Capítulo 8: Uma perspectiva psicanalítica sobre o movimento analítico:
8.2 As alianças inconscientes e a transmissão do conhecimento
Nas Sociedades psicanalíticas associadas à IPA, há um controle bastante rígido em relação às exigências normativas necessárias para que um candidato possa ser considerado um psicanalista. Estas condições foram construídas ao longo do processo de institucionalização da psicanálise. A preocupação de Freud com a análise selvagem sempre foi um tema debatido desde os primórdios: quais os critérios necessários para que alguém seja considerado um psicanalista? Quais as exigências para que alguém possa ser reconhecido um legítimo membro do grupo? Como conquistar um lugar de pertencimento, inscrevendo-se no movimento analítico? Na vertente do negativo: o que fica de fora, para que o contrato narcísico seja sustentado?
O novo é uma ameaça ao estabelecido: pela sua condição de desconhecido;
pelo perigo de trazer à tona, o negativo; pelo risco de não aderir ao contrato narcísico.
Em instituições, esta relação potencialmente conflitiva pode ter como desfecho três possibilidades: a adesão do novo membro ao contrato previamente estabelecido pela adaptação deste novo membro ao contrato vigente; certa margem de negociação entre o novo membro e o contrato previamente estabelecido; uma incompatibilidade entre ambos que pode gerar a expulsão do novo ou mesmo a dissolução do grupo.
(ROUCHY, DESROCHE, 2005).
A análise didática é um momento central no processo de formação e inscrição do psicanalista no contrato narcísico. Sua origem associada à adesão a uma seita religiosa já foi apontada acima. Kaës (2011a) interessou-se em estudar a história do movimento analítico, e da invenção dos seus dispositivos clínicos, a partir da indagação sobre as formações defensivas observáveis na situação analítica. O enquadre de uma análise didática, pode fundar-se na negação e no corecalque, que reforça as alianças inconscientes internas da dupla, em torno de denegar aquilo que pode ameaçar a cada um da dupla, à dupla de trabalho, e às próprias instituições
psicanalíticas.
O enquadre de uma análise didática apoia-se no enquadramento institucional de uma Sociedade de Psicanálise; em uma esfera mais ampla, estes enquadres apoiam-se no metaquadro formado pelo movimento analítico e social. Estes níveis de enquadramento estabelecem entre si uma relação de encaixe, de empacotamento, onde um nível ele contem o outro. As alianças inconscientes estão apoiadas nestes enquadres. Por se tratarem de elementos psíquicos, eles dão suporte ao processo analítico, ao mesmo tempo em que poderão ser transformadas ao longo do processo.
Sempre haverá, nestas alianças, traços transmitidos ao longo das gerações, alguns analisados e outros não. Alguns destes traços transmitidos no processo de formação, dizem respeito aos primórdios do processo de institucionalização da psicanálise. A ligação com os ancestrais forma uma cadeia de vinculações entre o passado e o presente. Elementos não processados ao longo da história do movimento analítico serão transmitidos ao longo das gerações. Aquilo que não pode ser elaborado coletivamente das transferências residuais e das experiências traumáticas é transmitido entre as gerações pelo negativo:
Aqui ainda, a fundação de uma associação psicanalítica está não apenas situada em um contexto histórico atual, mas também se acha em continuidade de transmissão com objetos inconscientes e experiências recalcadas ou denegadas, sobrevindas do grupo dos primeiros psicanalistas. (KAËS, 2011b, p.90-91)
Os efeitos destes conteúdos não analisados, transmitidos pelo negativo, poderão influenciar o processo de análise didática. Kaës (2011b) lembra que, em grupos pequenos ou isolados, do movimento analítico, são reproduzidas as relações incestuosas dos primeiros analistas. Uma análise didática é, simultaneamente, um trabalho de formação profissional e de desenvolvimento pessoal. A vida profissional de um psicanalista está estritamente relacionada à sua personalidade e vida pessoal.
Talvez tenhamos poucas profissões, nas quais a identidade pessoal e a identidade profissional estejam tão próximas como para o psicanalista. O processo de institucionalização da psicanálise teve que dar conta desta questão: a clivagem necessária entre os espaços da análise didática e das comunidades psicanalíticas. A excessiva proximidade entre estas esferas pode estar associada ao polo isomórfico em um grupo. Freud expos sua intimidade para escrever A Interpretação dos Sonhos (1900). Analisou sua filha Anna, apesar das recomendações aos médicos que exercem psicanálise. A isomorfia dos grupos psicanalíticos é uma questão ao longo de sua história: a colusão entre o psiquismo individual e grupal geram relações não mediadas pelo simbólico e, em alguns casos, incestuosas.
Os processos de filiação se dão pela inscrição em linhagens, formadas em torno de figuras conhecidas e respeitadas. Na linhagem de transmissão, o pedigree (SILVEIRA, 2007) garante o lugar de pertencimento, oferece ideais de identificação, delimita o dentro do fora, inscrevendo um psicanalista na linhagem de ancestrais.
Garante privilégios aos que fazem parte do grupo, estabelecem hierarquias na divisão de poder. O contrato narcísico, em bases isomórficas, exige do novo psicanalista a adesão ao grupo, em bases de identificação alienantes, com a incorporação da figura de seus ascendentes: não há, neste caso, a possibilidade de uma nova geração estabelecer-se senão por identificações narcísicas empobrecedoras, “Na posição ideológica, (...) não fazemos outra coisa, senão repetir sem transformação o que nos acontece; é o resultado de uma transmissão direta, bruta, da origem, e nós a transmitimos tal e qual” (KAËS, 2011b p.95).
O processo analítico mobiliza, por sua natureza, um processo de regressão do analisando, acessando dimensões profundas da psique. A questão do poder deve ser analisada com cuidado, pois encontramos, nesta situação, uma condição propícia para
a dominação do mais forte sobre o mais fraco, neste caso, marcado pela hierarquia institucional. Não se trata apenas de uma mera transmissão de conhecimento, da aquisição de valores, mas, também, de uma inscrição que se dá a partir de alianças inconscientes que determinam o lugar de cada um no grupo.
Para que seja estruturante, o analista didata deve oferecer a possibilidade de seu analisando ter acesso ao simbólico, a uma Lei estruturante à qual ele mesmo também está submetido. O acesso de cada sujeito do grupo ao universal exige um processo de singularização que vai questionar a colmatagem entre o sujeito singular e o grupo na sua dimensão alienante. Tal descolamento dará ao sujeito a possibilidade de subjetivação: “(...) Tornar-se um Eu é inventar uma temporalidade do projeto e tornar-se diferente para o grupo e para os sujeitos que são ao mesmo tempo os elos, os servidores, os beneficiários e os herdeiros.” (KAËS, 2014, p. 65). Eis as bases de um grupo sob o polo homomórfico: a possibilidade de identificações pelo processo de introjeção, que favorece o enriquecimento da formação do Eu.
Quando o polo homomórfico prevalece, o grupo pode beneficiar-se da mediação oferecida pelo objeto comum de interesse: o conhecimento sobre a mente humana. A tarefa comum pode oferecer uma defesa necessária contra os ataques violentos, muitas vezes presentes em situações de crise, e que são voltados para a esfera pessoal de cada psicanalista. É muito comum entre psicanalistas, a desqualificação à pessoa que proferiu determinado argumento, ou pelo contrário, sua idealização, sendo muitas vezes desconsiderado o argumento em si. Manter o embate em torno de ideias, e não de pessoas, torna-se um grande desafio, em grupos de psicanalistas.
A condição de surgimento de uma nova geração é o luto em relação às gerações anteriores, e ao ancestral fundador. O polo homomórfico coloca o contrato
narcísico em questão, e impõe a ele a necessidade de flexibilidade para uma constante renegociação. Cada nova geração confronta o grupo com o negativo ao questionar o contrato vigente, trazendo à tona aquilo que foi deixado de lado para que o grupo pudesse manter-se coeso. O conflito entre gerações pode derivar da impossibilidade de negociação: seja pela imposição à nova geração, do contrato vigente, sob risco de aniquilação do processo de subjetivação; seja pela impossibilidade da nova geração aderir ao contrato, ameaçando a dissolução do grupo. Cada nova geração vai testar a capacidade das alianças inconscientes darem continência aos conflitos e impõe ao contrato narcísico a necessidade de que ele seja transformado. Os avalistas do contrato terão importância decisiva como parâmetros de pacificação dos embates. Na vertente alienante, serão pacificados pelo direito do mais forte, pela adesão ao discurso mítico do ancestral fundador; na sua vertente estruturante, os fiadores meta sociais do direito da comunidade, poderão servir como parâmetros na pacificação dos conflitos.
Quanto mais frouxo for o contrato narcísico, maior será a violência e o risco de desintegração do grupo na transmissão. Neste caso, a fragilidade do contrato, pode colocar em risco a coesão grupal, ou pode lançar o grupo sob a dominação de um tirano; por outro lado, quanto mais rígido for, mais nos aproximamos da impossibilidade de que cada geração faça muito mais do que transmitir para a geração seguinte o discurso ideológico do qual é herdeiro e portador. Instala-se, neste último caso, o circuito mortífero de repetição ao longo das gerações.
Estamos assim diante de duas questões: como garantir ao contrato narcísico, que comporta uma parte de violência estruturante pelo fato do qual ele é imposto, não venha a ser um contrato de violência destrutiva, um contrato de narcisismo de morte?
Correlativamente, como pode ser assegurada a estruturação narcísica do sujeito e do contexto quando o contrato fracassa, ou quando é deficitário ou avariado? (KAËS, 2014, p. 66).
Há um delicado equilíbrio entre a dimensão estruturante de uma aliança e sua face defensiva e alienante. A transmissão da psicanálise acontece no complexo jogo entre a continuidade de um trabalho iniciado por Freud, a necessidade de protegê-lo de certo grau de violência destrutiva a que a psicanálise foi, e é submetida, e o risco de aniquilamento das novas gerações.
Nas hierarquias estabelecidas em uma instituição, os novos deverão submeter-se às relações de poder previamente estipuladas. Em situações de maior rigidez hierárquica, são formados contratos de adesão, quando as partes mais frágeis devem aceitar os termos impostos pelos detentores do poder. Para Kaës (2014, p.35), “Sem o dom da contrapartida, a aliança coloca um dos parceiros em dívida até o ponto do drama da insolvência”. Quando o avalista do contrato não é a Lei, como um terceiro mediador, mas uma lei estabelecida por uma das partes e imposta ao outro, uma das partes será eterna devedora, mesmo que tenha aderido ao contrato. Não há neste caso um mediador simbólico, mas sim os efeitos alienantes da sua ausência. Uma das maneiras de saída para este impasse é a traição. Assim foram acusados aqueles que não aceitaram os termos do contrato imposto por Freud ao seu grupo, como Jung.
A traição mantem, paradoxalmente, uma relação, na ruptura incompleta de uma aliança. Assim, um grupo deve proteger-se dos efeitos devastadores da traição: o juramento, os anéis de ouro distribuídos entre os fiéis cavalheiros, em torno de Freud, formaram um grupo nuclear encarregado de proteger a psicanálise, sob a sombra da traição de Jung, ligando cada um dos herdeiros a um laço de fidelidade com o ancestral. Jung, herdeiro do trono, que recusou o contrato imposto por Freud, aponta para a ameaça de traição dos ascendentes. Forma-se assim, no movimento analítico, um contrato de adesão, frente à ameaça de traição das futuras gerações. As rupturas violentas em torno de novas escolas, que se organizam em torno de nomes (escola
Kleiniana, Bioniana, Lacaniana, Winicotiana...), são um indicador deste modo narcísico de institucionalização do movimento analítico.
Freud criou em torno de si, um grupo bastante fiel à doutrina por ele estabelecida. Os laços de fidelidade a Freud podem se colocar em oposição à instituição de uma Lei estruturante. O avalista metafiador da psicanálise oscila entre a sacralização do discurso de Freud e o estabelecimento de um contrato regido sob as normas de um processo científico de investigação. Somente um meta-fiador intersubjetivamente construído e compartilhado poderá tornar-se um mediador simbólico, que garante a institucionalização de um espírito livre, e nesse caso, cada herdeiro, servidor e beneficiário, poderá herdar e possuir a psicanálise, a fim de tomá-la:
A reinscrição na genealogia passa pelo trabalho da identificação com o pai mortal. Isso supõe que o filho em cada um dos membros da instituição ou da associação seja capaz de pensar o pai morto segundo a Lei. Contra esse trabalho, o processo de ancestralização serve à colocação em posição defensiva, antiluto, de um fundador absoluto. Trata-se de criar para si um ancestral imortal, e de cada um ser, em si mesmo, imortal. (KAËS, 2011b, p.94).
A identificação com o pai mortal oferece aos sujeitos do grupo um ideal de ego estruturante, sob a mediação de uma Lei estruturante. Mas, torna necessário renunciar ao ideal narcísico em torno da imortalidade, ilusão muitas vezes sustentada pelo grupo. Para que este grupo sobreviva humanizado ao longo do tempo, é necessário que o ego destaque uma parte da libido voltada para si, para investir no objeto. A alteridade, mais uma vez é a condição que permite a um grupo sua continuidade em bases não alienantes, sob o custo da perda da fantasia de imortalidade de cada um dos seus integrantes, e da ilusão do grupo, sob a submissão às Leis estruturantes, sob a castração de privilégios herdados e transmitidos ao longo de gerações.