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Capítulo 4: Fundamentos teóricos gerais

4.1 O problema da intersubjetividade na psicanálise

 

A questão da intersubjetividade é uma discussão filosófica que trata fundamentalmente da ligação e da separação entre o eu e o outro. Atravessa diversos campos do pensamento como a psicologia, a psicanálise, a sociologia e a epistemologia. No campo da psicanálise os impactos desta discussão são muito importantes e amplos: atravessam o campo epistemológico; a clínica psicanalítica; a ética da psicanálise; as teorias psicanalíticas, tanto as voltadas para o sujeito singular, como para o estudo dos conjuntos humanos. Uma discussão sobre a intersubjetividade pode contribuir com a diminuição do antagonismo teórico entre o sujeito singular e o grupo.

Segundo Coelho e Figueiredo (2004), a discussão contemporânea sobre a intersubjetividade opõe-se à grande parte da tradição filosófica moderna, em que o

“Eu” é entendido a partir de um paradigma solipsista, como “(...) uma unidade auto construída, independente da existência de um outro” (COELHO, FIGUEIREDO, 2004, p. 10).

Na filosofia, o problema da intersubjetividade surge no mesmo período em que Freud começa a formular a psicanálise, no início do século XX. A questão de como um Eu pode conhecer um “outro Eu”, em sua radical alteridade, surgirá na filosofia fenomenológica europeia com Husserl e no pragmatismo social norte-americano de George Mead. Ele terá repercussões epistemológicas importantes no campo das ciências humanas, na medida em que passa a considerar a ligação entre o pesquisador e seu objeto de estudos um campo de problemas, desconstruindo a posição de neutralidade do sujeito, questionando sua relação de oposição ao objeto de estudos. O outro já não é mais aquele objeto mantido sob o controle do pesquisador.

(COELHO, FIGUEREDO, 2004)

Nos Estados Unidos, o trabalho pioneiro de Mead marca uma reviravolta filosófica, com consequências para a psicologia e para a sociologia. Farr (2004) entende que Mead foi repudiado pelos positivistas na psicologia, desaparecendo da história da psicologia social escrita por Allport (1954), e dos manuais escritos por Lindzey e Aronson (1968-9, 1985), importantes fontes de transmissão das formas dominantes de psicologia social. No entanto, seu trabalho influenciou alguns autores, como no campo da sociologia. Habermas (2012) encontra em Mead um importante apoio na sua concepção sobre intersubjetividade.

Na Europa, os discípulos e sucessores de Hurssel8, “Scheler, Heidegger, Merleau-Ponty e Lévinas, fizeram da filosofia fenomenológica uma referencia central para os interessados em estudar a intersubjetividade em suas diversas dimensões.”

(COELHO, FIGUEIREDO, 2004, p. 11). Embora tenham se diferenciado de Hurssel, levaram adiante algumas de suas intuições. Apesar das origens diversas, as aproximações entre as duas raízes distintas da intersubjetividade são evidentes.

Quando a questão da intersubjetividade se coloca, o Eu já não é mais uma unidade autônoma fechada em si e a sua relação com o outro passa a ser examinada mais profundamente. Esta discussão se coloca em conflito com uma tradição científica hegemônica e com as origens da psicanálise.

Na psicanálise, segundo Coelho (2002, p. 64), “a experiência da intersubjetividade, mesmo sem que a noção fosse formulada, percorreu uma longa história que tem seu início com Freud.” Para Kaës (2011a), o desenvolvimento desta problemática em outras áreas contrasta com a fraqueza com que a Psicanálise elaborou esta questão e pergunta o que levaram os psicanalistas a evitarem durante tanto tempo este problema. Parte da explicação seria o temor em derivar a psicanálise do campo do intrapsíquico para o campo do relacional.

A tradição positivista da qual Freud é herdeiro, exige do cientista uma posição de neutralidade na sua relação com o objeto de estudo, posição que esvazia uma discussão sobre a intersubjetividade no campo da construção do conhecimento científico. Levantar o problema da intersubjetividade é, também, questionar a oposição que se estabelece entre o pesquisador e seu objeto de conhecimento:

(a intersubjetividade) Opõe-se também à clássica oposição sujeito/objeto, marca epistemológica do pensamento moderno, que fez com que a noção de intersubjetividade fosse recusada e considerada sem interesse, principalmente para teorias, como as                                                                                                                

8 O trabalho de Husserl também se remete ao início do século XX.

psicológicas, que pretendiam ser ciência. (COELHO, FIGUEIREDO, 2004, p. 10)

Este é também o caso da psicanálise. Freud é um neurologista formado segundo as rígidas condições científicas estabelecidas no seu tempo e pretende desenvolver uma psicologia científica. Segundo Gay (1989), a formação cientifica de Freud foi fortemente marcada por seus professores Brüke, Helmholtz, DuBois Reymond, que tiveram influencia decisiva sobre ele, na maneira como concebeu a psicanálise:

A tentativa de fundar a psicanálise como uma ciência natural, sobre as bases sólidas da neurologia, adequa-se às aspirações dos positivistas com quem Freud estudara, e cujas esperanças e fantasias ele agora se empenha em concretizar. Ele nunca abandonou sua ambição de fundar uma psicologia científica (GAY, 1989, p. 88).

A psicanálise constituiu-se como um método de investigação fundamentado nas condições de produção do conhecimento prevalentes nas instituições que formaram Freud. No entanto, a clínica psicanalítica gera uma situação paradoxal apontada por Mezan (1996, p.99): “Freud podia ser positivista, mas o território que desbravou trouxe argumentos e ideias para inúmeras realizações que se opunham ao positivismo”.

Ao curvar-se para o seu objeto de estudos, Freud encontra na clínica psicanalítica questões que exigiram da própria psicanálise que ela fosse constantemente repensada em diversos aspectos e que podem ser analisadas sob três aspectos: na relação que se estabelece dentro setting analítico; na formulação de uma teoria sobre o funcionamento mental; nas condições de produção do conhecimento científico. Embora a questão da intersubjetividade não tenha sido um campo de problemas delimitado e nomeado por Freud tal como foi na filosofia, desde no inicio a

psicanálise teve que se haver com a questão da relação de ligação e de separação entre o Eu e o outro.

Na clínica, um exemplo ilustrativo é dado por Coelho (2002) quando cita um artigo técnico de 1912, em que Freud recomenda que o analista deve dirigir seu receptor inconsciente em direção ao transmissor inconsciente do paciente, como um telefone que recebe uma comunicação. Embora não fosse consenso entre psicanalistas, alguns entenderam esta recomendação como sendo uma indicação de que Freud entende que há na situação analítica, um tipo de comunicação direta entre inconscientes, sem a mediação de consciências, e que esta comunicação deveria ser levada em consideração no trabalho clínico.

Sobre a metapsicologia freudiana, enquanto a primeira tópica é mais centrada em aspectos intrapsíquicos, ao longo do desenvolvimento do seu trabalho, Freud foi levado a formular uma segunda tópica, com uma concepção de funcionamento do aparelho psíquico mais aberta para a presença de um outro e, portanto, mais próxima de um modelo de funcionamento intersubjetivo do psiquismo. Segundo Costa (1989), na primeira tópica, não haveria elementos consistentes que pudessem barrar a expansão do narcisismo e a delimitação da expansão do psiquismo deveria vir da relação com o outro que passa a ter um lugar no funcionamento mental a partir de instâncias psíquicas interiorizadas.

Do ponto de vista epistemológico, segundo Fernandes (2005), os impasses da clínica colocam a teoria diante de “uma nova indagação sobre o efeito das mudanças ocorridas nos dispositivos de intervenção e as implicações para a construção teórica”

(FERNANDES, 2005, p. 111-112). Para a autora, Freud retira a loucura do plano da explicação e a coloca no plano da compreensão, e, como uma das consequências, traz a necessidade de formulação de novas proposições: “a primeira exigia uma outra

relação entre verdade, sujeito e loucura, a qual trazia como decorrência a fala (linguagem) como constitutiva do sujeito e a relação escuta/fala instalando a relevância da intersubjetividade” (FERNANDES, 2005, p.112)9.

Portanto, é possível afirmar que a clínica psicanalítica coloca a psicanálise em relação direta com a questão da intersubjetividade. Psicanalistas contemporâneos de Freud como Ferenczi (GERBER, 1999), Theodor Reik (COELHO s.d.), vão tratar da questão da intersubjetividade, embora eles não operem com este nome. Cada vez mais, a neutralidade do analista será questionada em correntes que seguem diversas linhas. Do ponto de vista teórico, concepções solipsistas do funcionamento mental serão cada vez mais criticadas.

Uma discussão sobre a intersubjetividade não esgota e não se opões às questões advindas do estudo dos fenômenos intrapsíquicos. Segundo Green (2005) é só através de uma tensa dinâmica entre estes aspectos que a especificidade do trabalho analítico pode se manter.