• Nenhum resultado encontrado

2 POR UMA ABORDAGEM PÓS-ESTRUTURALISTA,

2.2.3 Localizando socialmente os sujeitos da pesquisa

É importante começar explicitando que, pelas razões que explicarei na próxima seção, tomei a decisão de realizar a pesquisa apenas com psicanalistas. No decorrer da mesma, acabei por entrevistar duas pessoas que estavam apenas na situação de analisantes e em processo de formação analítica em suas respectivas instituições93, mas decidi não utilizar o

material dessas entrevistas em função do pequeno número delas. No total, entrevistei treze analistas e tive duas entrevistas recusadas, uma por uma analista e outra por um analisante.

Os sujeitos da pesquisa, apesar de compartilhar uma assim chamada orientação lacaniana, constituíam um grupo heterogêneo. Com base nas premissas epistemológicas da pesquisa, eles não podem, a rigor, ser caracterizados de antemão, nem de forma fixa, mas apenas em função de sua posição e atuação em diferentes contextos e por efeito do cruzamento e co-constituição de suas relações sociais. Encontram-se em processo de permanente trânsito e construção, o qual se faz a partir de suas distintas posições e situações nas diversas relações de poder de que participam, isto é, a partir dos diferentes eixos de diferenciação social que lhes constituem e em relação aos quais atuam de forma dinâmica, tanto reproduzindo normas hegemônicas quanto resistindo e subvertendo essas mesmas normas.

A seguir, o que busco fazer é apresentar uma espécie de mapeamento, esboçado em linhas muito gerais, das localizações sociais dos sujeitos por mim entrevistados: a leitora deve ter em conta que não se trata de marcar posições essencializadas e que é a interação, sempre situada, entre essas diferentes posições sociais o que permite traçar tendências desses sujeitos. Em última instância, há uma dimensão subjetiva singular irredutível e inapreensível por qualquer formulação teórica mais geral. Ainda assim, essa dimensão mais singular está imbricada em um dimensão propriamente social que, se não se reduz a categorizações estanques, não deixa de regular as produções e manifestações possíveis. Apesar de apresentar tais sujeitos em princípio através de marcadores sociais isolados, meu objetivo é o de compreender como a imbricação entre essas diferentes ordens de poder particulariza suas experiências de gênero e sexualidade e também sua atuação enquanto psicanalistas, o que farei nos próximos dois capítulos.

Com a finalidade de que as pessoas entrevistadas não possam ser identificadas, o que, ademais, acordei com cada uma delas, as informações abaixo serão apresentadas de maneira

93 Importante enfatizar que as analistas entrevistadas eram, em sua grande maioria, também analisantes, o que,

113

desvinculada de qualquer identificação pessoal ou individualizada, diferentemente do que faço em outras partes do trabalho, quando identifico as mesmas como p1 (psicanalista 1), p2 (psicanalista 2), p3 (psicanalista 3)94 etc.

#gênerosexualidadesestadocivil

Com base nas informações relatadas pelas entrevistadas e em como se definiram elas mesmas, participaram da pesquisa oito mulheres e cinco homens. Das treze entrevistadas, dez delas se autoidentificaram como heterossexuais, uma como bissexual e duas como homossexuais. Quatro se apresentaram como casadas (algumas com mais de uma experiência de casamento), três como conviventes (em união estável), três como divorciadas e três como solteiras.

Observei que as analistas que se disseram heterossexuais falaram de sua identidade sexual sem hesitar e sem comentários adicionais. Posteriormente, uma delas veio a relatar uma experiência de envolvimento amoroso com uma mulher, tendo afirmado que não chegou, no entanto, a consumar nenhum ato sexual. Isso me chamou a atenção para o risco de essencializar as identidades: apesar dos investimentos e atuações reiteradas dos sujeitos, está sempre presente alguma margem ou espaço para deslocamentos e novas vivências de gênero e sexualidade. As analistas que se apresentaram como não heterossexuais, por sua vez, mostraram certa hesitação em enunciar uma categoria identitária em termos de sexualidade e, somente o fizeram, através de comentários suplementares. Um analista afirmou que isso hoje não era mais uma questão e citou a situação de uma analisante cujo filho lhe dissera que era gay. Ela teria reagido mal a princípio, chorosa. Quando o filho começara a comunicar o fato a várias pessoas, a mãe lhe teria dito: “Meu filho, ninguém se apresenta para as pessoas dizendo eu sou isso, eu sou aquilo, eu sou homossexual, eu sou …”. O entrevistado me relatou que achou isso interessante. Acrescentou que nunca perguntaram a ele no consultório sobre sua orientação sexual, mas já haviam perguntado a um outro psicanalista que ele citou. Disse que quando o analista era gay e a analisante acabava mais ou menos por descobrir sua orientação, fazia um discurso de defesa, de apoio. De vez em quando, teria acontecido com ele. “Quando o tempo vai passando, vai aprofundando, surgem os discursos de ‘eu não tenho nada contra’”. Outro entrevistado relatou que essas classificações sociais não lhe pegavam muito e ao se autoidentificar como bissexual afirmou que isso não implicava juízos de valor ou hierarquias

94 Essa ordem é absolutamente aleatória e não corresponde nem a uma ordem alfabética dos nomes das pessoas

114

entre as identidades. Outra analista começou afirmando que tinha certa dificuldade de se definir para, depois de descrever um relacionamento com um homem, acrescentar que não se colocaria como bissexual e que a paixão pelas mulheres era mais forte.

Essa reação pode, obviamente, estar relacionada a um desejo ou disposição bissexual ou à percepção da identidade como algo não essencial, mas me pareceu, no caso, referir-se ao desconforto experimentado dentro de uma ordem hegemônica de gênero e sexualidade pelos sujeitos localizados em posições desvalorizadas e inferiorizadas. Como afirma Leo Bersani (1996), “[n]inguém quer ser chamado de homossexual (tradução livre).95”. Uma tal

designação (isso se aplica menos, mas se aplica em alguma medida, à categoria bissexual) carrega sempre o peso do estigma e separando-se dela, um sujeito está de fato recusando a violência simbólica que lhe é dirigida no interior de uma ordem social heteronormativa, ao mesmo tempo em que busca valorizar sua posição social. Da mesma forma, a naturalidade com que as analistas que se afirmaram heterossexuais enunciaram sua autodefinição fala nitidamente da sanção positiva que recebem por sua posição dominante nessa mesma ordem social.

De qualquer maneira, uma ampla maioria se autoidentificou como heterossexual, o que levanta questões sobre possíveis implicações no interior da ordem heterocentrada dominante para o acesso de pessoas não heterossexuais ao ofício de analista. Obviamente, o número poderia também apenas refletir mais ou menos a proporção entre heterossexuais e não heterossexuais no contexto social mais amplo, mas não posso descartar a possibilidade de que a heterossexualidade facilite o acesso à formação analítica. Voltarei ao tema no capítulo 4. #classe

A posição de classe das entrevistadas foi aferida com base nas profissões que declararam exercer, bem como em informações sobre a origem das famílias, profissões de mãe e pai, locais de estudo e localizações dos consultórios de psicanálise, além de outras informações (estilos de vida, padrões de consumo etc.). Quanto às suas cidades de origem, as entrevistadas relataram que provinham de: São Luís (cinco), do interior de Minas Gerais (uma), do Rio de Janeiro (duas), da capital de outro país (uma) e de cidades do interior do Maranhão (quatro).

115

Quanto às famílias de origem, foi possível perceber que a maioria das entrevistadas provinha de famílias bem posicionadas economicamente. As profissões de mãe e pai relatadas foram: comerciante, fazendeira, promotora de justiça, engenheira civil, administradora em empresa privada, fonoaudióloga, pilota, dona de casa, auditora fiscal, funcionária pública, empregada (em escola), delegada de polícia, assistente social, técnica em radiologia e empresária. Apenas em uma das famílias, parece ter havido uma ascensão social (de estratos populares para médios) em função da mudança de profissão do pai. Apenas uma das analistas, oriunda de cidade do interior do estado, procedia de família de estrato popular, tendo morado, a princípio, em bairro da periferia de São Luís (em sua cidade de origem, a mãe era costureira e o pai, vendedor em feira). A mãe foi apontada como dona de casa pela maioria das entrevistadas, o que não se referia tanto à posição econômica, quanto a uma divisão sexual do trabalho muito característica, em determinado contexto histórico, de famílias de estratos médios (com os pais atuando como provedores financeiros). Além disso, todas as analistas ou possuíam consultórios próprios ou os alugavam em bairros “nobres” da cidade.

Pude perceber, pela breve apresentação das profissões das avós, mães e das próprias entrevistadas, uma mudança geracional em termos de relações de gênero. Enquanto as avós (quase que totalmente) e as mães (em maioria) estavam devotadas apenas ao trabalho doméstico e a suas responsabilidades, com os maridos na posição de provedores, as analistas entrevistadas já não se dedicavam exclusivamente ao trabalho doméstico, chegando a ter, além da ocupação de analista, pelo menos uma outra profissão.

Além de se dedicar à psicanálise, as entrevistadas também relataram trabalhar à época como: professora do ensino superior; psicóloga (em consultório e/ou em instituições públicas); funcionária pública; empresária; e psiquiatra. Apenas uma das entrevistadas relatou dedicar-se unicamente à psicanálise. Tive notícia pelas entrevistadas que duas outras analistas (que não participaram da pesquisa) se dedicavam apenas à psicanálise: uma já estaria aposentada de sua profissão anterior; a outra já praticava a psicanálise há bastante tempo, tendo alcançado um lugar de reconhecimento dentro desse campo. Isso me pareceu indicar haver uma dificuldade de manutenção financeira apenas com base no ofício de psicanalista, o que pode se relacionar a vários fatores (não pretendo que a lista seja exaustiva): à situação financeira geral da população nesse contexto social; ao caráter elitista do tratamento, o que restringe seu acesso a um setor mais bem posicionado economicamente da população, mas, no entanto, menos numeroso, em uma sociedade com alta concentração de riqueza; ao caráter ainda pouco institucionalizado da psicanálise na cidade; à relativa experiência da psicanalista, que tende a aumentar com o tempo e a maior prática; à dinâmica própria a um tratamento

116

psicanalítico (que pode resultar em variações na frequência às sessões e mesmo na interrupção prematura dos tratamentos); à hegemonia, dentro do campo dos serviços psi, dada à psiquiatria e às terapias psicológicas, figurando a psicanálise, em muitas situações, como a última opção de tratamento.

Por todas essas informações, formei a percepção de que as entrevistadas pertenciam a estratos sociais médios e de elite da sociedade local, o que sugere uma relação muito direta entre a posição de classe e o tratamento analítico/ofício do analista. O tratamento psicanalítico assim como os outros aspectos da formação analítica (participação em uma instituição, em congressos, encontros e seminários, compras de livros, supervisão etc.) implicam, em geral, no dispêndio de quantias razoáveis de dinheiro, o que é mais compatível com os orçamentos de pessoas de setores sociais mais bem posicionados economicamente.

Um entrevistado estabeleceu uma diferenciação entre as instituições da IPA e as lacanianas que conhecia e afirmou que, enquanto nas primeiras, com uma predominância de analistas médicas e judias, haveria um contingente maior de pessoas ricas ou de classe média alta e de elite, nas últimas, percebia uma maior heterogeneidade de posições de classe (talvez pelo fato de que, no âmbito das instituições analíticas lacanianas, não existe um requisito de formação acadêmica específica como condição necessária para se fazer uma formação analítica). No entanto, pude constatar, mesmo num meio dito lacaniano, a constância de uma configuração específica de classe.

#gerações

Percebi que as analistas entrevistadas também se situavam em distintas categorias geracionais. A classificação em gerações não se reduz a faixas etárias. Alda Britto da Motta e Wivian Weller (2010, p. 175-6) denunciam um certo esvaziamento teórico do termo geração quando ele é utilizado para designar uma faixa etária ou um grupo com características específicas. As autoras preferem falar no conceito de gerações e apontam Karl Mannheim como referência teórica fundamental. Destacam que esse autor não desvincula gerações e grupos de idade: “a conexão geracional [...] não é outra coisa senão uma modalidade específica da mesma posição dada pela proximidade do ano de nascimento no âmbito histórico-social” (MANNHEIM apud MOTTA; WELLER, 2010, p. 176).

Assim, tendo em vista o fator de proximidade do ano de nascimento, me parece relevante apresentar o espectro das idades informadas pelas entrevistadas: 31, 36, 44, 47, 55, 56, 57, 58 (duas), 61, 62 e 68 anos de idade. Duas entrevistadas (mulheres) hesitaram em

117

comunicar sua idade, sendo que uma delas, em seguida, o fez, enquanto a outra me informou apenas que era bem mais velha que eu (eu a situaria entre os 50 e os 60 anos).

No entanto, a posição geracional não se constitui pelo atravessamento de diferentes fases da vida no mesmo tempo cronológico, mas sim pela partilha dos mesmos acontecimentos e conteúdos de vida a partir de um mesmo padrão de estratificação de consciência: indivíduos pertencentes a grupos de idade próximos desenvolvem perspectivas similares sobre determinados acontecimentos históricos, através da participação em uma prática coletiva, concreta ou virtual. É essa vivência e reflexão coletivas que produzem uma conexão geracional (MOTTA; WELLER, 2010, p. 176-7).

O que conecta os indivíduos em uma geração são as tendências coletivas a partir da apropriação dos conteúdos histórico-sociais.

Perguntar-se pelos motivos das ações desses atores coletivos envolvidos em processos de constituição de gerações implica uma análise da conjuntura histórica, política e social em que se encontram inseridos. Nesse sentido, a abordagem das relações sociais a partir das posições geracionais significa uma análise inescapável de trajetórias sociais no tempo; no tempo existencial dos indivíduos e no tempo social, coletivo e histórico, portanto, tanto de tendências à mudança como a permanências (MOTTA; WELLER, 2010, p. 177).

As gerações são aqui analisadas com vistas à sua interação interseccional com outros marcadores sociais, exatamente para evitar a diluição dos efeitos de classe, raça, gênero na caracterização das posições sociais (SARMENTO, 2005, p. 363). Se tomamos as entrevistadas de menor e maior idade, podemos ver aí uma diferença significativa de trinta e sete anos. É preciso, então, considerar esse dois extremos do espectro das idades como configurando duas gerações distintas. Há mais dificuldades em propor as gerações intermediárias. De forma estipulativa e aberta a discussões, proponho conceber dois grupos geracionais intermediários, de modo que teríamos, ao final, quatro gerações identificadas, com um predomínio de sujeitos localizados na terceira geração (partindo da mais jovem para a mais antiga). Se levamos também em conta o tempo de formação analítica e de exercício do ofício de analistas, há também variações significativas que se conectam, ainda que não de forma muito fixa, às faixas de idade. A geração mais antiga é mais experiente, não só em tempo de análise como de exercício do ofício, assim como a mais jovem iniciou sua formação e prática clínica mais recentemente. Os relatos das entrevistas apontam que as duas gerações mais antigas são compostas de pessoas que se constituíram subjetivamente em contextos histórico-sociais mais fortemente verticalizados na relação entre distintas gerações, enquanto as duas mais jovens puderam conviver com algumas mudanças significativas nesse sentido.

118

De qualquer forma, esse marcador não pode ser analisado por si mesmo mas em seu cruzamento com os demais na busca de se compreender o perfil mais geral das analistas locais e também suas difrações.

#raça

Apenas uma das analistas entrevistadas se autodenominou negra. Considerando outros sujeitos (não entrevistados) que se dedicam ao ofício de analista na cidade, posso afirmar que ela é a única analista negra que conheço (levando em conta tanto a autodefinição quanto a heteroidentificação).

A escravidão e seu forte legado simbólico estão longe de ser um problema solucionado na sociedade brasileira atual e impregnam os mais distintos espaços da vida social (relações familiares, educacionais, de trabalho, erótico-amorosas etc.). O racismo estrutural assentado em uma ordem de poder racializada extremamente dissimétrica, além de violentar as pessoas negras, cria muitos obstáculos a seu acesso a posições sociais predominantemente brancas, como a de analista, por exemplo. Apenas a única entrevistada negra relatou uma situação de violência (racismo) conectada com sua atuação como psicanalista (perguntei sobre possíveis situações de violência, discriminação etc. às entrevistadas em geral).

eu: [...] Você é uma mulher negra. Esse ponto pesa na tua trajetória como psicanalista?

psicanalista: Olha, tem momentos em que eu acho que sim. eu: Sim? Em que sentido?

psicanalista: No sentido de que às vezes as pessoas telefonam, aparecem, eu acho que não esperavam muito…

eu: Esperavam uma analista branca? psicanalista: Justamente.

eu: Que coisa, né? E você está falando com relação a clientes, a analisantes potenciais. Mas e na tua convivência nas instituições, você sente que isso pesou de alguma maneira, você já se sentiu alvo de preconceito?

psicanalista: Já. Já. Mas, assim, eu também não… já me senti alvo de preconceito, mas não foi nada que também me retirasse, isso eu sei.

119

psicanalista: No elevador [risos]. eu: No elevador? Mas, como assim?

psicanalista: [...] Num evento, eu fui a um evento no Rio. A pessoa já tinha [me] conhecido. A gente já tinha, a gente já tinha...

eu: Sido apresentados?

psicanalista: ...sido apresentadas, jantando em Minas [Gerais] na mesma mesa de bar, tudo. Aí, num belo dia eu tô num evento lá no Rio e chegou um outro psicanalista, eu falei com ele e tudo, aí ele falou “Ah, tudo bem? Ah, aqui é [nome da entrevistada], ela participa de [instituição], você já falou com ela?”, um negócio assim, ela disse “Não. Ah, eu nem falei, pensei que fosse um funcionário aqui do hotel, uma funcionária do hotel.

eu: Que coisa, né? [tom de surpresa]

psicanalista: É, mas eu aí eu levei pra análise, tudo. Uma pessoa conhecida. Um absurdo. Reclamei muito [risos]. Aí, digo “Engraçado, logo num estado onde tem a maior população negra, um dos estados onde tem a maior população negra”, que é Rio, Bahia e Maranhão. E foi no Rio!

eu: Era uma psicanalista do Rio?

psicanalista: Do Rio. Também é o seguinte. É porque também no Rio, o negro está na favela.

eu: Isso que eu ia te perguntar: nesse encontros de que você participa… psicanalista: Muito pouco negro! [tom assertivo].

eu: Então, isso que eu ia te perguntar.

psicanalista: Pouquíssimo. Eu sei que tem uma, aí eu estou na dúvida se ela... porque como eles são muito próximos os estados, eu estou na dúvida se ela é do Rio ou se ela é de Minas. Eu sei que eu encontro com ela.

eu: Uma psicanalista que também é negra? É isso? psicanalista: É, é. [...].

A entrevistada relatou conhecer poucas analistas negras. Ressaltou que também conhecia muitas “pessoas bacanas” que a haviam escolhido. Conversamos, ainda, sobre que não havia outras analistas negras em São Luís. Afirmou que “o fato do Rio” passou muito anos entalado na garganta dela. Disse que havia voltado a trabalhar com a psicanalista mais recentemente e que ela a havia tratado bem. Acrescentou que nunca tinha sido objeto de um

120

preconceito direto no âmbito de sua instituição em São Luís, mas às vezes se perguntava se, por trás de alguns comportamentos, não haveria um preconceito pelo fato de ela ser negra.

Tal situação é bastante sugestiva da representação que amiúde fazemos da figura da psicanalista: uma pessoa branca de classe média. Não estou sugerindo que a conduta da psicanalista em questão na situação acima relatada seja generalizada e que as psicanalistas praticam em geral um racismo ostensivo. No entanto, numa sociedade fortemente marcada pela desigualdade racial, o racismo é sempre de alguma forma encorporado e acionado em diferentes contextos, ainda que de formas veladas. Pude perceber que, no caso específico da entrevistada, foi uma melhora em sua posição cultural (através da educação superior) seguida de uma ascensão de classe, pelo acesso a uma melhor situação econômica, o que lhe permitiu chegar à psicanálise, mas não sem vivenciar outros obstáculos, incluídos os do racismo velado.

Em uma sociedade marcada por fortes desigualdades raciais, a população negra tem muito mais desafios para ascender socialmente, principalmente quando se trata de desempenhar atividades majoritariamente restritas a pessoas brancas e de estratos médios e altos da sociedade.

#desempenhocultural

Em termos de desempenho cultural, que se refere aos conhecimentos adquiridos e