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A psicanálise, entre a psicologia e a psiquiatria: anos 1950, 1960

Capítulo 10: A formação das Sociedades Psicanalíticas Brasileiras

10.3 O contexto social

10.3.1 A psicanálise, entre a psicologia e a psiquiatria: anos 1950, 1960

 

10.3.1 A psicanálise, entre a psicologia e a psiquiatria: anos 1950, 1960  

Entre 1950 e 1960, quando foram fundadas as primeiras sociedades Psicanalíticas Brasileiras, a psicanálise disputou terreno com a medicina, campo de trabalho instituído e marcado por forte corporativismo, e a psicologia, campo que estava surgindo e em processo de regulamentação. A tensão entre estas fronteiras marca uma disputa de poder em torno da prática clínica no campo da saúde mental no Brasil.

10.3.1.1 A psicanálise e a medicina: anos 1950

A psicanálise chegou ao Brasil, e iniciou seu processo de institucionalização, realizado principalmente por psiquiatras insatisfeitos com os recursos da psiquiatria da época. Até 1976, nas filiadas brasileiras ligadas à IPA, a psicanálise permaneceu como prática exclusivamente médica, exceto na SBPSP, fundada com a participação de diversos psicanalistas não médicos. No meio médico, a psicanálise sofreu muita resistência de psiquiatras e médicos de maneira geral.

O Congresso Latino-Americano de Saúde Mental organizado por Pacheco e Silva e Durval Marcondes, em 1954, em São Paulo, é um exemplo do clima de disputa por território que marcou este período. A luta se dava em torno do monopólio de formação e o controle do mercado de trabalho para a prática clínica. Havia a presença de todas as correntes psiquiátricas, bem como a psicanálise e a psicologia.

Havia representantes de diversos países das Américas44, bem como de Portugal e Espanha. Um grupo de psiquiatras rebelou-se contra a prática clínica não médica, principalmente contra psicanalistas não médicos e psicólogos. Este grupo era contra o reconhecimento da IPA como órgão responsável pela regulamentação da psicanálise.

Para eles, somente as universidades médicas teriam legitimidade para formar clínicos no campo da saúde mental. Dentre diversas proposições polêmicas de uma comunicação apresentada por Flamínio Fávaro e Tarcizo Cintra, destacam-se duas:

(...) 5) A obrigatoriedade da chamada ‘análise didática’, sobre ser absurda, é ridícula e atentatória contra a idoneidade científica e moral de todos os médicos, particularmente os psiquiatras que, por sua comprovada competência, idoneidade moral e distinta conduta explícita, sejam como tais considerados e respeitados.

(6.)Se necessário, uma Comissão de professores do próprio curso de pós-graduação fará a seleção prévia dos candidatos à especialização psiquiátrica, inclusive, pois, a psicanalítica, ou não conferirá o título a quem ela não julgar merecedor, por motivo sejam de ordem científica, sejam de natureza moral (OLIVEIRA, 2006, p.180).

A psicanálise era vista por estes psiquiatras como um instrumento de ajustamento. Submeter-se a esta prática seria desrespeitar os médicos e seus elevados padrões de idoneidade científica e moral. Manifestações nacionalistas eram típicas desta época, a intromissão da IPA seria uma afronta à soberania nacional e, evidentemente, ao corporativismo da medicina (OLIVEIRA, 2006).

O caráter corporativista aparece disfarçado de apelos científicos, morais e nacionalistas. O mercado de psicoterapias estava em franca expansão e controlar a formação e prática seria a garantia de dominar um mercado altamente lucrativo. A disputa se dava, por um lado, contra o monopólio da IPA sobre a psicanálise e por outro, contra a concorrência com a psicologia, que estava em processo de

                                                                                                               

44 Pichon Rivière esteve presente nesse encontro

regulamentação. As psicoterapias, e a psicanálise, para este grupo, seriam consideradas como práticas ilegais da medicina. Nos anais do congresso, os psiquiatras Maurício de Medeiros (Rio de Janeiro) e Nelson Pires (Salvador) propuseram no texto final uma moção não aprovada onde consideravam a prática de psicoterapia, inclusive a da psicanálise, uma prática médica, e o exercício destas práticas por não médicos, seria considerado infração penal (OLIVEIRA, 2006). A querela extrapolou os limites do campo médico e ganhou o campo jurídico-político sobre a regulamentação da clínica psicológica.

10.3.1.2 Primeira tentativa de regulamentar a psicanálise: anos 1950

Segundo Oliveira (2006), a não regulamentação da psicanálise como profissão gerava insegurança, inclusive nos psicanalistas estrangeiros, médicos e não médicos, acusados de charlatanismo e prática ilegal da medicina em território brasileiro. O clima de tensão política e denúncia, no cenário nacional, com o suicídio de Vargas em 1954, afetava o movimento analítico em processo de institucionalização. No Rio de Janeiro e em São Paulo, tiveram que responder na justiça por suas práticas. Kemper teve seu consultório invadido por policiais e médicos do Ministério da Saúde, sob acusação de prática ilegal da medicina.

Marcondes intercedeu no sentido contrário ao corporativismo médico, lembrando que a psicanálise organizou-se fora da medicina. Outro argumento foi o de que os médicos já não conseguiam suprir às demandas tradicionais e não dariam conta de mais esta prática (OLIVEIRA, 2006).

Foi necessário delimitar as fronteiras da psicanálise com a medicina e a psicoterapia. Para Marcondes, a psicanálise seria regulamentada pela IPA, órgão

legitimamente instituído e reconhecido por Freud. As psicoterapias seriam as outras técnicas, ramificações da psicanálise, que poderiam ser utilizadas em cursos de especialização, como o oferecido na Universidade de São Paulo, aberto a médicos, psicólogos, sociólogos (OLIVEIRA, 2006).

Em 1957, o Ministério da Saúde emitiu o Aviso número 257, com normas que regulavam o exercício da psicanálise (OLIVEIRA, 2006). Havia seis normas que, resumidamente, mantinham a exclusividade dos centros filiados à IPA e aceitavam não médicos. Caberia aos médicos indicar pacientes para os psicanalistas não médicos, sendo os médicos os responsáveis pelos casos indicados. Caberia ao analista não médico realizar apenas o trabalho de análise, sendo a situação somática de responsabilidade do médico. Caso o analista não seguisse as normas prescritas, seria responsável pela prática ilegal da medicina. Esta autorização conferia à psicanálise seu campo de estudos como o psiquismo de natureza não biológica. Configurando como um campo próprio de saber:

Em resumo, esse processo teve quatro consequências importantes para o movimento psicanalítico. Inicialmente, delimitou o campo teórico da psicanálise, como saber autônomo e inscrito no campo da psicologia e próximo da vertente comportamental. Como segunda consequência, reafirmou a legitimidade da IPA, como única instituição autorizada a definir aquilo que é da ordem da formação e da prática psicanalítica, designação esta que, se de um lado teve a vantagem de esvaziar os argumentos de caráter nacionalista, de outro, atribuiu a esta instituição o monopólio da formação e, de certa maneira, “impôs”

a todos aqueles que queriam praticá-la submeter-se a ela. Terceira consequência: ultrapassou o próprio campo da psicanálise ao circunscrever todas as outras formas de práticas psicoterapêuticas emergentes neste saber. Em fim, última consequência: por esse Aviso, o movimento paulista se diferenciou no seio da comunidade psicanalítica nacional, fortemente contrária à prática dita leiga (OLIVEIRA, 2006 p. 189).

Este Aviso não virou lei, mas tornou-se um símbolo do combate pessoal de Marcondes pela regulamentação da psicanálise A partir deste momento, a psicanálise

ganhou autonomia em relação à medicina e tentou submeter as demais psicoterapias ao seu campo de domínio.

Nos anos 1970 a discussão sobre a regulamentação da psicanálise foi retomada, quando a polêmica girou em torno da “verdadeira psicanálise” em litígio com as psicoterapias.

10.3.1.3 A psicanálise e a psicologia: anos 1950 e 1960

Psicanalistas tiveram grande importância na implementação da psicologia em São Paulo. O Curso de especialização em Psicologia Clínica foi criado na Universidade de São Paulo, USP, em 1954. Segundo Oliveira (2006), diversos psicanalistas ligados à SPBSP participaram deste curso oferecido pelo Departamento de Filosofia45. Durval Marcondes contribuiu com a fundação e institucionalização da psicologia em São Paulo. O objetivo era formar psicólogos clínicos, desafio enfrentado no embate com médicos que lutavam pelo domínio do trabalho clínico no campo da saúde mental. Psiquiatras pressionaram a direção da Faculdade contra a abertura da psicologia para o trabalho clínico. Em diversos momentos, o curso foi ameaçado de fechamento, funcionando precariamente até 1962, quando a profissão de psicólogo foi regulamentada. A formação era baseada no tripé “estudo teórico – prática supervisionada – análise pessoal”. Além das aulas teóricas, os alunos faziam atividades práticas em serviços públicos de atendimento, e eram atendidos em grupo no primeiro ano e faziam atendimento individual no segundo. Alunos aprenderam a trabalhar com grupos de orientação bioniana, introduzidos por Lygia Amaral em 1955. Em 1962, foi inaugurada a clínica psicológica da USP sob a direção de Durval                                                                                                                

45 Desde1940 o trabalho de Freud já era ensinado nesse Departamento.

Marcondes, onde eram realizados atendimentos em grupo (OLIVEIRA, 2006).

Em 1968, com o acirramento da ditadura militar e a polarização entre direita e esquerda, as instalações universitárias são tomadas, inclusive a Faculdade de Psicologia da USP e a clínica psicológica:

Em meio a um clima tenso e polarizado, a clivagem direita/esquerda foi inevitável, assim como a disputa entre as duas escolas, psicanalítica e experimental. De um lado, o movimento conduzido por representantes da psicologia experimental, assumiu posições de esquerda, de outro Marcondes e a equipe técnica da clínica se posicionaram contra a proposição de uma comissão partidária, solidarizando-se com Anita Cabral46 e reagiram contra a ocupação da clínica (OLIVEIRA, 2006, p.176).

Os psicanalistas eram considerados como reacionários, conservadores, defensores de um saber “burguês” e elitista. Esta pressão forçou a saída de diversos membros da SBPSP que trabalhavam na clínica, invadida pela polícia para a desocupação, em dezembro de 1968. Este episódio contribuiu para associar a imagem da psicanálise à direita reacionária. Após este episódio, Durval Marcondes permaneceu na estruturação da Pós Graduação às vésperas de sua aposentadoria.

(OLIVEIRA, 2006).

No Instituto Sedes Sapientiae, foi fundado em 1953, o primeiro curso de psicologia. Madre Cristina criou nesta instituição uma clínica psicológica. Esta instituição tinha reputação de esquerda e formava psicoterapeutas não médicos. Este Instituto foi outro local onde a psicanálise encontrou ambiente para se desenvolver, mesmo antes da fundação do curso de psicanálise, em 1976. (OLIVEIRA, 2006).

A psicoterapia era uma alternativa de trabalho clínico para psicólogos que não tinham formação em psicanálise de referência psicanalítica, não seguiam os preceitos rígidos de formação da IPA e eram consideradas como alternativa menos “profunda”, voltada para curar pessoas, educar crianças, e corrigir desvios do comportamento                                                                                                                

46 Diretora da Faculdade de Psicologia, cuja demissão era reivindicada pelos estudantes.

adulto. A partir dos anos 1960, houve uma grande expansão de demanda por psicoterapia, e pela disputa com a psicanálise pelo mercado de trabalho (OLIVEIRA, 2006).

10.3.2 A ditadura militar e as sociedades psicanalíticas brasileiras: anos