2 POR UMA ABORDAGEM PÓS-ESTRUTURALISTA,
2.2.1 A psicanálise no contexto global e brasileiro
A psicanálise freudiana se organiza atualmente, no âmbito global, em dois grandes campos institucionais: um que corresponde à International Psychoanalytical Association (IPA), fundada em 1910 (por S. Freud e Sandor Ferenczi) e responsável pela profissionalização do ofício de psicanalista e pela expansão mundial do freudismo; outro, inaugurado a partir da dissidência do psicanalista francês Jacques Lacan dos quadros da IPA (mas não do freudismo) em 1964, ano em que fundou a Escola Freudiana de Paris (EFP), e sustentado em uma crítica radical ao que esse autor apontou como desvios das pós-freudianas quanto ao legado original da psicanálise e em uma leitura subversiva da prática analítica e da obra freudiana (ROUDINESCO; PLON, 1998).
O campo lacaniano, por sua vez, parece se organizar em, de um lado, uma ortodoxia ou “legitimismo”, como o denominam Elizabeth Roudinesco e Michel Plon (1998, p. 453), representado pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP), fundada em 1993 e dirigida pelo executor testamentário de J. Lacan, Jacques-Allain Miller; e, de outro, em um número diverso de instituições lacanianas espalhadas por vários países, algumas com ambições internacionais90, outras de caráter local. O lacanismo, originário da França, se expandiu
principalmente na Espanha e nos países da América Latina, com destaque para o Brasil e a Argentina, difundindo-se pouco nos países anglófonos (ROUDINESCO; PLON, 1998; ROUDINESCO, 2000, p. 150-63).
Ainda segundo E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 86-9), o Brasil foi o primeiro país onde o freudismo se implantou na América Latina, sendo a psiquiatria o principal espaço de divulgação e implantação das ideias freudianas (em especial no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia). A psicanálise teria acompanhado os passos da psiquiatria: sendo reservada de início, no período entre guerras, à grande burguesia paulista e a médicos ligados à ortodoxia da IPA, tornou-se, na segunda metade do século, e ao desenvolver-se no Rio de Janeiro e em outras cidades, a nova psicologia das classes médias brancas de formação universitária.
Durante o período ditatorial brasileiro, a direção da IPA teria adotado uma postura de “neutralidade”, nem condenando nem intervindo em qualquer sentido, o que teria implicado, afinal, numa aceitação do regime. A Revista Brasileira de Psicanálise teria tido o cuidado de apresentar a psicanálise como ciência pura, sem relação com os campos social e político.
90 Considero importante apontar que, dentro do campo dessas outras instituições lacanianas, a Association
Lacanienne Internationale (ALI), com sede em Paris (França), parece representar uma espécie de oposição - não menos ortodoxa - ao legitimismo da AMP, expressa através de uma vocação para a mundialização.
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Se um autor queria falar de política ou de história, tinha que se contentar em evocar o passado mais longínquo: o exílio de Freud em Londres sim, mas o genocídio ou a política de ‘salvamento’ da psicanálise em Berlim, não. Impossível aludir à atualidade, salvo para travesti-la habilmente. Assim, falava-se de luto, de separação, de castração, de angústia, para significar exílio, afastamento, sofrimento etc. Através dessa censura voluntária, nunca se fazia referência, de perto ou de longe, a um militante preso ou a um psicanalista torturado ou perseguido. Assim, esses fatos só existiam no imaginário dos indivíduos e, se necessário, podia-se invocar o ‘sigilo profissional’ (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 89).
No que se refere a esse contexto, E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 89-90) dão um destaque ao caso Kemper que, a partir de 1973, produziu um abalo nas duas sociedades psicanalíticas do Rio de Janeiro. Werner Kemper, psicanalista alemão e ex-colaborador do nazismo, havia analisado a Leão Cabernite, psicanalista didata e posterior presidente da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), que, ligado de perto ao poder militar, teve como aluno em formação um médico-tenente da polícia militar, Amílcar Lobo Moreira da Silva, torturador a serviço da ditadura. O fato foi revelado através de um artigo anônimo e comunicado por Helena Besserman Viana, analista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), à psicanalista argentina Marie Langer, bastante reconhecida no seio da IPA e engajada contra as ditaduras latino-americanas, para que o publicizasse e tomasse providências. Prevenidos por Serge Lebovici, presidente da IPA, L. Cabernite e David Zimmermann – este, membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA) e presidente do Comitê Coordenador das Organizações Psicanalíticas da América Latina (COPAL), juntamente com outras membras da SPRJ, trataram de desmentir categoricamente o fato. Identificada por uma perícia grafotécnica, pois havia enviado uma cópia do artigo anônimo a M. Langer, escrevendo de próprio punho o nome e o endereço de L. Cabernite, H. B. Viana sofreu, segundo E. Roudinesco e M. Plon, uma “verdadeira degradação pública”, com recusa de reconhecimento de sua condição de membro titular, acusação de delação de inocente, de plágio de textos de colegas dentre outros. Veio, inclusive, a ser vítima de uma tentativa fracassada de atentado por parte da polícia brasileira, sendo reabilitada apenas em 1980, quando um ex-prisioneiro revelou publicamente os fatos imputados a Lobo. “Entretanto, nem Cabernite, nem Zimmermann, nem Lebovici prestaram contas de seu erro durante esse período, o que provocou uma verdadeira tempestade nas fileiras das duas sociedades do Rio” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 90).
Para E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 90), o fenômeno mais notável da expansão do freudismo no Brasil foi o florescimento, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto
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Alegre, de todas as escolas de psicoterapias, ligadas ao desenvolvimento do ensino universitário da psicologia clínica e ao da análise leiga, e que se filiaram a quase todas as correntes do freudismo. Foi nesse contexto que o lacanismo – entendido por E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 451) como pertencente à constelação freudiana (e não como uma ruptura com relação ao freudismo) – se implantou de forma maciça na universidade, principalmente nos departamentos de psicologia.
Esses números mostram bem que a implantação do freudismo no Brasil continuou sendo um fenômeno urbano, tendo a psicanálise uma expansão considerável nas grandes metrópoles e nas cidades da região oriental do país (de norte a sul), de Recife a Pelotas. Em outras palavras, a despeito de um desenvolvimento de massa ligado à expansão da psicologia clínica, a psicanálise só atingia pois, após 70 anos de existência, a burguesia branca. Além disso, à medida que ela se desenvolvia, feminilizou-se fortemente: 70% dos efetivos são femininos (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 91). Em 1975, Durval Checchinato e Luís Carlos Nogueira (de São Paulo) e Jacques Laberge e Ivan Correa (do Recife) fundaram o primeiro círculo lacaniano do Brasil, o Centro de Estudos Freudianos (CEF), independente da EFP. Conforme E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 91), esse grupo era oriundo da tradição erudita dos jesuítas, manifestando independência de espírito com relação aos dogmas, evitando submeter-se ao centralismo parisiense e mantendo-se afastado das “extravagâncias xamanísticas” de Magno Machado Dias, lacaniano célebre dos anos 1970, mais conhecido como MD Magno. Este e Betty Milan fundaram, também em 1975, o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro (CFRJ). Essa instituição foi o núcleo inicial de vários grupos cariocas formados posteriormente por cisões sucessivas.
Em fins dos anos 1980, e dentro de uma perspectiva de mundialização da psicanálise, J.-A. Miller conseguiu fundar, em São Paulo, a Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) ligada à AMP. E. Roudinesco e M. Plon (1998, p. 91) citam, ainda, a implantação da Associação Freudiana (AF) por Contardo Calligaris (psicanalista italiano com formação na França) em Porto Alegre, numa perspectiva não dogmática, e Emilio Rodrigué, psicanalista argentino casado com uma sacerdotisa do candomblé, que reuniu em torno de si, na Bahia, um grupo composto de todas as tendências do freudismo. “Assim, foi um dos raros psicanalistas, talvez o único, a estabelecer uma ponte entre todas as culturas do continente latino-americano, sem ceder nem ao universalismo abstrato, nem ao culturalismo desenfreado” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 91).
Como vimos acima, historicamente, a psicanálise oficial no Brasil tem uma herança elitista (o que, aliás, parece ser próprio da psicanálise) e psiquiátrica, tendo sido, em sua implantação, praticada pela grande burguesia e basicamente por médicos ligados à IPA. Em
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seguida, ao se desenvolver em outras cidades (principalmente no Rio de Janeiro), migrou mais para as classes médias e para o espaço universitário. No âmbito da IPA, sempre se cultivou uma espécie de neutralidade política, o que permitiu uma conivência com a própria ditadura militar.
O lacanismo se implantou nas universidades, principalmente nos cursos de psicologia. Isso remete ao caráter “herético” da posição lacaniana de ruptura com a IPA e ao rechaço da associação, já questionada pelo próprio S. Freud, entre psicanálise e medicina (tal como levada a cabo principalmente nos EUA sob os auspícios de Ernst Jones) com a reafirmação da noção de análise leiga (PORGE et al., 2015, p. 22-4).
É importante notar que o freudismo no Brasil é principalmente um fenômeno urbano (das grandes cidades), mediado pelos discursos da medicina e da psicologia clínica, restrito à burguesia e à classe média brancas e com uma maioria de analisantes e praticantes mulheres.