calado, realmente como Cordélia, terceira filha do rei Lear, que “ama e silencia”. Assim, ele considera as

propriedades das “terceiras” como oriundas do silêncio, e como a psicanálise diz que silenciar é, no sonho, uma representação usual da morte. Como exemplo, recorre ao sonho de um paciente que via um amigo ausente, de quem há muito não tinha nenhuma notícia, que claramente o repreendeu por seu silêncio. O fato era que, mais ou menos na época desse sonho, o amigo tinha se suicidado. Desse modo, o silenciar no sonho torna-se representação da morte (FREUD, 2015).

Também o se esconder e o não se fazer encontrável simboliza no sonho a morte, tal como o príncipe do conto de fadas vivencia por três vezes em Cinderela. Com Freud, vemos a transposição desta interpretação da esfera do sonho para o modo de expressão do mito, o qual permite interpretar o silenciar como sinal do estar morto também em outras produções, que não sejam apenas sonhos.

Poderíamos certamente fornecer ainda outras justificativas, a partir dos contos de fada, nos quais o silêncio é entendido como representação da morte. Se devêssemos seguir esses sinais, a terceira de nossas irmãs, entre as quais a escolha acontece, seria uma morta. [...] Mas se a terceira das irmãs é a deusa da morte, então nós conhecemos as irmãs. Elas são as filhas do destino, as Moiras ou Parcas (ou Nornas), e a terceira, que se chama Átropos: a inexorável (FREUD, 2015, p.174).

A antiga mitologia grega conhece apenas uma Moira como personificação do destino, Freud reconta que apenas posteriormente ela foi dividida em três. Acredita-se que em apoio a outras figuras divinas, das quais as Moiras estão próximas, as três Graças e as Horas também são vistas dessa forma. As Horas são divindades das águas, se atribui a essas deusas o caráter de aranhas, o qual é então fixado nas Moiras. Freud acredita na estreita correlação mitológica entre todas essas figuras.

Elas se tornam as representantes divinas das estações do ano e talvez por meio dessa conexão tenham se tornado três, pois estes povos antigos só diferenciavam, inicialmente, três estações: inverno, primavera e verão. As horas mantiveram a relação com o tempo desde o primórdio e em determinado momento da civilização, seu nome foi rebaixado para caracterizar as horas (heure, ora). Esse conhecimento da natureza retorna da opinião acerca da vida humana. Quando o mito da natureza se transforma em mito humano, as deusas do tempo se tornam deusas do destino (FREUD, 2015).

É importante ressaltar o nome das três aranhas, que encontrou também entre os mitólogos uma compreensão significativa. A segunda, chamada Láquesis, parece caracterizar “em meio à regularidade do destino ocasional”, ou seja, uma vivência, enquanto Átropos, o inevitável, a morte, e a Cloto restou o significado da predisposição ao funesto. Assim, Freud (2015, p. 177) compreende que “a criação das Moiras é o resultado de uma intuição, segundo a qual o homem imagina que ele também seria uma parte da natureza e, desse modo, submete-se à inalterável lei da morte”.

Nós sabemos que o homem utiliza sua capacidade de fantasiar para satisfazer seus desejos não satisfeitos na realidade e assim se apoia nela contra a perspectiva incorporada no mito das Moiras, criando o mito decorrente daí, segundo o qual a deusa da morte é substituída pela deusa do amor e por tudo o que lhe é humanamente semelhante. [...] A própria deusa do amor, que agora ocupa o lugar da deusa da morte, fora uma vez idêntica a ela [...]. Encontrou-se aqui, novamente, um desejo invertido. Escolher está no lugar da necessidade, do destino (FREUD, 2015, p. 178).

Mas, então, dessa análise percebe-se também que a livre escolha entre as três irmãs não é exatamente livre, já que a terceira deve ser necessariamente a escolhida, caso contrário, como visto em Rei Lear, todas as desgraças vão acontecer. Para Freud (2015), a utilização do mito pelo poeta é muito interessante na medida em que dessa redução da deformação, no retorno, por vezes, ao originário, o poeta (ou escritor criativo) atinge o mesmo efeito que o mito suscita naquele que o vivencia.

O rei Lear traz o cadáver de Cordélia para o palco, sendo Cordélia a própria deusa da morte, que retirou o herói morto do campo de batalha, assim como as Valquírias na mitologia alemã. O poeta, para o autor, nos aproxima do antigo motivo, pois permite que a escolha entre as três irmãs por um velho moribundo se realize. Mas o ancião ambiciona, em vão, o amor da mulher, tal como ele o recebeu, de início, pela mãe; e apenas a terceira das mulheres do destino, a deusa muda da morte, o tomará em seus braços. Aqui, vemos como Freud traz para o campo da psicanálise a escolha da morte e da terceira mulher como a realização total de um desejo materno.